Em La Culture-monde. Réponse à une société désorientée, Gilles Lipovetsky e Jean Serroy sugerem que uma primeira época da cultura pretendeu atribuir uma ordem totalizante ao mundo, tudo explicando pelos preceitos oriundos da Tradição. Depois, os dias das vanguardas afirmaram a cultura como contestação dos modos de existência e produção comummente aceites. Mas hoje estaremos já numa terceira fase: «a cultura que caracteriza a época hipermoderna já não é o conjunto das normas sociais herdadas do passado e da tradição»; a globalização deu à luz a «cultura-mundo», instância que nasce da hipertrofia dos ecrãs, disseminadores do Cinema, da TV e da Internet. A infindável abundância de escolhas, de possibilidades de consumo cultural, permite a cada indivíduo a criação de um universo de opções e grelhas de gostos. Afinal, a homogeneidade do capitalismo cultural não acarretou, ao contrário do que era temido, o fim das diferenças e a anulação das idiossincrasias do cidadão, abafado pela sua nova encarnação, o telespectador. A ascensão desta cultura-mundo não implicou o domínio avassalador dos modelos americanos (como o prova o êxito planetário de formas artísticas como os mangás ou a música étnica) nem acarretou a anulação das dissidências. O mundo hipermoderno não é aqui encarado com o pessimismo típico dos herdeiros da escola de Frankfurt.
No entanto, a Televisão continua a ser vista como uma entidade propiciadora de um mundo «infantilizado» ou desprovido de «alma» – o habitat, a incubadora de uma nova encarnação do homo ecranis: criaturas de retinas pulsando em sincronia ao ritmo do zapping, mentes e convicções incuravelmente moldadas pelas pulsões utilitárias do hiperconsumismo e do hiperindividualismo. Já em Bourdieu a Televisão surgia como o reino da «informação omnibus sem asperezas, homogeneizada»; algo que pode bem alastrar para outros domínios da nossa cultura de massas, começando pela imprensa escrita e acabando em meios mais avant-garde e até académicos – por vezes colaboradores desta silenciosa ascensão da trivialidade.
Para Lipovetsky e Serroy, a Televisão parece fadada a transformar-se no profeta catódico de um mundo atolado na «atitude cativa» e mesmerizada de milhões. Zombies condenados a vaguear, de comando à distância na mão, entre infindos planos e montagens dos mesmos pontos de vista, massificados, retalhados e reduzidos à inanidade de fragmentos sem ethos nem pathos. A TV é um epifenómeno de uma grande maré civilizacional, um retrato a 25 frames por segundo de um mundo fragmentado mas simultâneo. É o «triunfo da velocidade», a celebração à escala planetária da cultura-mundo gerada pelo tecnocapitalismo, fortalecida pelo enfraquecimento das divisões entre alta e baixa cultura, activa em todos os campos de actividade humana. É um carro de Jagrená entregue à sua própria vertigem, dominado pelas regras de uma cinética global que transcende as minudências da política quotidiana e até as exigências da Democracia.
A TV, ao tudo decompor numa sucessão de imagens espectaculares, anestesiantes e confortáveis, contém por certo o léxico perfeito para uma dialéctica de submissão e desígnio utilitarista já denunciada por autores como Chomsky. Nas ruínas de um mundo antes contínuo e transparente, o tal homo ecranis, nativo deste novo universo hipercolorido mas desprovido de espessura, pode bem ser o cidadão perfeito do amanhã: receptor sempre aquiescente, confiante e permeável a exércitos de influências bem programadas.





Li a Era do Vazio há anos e fiquei com a impressão que o Lipovetsky está ainda mais desorientado que a sociedade.
Enfim, esta é de facto, um pouco, a ¨era do vazio¨.
K. Popper também disparou uns tiros em cheio, e se calhar até mais na mouge, sobre esta temática.
Estar orientado num momento em que os referenciais estão em movimento talvez não seja a melhor ideia…
Luis, conheces épocas em que os referenciais não tenham estado em movimento? Quais? Por quanto tempo?
O problema de uma certa pós-modernidade (não de Lyotard, o mais inteligente de todos, que fez marcha atrás e repreendeu frivolidades desenhadas a partir dele) é que repete sempre este dogma dos “referenciais em movimento”, esta “dromologia” acrítica.
Claro, até mesmo a modernidade das “grandes narrativas” (Lyotard)queria derrubar referenciais por estarem em movimento perpétuo e instável. Redesenhar a história e o homem, fazer tábua rasa do passado. A Gioconda e a Vitória de Samotrácia não mais seriam respeitadas. Hoje estamos no mesmo ponto.
Nunca nada foi estável.
Meu caro,
O modelo Americano é precisamente o da fluidez continua dos “referenciais.” Além disso, é um modelo cuja lógica implantou-se não apenas nos referenciais (conteudos) mas na própria forma de apresentação (desvelamento, aletheia). o que tu propões como non-américaine….(a não-homogeneização)…c’es le modéle Américain par excellence.
cumprimentos e parabéns por um excelente post.
vou comprar o livrinho. não conhecia o gilles e o seu comparsa.
Sr prof Vidal,
Sim, é verdade, os refs sempre estiveram em movimento.
a única diferança pertinente é que nós, hoje, estamos mais do que nunca conscientes deste facto existencial.
presentemente, a fluidez é um facto-mundo-horizonte. tem que ver com percepções, claro.
nunca uma era – nem mesmo a das grandes revoluções – tematizou a mudança como factoide absoluto. talvez seja esta uma das razões para o insucesso recorrente das formulas revolucionárias: já não detem o monopólio cognitivo do tema “mudança.”
uma sugestão apenas.
muchos complimentis,
ezequiel
Sr prof Vidal,
“Nunca nada foi estável.”
Vero. mas há nuances. houve periodos menos ou mais estáveis/instáveis do que outros.
Dizer apenas que ” nunca nada foi estável” é um truismo banal e, reconheça-se, inconsequente.
mas, cohecendo a sua propensão para absolutismos (cognitivos e outros), esta sua máxima não me surpreendeu…:)
melhores cumprimentos
ezequiel
Caro Luís,
este doc talvez te interesse (são 4 episódios)
encontrarás os restantes no site.
http://www.documentary-film.net/search/watch-now.php?&ref=70
cumprimentos
ezequiel
Concordo com o Ezequiel. Diacronicamente, constatamos essa dromofilia endémica (mas que não é constante, claro); no entanto, nos dias que correm a fluidez dos referenciais é perceptível também no ponto de vista sincrónico. E isso faz toda a diferença para o nativo de cada momento.
Caro Ezequiel,
Permita.me que lhe diga que esse seu comentario dos documentários foi não um tiro normal, mas um verdadeiro tiro de basuca no centro do alvo. Curiosamente vi, pelo menos parcialmente, esse mesmo documentario há poucas semanas quando pesquizei por E. Bernays no Google, onde tambem consegui descarregar alguns livros dele em pdf.
Porque de facto esse Snr, sem o qual o sobrinho não teria sido senão mais um médico e escritor meio falhado entre outras centenas que existiram, cujas obras estão a apanhar pó nas gavetas, foi de facto um dos mais desconhecidos e discretos e ao mesmo tempo uma das mais influente personalidades mundiais do sec. XX, basta dizer que o próprio Goebells declarou que foi uma das suas obras , ¨cristalizing the public opinion¨, que norteava a sua campanha contra os judeus…
Se há Inferno, ou Hades, como os gregos lhe chamavam, e eu acredito que sim, esses dois devem ter lá um lugar bem importante…
caro Luís.
presumo que conheças Koselleck…
eu adorei ler este magnifico livro.
fala do confluência diac/sinc a q te referes no comentário.
http://mitpress.mit.edu/catalog/item/default.asp?ttype=2&tid=7845
cumps,
ezequiel
Confesso que só o conheço por citações. Mas o livro que apontas tem ar de ser fascinante. A ver se o encontro lá na biblioteca.
De facto, podemos mesmo concluir o contrário do que o Luis e o ezequiel defendem. Num plano cultural, quer o período das vanguardas no início do século XX, quer o das neovanguardas nos anos 60 e 70 foram bem mais instáveis que o nosso paralítico tempo de “fim de festa”. Se quisermos então, o que nos caracteriza é uma estabilidade podre, mas estabilidade ainda assim. Os exemplos são quase infinitos. A velocidade-instabilidade aqui exaltada é mais a de um “presente perpétuo” que outra coisa. Lembrem-se disso. Se quiserem.
Não vejo como instabilidade a situação das vanguardas do princípio do sec. xx. Havia, para pegar no tema das grandes narrativas, um sentido de flecha, de caminho em direcção a algo. Isso não implica mobilidade dos referenciais; futuristas, surrealistas, neo-impressionistas, todos se imaginavam a alcançar um patamar, não embarcados em viagens sem rumo nem referências.
Quanto aos anos 70, não sei se serão assim tão divorciáveis dos nossos, mas enfim. De qualquer forma, o panorama a que o Lipovetsky alude transcende um pouco essas preocupações com “ismos” artísticos, dizendo mais respeito à big picture da nossa vida social.
E onde é que foi exaltada a tal “velocidade-instabilidade”?
Sr Prof.
“Num plano cultural, quer o período das vanguardas no início do século XX, quer o das neovanguardas nos anos 60 e 70 foram bem MAIS instáveis que o nosso paralítico tempo de “fim de festa”.
o sr deveria concordar comigo e com o Luís. há mais ou menos estabilidade ( como diz no seu último comentário). foi só isto que eu disse. pas grave.
com o colapso das ordens cosmológicas dos pré-modernos e a institucionalização da reflexividade (vide charles taylor, malaise of modernity e o origins of the self) e do eu perpetualmente embrenhado na interrogação de soi-meme—vai uma grande distância. os pre-modernos não sentiam grande instabilidade normativa. nem lhes era permitido tal coisa. o fenomeno da experiência da contingência agrava-se (repare: agrava-se) quando é individualizado, ou melhor, interiorizado. o mundo do pré-moderno é algo de que ele-a faz parte. não é um mundo em que ele-a participa como agente consequente.
boas tardes
não seja tão rezingão, sr prof.
tanto qt eu consigo perceber, as nossas posições, no que a este particular diz respeito, não são assim tão dispares.
cumprimentos
ezequiel
Eu lembro-me sempre de quase tudo o que sr aqui escreve.
errata: perpetuamente….
as minhas desculpas.
Onde escrevi “exaltada” quis dizer “referida”, senão o par “velocidade-instabilidade” pelo menos o tópico “movimento”.
Acho efectivamente o período das vanguardas expoente de instablidade e exacerbado dinamismo, e sei que isso até é algo que Lipovetsky não entende (e desdenha n’A Era do Vazio). E instabilidade, porque a lógica vanguardista do “Manifesto” não se vira para atacar o passado apenas, mas os movimentos (políticos, culturais, estéticos…) do presente, os contemporâneos, os congéneres. A instabilidade de referentes vem pois daqui: da simultaneidade e dinâmica coexistência entre vários manifestos e manifestações. Tudo no mesmo presente heteronímico.
ezequiel,
Charles Taylor, quereria você dizer “Sources of the Self” e não Origins, suponho. Adiante, que eu não conheço assim tão bem o autor e estou convencido que o seu melhor trabalho é uma coisa (um monumento) dos anos 70 sobre Hegel. Mas, indo ao cerne da questão: neste particular, do self, eu, identidade, que fez Taylor de mais inquietante (ou instável e instabilizante) que o velho Freud?
Então, pronto. Pegando no velho Freud, podemos agora perorar sobre o interessante conceito de Nachträglichkeit que o Foster gamou dele, para responder ao Bürger. Ou podemos antes ir para casa, que é o que vou agora fazer
Mil perdões, Sr Prof.
Sim, Sources of the Self, mea culpa. Não toco no dito livrinho há mais de 15 anos.
Charles Taylor nunca foi inquietante mas a sua obra não deve ser menosprezada por causa disso. Prefiro outros interpretes de Hegel, como Kojéve ou Hyppolite. Mas como não sou perito na matéria…
cumps
ezequiel
Sim, Luis, importante o conceito de Nachträglichkeit (digo eu, já jantado), que perpassa por todo o livro de Foster, o mais conhecido, mas não forçosamente o mais importante (eu aí iria pelo Prosthetic Gods, talvez): refiro-me ao “The Return of the Real”.
A sua tradução pode ou dever ser “acção diferida”. Neste sentido, encarrega-se Foster de nos dizer, analisando as neovanguardas e a sua história até à actualidade, que nenhum tempo é seguro de si mesmo, nenhuma época tranquiliza (ou se tranquiliza) mais do que outra, pura e simplesmente porque qualquer época sonha com o seu tempo futuro ao mesmo tempo que revê o passado, o seu passado. Ora, qualquer época, e não só o nosso tempo, oscila entre ancoragens no passado, situação presente e anseio de futuro. E esta temporalidade é comum a todos os momentos. Por isso é que Foster pode dizer:
“Creio que modernismo e pós-modernismo são constituídos de modo análogo, por acção diferida, como um contínuo processo de futuros antecipados e passados reconstruídos. Cada época sonha com a que se lhe segue, como diria Walter Benjamin, mas procedendo como tal revê sempre aquela que a antecedeu. Não há um simples agora: qualquer presente é não-síncrono, mistura de tempos diferentes; deste modo, não há transição temporal entre o moderno e o pós-moderno. Surgem, num certo sentido, como a sexualidade, demasiadamente cedo e demasiadamente tarde, sendo a nossa consciência de cada um [moderno e pós-moderno] posterior ou prematura ao facto” (Cap. 7 e último).
Com isto, alinho.
oops
isto hoje não está nada bem.
ps:
do colapso das ordens cosmológicas dos pré-modernos à institucionalização da reflexividade (vide charles taylor, malaise of modernity e o sources of the self) e do eu perpetuamente embrenhado na interrogação de soi-meme—vai uma grande distância….no que diz respeito à vivência da instabilidade.
as minhas desculpas. n tem mt importância.
Freud, sr prof, inventa (ou descobre) uma dimensão simultaneamente oculta e presente, uma ausência presente, como diria o inimitável Ricoeur. uma causa que se manifesta na acção mas cuja lógica, para ser compreendida, requer um processo de decifração que pode requerer que a compreensão da causa de um trauma só seja compreendida num futuro. n se trata apenas de “deferred action”…e mais do que isto, julgo eu….uma causa que surge depois do evento, por outras palavras. uma causa oculta, reprimida ou sublimada…
todavia, a causa, nesta formulação, age sobre a memória e não sobre o evento. a não ser que, seguindo Davidson e outros, consideremos que a descrição-interpretação do evento (sempre post facto) faça parte do evento…
desculpas pelo português cacafónico mas estava a trabalhar.
cumps
ezequiel
mas a causa – sentido estrito- tem que preceder o evento. uma coisa é descobrir a causa e outra, mui distinta, é a sua explicitação (ou compreensão) que pode, evidentemente, reavivar a força da causa explicitada, noutro sentido que não o primeiro, naturalmente. como é que nós podemos separar as causas das suas condições de materialização?? se a condição x é absolutamente necessária à materialização da força causal de y, como é que podemos isolar y como factor causal independente, que precede a condição. ou seja, se a condição faz parte da causa (e a condição é plural) como é que podemos falar de 1 ou duas causas de um fenomeno?
não faz sentido.
Por acaso, essa interpretação (usada já pelo Lacan) tem sido bastante denegrida pelos exegetas freudianos. Parece ter surgido na tradução de James Strachey das cartas para Wilhelm Fliess.
Não conheço bem a obra de Lacan, caro Luís. (nem sei se o teu comentário é dirigido à minha pessoa). Conheço a obra de Freud. A tese que interessante da obra de Lacan é o do “miroir”, o contraste, a tensão, entre a percepção, ou o testemunho do eu orgânico (no espelho) com a incompletude ou dispersão da experiência motora e perceptual (do mundo). Pode, mais modestamente, ser pensada (ou trivializada) como uma das possíveis relações entre expectativa e constatação. Bateson, no seu mind and nature (julgo eu), tb aborda esta relação mapa (orgânico, expectativa de unicidade)-experiência. É um tema absolutamente fascinante.
Não sei se o teu comentário era dirigido à minha pessoa.
Seja como for, voilá.
Abraço,
ezequiel
fisga-se:
já n sei escrever a minha lingua mae:
A tese mais interessante da obra de Lacan é a do “miroir”,
http://www.amazon.co.uk/Mind-Nature-R-Op-87/dp/0553242830/ref=sr_1_3?ie=UTF8&s=books&qid=1264594346&sr=1-3
é provável que já conheças este livrinho. mas, se porventura ainda não conheces…compra.
vais gostar. as certain as rain in the winter time
abraço
ezekiel
O referencial do Lipovetsky está ultrapassado.
Concretamente: a TV já não é o principal meio de comunicação. Foi ultrapassada pela internet em 2009 (em número de horas que passamos – os europeus – frente a cada ecrã). E a internet não suscita necessariamente, a «passividade»: há milhentas formas de participar, dos blogues e caixas de comentários dos jornais até colocar filmes no youtube ou dirigirmo-nos a instituições. Mesmo a própria televisão é cada vez mais interactiva, e estou convencido de que dentro de poucas décadas será apenas o maior ecrã da sala usado para aceder à internet. Sem prejuízo de que continuem a existir «canais de televisão» (como continuam a existir jornais em papel).
Qual é a data do livro?
Ezequiel,
O comentário era mais dirigido ao Carlos, a propósito do Hal Foster – de quem, aliás, só li o excelente “Return“.
Ricardo,
O homo ecranis não tem como habitat apenas a interface com a TV. E pode colocar-se o receio de que a cultura do zapping pura e simplesmente aproveite a convergência dos media para infectar a nossa vida online. A ideia eufórica do Castells, a “auto-comunicação em massa”, parece-me a mim, sem me armar em profeta da disforia, bastante longe da realidade. Mas o livro, que creio ser de 2008, não se centra exclusivamente na TV, antes a usando como sintoma e actriz de uma nova situação cultural e social. “Tandis que la culture se fixait pour but d’élever l’homme, de porter le genre humain plus haut et de façonner plus droit, la culture de masse tourne radicalement le dos à cet idéal de perfectionnement au nom de l’hédonisme individualiste et du divertissement généralisé” – esta vitória do hedonismo, anulando outros vectores antes decisivos, não será ameaçada pela coalescência entre a TV e a net…