Ligações frágeis

‘O homem sem ligações’ de que falava Zygmunt Bauman aplica-se bem ao filme Nas Nuvens. Vivemos uma época em que tudo se tornou efémero. Quem sempre trabalhou acorda sem emprego. Como no filme, os tipos do costume vendem-nos essa transformação como um progresso. Quando despedem os pobres coitados, explicam-lhes que ‘todos os grandes homens começaram por ser despedidos, e que este pequeno problema vai tornar-se uma grande oportunidade’. Na vida real os comentadores neoliberais de serviço garantem-nos que não ter segurança no trabalho faz bem à economia. O que interessa que destrua a vida de 600 mil portugueses? São simples danos colaterais para um propósito mais grandioso.
Hoje, ouvi um tipo numa rádio muito cheio de si, a criticar os jornalistas de serem de esquerda e de não perceberem, como ele que tinha uma pós-graduação, o que é a economia. Alguém explica à criatura que a economia é uma escolha, não está pré-determinda nem gravada na pedra. Para uns, a economia são as mais valias bolsistas, para outros, a quantidade de empregos gerados. Uma coisa, como todos sabemos, não implica a outra. Como Cavaco Silva disse uma vez , quando era primeiro-ministro, sobre a crise do Vale do Ave: ‘há empresários ricos com empresas falidas’. A economia é uma luta. Não existe uma solução mágica que contente todos, existem escolhas e políticas diferentes. Cabe-nos a nós escolher um lado.

PS- A quantidade de comentadores que diz que os jornalistas são de “esquerda”, como se isso fosse verdade ou fosse um grande condicionamento à comunicação social. Sinceramente, nunca vi nenhuma dessas vozinhas protestar que os donos dos grupos de comunicação social são maioritariamente de direita, como se a propriedade e a concentração dos meios de comunicação social em alguns grupos não condicionasse a sua pluralidade.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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13 respostas a Ligações frágeis

  1. Diogo diz:

    Um despedimento significa hoje, para uma determinada camada etária, uma autêntica sentença de morte.

    Assim sendo, chegou a altura de uma pessoa optar: ou ganhar coragem e limpar o sebo a alguns responsáveis e suicidar-se em seguida (para não passar o resto da existência numa cela), ou passar a dormir num passeio, a passar fome e frio, e a mendigar.

  2. Uma pergunta: Porque é que os empresários/patrões, até os “micro” são tendencialmente de direita, e os funcionários/empregados, de esquerda? E a ser assim, como se justifica a direita vencer eleições? Talvez, muitos ou mais que muitos funcionários gostam dos seus patrões, ou queriam ser como eles. A dinâmica social,as vontades próprias, a falta de consciência de classe, obriga a análises ultra/complexas para entender as “massas”. O “Vale do Ave” deveria ser mais esquerda à esquerda do PS, e não o é!

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    José Manuel Faria,
    Nem tanto ou mar, nem tanto à terra. O Vale do Ave tem, tradicionalmente, das poucas juntas de freguesia da região , mais à esquerda do que o PS. Mas como é sabido, o proletariado nessa região, acumula os seus empregos nas fábricas com pequenas propriedades agrícolas. O que o ajuda a tornar-se bastante diferente dos seus congéneres a sul.

  4. Niet diz:

    NR de Almeida: O texto tem mito swing, como em tudo aquilo que escreve. No entanto, parece- me muito optimista a sua visão do actual tecido industrial do Minho. As deslocalizações e os ” chineses ” não ceifaram grande parte do aparelho produtivo têxtil regional? Não se assiste à agonia da Maconde? Será que o Vinho Verde e os Kiwis- o eng° Belmiro não falou sobre isto à Visão? – serão alternativas consistentes para evitar o declínio estrutural do Noroeste lusitano? Niet

  5. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Niet,
    As declarações de Cavaco são dos anos 80, eram um, mero, exemplo como que na economia capitalista o sucesso de uns é o insucesso de outros. Creio que actualmente, a crise é maior e quase todo o tecido industrial está em vias de desaparecimento.

  6. jcd diz:

    “…na economia capitalista o sucesso de uns é o insucesso de outros…”

    O jogo de soma nula. Quem afirma isto, também pode afirmar que a ‘economia’ é uma luta. Só está a dar razão ao tal ‘radialista’.

  7. JCD,
    Desde que o professor Fofona lhe disse que era a reencarnação do Friedman você não se cala. Quando estava a escrever o post pensei quanto tempo demora o meu caro JCD a comentar o assunto e a explicar a minha imensa ignorância, mostrando-me a economia pelo caminho das pedrinhas. Falhei a previsão. Você demorou mais do que um dia.

  8. jcd diz:

    Caro Nuno

    As minhas desculpas pelo atraso. Vou tentar estar mais atento a todos seus deslizes. Não é fácil, como imagina… Talvez até consiga criar um posto de trabalho, se o estado me subsidiar um assessor.

    Mas já agora, podíamos debater essa sua grande frase “o sucesso de uns é o insucesso de outros…”. Então, quem é que anda aí à rasca para o Nuno poder almoçar?

  9. Caro JCD,
    Gosto dos seus comentários, o seu problema é que confunde as suas particulares opiniões sobre a economia com os factos. Basta olhar para as estatísticas para perceber que, pelos menos sobre almoços, não tem razão. O que há mais no mundo, é gente que almoça à conta dos outros.
    Há muito tempo que só uma pequena seita acredita que a economia não tem uma leitura política e que os conceitos da economia não estão sujeitos a lutas políticas na sua definição. Não tenho paciência para voltar aos bancos de escola e regressar às discussões entre correntes formalistas e substantivistas sobre a história da economia, mas se isso permitir criar-lhe um posto de trabalho, fico feliz.

  10. Carlos Fernandes diz:

    NRAlmeida,o problema não é a maioria dos jornalistas ser, ou ser considerado, de esquerda ou de direita. Como cidadãos podem ser até´de extrema esquerda ou ext. direita. O problema é enquanto profissionais não procurarem ser isentos e objectivos, conforme estipula o Codigo Deontológico, e procurarem usar a profissão para fazer polítíca, e assim fazer opinião sob a capa de informação…

    Se as outras profissões fossem assim tão politizadas, como de facto o é a actual classe dos jornalistas, então era um sarilho, imagine por ex. um dentista a usar a profissão para fazer política, olha este doente é do partido Y que ele abomina, tomá lá então mais umas brocadas a mais, ou toma lá uma conta mais gorda…

    Pois é!

  11. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Carlos Fernandes,
    Vamos atalhar a conversa: a maioria dos jornalistas não é de esquerda. Todos os jornalistas são obrigados ao respeito de um código deontológico. Não existe objectividade. Existe uma notícia bem feita, escrita por uma pessoa inteligente que ouve as várias partes.
    Os donos dos órgãos de comunicação social não estão sujeitos a nenhum código deontológico, escolhem os directores que querem. Por isso, é que a totalidade dos órgãos de comunicação social papagueiam as teorias neoliberais no campo da economia. Como se vê, o facto dos jornalistas, em sua casa, até serem de esquerda, coisa muito minoritária, não alterou, em nada, as características políticas da comunicação social. Eu, por exemplo, trabalho num órgão de comunicação social que só tem comentadores de direita e do PS. A minha posição política não altera em nada esta postura editorial. Mas, o meu post não era sobre a suposta radicalidade dos jornalistas. Mas sobre as diferentes formas de ver a economia.

  12. Antónimo diz:

    Conheço muitos jornalistas. A maioria é de direita ou alienada. Na minoria de esquerda o grosso é completamente inconsequente e nem sabe distinguir uma medida social de um ancinho. Curioso que persista a ideia de que é malta que alinha pelas esquerdas.

    De qualquer forma, os directores e editores que são quem manda nas linhas são quase exclusivamente de direita – andorinhas não fazem primavera – , ou não são?

  13. jcd diz:

    “O que há mais no mundo, é gente que almoça à conta dos outros.”

    Por exemplo, eu. Hoje almocei à custa de milhares de pessoas. Todos nós. Foi uma sorte termos almoçado. Nem todos podem dizer o mesmo.

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