“É muito plausível, ao que nós supomos, a hipótese de que o povo dos nossos campos, desde o final da Idade Média, tem levado uma vida da maior pobreza, obrigado a contentar-se com uma alimentação fraquíssima [nota], de que são efeitos imperfeições orgânicas que alguns vinculam à entidade ‘raça’. Ao depressor espectáculo de miséria última que é uma viagem pelas províncias de Portugal corresponde o facto de que as juntas militares têm chegado a rejeitar até dois terços dos mancebos que se apresentam aos exames de recrutamento, por inferiores ao mínimo de robustez exigida. A subalimentação devida à penúria é a circunstância básica que se não deverá esquecer, ao que a nós nos parece, sempre que se comprove a decadência da raça e a inferioridade sanitária da nossa gente.
O dever imperioso é o de lhes dar mais pão. Não me venhais objectar que ‘nem só de pão vive o homem’: pois precisamente porque nem só de pão vive o homem é que me parece essencial que se lhe garanta o pão; se o quero para os homens é porque os creio espíritos, e na precisa proporção em que os creio espíritos; pouco me interessaria que tivesse pão quem fosse unicamente um comedor de pão. Os indivíduos que dele carecem traem-se por necessidade na sua qualidade de espíritos, e é por isso que o seu bem económico constitui para nós outros uma preocupação moral [it. no original]
Quando iam para o Ultramar é que cobravam os nossos camponeses a ideia da possibilidade de um nível de vida superior ao da miséria que por cá conheciam. ‘Nós outros’ (reflexionavam os soldados em Ceuta) ‘mesquinhos que andamos no nosso Portugal pelos campos colhendo nossas messes, e fatigados com a força do tempo, cá por derradeiro não temos outro repouso senão pobres casas que em comparação destas querem parecer choças de porcos’ (Azurara, Tomada de Ceuta, cap. LXXXVII).
Lê-se na Descrição do Terreno em roda de Lamego , escrita em 1531: ‘o homem pobre, que aqui não tem casal, é mais pobre que em nenhuma outra parte’. Ideia susceptível de se generalizar ao País, a começar do século de Quatrocentos. Os italianos Tron e Lippomani, que visitaram os Portugueses em 1580, testemunharam que ‘vivem parcamente, porque a plebe, pela maior parte, é pobre’, e do povo de Lisboa atestam que ‘vive pobremente, sendo a sua comida diária sardinhas cozidas, salpicadas, que se vendem em grande abundância por toda a cidade; raras vezes compram carnes, porque o alimento mais barato é esta casta de peixe, que se pesca em notável cópia fora da barra, como se pesca muito outro de todas as qualidades e muito grande; mas… tão caro que faz espanto aos estrangeiros e custa muito aos naturais, que passam mal pelo preço excessivo de tudo quanto serve para o sustento. Comem os pobres uma espécie de pão nada bom… feito de trigo do país, todo cheio de terra… O pão bom e alvo faz-se de trigo de fora… e até a vitela é cara’ (sobre o peixe, alimentação do pobre, o imposto ultrapassava 50 por cento, em algumas partes). [Nos fins do século XVIII, o académico Vila-Nova Portugal notava que o número de viúvas excedia o de viúvos, e dava a seguinte explicação ao facto: 'o que pode atribuir-se à pouca nutrição dos homens do campo e muito trabalho que têm, a que suprem com o vigor momentâneo que dá o vinho'.] – Sérgio, António (1973, ed. crit.) Introdução Geográfico-Sociológica à História de Portugal, Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora.




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