Mário Soares: a direita de sempre e sólida como sempre – até quando?

Sexta-feira falando em Barcelos, o “político”, o democrata Mário Soares voltou aos seus velhos tempos e à sua linha de argumentação preferida e única há mais de 30 anos. Fincando o pé na sua obra de sempre (macrabro orgulho, macabro, macabro!), quer dizer, fincando o pé na destruição que há muito protagonizou da melhoria das condições de vida de quem integra e faz o mundo do trabalho e não do capital despudorado, Soares emerge sempre como o garante e o seguro de vida, coisa antiga, portanto, da direita e da extrema-direita portuguesa.

Resumindo, figura inimputável. E inimputável por nunca ter prestado contas a ninguém da sua amizade com Carlucci e Cia, inimputável ainda por ter sido aspirante à amizade de gente como Savimbi (e deste foi mesmo amicíssimo), Murdoch, Stanley Ho ou Berlusconi (e estes três sempre tiveram mais que fazer do que ligar a Soares como ele desejaria e para o que desejaria), inimputável pela sua acção nas décadas de 70 e 80, hoje Soares volta a esse tempo, prolonga-o prolongando as suas inúmeras ligações e alianças como toda a direita e extrema-direita, do PSD ao CDS/PP (a que juntaríamos essa relação estranha com Spínola, e já que falei em extrema-direita). Ora, onde eu quero chegar é ao ponto de que ampla experiência em movimentações nesse campo não lhe faltam para hoje continuar a elogiar a “responsabilidade” dos seus aliados de sempre: PSD e CDS/PP.

Repito, como comecei, ontem em Barcelos Soares elogiou a “postura construtiva” (à qual deseja longo futuro, pudera!) desses partidos PSD e PP na viabilização do novo Orçamento. Isto não é de agora, claro, pois é um facto que nunca Soares governou de outra maneira nem com outros parceiros. Bom, felizmente que a esquerda não é, não tem que ser nem deverá ser “construtiva”. E assim é positivo, para que Soares revele a forma como entende o “bom governo”: baixos salários, exploração do mundo do trabalho, privatizações e privatizações suculentas.

É com este mundo soarista que a esquerda nunca MAS NUNCA MESMO deve negociar. Aconteça o que acontecer.

Entretanto, já que acabo de passar esta tarde (último dia de representações) pela magnífica encenação (directa e depurada) de Joaquim Benite para a Companhia de Teatro de Almada de A Mãe de Brecht (a partir de Gorki), ocorre-me aqui um pequeno diálogo e ideia ou princípio. Pavel Vlassov, filho de Pelagea Vlassova (a “Mãe”), vê-se, com os seus camaradas de frábica, sujeito a um corte salarial. Adiante, o operário/mediador Karpov vai negociar com o patrão. Este não se propõe repor o salário (roubado, claro, pois a propriedade é um roubo, não é?). Propõe-se secar um pântano que numa entrada da fábrica representa um “perigo para a saúde”. Karpov aceita. Ao que um trabalhador lhe diz (!!): “Resumindo, o capitalismo está doente e és tu quem vai curá-lo. Achas portanto que se aceite a redução do salário?” O mediador: “A forma como as negociações decorreram não nos deixa outra alternativa”. O trabalhador, lúcido, peremptório: “Nesse caso exigimos que cessem as negociações”.

É isso: que a esquerda nunca e sobre nada negoceie com o Partido dito Socialista. E se negociar, dará razão a uma frase do coro final da mesma obra: “Se a opressão continuar, a quem se deve? A NÓS!”

Ora, é isto que se pretende? Estar sempre debaixo da mesma bota?

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5 Responses to Mário Soares: a direita de sempre e sólida como sempre – até quando?

  1. “tudo quanto é direita se dissolve no capital.”
    e que tal um post sobre a familia?
    este ano vão decorrer os festejos xanax de e sobre a mesma.

  2. e em nome do interesse nacional, com a querida direita est’outra direita para aprovar o Orçamento de Estado vence o desafio da governabilidade etc e tal.
    Rigoroso e genial o fundador e pai da Pátria, que jamais se relacionou com a direita moderna e actual como por essa europa.
    Já começaram as festas, os inquéritos sociológicos e as entrevistas populares de divertimento, fire works sempre.

  3. Carlos Vidal diz:

    Aliás, Mário Soares sempre se bateu heroicamente contra a direita: como em 1986, contra o socialista Freitas do Amaral.
    Foi, nessa altura a “bandeira vermelha da liberdade” e “o voto do povo”!
    Bem haja.

  4. e vocês a darem-lhe com o Savimbi.

  5. É pá, você não gosta mesmo das pedrarias das direitas, anda na postura construtiva com Ytong, ó quê?
    Agora então que descobriram ouro lá no sul, é que tá a dar, o bom governo do maxwell.

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