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A excitação do tédio

28 de Janeiro de 2010 por Nuno Ramos de Almeida

Stalin and Marilyn, de Leonid Sokov

Não acredito nas virtudes da deriva. Debord dizia que ‘a fórmula para mudar o mundo não a encontrámos nos livros , mas vagueando’. Acho simpática a ideia que a revolta deve ser prazenteira, mas profundamente errada. Só a dor erradica o tédio. Os murros têm a vantagem de nos fazerem acreditar que estamos vivos. Não há redenção sem sofrimento: É a única coisa com que concordo com o catolicismo, para além da bonita imagem de João Paulo II a chibatar-se. E, claro, da certeza que as carmelitas descalças ficam melhor de bigode.
‘Libertar o mundo da História’, lê-se no Fight Club. Não sei o que é, mas parece-me um excelente projecto. Aceitam recibos verdes?

Comentários

Comentário de Morgada de V.
Data: 28 de Janeiro de 2010, 22:05

“Exposing what is mortal and unsure to all that fortune, death and danger dare, even for an eggshell.” Hamlet (sem bigode), citado com muita propriedade pelo Selvagem do BNW (grau de pilosidade facial desconhecido).

Comentário de Nuno Ramos de Almeida
Data: 28 de Janeiro de 2010, 22:12

O Hamlet não tinha bigode?
http://clotildetavares.files.wordpress.com/2009/04/hamlet-yorik.gif

Comentário de Morgada de V.
Data: 28 de Janeiro de 2010, 22:24

Referia-me a este Hamlet:
http://www.abc.net.au/reslib/200811/r318041_1412354.jpg

Comentário de Nuno Ramos de Almeida
Data: 28 de Janeiro de 2010, 22:42

Estás-me a chatear com os teus Hamlets depilados, também têm tatuagens e ausência suspeita de pelos?

Comentário de Morgada de V.
Data: 28 de Janeiro de 2010, 23:03

Depilados o caraças, este tem barba de três dias.

Comentário de xatoo
Data: 28 de Janeiro de 2010, 23:49

e já que a questão é se hamlet depila ou não depila, ainda temos a 3ª via:
http://vida-maravilha.blogspot.com/2007/09/diogo-infante-vive-hamlet-partir-de.html

Comentário de Nuno Ramos de Almeida
Data: 29 de Janeiro de 2010, 20:07

Antes o bigode que tal sorte

Comentário de Mario
Data: 1 de Fevereiro de 2010, 3:13

Considerar uma afirmação do Debord, no caso sobre a arquitectura das cidades, do ponto de vista político, principalmente quando esta foi dita uns bons anos antes de ele fazer da luta política um ponto essencial da sua acção, é no mínimo descabido…
Cumprimentos.

Comentário de Nuno Ramos de Almeida
Data: 1 de Fevereiro de 2010, 12:13

Interessante, muitos autores consideram-na politicamente relevante. Ou acha que a arquitectura da cidade não é política? Isso sim, seria uma afirmação que Debord nunca faria.
Aconselho-lhe a leitura da Estrela da Manhã de Lowy e a História da Internacional Situacionista de Jean-François Martos. Neste, a citação começa o livro, como uma espécie de moral da história. Certamente são autores descabidos. Espero com curiosidade, uma lista de autores autorizados a interpretar o verdadeiro sentido bíblico das afirmações de Debord. Mesas de pé de galo não valem.

Comentário de Mario
Data: 1 de Fevereiro de 2010, 18:19

“Ou acha que a arquitectura da cidade não é política?”
Acho sim senhor. No entanto, a Internacional Situacionista (IS) começou como um movimento que, ainda que procurando politizar a arte, era essencialmente artístico no formato das suas propostas. Por isso, no seu início, contava nas suas fileiras com pintores como Asger Jorn, Pinot-Gallizio e Constant, ou escritores como Ivan Chtechtglov ou Guy Debord.
A dérive aparece nesta altura como conceito estruturante da ideia de “urbanismo unitário” (acho que em 1955 ou 56), um ideal de urbanismo onde todas as artes contribuem para criar uma Gesamtkunstwerk à escala da cidade (como exemplo, dê uma procurada no google sobre “New Babylon” do Constant). Quando se fala de dérive, está-se a falar do modo de usufruto “estético” (enquanto estímulo sensorial) e lúdico desse novo urbanismo. Portanto, parece-me claro que quando Debord diz que ‘a fórmula para mudar o mundo não a encontrámos nos livros , mas vagueando’, essa frase estará certamente incluída numa lógica de mudança do mundo físico, do espaço construído. Se essa mudança era também política?
Implicitamente, sim. Basta atentar na dicotomia presente nos primeiros textos da IS entre o “Homo Faber” (“de Marx”) e o “Homo Ludens”, ou na crítica aos mecanismos capitalistas e estaduais de controlo do espaço, mediático e construído, que está presente desde o “Potlatch.” No fundo, “une autre ville pour une autre vie”

Mas, no entanto, não estamos a falar exactamente do mesmo Debord que escreveu a “Sociedade do Espectáculo” e andava a discursar em conselhos de trabalhadores nos arredores de Paris nos dias quentes de 68.
Quando escreveu sobre deriva e cidade, Guy Debord raramente falava de revolta. E vice-versa. Isto porque, embora o nome “IS” se tenha mantido o mesmo, o movimento artístico de tendência “marxista” de Debord, Asger Jorn e Constant(1957) é muito diferente do movimento de pensamento e acção política de Debord e Vaneigem (1967). Fases diferentes, demasiado. É só isso que queria apontar com o comentário.

Excelente livro o do Lówy, que adverte precisamente nesse capítulo para leituras simplistas do percurso do Debord e da IS, e que resultam ou na supressão de uma ou outra fase, ou na mistura indiscriminada das duas.

Não percebi as parte das “mesas de pé de galo”. Mas acho que não preciso de blindar os meus argumentos atrás de nomes de “autores bíblicos”, aquilo que eu digo é demasiado claro se se der ao trabalho de comparar o “Potlatch” com os últimos números da “Internacional Situacionista” ou com a “Société du Spectacle”. Aliás, num desses números (já não me lembro exactamente qual) Debord aborda a saída\purga do grosso dos artistas da IS precisamente com a necessidade de mudar a abordagem do movimento, da acção artística para a acção política…

Cumprimentos

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