Se Maomé não vem ao post, este vai a Maomé

Não há forma de vermos o nosso Francisco Santos de volta à postação. Assim sendo, resgato da caixa de comentários a seguinte prosa:
«O João Miranda decide reduzir tudo ao absurdo – se não for com as agência de rating, então cairemos nas mão de um qualquer burcocrata! Ou é assim ou então é o assado e o assado é o caos! Ora, as coisas não são assim tão… absurdas. Nem têm de ser. Basta saber que quer nos Estados Unidos, quer no Canadá, vem sendo discutida a possibilidade de esta tarefa ser assumida por unidades especiais no seio das independentes entidades reguladoras. Aliás, o próprio mercado (grace be upon it) já está a responder com alternativas, justamente pela avaliação negativa que faz da credibilidade de várias notações de risco das ditas agências: por ex., a Goldman Sachs já estabeleceu um sistema de categorias de risco de crédito independente das informações de rating das ditas agências.»

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13 respostas a Se Maomé não vem ao post, este vai a Maomé

  1. francisco santos diz:

    faltou acrescentar que isso tem sido discutido entre juristas; a malta das economias e os decisores políticos têm feito orelhas moucas…

  2. Carlos diz:

    ó amigo, a Goldman Sachs e qualquer banco mundial tem ratings internos. Qual é a novidade?? Existem há anos! Nao é uma inovacao. A credibilidade das agencias de rating é a mesma da dos bancos, dos ministros das financas, dos governantes, ….

  3. jcd diz:

    O valor de uma agência de rating está na sua credibilidade. Para construir alternativas é necessário criar outros organismos que consigam ganhar a confiança dos investidores. O papel das agências não se muda por decreto.

    Há muitas agências de outros ratings. A Deco, por exemplo. A Deco diz que um determinado produto é melhor ou pior. Quem quer acredita, quem não acredita, ignora. A Wine Spectator é outra agência de rating. Destrói um vinho duma penada, com um mau rating. O preço do vinho cai, mas quem gostar, pode comprar na mesma. A Bureau Veritas é mais uma. A Lloyds outra. Os críticos de cinema do expresso também.

    O valor das agências mais importantes – Moody’s, S&P, Finch ou a Japan CRA, no caso do crédito, está no seu historial. Já se criaram milhares de agências de notação que não vingaram. Essa de pensar que ‘a’ ou ‘b’ vão criar uma agência ‘oficial’ para substituir as privadas, só dá para rir. Quase todos os bancos têm os seus departamentos de risco, que tentam fazer o mesmo que as agências de rating para o nível microeconómico e mesmo para créditos país, mas a especialização paga-se – as melhores são as que andam nas bocas do mundo e são famosas porque eram melhores.

    E se estas agências errarem muitas vezes – como aconteceu na subvalorização do risco associado aos produtos baseados no crédito hipotecário de alto risco, perdem prestígio, outras aparecerão e volta tudo ao mesmo. Acontece que não perderam assim tanto prestígio. E a prova é que o mercado as ouve. Se abusarem de ‘encomendas’ morrem aos poucos.

    Notem que as agências de rating fazem baixar o custo da dívida e não subir. Se uma grande empresa quiser emitir obrigações, pode fazê-lo por si só, a preços high yield. Se desejar pagar menos, pode pedir um rating a uma agência que, caso percepcione um baixo risco, pode emitir uma notação Investment Grade. Ou seja, as empresas (e os estados) usam o rating para baixar custo da dívida.

    Não ter rating, é pagar mais. No nosso caso, vamos pagar mais porque a gestão financeira do estado tem sido deplorável. as agências limitam-se a retirar os bons ratings da república. A culpa não é das agências. É da gestão da república.

  4. reformada diz:

    é verdade, o francisco santos assinala todos os dias a sua ausência prolongada… 🙂

  5. francisco santos diz:

    Carlos,

    ó amigo! no caso da GoldmanSachs não estamos a falar dos vulgares ratings internos. Estamos a falar de uma ferramenta específica desenvolvida pela unidade de assets management

    http://www.reuters.com/article/idUSLU97112320090501?sp=true

  6. francisco santos diz:

    jcd,

    diversos fundos de pensões e outros investidores qualificados vêm instaurando nos últimos meses, nos tribunais americanos, diversas acções de responsabilidade civil contra as três grandes do rating. Sabe como é que elas têm contestado? Defendendo-se com um trabalho técnico impecável? Com cálculos adequados? Com prestigiados “searchings”?! Nem de longe! Invocam que apenas omitem opiniões…jornalísticas! Que por isso estarão ao abrigo da protecção da “first amendment”. Isto sim, dá-me vontade de rir. Entretanto, da honourable judge Shira A. Scheindlin já tiveram resposta à medida:

    http://www.absinvestoradvocate.com/2009/09/articles/securitization-1/federal-judge-rejects-first-amendment-defense-for-rating-agencies/

  7. O Francisco devia realmente reformar-se dessa ausência.

  8. jcd diz:

    Francisco: é um absurdo.

    Um rating é uma análise num dado momento da capacidade duma empresa pagar a sua dívida. Estas análises estão sujeitas a inúmeras variáveis que a agência de rating não controla – incluindo a fraude por parte dos requerentes da notação, mas também a a evolução dos mercados no dia seguinte. Querer que a emissão de um rating possa ser um dado científico é um completo absurdo.

    A Moody’s não ganhou prestígio por se enganar muito – ganhou por se enganar pouco. Mas sem erros, não há rating. E se é para pagar indemnizações em caso de erro, os preços vão disparar – têm que incluir o preço do seguro.

  9. jcd diz:

    Nem de propósito, caiu-me agora mesmo este Alert:

    http://www.law.com/jsp/article.jsp?id=1202439611558&Investors_Suit_Against_Moodys_SP_Dismissed

    Um pouco de bom senso na justiça, que tem sempre grandes dificuldades em entender questões relativas a engenharias financeiras.

  10. francisco santos diz:

    Jcd,

    a decisão do juiz Kaplan, que ainda não foi apresentada por escrito (ele proferiu-a oralmente em sumário na audiência; estou curioso para a ler com detalhe quando estiver disponível), radica essencialmente na resolução de uma questão prévia, sem chegar a decidir sobre o fundo da questão – isto é, se é ou não correcto que as agências de rating se defendam com a chamada “first amendment defense”. Segundo percebo do que já pude analisar, o juiz entendeu que o processo pura e simplesmente não tinha viabilidade para prosseguir, se a causa de pedir da acção era responsabilizar tendo por base os documentos/prospectos de uma oferta de valores mobiliários, quando veiculam informação falsa ou incorrecta, porque estes documentos, obviamente, só são da responsabilidade dos respectivos emitentes de tais valores.

  11. Carlos diz:

    Caro Francisco,

    Você claramente não sabe o que são ratings internos para apelidá-los de “meros”. Quem é que você acha na sua sabedoria, que trabalha na unidade de ratings da GS? Precisamente os mesmo que trabalhavam nas agências de rating. A questão aqui é simples. Um banco emite uma obrigação, ou seja depois de toda a due diligence e do trabalho dos advogados tudo fica compilado em 700 páginas de documentos. Você acha que os investidores lêem 700 páginas antes de investirem o que quer que seja? Claro que não, logo confiam nas agências de rating que apenas lhes dão uma probabilidade de incumprimento. Repare, que até a dívida dos EUA pode falir mas a probabilidade é baixa.

  12. francisco santos diz:

    Aliás, as decisões nem serão contraditórias, já que as respectivas acções têm fundamentos diversos: no caso “Abu Dhabi Commercial Bank v. Morgan Stanley & Co. Inc”, decidido pela juiz Scheindlin, invoca-se a figura da common law fraud; no processo do Juiz Kaplan invoca-se a violação das regras da Federal Securities Law (Código dos Valores Mobiliários).

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