Parque Escolar: sobre a criação de emprego

Comentário corajoso assinado por “arquitectos com voz” retirado das profundezas de uma caixa de comentários, por divina cunha do Miguel Dias:

Aproveito para deixar um comentário, não enquanto parte dos 80% acima referidos até porque não é a idade que nos aproxima, os interesses são distintos e são exactamente esses interesses que nos lixam.
Escrevo enquanto prestadora de serviços num atelier há 3 anos, inserida numa equipa que desenhou 5 escolas e está a meio da 6ª escola.
As condições de trabalho são regradas, vencimento baixo, exigência alta e negação de vinculo e obrigações sociais mínimas por parte do patrão.
Há 3 anos atrás achava que o problema da profissão era a dependência do privado, hoje concluo que já nem a adjudicações de obra publica nos salva.
Mas e a nossa entidade reguladora? essa investe a organizar exposições no estrangeiro promovendo ateliers como aquele onde trabalho.
EU GOSTAVA QUE ME DISSESSEM ONDE ESTÁ A SAÍDA… PARA EU FUGIR DAQUI PARA FORA.

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14 respostas a Parque Escolar: sobre a criação de emprego

  1. Carlos Costa Rodrigues diz:

    Qual é a entidade reguladora?

  2. João L diz:

    Tiago. E era aqui que a Ordem entraría. Ou regulava a práctica profissional à semelhança do que faz a Ordem dos Advogados, considerando que todos os Arquitectos são na essência “trabalhadores independentes e portanto nunca por conta d’outrem”, ou então entra um Sindicato que reclama, berra e enfurece-se com a practica habitual de exploração dos jovenzitos arquitectos escravos. Depois ir-se-ía ver quem são os senhores Arquitectos que “emprestam” os seus nomes às “comissões de honra” dos candidatos politicos das “Esquerdas”, sempre prontos a erguer o punho. Isto é, “as publicas virtudes” entraríam em conflito com “os vicios privados”.
    Desculpa o desabafo, mas há muito que penso isto e sei nada vai mudar.

  3. Carlos Costa Rodrigues diz:

    Se é assim é, caro João L., para quando a criação de um sindicato?

  4. Raul diz:

    Façam como eu: Não aceitem trabalhar sem condições. Prefiro fazer pouca Arquitectura a sustentar bandalhos. E se querem um tipo para fazer “garbage in Garbage out” nos computadores, vão bater a outra porta. O que não falta para aí são coisas para fazer. Se toda a gente fizesse como eu, acabava-se a mama. Ah, e já agora, para a próxima, não se esqueçam de votar outra vez no Rodeia… – um dos piores professores que eu tive na faculdade, que debitava enornomidades avulsas sobre o Courbusier, um homem do sistema, que passeou a vida toda de tacho em tacho, vamos lá, um Santana Lopes da arquitectura…

  5. Carlos Costa Rodrigues diz:

    Caro Raul, eu não votei nessa lista. E levei alguns amigos (e colegas) a não votar nessa lista. Para mim era (é!) a continuação do passado.

  6. Pingback: cinco dias » Parque Escolar: sobre a criação de emprego – emprego

  7. arquitectos com voz diz:

    Gostaria de começar por expressar o meu total acordo com o que é dito no “comentário corajoso”. Antes de mais, pergunto-me onde está o espírito de união fundamental para que se façam mudanças. Por mim, sou também um “arquitecto com voz”; estou inserido nesse grande grupo de arquitectos em situação precária, e também tenho voz. temos todos! Gosto do que faço, quero continuar a fazê-lo, mas com o actual cenário de conivência com situações de incumprimento social torna-se muito difícil. Viver das esmolas e caridade de quem devia cumprir com deveres elementares de uma sociedade de direito que se auto-inclui no mundo civilizado é muito pouco para quem estuda e trabalha de forma séria e honesta. não se trata de querer uma parte do bolo que me deixe os bigodes cheios de rosas ou laranjas, ou chocolates; falo de alimento essencial, de estabilidade laboral mínima, de recompensa justa. o que se passa é triste, simplesmente porque coloca em evidência o espírito tacanho de vistas curtas por parte de quem governa (políticos e dirigentes) e também por parte de quem chefia (arquitectos em nome individual com gabinetes impulsionados para o topo através de trabalho precário) e esses sim, com os bigodes inundados de alimento. talvez um dia possamos todos nós exercer a nossa profissão de forma satisfatória quer sejamos arquitectos empregadores, ou arquitectos empregados e que, aliás, aproveito para informar a O.A. que são duas condições completamente distintas e reais. Basta querer ver para se poder efectivamente ver.
    Este é um problema grave que se nos coloca. Cabe-nos a nós, que sofremos com essa mesma situação, fazer alguma coisa que constitua uma tentativa séria e responsável de lidar com o problema.

    arquitecto com voz

  8. Raul diz:

    O problema, é muito profundo: passa pelas instituições de ensino, passa por aspectos como a concorrência (ilegítima) de “profissionais não qualificados, passa por novas exigências do ponto tecnológico – realidade de quem ninguém fala, mas que é pasto para os tais técnicos não qualificados, passa por uma grande dose de incultura do país no que concerne a múltipos aspectos.. – desde as artes visuais , à cidadania, pura e simples, fora o que está no meio…

    Quanto à distinção entre empregadores e empregados, a nossa ordem é perfeitamente iníqua.

    Mais não faz do que condenar as carradas de jovens que saem das escolas todos os anos a uma travessia do deserto a soldo das oportunidades que apanham.

    E de todo, não é verdade, apesar de muitas opiniões veiculadas nesse sentido, que os jovens arquitectos desmereçam as gerações que os precederam.

    O que temos, é sim, uma casta de interesses instalados, alapados a todas as instituições, nas escolas, nas associações profissionais, nos mecanismo de estado, que minam tudo e mais alguma coisa.

    Enquanto não for possível correr com estes tipos, não há nada a fazer.

    Um projecto como o vosso, pode ser potencialmente interessante. Deixem contacto.

  9. Raul diz:

    Já agora, digo uma coisa que deve ser de antologia: Nunca fui obrigado na vida a fazer projectos tão maus como os que tive que fazer durante os estágios – os da faculdade e os da ordem.

  10. Raul diz:

    Já agora, por parte do estado, podia-se fazer uma coisa elementar: à semelhança do que acontece com os concursos de empreitadas, por exemplo, não adjudicar trabalho a quem não apresentasse comprovativos de inscrição dos assalariados na segurança social, etc… – já era uma coisa moralizadora, para começar…

  11. Pingback: cinco dias » Dar voz a outro “arquitecto com voz”

  12. Tiago Mota Saraiva diz:

    Parece-me que há um dado que seria muito interessante obter: o nº de funcionários do quadro de cada uma das empresas abençoadas pela Parque Escolar.
    De qualquer forma, não me parece que se deva concentrar a contestação na OA. A precariedade é transversal a todas as profissões e as situações que tenho vindo a descrever a partir da Parque Escolar são cada vez mais a regra.
    Atenção que, dentro de dias, a Parque Escolar vai responder.

  13. anah diz:

    Muitos arquitectos “optaram” por trabalhar em Escolas Básicos e Secundárias como forma de garantir um rendimento mensal de base mínimo. Atendendo ao descalabro neste sector, este quadro alterou-se substancialmente quer pela concorrência de licenciados de outras áreas com habilitação própria para as áreas disciplinares geralmente ministradas por arquitectos, quer pelo quadro de carreira comum a todos os professores do ensino não superior.
    Contudo, creio, deveria ser uma área de emprego a defender junto da tutela da Educação, além de muitas outras áreas da empregabilidade. Com raras excepções, deveria ser OBRIGATÓRIO o “visto” de um arquitecto em toda a obra de engenharia como um prédio ou casa (tudo), por exemplo.

    Já tinha a percepção de que a V/ Ordem não vos representava com a dignidade merecida. Confirmo-o pelas vossós úteis depoiamentos e esclarecimentos.

    Um Projecto de requalificação do belíssimo parque escolar das escolas do Ensino Secundário merecia algo à altura da grande qualidade técnica e estética dos arquitectos portugueses e dos belíssimos professores que nelas trabalham diariamente com centenas de milhares de jovens.

    É sempre uma oportunidade perdida quando os “patos bravos” têm poder. Façamos-lhes frente.

    Ah. Sou professora.
    Trabalho numa Escola Básica construída de raiz há uns 6 anos.
    Os erros de arquitectura e de construção são confragedores. A Escola não tem o mínimo dos mínimos de qualidade. Não é possível elencar tanto erro grosseiro.
    Contudo, descrevo um. A Escola foi implantada no terreno com a planta “ao contrário”, ou seja, os campos de jogos para a prática de Educação Física que na planta seriam construídos nas “traseiras” dos blocos foram instalados na frente!!!!
    (não é anedota).

  14. Carlos Costa Rodrigues diz:

    Cara anah, esse tipo de erros, não são únicos. Conheço um projecto de uma moradia cuja implantação foi colocada em parte do terreno vizinho (!), portanto isso, não me surpreende. Surpreende-me sim, e nisso também assumo a culpa dos arquitectos (também me incluo nisso), é que muitos dos projectos são vítimas da construção e por pormenores construtivos, que muitos arquitectos não sabem, não entendem e muitos não querem perceber. Nem todo o arquitecto sabe construir. Em Portugal, infelizmente, julga-se um arquitecto como “artista” e não projectista, quem sabe, se é consequência dos ensinamentos académicos, cujos professores se preocupam mais com o “projecto”, “a ideia” e o “conceito” do que propriamente com todos os aspectos que são a arquitectura (o projecto, a construção, a implantação, etc).
    Seja como for, julgo que em Portugal e nesta questão em particular, o emprego como arquitecto encontra-se ameaçado, não por arquitectos em excesso, mas sim, porque se tornou hábito criar um grupo que recebe os projectos, sem concurso, nem concorrência. E já que a Ordem dos Arquitectos (OA) pediu um parecer sobre os honorários (baixos?) que alguns projectistas praticam (porque é a única maneira de terem trabalho) retirando trabalhos a outros (?????), julgo de ser de extrema importância, a solicitação de um parecer jurídico sobre a questão das adjudicações directas, dos concursos condicionados e outros produtos similares.

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