Fórum Chuchial Mundial

O Fórum Social Mundial (FSM) completa este ano uma década de vida.

Desta feita, e como se pode ver na imagem, a Itaipu (maior hidroeléctrica do mundo) ajudou a Petrobras (maior petrolífera da América do Sul) a pagar as contas do evento. Os links associados a cada uma destas multinacionais deixam claro as implicações de tal promiscuidade.

Alguém se lembraria de colocar a indústria militar a financiar uma cimeira para promover a paz? Alguém tomaria como sério um evento para discutir o combate à proliferação nuclear com Israel e os EUA a fazer as honrarias? Alguém imagina um ateu a pagar a dízima ao Vaticano?

Assim vai a esquerda alegre do “outro mundo possível” ajudando a tornar mais triste e impossível este mundo.

O percurso do “movimento dos movimentos”, como gosta pomposamente de ser chamado, constitui um excelente exemplo para se perceber que o único efeito da institucionalização do movimento social é a sua domesticação. Com o progressivo ingresso da esquerda dos possíveis no movimento antiglobalização, as demandas necessárias e o pendor anti-sistémico que emergira a partir de Seattle foram ano após ano transformadas em bons conselhos para a perpetuação do sistema de dominação. Os profetas contra o pensamento único passaram a ser o mais dócil bastão das políticas hegemónicas.

Se nos primeiros anos alimentou os sonhos dos intérpretes da luta social, disseminando a noção de que ao capitalismo global era necessário contrapor a resistência global, com o passar do tempo a realidade demonstrou que o FSM mais não foi do que o bordel barato da nova esquerda, que pelo mundo inteiro transforma a indignação fértil em fétida obediência.

Em apenas dez anos de vida o FSM abandonou a sua génese radical para assumir definitivamente o seu papel de pároco do capitalismo vigente e polícia de proximidade dos sectores mais combativos. Acabaram-se os lemas contra o capitalismo e a exploração, enfiou-se na gaveta a critica radical e o pensamento alternativo, deixou-se cair no esquecimento que outro mundo não é possível com a ditadura de meia dúzia barões sobre os seis mil milhões que habitam o planeta.

Mais do que deixar de assustar as Helenas Matos, os Pachecos Pereiras ou os Luís Delgados da praça opinativa, mais do que deixar de ser tão sexy mesmo aos olhos de Boaventura Sousa Santos (seu pai português), o FSM deixou de assustar os responsáveis pela aplicação do neo-liberalismo, dos governos das principais potências aos conselhos de administração das mais poderosas multinacionais. Pior que isso ainda, deixou de contar para os que nas ruas realizam a luta política todos os dias.

Transformaram uma oportunidade numa perda de tempo, a desobediência civil na civil obediência e a defesa de outro mundo possível na defesa possível deste mundo.

O tempo tratará de criar novas gerações de Seattle que esperamos capazes de produzir fóruns de qualidade menos duvidosa. Feliz a hora em que a grande parte da actual geração de activistas decidiu não se ficar pela conversa fiada de todos os anos, há hora marcada e de cravo na lapela… O FSM saiu das ruas e é pena (ou talvez não)… mas as ruas continuam cheias de gente e ainda bem.

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