Mário Soares: a direita de sempre e sólida como sempre – até quando?
1 de Fevereiro de 2010 por Carlos Vidal
Sexta-feira falando em Barcelos, o “político”, o democrata Mário Soares voltou aos seus velhos tempos e à sua linha de argumentação preferida e única há mais de 30 anos. Fincando o pé na sua obra de sempre (macrabro orgulho, macabro, macabro!), quer dizer, fincando o pé na destruição que há muito protagonizou da melhoria das condições de vida de quem integra e faz o mundo do trabalho e não do capital despudorado, Soares emerge sempre como o garante e o seguro de vida, coisa antiga, portanto, da direita e da extrema-direita portuguesa.
Resumindo, figura inimputável. E inimputável por nunca ter prestado contas a ninguém da sua amizade com Carlucci e Cia, inimputável ainda por ter sido aspirante à amizade de gente como Savimbi (e deste foi mesmo amicíssimo), Murdoch, Stanley Ho ou Berlusconi (e estes três sempre tiveram mais que fazer do que ligar a Soares como ele desejaria e para o que desejaria), inimputável pela sua acção nas décadas de 70 e 80, hoje Soares volta a esse tempo, prolonga-o prolongando as suas inúmeras ligações e alianças como toda a direita e extrema-direita, do PSD ao CDS/PP (a que juntaríamos essa relação estranha com Spínola, e já que falei em extrema-direita). Ora, onde eu quero chegar é ao ponto de que ampla experiência em movimentações nesse campo não lhe faltam para hoje continuar a elogiar a “responsabilidade” dos seus aliados de sempre: PSD e CDS/PP.
Repito, como comecei, ontem em Barcelos Soares elogiou a “postura construtiva” (à qual deseja longo futuro, pudera!) desses partidos PSD e PP na viabilização do novo Orçamento. Isto não é de agora, claro, pois é um facto que nunca Soares governou de outra maneira nem com outros parceiros. Bom, felizmente que a esquerda não é, não tem que ser nem deverá ser “construtiva”. E assim é positivo, para que Soares revele a forma como entende o “bom governo”: baixos salários, exploração do mundo do trabalho, privatizações e privatizações suculentas.
É com este mundo soarista que a esquerda nunca MAS NUNCA MESMO deve negociar. Aconteça o que acontecer.
Entretanto, já que acabo de passar esta tarde (último dia de representações) pela magnífica encenação (directa e depurada) de Joaquim Benite para a Companhia de Teatro de Almada de A Mãe de Brecht (a partir de Gorki), ocorre-me aqui um pequeno diálogo e ideia ou princípio. Pavel Vlassov, filho de Pelagea Vlassova (a “Mãe”), vê-se, com os seus camaradas de frábica, sujeito a um corte salarial. Adiante, o operário/mediador Karpov vai negociar com o patrão. Este não se propõe repor o salário (roubado, claro, pois a propriedade é um roubo, não é?). Propõe-se secar um pântano que numa entrada da fábrica representa um “perigo para a saúde”. Karpov aceita. Ao que um trabalhador lhe diz (!!): “Resumindo, o capitalismo está doente e és tu quem vai curá-lo. Achas portanto que se aceite a redução do salário?” O mediador: “A forma como as negociações decorreram não nos deixa outra alternativa”. O trabalhador, lúcido, peremptório: “Nesse caso exigimos que cessem as negociações”.
É isso: que a esquerda nunca e sobre nada negoceie com o Partido dito Socialista. E se negociar, dará razão a uma frase do coro final da mesma obra: “Se a opressão continuar, a quem se deve? A NÓS!”
Ora, é isto que se pretende? Estar sempre debaixo da mesma bota?


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