A grande misturada


Helena Matos acha que «para um ocidental é tão chocante ter de falar, atender ou receber uma mulher com a cara toda tapada quanto para um muçulmano será ver uma mulher calçada e de cabeça descoberta dentro duma mesquita»; isto a propósito de se não poder «aceitar que as mulheres deponham com burka nos tribunais ou que não se identifiquem nos mesmos termos que se impõem aos outros cidadãos numa repartição pública ou na celebração de um contrato».
Para a Helena, um templo religioso equivale a uma conservatória do registo civil. E será coisa «chocante» para ela falar com uma muçulmana de cara oculta.
A primeira ideia é simplesmente tonta: afrontar costumes dentro de espaços religiosos é coisa de turista bronco, na igreja da Graça ou em Cabul. E nada tem a ver com questões de identificabilidade. A segunda é apenas uma expressão de preconceito: nem à Helena nem aos proibicionistas franceses ocorreu estender a fatwa ao histérico baile de máscaras da gripe dos porcos. A situação só chocará quem lide mal com a diferença alheia.
Mas, como a blasfema é magnânima, acaba por se afirmar «contra a criminalização dessas peças de roupa» – embora não me pareça que o plano francês incluísse a criação de Crimes Indumentários….

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2 respostas a A grande misturada

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  2. Justiniano diz:

    Rainha,
    Convém apreciar a dimensão negativa do princípio da laicidade e a liberdade de culto, consciencia e expressão.
    A República cultua valores, em nome da virtude, que se espelham com alguma religiosidade nas suas Instituições (Há ortodoxia e gnose) e dentro destas deve decair qualquer outra forma de expressão em contradição aquela. Ora, a presença de qualquer indivíduo perante a figura da virtude (representada por um juiz) que a todos representa, deve obedecer, sem dúvida, exactamente, a inquestionável clareza, imediação e verdade. Não me parece admissível que um Tribunal se dirija ao testemunho de alguém mediado por uns meros óculos de sol, quanto mais por um qualquer tapume de tecido ao rosto (a ofensa não é a indumentária) (As conservatórias, especialmente as do registo civil, são, sem dúvida, os mais autenticos templos da República).
    Note que me custa (um desgosto enorme) desmerecer qualquer ideia de liberdade de expressão e especialmente a mais sublime vontade de preencher a alma de normativa religiosa…mas…

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