Excelente escola a do BE: parece que nos ensina a dizer algo dizendo nada

Há pouco, num debate na SIC Notícias, via e ouvia uma parte final de uma conversa (mais “conversa” que “debate”), entre deputados portugueses ao Parlameto Europeu – pelo pouco que ouvi, pareceu-me estarem a debater a recente “crise internacional” (uma coisa passageira e sem importância na história do capitalismo, diga-se de passagem). Ilda Figueiredo, do PCP, falava pertinentemente da década de 90 como década de retrocesso (ou década perdida, não me lembro bem): e falava do essencial – que os direitos dos trabalhadores, em todo o lado, retrocederam gritantemente, ao mesmo tempo que os lucros, os maiores lucros, se exponenciaram pornograficamente. Ora, isto eu entendo. Entendemos todos.

Mas antes saiu-se Rui Tavares com uma fenomenal síntese: a direita (supondo que Rui Tavares é homem de “esquerda”, pelo menos é do BE), errou ao colocar o mercado acima da sociedade. Agora, é altura de se colocar o Estado e o mercado a servir bem a sociedade (não estou a citar literalmente, mas havia aqui uma espécie de confronto entre o “bem” e o “mal”, e o problema é que eu não sei o que é nem uma coisa nem outra). Não, não me incomoda esta prosa vazia, o cliché aparentemente soft, redondo, a frase sem significação seja ela lida da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda. O que me incomoda mais é que eu não percebo a frase (a tese?) de Rui Tavares.

É que não percebo mesmo. Alguém me explica?

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20 respostas a Excelente escola a do BE: parece que nos ensina a dizer algo dizendo nada

  1. Pedro Penilo diz:

    Pois. Ao que parece, a direita não errou em absolutamente nada… Fez aquilo que a faz: não chamar-se “direita”, mas sim ser capitalismo.

    Pode pedir-se ao capital que seja menos “direita”? Pode. Soares explica. Sócrates explica. A Terceira Via explica. Adornos, estilo e temas fracturantes.

    Mas pedir ao capitalismo que seja menos capitalismo… quando está a facturar como capitalismo… quando está mesmo mesmo com vontade de ser mais capitalismo…

  2. Rui F diz:

    Rui Tavares esteve bem: Em suma, capitalismo ao serviço do povo.
    Assim é de certa forma nos países Nórdicos

  3. Heresia, nossa senhora nos livre, bordoada num fundador vade retro, logo genial no conteudo e na substância.

  4. Carlos Vidal diz:

    Bom, escapou-me, escapou-me mesmo. Depois de ter destruído mundo, homens, mulheres, infinitas vidas, relações entre homens, mulheres, trabalho, justiça, produtores… esqueci-me do essencial: o capitalismo é reformável, o mercado pode ser posto ao nosso serviço! É o “paraíso nórdico” que um largo sector do BE anuncia (de Rui F. a Daniel O.). Nem mais. Já agora, uma outra explicação: e o “capitalismo popular” de Thatcher não vos serve? Porquê?

  5. com um bocadinho de boa vontade podias ver isto como um passo certo na direcção errada…

  6. Rui F diz:

    Carlos

    Que preconiza você?
    Ou nem a Reforma do Comunismo ou do Centralismo democrático você preconiza pois nunca destruiram sonhos nem coisa nenhuma?
    Como quer?

    Eu quero um sistema Publico viável e duradouro por muitas gerações ainda que sujeito a reformas quando necessário.

  7. Danilo Zolo diz:

    Faz-lhe falta ler Polanyi, para entender que os mercados não são uma instituição necessariamente maléfica. Tudo depende, em grande medida, das configurações e arranjos institucionais/políticos que moldam os mercados…

  8. Augusto diz:

    Nos debates a D. Ilda diz sempre a mesma coisa, é só uma cassete, e pior, gosta pouco do contraditório, por isso é exemplar na interrupção dos outros deputados…

    Entendo por isso , que o sr Carlos Vidal goste do estilo,aprendeu na mesma cartilha….

  9. Carlos Vidal diz:

    Caro Rui F., preconizo uma sociedade socialista igualitária, que valorize o trabalho, o produtor onde o trabalho vivo não se transforme em trabalho morto-mercadoria. Sou comunista e não social-democrata. Se o BE é social-democrata, então que passe a desenvolver a sua luta dentro do PS, ou melhor, que transforme o PS em partido social-democrata que, reconheço, não é. Mas quis ser ou dizia ser, acho eu, quando Mário Soares apregoava aos quatro-ventos ser um agrande amigo de Olaf Palme. Quanto à “reforma do capitalismo”, ao “capitalismo de rosto humano”, isso nem comento. (Por agora.)

    Augusto, a sra. Ilda foi objectiva e não retórica.
    E se interrompeu, fez bem, muito bem (não vi a “conversa” toda): realismo é realismo, realismo mágico (à Rui Tavares) é realismo mágico. Eu também interromperia.

    V., caro Danilo Zolo, não sabe se eu li ou não li Polanyi; li, por exemplo, vários textos sobre o “reformismo impossível do capitalismo” de um autor que não me é muito de “cabeceira”, mas aqui até me foi útil, o Negri. por mim, foi mais ou menos suficiente, até porque tenho mais que fazer.Gostava, sim, que o BE se clarificasse. Mas, grato pela sugestão, vou reter o seu Polanyi. Lá isso vou, e lá irei.

    Cumps a todos.

  10. Carlos Vidal diz:

    Bom, já agora D. Zolo. O essencial: o problema não é mais ou menos Polanyi. O problema é, como expliquei no post, a frase vazia, o cliché redondo e bonito, que nem considera Polanyi, nem Lénine, nem Estaline, nem Deng, nem nada. Dizer que de futuro se deve pôr o Estado e o mercado ao serviço da sociedade é o mesmo que não dizer nada. Entendido?

  11. Com Polenta ou sem ela começo a compreeder a razão dos apois ao ps, tanto de uns como de outros. Ping.

  12. miguel serras pereira diz:

    Caro Danilo Zolo,
    você tem toda a razão sobre o mercado. A identificação sem mais que o Carlos Vidal opera entre mercado e capitalismo não tem razão de ser. O mercado pode – e deve – ser democratizado e regulado; mas abolido, só numa situação de abundância absoluta (cada um tira do monte o que quer e quando quer) ou sendo substituído pela distribuição centralizada numa instância tutelar de tipo estatal que seria juiz não só das necessidades como dos gostos, preferências, etc. de cada um. Seria o racionamento e a programação burocráticas em toda a sua pujança e o poder ilimitado dos que dispusessem nele dos meios de produção e distribuição. Em contrapartida, uma sociedade que democratizasse cooperativamente a esfera económica, assegurando a sua gestão pela associação dos produtores, não teria mercado de trabalho, e excluiria da esfera do mercado uma enorme quantidade de coisas, mas poderia e deveria continuar a ter mercado de bens de consumo. Ao mesmo tempo a igualização dos “salários” (que já não o seriam no sentido actual) e rendimentos asseguraria a democratização do conjunto, de acordo com os princípios (o mesmo peso para o voto de cada cidadão) da democracia e do exercício do poder políticos pelos cidadãos – e também a superação de muitas distorções e opacidades dos mercados oligárquicamente controlados que conhecemos hoje.
    Cordialmente

    msp

  13. Carlos Vidal diz:

    Bom, gostaria, quereria o Miguel Serras Pereira que eu me debruçasse sobre as origens do mercantilismo no século XV e desde aí. Sobre a distribuição dos produtos segundo as leis da oferta e procura, a livre escolha, etc. E depois gostaria ainda MSP que eu desenvolvesse a face humana do mercado, a sua fulcral separação do capitalismo. Seria um bom exercício teórico no plano da economia, mas seria referido um mundo que não existe. Por isso, tal esforço não vai contar com a minha dedicação e empenho. Por isso, cito em cima (noutro post) Toni Negri sobre a “face humana” que tudo isto nunca teve nem terá.
    Saudações.
    CV

  14. miguelserraspereira diz:

    O Carlos Vidal não entendeu manifestamente o que eu escrevi. A questão que pus não foi a da possibilidade de reformar o capitalismo – foi a do papel necessário do mercado para além da sua versão capitalista. Porque se trata justamente de pensar, para irmos desenvolvendo a luta nesse sentido, como pode a economia funcionar para além da separação entre os produtores e os meios de produção – do mesmo modo que devemos conceber e praticar desde já – sob a forma de contra-poderes – um poder político democrático, que não reproduza a desigualdade e a dominação hierárquica que caracterizam o Estado actual.
    Mas convém rebater ou aprovar sabendo o que se faz. O que, tanto ao deixar sem resposta as questões que a Joana Lopes e eu lhe pusemos a propósito da questão religiosa na caixa de comentários de um meu recente post, como agora ao esquivar o problema que lhe ponho, o Carlos Vidal teima em não fazer, sem dar ouvidos às chamadas de atenção que amavelmente o Viana lhe endereçou hoje mesmo, noutra caixa de comentários a mais um post seu (dele, CV – sobre o Daniel Oliveira, “esse homem fatal”, e o Miguel Vale de Almeida).
    Quanto à invocação do Negri é mais um tiro para o ar. Ninguém sabe em que é que a longa citação que o CV faz dele refuta a possibilidade de um mercado democraticamente instituído e regulado. Como ninguém sabe como é que o CV consegue a proeza de proclamar a nostalgia do Estado confessional e/ou da religião de estado de manhã (na c.c. do meu post) para, da parte da tarde, se apresentar – e ainda bem, hombre! – como defensor da liberdade de expressão. Defensor não demasiado convincente para quem o leia a diferentes horas do dia, mas do mal o menos, se não se lhe pode pedir mais.

  15. Carlos Vidal diz:

    1. O que eu disse de Joana Lopes é muito claro: defender a separação estado / religião é algo comum, aceite, inevitável, vital. Como é a nossa condição de vida, tanto quanto o facto de estar vivo é “próprio da vida”, fazer disso uma espécie de bandeira é de uma banalidade confrangedora. Qualquer debate sobre qualquer assunto (a burqa, por exemplo, debate em que não entrei) tem de estar muito além do óbvio, do “biológico”.

    2. Como não reconheço nenhuma estatura pensante a Oliveira, qualquer coisa que ele defenda para mim é um balbúcio (basta ver os cuidados e sacanice, via Pedro Vieira, com que o seu blogue se refere ao caso Crespo, hoje despoletado).

    3. Por fim, sobre o mercado: é a base do capitalismo, sim, qual é a dúvida?

    4. Além disso, um defensor de Rui Tavares encarregou-se aqui mesmo de dizer isto: “Rui Tavares esteve bem, disse que era preciso colocar o capitalismo ao serviço do povo – o que está correcto”.

    5. Por fim, se MSP não se revê na minha ligação entre mercado e capitalismo, então resta-me dizer que eu estava sobretudo a falar para o comentador – Rui F – que há pouco falou da colocação do capitalismo ao “serviço do povo”.

    6. Neste contexto, a citação de Negri está lá em cima muito bem graças a deus.

  16. miguelserraspereira diz:

    1. O que CV disse sobre o comentário da Joana Lopes foi exactamente o contrário do que diz agora que quis dizer. Está lá escrito preto no branco.
    2. O problema é que para o CV contra a minha pessoa vale tudo. Tanto me acusa de caviloso defensor da ordem estabelecida como de falar de coisas que não existem quando afirmo a necessidade de transformar a economia e o poder político existentes. Assim se vê a força do CV. E a sua superioridade moral de caçador de escândalos e castigador dos costumes, que por vezes me lembra a devota divisa de um obscurantista espanhol do século XIX, cujo nome já não recordo: lejos de nosotros la funesta manía de pensar.

  17. Carlos Vidal diz:

    1. Miguel, claro que a tua observação no ponto 1. não tem pés nem cabeça. Disse a uma tal J. Lopes (para mim um “não-assunto”) que há, em toda a Europa, milhões e milhões e milhões de pessoas desejosas de reviver a fusão igreja-Estado. À banalidade só respondo com o disparate.
    2. Não percebo o teu vitimismo.
    Abraços.
    CV

  18. António Figueira diz:

    Miguel Serras Pereira,
    Ele há limites para a nossa argumentação, acho eu; prossegue lá as discussões que te apetecer, com quem também lhe apetecer discutir contigo, agora pf não te faças agora de vítima do insulto alheio. Quem tiver pachorra de ver a caixa de comentários um bocado mais para cima poderá verificar que, a propósito de um comentário de um terceiro que todos sabemos insano, deitaste também insultos para cima do teu adversário de estimação (sim, porque, para mim, antisemita é um insulto); agora, dizes tu, és vítima – e só porque, achas tu, “pensas”? Modéstia e bom senso, permito-me sugerir-te.
    AF

  19. Pingback: cinco dias » Para onde vai o Bloco de Esquerda?

  20. miguelserraspereira diz:

    Carlos Vidal e António Figueira,
    por favor, não se preocupem tanto com a minha saúde psíquica nem com a alheia em geral. Onde foi que descobriram que eu me sentia vítima?

    1. António Figueira, o que é que leste aqui, escrito por mim, que te permita escrever: “agora, dizes tu, és vítima”?

    2. Carlos, escreves que “à banalidade só respondo com o disparate”, porque achas que a destituição política da religião é, na Europa, um facto consumado, o que faria com que “defender a separação estado / religião é algo comum, aceite, inevitável, vital. Como é a nossa condição de vida, tanto quanto o facto de estar vivo é “próprio da vida”, fazer disso uma espécie de bandeira é de uma banalidade confrangedora”.
    Pois bem, penso que te enganas redondamente e que a questão religiosa continua primeira – como de certo modo o foi para Marx. O “constantianismo” que tem vindo a ressurgir na Igreja Católica e o seu reforço com Ratzinger e a vaga do islamismo como reivindicação identitária, entre outros fenómenos (evangélicos, anti-darwinianos, etc.), coincidem nos seus propósitos de confessionalização da política, de reforço sacralizador do poder e na sua rejeição da deliberação democrática e do livre pensamento. São uma tendência solidária daquela que leva à sagração dos “cavaleiros da esperança” (como lhes chama o Zé Neves no lúcido post que ontem aqui publicou polemizando com o João Rodrigues) e à nostalgia de “guias geniais” (bem patente nos teus textos) – em detrimento da acção colectiva e da política feita por todos, não-profissional nem reservada a especialistas.
    E depois, os teus temas favoritos no 5dias serão tão originais e isentos de banalidade como pensas? Será por isso que, para usar a tua expressão, respondes tantas vezes com disparates às questões que levantas?

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