O capitalismo angélico, reformado para “bem” da sociedade (ao cuidado de Rui Tavares: o que diz, caro sr., é velho de mais)
1 de Fevereiro de 2010 por Carlos Vidal
NEGRI
«O reformismo capitalista, que nasce nos Estados Unidos e se concretiza como projecto do primeiro governo de Roosevelt, é provavelmente aquele que forma o conceito do século XX [e o autor procura neste texto a especificidade do século XX]. O que equivale a dizer que este conceito é vivido como o próprio, o específico do século, exprime a solução do problema que é próprio do século; consequentemente, tal conceito estende-se por qualquer lugar na esfera terrestre, no tempo e no espaço.
Encontramo-nos perante décalages enormes, temporais e de cultura política; apesar disso, nesta diversidade, move-se tal tendência. Nenhuma continuidade: neste caso, natura facit saltus. Com efeito, a experiência rooseveltiana dura nos Estados Unidos (a correr bem) três ou quatro anos; inicia-se em 1933 e conclui-se em 1937. Depois surge a guerra e, como continuação, produzem-se as convulsões da reconstrução e da nova partilha do mundo.
(…) É justamente sobre os seus limites que o capitalismo, na forma reformista que constitui a especificidade do século XX, num instante de esplendor, se vem a descobrir como impossível. E finalmente o limiar de uma definição: o século XX é o capitalismo impossível. Que foi o reformismo? Abundância em algumas décadas, distribuída aqui e acolá pela face do planeta, Europa, América do Norte e Japão, chez nous e down under. O século XX é o reformismo impossível. Quer dizer, é a impossibilidade da única forma de capitalismo possível. À revolução de Outubro, ao século XX que assim estabiliza o fruto da sua ideologia, só pode responder o reformismo. Mas o reformismo é impossível, logo à revolução de Outubro nada responde. O século XX existe por quanto existia o reformismo: ele é só um relâmpago, um breve esplendor, e ainda que muito luminoso, apenas um parêntese lumínico na noite.
Por isso, e apenas por isso, a nossa noite não é totalmente obscura. O século XX estabelece-se sobre o século XIX. O socialismo estende-se entre os dois séculos, assim como permanecem as diferentes formas de autoritarismo: bonapartismo, colonialismo, racismo, etc. O imperialismo passa por fundamentum regni. As formas tradicionais de legitimidade prolongam-se desde o século XIX até à explosão do reformismo capitalista: apenas daí a lei cede lugar ao consenso e a administração procura o modo de mostrar uma dimensão democrática, pelo menos em teoria. Em termos práticos, continua sendo construtiva, trágica, pesada, tudo o que pode ser uma tradição autoritária tornada máquina, capital assegurado pelo Estado. Portanto, um fenómeno obscuro que se prolonga ameaçador ao largo de meados do século. Depois, a explosão: a reformista. E aí se dá a sua derrota e num tempo muito breve. A luz deste século diz inteiramente respeito a essa explosão e a essa derrota, ao breve tempo que as une, à experiência de chegar ao limite do capitalismo e exasperar os seus ideais e, por conseguinte, à determinação paradoxal da sua impossibilidade.»
(TONI NEGRI, Em The Politics of Subversion, Polity, 2005)

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