Única saída digna para Manuel Alegre: realizar a fractura absoluta (ou nada!!)


DORIS SALCEDO. “Shibboleth” (Tate Modern/Turbine Hall). 2007.


(Detalhe)

Agora que a histeria daniel oliveiresca atingiu um ponto exaltante, com a sua estratégia ou desejo (ou provavelmente um desejo sem estratégia, coisa antiga quiçá, pois eu não conheço a personagem) de alcandorar-se a um nicho (pequenino, mesquinho, evidentemente) de um qualquer governo e a um posto de “elo de ligação” com o Partido chamado de Socialista (“elo” que pressupõe uma pertença de facto ao dito partido, embora iludida numa “militância” na coisa chamada BE), estratégia confirmada e consolidada em sondagens que o próprio veicula no seu “arrastão” alegremente; agora que o BE caminha definitivamente para o sonho desta personagem – ser um “partido” situado entre o PCP e o PS (ou seja, um subgrupo do PS, pois não há equidistância possível entre PCP e PS) – agora que até aqui o 5dias criou uma cátedra de Estudos Danieloliveirescos, agora é altura de pensar em coisas sérias:

1.
O Partido dito Socialista, com a direita parlamentar (a que pertence), chumbou todas as possibilidades e projectos de alargamento da protecção frente ao desemprego e para os desempregados (aqui e aqui, intervenção de Bernardino Soares, AR); tendo esse mesmo partido (a maior minoria da Assembleia, tendo para isso recebido uma percentagem de votos de irredutíveis, entre os quais Manuel Alegre, note-se), tendo esse partido, dizia, concluído negociações com a direita e extrema direita parlamentar para a viabilização de um Orçamento que repete receitas muito antigas (a saber: congelamento de salários, admissão à função pública de um trabalhador depois da saída de dois, o que significa o Estado – como muito bem sublinha o PCP – a ampliar os números do desemprego, privatizações), depois destes dados há pois que reler a entrada de Manuel Alegre na corrida presidencial com nova luz e abandonar definitivamente o comboio dos Estudos Danieloliveirescos, porque desse modo a perda de tempo é total e o entusiasmo do visado (do “estudado” na cátedra) não contempla ainda as nuances mais recentes, resultado de uma eleição legislativa que teve em Manuel Alegre um pilar importante, participante que foi em comícios Psocialistas em Coimbra, em favor de um amigo cuja única “medalha política” foi a de um dia, numa conferência, ter feito uma pergunta (!).

2.
Então, que dados novos temos aqui?
Os seguintes: já que a direita e extrema direita se coligaram (e a “esquerda grande” do BE deu origem antes à “direita grande”: PS-PSD-PP) e cimentaram as suas posições em torno do novo Orçamento, aceitará Alegre o alegre (ou menos alegre) apoio de uma “parte” desta aliança natural direita-extrema-direita (“parte” que é representada, claro, pelo PS)?

Depois, irá mesmo essa parte (o dito cujo “sucialista”) apoiar oficialmente Alegre?

Estará o BE realmente disponível para apoiar o assim escolhido candidato natural desse espaço direita-extrema-direita? Vai o BE navegar nessa águas (e a acreditar em D. Oliveira parece que sim)?

Irá, em manifestações públicas e comícios, o líder do BE, F. Louçã, juntar-se ao ultra J. Sócrates (que de governação e economia apenas sabe o que Teixeira dos Santos o manda saber, e nem isso, claro)?

Em suma, irá J. Sócrates governar com o apoio discreto (mas empenhado, no fundo) do PSD e PP e tentar eleger um presidente com o BE???

3.
Para já parece-me que este teatro ridículo tem o apoio (sondagem Aximage) de cerca de 81% de eleitores BE!! Será??? Quem, de facto, são estes suicidas?

4.
Bom, por fim, um caminho; permitam-me que aponte a única saída digna para este imbróglio:

– Que Alegre, de imediato, se desfilie dessa organização grotesca que é o “PS”, e se não o fizer que assuma (de preferência sozinho, ou com o BE) as consequências. Que, DESFILIANDO-SE, o faça explicitamente, claramente, expondo as suas razões com nitidez (com quem rompe e porque rompe). Que dessa desfiliação imediata e de confronto resulte uma fractura irremediável dentro da coisa chamada “PS”, que dessa fractura (um processo de higienização da vida política portuguesa) emerjam os poucos (ou alguns) eleitores de esquerda que aí ainda se vão arrastando (na coisa “PS”) e que esses, eventualmente com Alegre, se disponham a lutar pelo seu espaço político e pelo seu candidato, candidato assim feito homem e político claro, que eventualmente (com seus ex-“PSs”) se pode juntar a sectores do BE, e talvez do PCP.

Partido Comunista Português que é, como sempre, o único lugar decente da vida portuguesa longe destas tramas abjectas.

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48 Responses to Única saída digna para Manuel Alegre: realizar a fractura absoluta (ou nada!!)

  1. Comprova-se que a candidatura de Manuel Alegre volta a provocar nervoso miudinho e grandinho… Tem a sua piada!

  2. Carlos Vidal says:

    H. Fernando, comprova-se o quê !?

  3. paulo says:

    é por isso que a esquerda não vai a lado nenhum passam o tempoem guerras estereis e quando as coisas não agradam vão logo para o insulto
    carlos recomendo-lhe, se me é permitido, que se recorde da quantidade de gente de valor que abandonou o pcp e dos crimes cometidos em nome dessa ideologia

    ps nem sabia que o pcp tinha vida interna, pensei que o centralismo democratico não era para brincadeiras

    mais moro num municipio regido pela cdu e democracia na gestão da coisa publica nem ver é só distribuir subsidios sem concursos publicos….

  4. Rui F says:

    Carlos

    Sou bloquista mas não sou Alegrista e nem sei se vou engolir um Alegre sapo, como os PC’s já provaram.

    Uma coisa é certa: apoiantes e militantes PCP ficaram demasiado nervosos com esta aparente descentralização democrática de alguns Bloquistas, nomeadamente o Louçã.

    Que impede a esquerda – sem Louçã e outros – fazer uma espécie de reunião magna sem agenda prévia, de maneira que eleja um candidato que a possa unir nas presidenciais, rumo a Belém? Ou não terá essa esquerda receio do fracasso de não chegar a acordo nenhum?

    EU TAMBEM GOSTAVA DE TER um candidato que unisse as esquerdas mas não me parece possível. E com desunião e críticas estéreis é que não vamos mesmo lá.

  5. Carlos Vidal says:

    caro Rui,
    O problema não é “unir as esquerdas”, coisa que não sei se é realizável ou desejável (tal como elas se definem hoje, no espçao português, creio que não é desejável: se o “oliveirismo” é esquerda, eu não sou esquerda).

    O problema está na definição do que é a esquerda, mesmo na sua pluralidade.
    E uma definição consensual (à pluralidade conflitual das ditas “esquerdas”) só pode ser esta, ou andar em torno deste tópico “espacial”:
    há esquerda pelo BE, certo, pelo PCP, evidentemente; e por uma parte (ainda desconhecida) do PS. Suponhamos que sim, que pelo PS também há uma ínfima minoria dessa organização que pode ser “esquerda”.
    Ora, é isto que digo no post: essa minoria de “esquerda dentro do PS” só pode contar para a esquerda num movimento (qualquer e de qualquer maneira, depois se verá) FORA do PS: se Alegre (que parecia há anos querer fazê-lo) quiser contar para a esquerda que fracture irremediavelmente o PS, que faça despegar de lá o pouco que conta para a esquerda. Mas despegar sem retorno.
    Não se pode ser esquerda (atenção PSs) e conviver com Vitorinos, Lellos, Sócrates, Soares, Santos, Silvas, etc……

  6. almajecta02 says:

    sem fractura absoluta e com tudo, para efeitos presidencialisto-eleitoralistas o dito unido ps apresentar-se-á como de esquerda. O primeiro bem como o melhor dos segundos, sobretudo no caso da poesia, acabou por se instalar uma ambiguidade que torna possível o valor verbal e o seu valor representativo, o significado da linguagem e a linguagem sem significado, há uma especie de hiato, uma fenda que fica aberta, que não pode ser entreaberta por ninguem, não tem autor, mas através dela, podemos encontrar uma presença. Abraços

  7. Luis Rainha says:

    A bem da verdade, “admissão à função pública de um trabalhador depois da saída de dois, o que significa o Estado” não equivale “a ampliar os números do desemprego”. Pode sair-se para a reforma, para outros empregos, para o além, etc.

  8. Carlos Vidal says:

    Sim, sim, é verdade. Mas na maioria dos casos não é. Nem esse é o objectivo da lei, dessa lei.

  9. almajecta02 says:

    pois, um governo e um presidente no mínimo.

  10. Pascoal says:

    Vocês aí no 5dias ainda não conseguiram convencer este alegre (pateta alegre, entenda-se) a não incomodar quando alguns bloguistas tentam discutir questões pertinentes?

  11. c says:

    já vai tarde. se o tivesse feito , logo aquando do Marocas , em vez de andar a saracotear-se 3 anos e tal , podia ser que o voltasse a apoiar. agora ? jamais.

  12. Niet says:

    Carlos Vidal: Que voluntarismo espalhado ao vento no seu épico texto! Que audácia a rasar a inconsciência( ou a manipulação?). Como se o fim do Império soviético e a Queda do Mundo de Berlim não tivessem ocorrido, meu caro. Entre muitas outras marcas anteriores e decisivas da história narrativa do comunismo, e do socialismo.Que omitimos de nomear mas que, helàs, B.H.Lévy sinaliza, com cintilações justas e concisas, no ” Ce grand cadavre à la renverse”, quando aponta:” Maio 68, primeiro. Já o afirmei e torno a dizê-lo: se tivesse alguma coisa a guardar, uma só, do Maio 68 francês, isso seria com o que tem a ver com a dimensão libertária, portanto, não autoritária, anti-estaliniana e, portanto, quer o queiramos quer não, profundamente, tendencialmente, historicamente, anti-totalitária “(Págs.96/97). Portanto, um processo de ruptura histórica, hoje, e que recupere o PCP, para o bem e o mal,tem que assumir a tese de M. Bakounine: ” Pilotos invisíveis no meio da tempestade popular, nós devemos dirigir a Revolução social, não por um poder ostensivo mas pela ditadura colectiva de todos os aliados. Ditadura sem faixa, sem título, sem direito oficial, e tanto mais poderosa quanto ela não terá nenhuma das aparências do poder “. Será o M.I.C. de Alegre capaz de instituir esta passada larga, exaltante e criadora? Ou ficará pela ” amostra ” caudilhesca, latino-americana e , a priori, condenada a impôr mais um contratempo histórico ao devir de Portugal?Niet

  13. Carlos Vidal says:

    Quanto a totalitarismos, caro Niet, V. aqui descarrila. Citar BHL – isso desqualifica-o, a si, claro. BHL?? Assim acho que não vamos lá.
    BHLevy é um dos mais pobres e miseráveis cérebros que a França produziu nos últimos 50 anos!!
    E até considerou o meu Platão como totalitário.
    Ora, para Levy, quem não é autoritário e totalitário? Deve bastar uma discussão de café com o tipo!
    Ser chamado “totalitário” por Levy é um elogio dos maiores. Meu caro amigo, tudo é melhor, mais pensante, mais interpelante, como queira, que BHLevy: Castoriadis, Lefort, Morin, Debray, Garaudy, Aron, Luc Ferry, Finkielkraut, para citar alguns com que não me ligo muito, mas tudo, tudo é superior a Levy. Aqui, em Levy, meu caro, batemos no fundo.
    Mas depois o meu caro, como é seu apanágio, cita Bakounine. E aqui já estamos noutro mundo. Na cintilação pura; o essencial está lá: a “ditadura colectiva dos aliados”, brilhante.
    V., caro Niet, tem alguma dúvida de quem este homem seria, hoje ou na altura decisiva, aliado??
    De Levy ou de Glucksmann, nunca.

  14. almajecta02 says:

    bolaria grega e francesa, esta listinha assassina!
    “O PS deveria apresentar um candidato forte e a minha inclinação não é de facto para Manuel Alegre.”
    Por outro lado, recorda-se que sempre que o ps apresentou candidatos susceptíveis de unir o próprio partido, designadamente nomes que já tiveram funções de alta responsabilidade, as possibilidades de ganhar tornaram-se mais sérias. Tese Canas, afinal um génio.

  15. Niet says:

    Carlos Vidal: Estive a reler uns textos para comentar o seu texto.É só para tentar ultrapassar a falta de ” entropia” nos posts, entende-me? Congratulo-me com a perfomance da Almajecta, claro está! E sabe o que reli do Lyotard? A” Miséria da Filosofia”, da Galilée. Há lá umas coisas giras sobre o Deleuze e o Bataille. Dispositivos de análise e crítica, de nivel refinado e sublime. E a propósito: sabe que o J. Rancière acaba de publicar um livro de Entrevistas, Éditions Amsterdam, onde revela que tem inúmeros volumes de textos e comentários sobre Estética e Política, a aguardarem possível impressão? Conhece o ” divino ” livro dele sobre a “A Lição de Althusser”? Sobre o B-H.Lévy, que gosta de Portugal e dos portugueses, Otelo e capitão Fernandes, o editor da La Différence,
    and so on, parece-me um pouco injusto. É certo que, como tem muito capital, por vezes fica-se a pensar: isto não será escrito por un ” nègre “, ele terá lá tempo para perder com estas coisas? De qualquer das formas, temos que ler tudo. Há sínteses e ângulos de analise a agenciar: e neste livro como nos anteriores isso funciona! Só por parti-pris ideológico feroz se ilude a leitura dos seus textos.E como comprei o livro no mais antigo alfarrabista de Estrasburgo pelo preço de um café… O mesmo élan e curiosidade acontece,no que me diz respeito, com os outros sintetizadores de certo gabarito:o Finkielkraut,o Gilles Lipovesky e o Pascal Bruckner, por exemplo. Portanto, se me permite, quem tenta descarrilar é V…Niet

  16. xatoo says:

    o Maio de 68 Niet?
    foi um golpe espectáculo para acabar de vez com a Esquerda na Europa, não sei se reparou. Faça um inventário dos nomes envolvidos nas acções chave que despoletaram o desencadear dos acontecimentos. Trata-se dp lobie judeu em peso! depois da liquidação fisica dos dissidentes revolucionários através da operação Gládio, o Maio 68 assassinou igualmente o modo de pensar dos intelectuais de Esquerda. Dissolveu-os.
    O “estalinismo” Niet?
    não sei se já reparou que desde a queda da URSS os trabalhores na Europa têm vindo a perder direitos adquiridos por décadas de luta; que só lhes tinham sido concedidos por receio do avanço da ideologia marxista (embora subvertida pela prática de um Estado pró-comunista falhado). Foi esse equilibrio de forças entre o capitalismo selvagem reaganista e o medo do crescimento de uma verdadeira esquerda socialista que possibilitou a manutenção do Estado Sociel europeu que conhecemos desde a detente do pós-guerra. Conseguiram desmantelar a URSS e acto continuo estão a desmantelar igualmente o status quo pelo qual a Europa granjeou um lugar assinalável no mundo. Quem faz da queda do Muro uma festa é porque ainda dispõe de privilégios que não lhes deixa perceber o que está a acontecer
    3º ponto, sobre o “oliveirismo”
    É certo que o capitalismo já cá estava com o regime mercantil e o modo de globalização italiano de trocas comerciais. Com a revolução industrial chegaram as teorias sobre os novos modos de organização social. Sabemos de cor e salteado todos os nomes da corrente liberal que fez o upgrade do capitalismo. Sabemos tudo sobre as ambições práticas do socialismo, real ou mascarado de livre; e muito mais ainda sobre o utópico comunismo. Tantos “ismos” e regra geral escapa à opinião mainstream o mais pujante de todos os “ismos”: o Sionismo. A doutrina nasceu da mesma raiz do socialismo revolucionário de meados do século XIX e da Revolução de Outubro; os seus mentores eram quase todos de origem russa e eslava; mas o capital que fez nascer e crescer o movimento foi o da City londrina e de Wall Street: uma conjugação diabólica, da qual nada posso criticar sob pena de me rotularem de anti-semita ou mesmo de nazi. Enquanto o socialismo marxista advogava a união de todos os proletários do mundo, o Sionismo foi a primeira ideologia a reinvidicar “o direito a uma pátria”, ou seja, o direito a um nacionalismo. Construida “a nação do povo eleito” da forma como temos vindo a constatar nos últimos 60 anos, a reinvidicação também se globaliza numa espécie de anarco-capitalismo (ou “comunismo liberal” na expressão de Zizek): agora “a nossa pátria (deles) é o mundo”, privatizando lucros e socializando custos – quer dizer que na medida em que aumenta a ambição pelo controlo global (basta olhar para a composição do lobie judeu-sionista na Reserva Federal e para o executivo de Obama), aumenta também a carnificina à moda da Palestina.
    …como no que respeita aos “revolucionários do Maio 68″:
    Embora seja assunto tabu, acho que é nesta óptica que temos de tirar a kippa da careca de cada vez que se falar no anjo Daniel. Sim, porque este tipo de “revolucionários” não vêm acrescentar nada a qualquer pensamento de esquerda. Vêm com uma missão. Chegam à visibilidade mediática com insuspeitado e forte apoio de grupos que não são facilmente percebidos, cujos interesses extravasam as divisões do leque partidário. Como diria o povo se já o tivesse topado, o Sionismo está em todas. Porque é que não haveria de estar também no Bloco de Esquerda?

  17. Carlos Vidal says:

    Caro Niet, estes tipos chegaram a ser apresentados como os novos teóricos para o século XXI: Jambet, Lardreau, Glucksmann e Lévy… Sobretudo, os dois últimos. A que ponto se pode chegar em infâmia e cegueira. Lipovetsky que é deles um continuador menor (se é que isso é possivel) disse algures: “Os grandes eixos modernos, a revolução, as disciplinas, o laicismo, a vanguarda, foram desafectados à força de personalização hedonista”. Livros destes já nem para saldos servem. E Já que o meu caro amigo faz umas buscas, também encontrei um statement de Deleuze sobre os “novos filósofos”, grandes democratas, dissidentes, “discípulos” e adoradores de Soljenitsine, severos críticos de Platão. Dizia pois o autor de “Différence et Répétition”:
    ” [Aos 'novos filósofos'] o que eu lhes critico é fazerem um trabalho sujo, trabalho esse que se insere num novo tipo de relações imprensa-livro perfeitamente reaccionário: inovador, é certo, mas conformista ao mais alto grau. Não são os novos filósofos que interessam. Mesmo que eles desaparecessem amanhã, a sua obra seria recomeçada. Com efeito, ela representa a submissão de todo o pensamento aos meios de informação; ao mesmo tempo, ela dá a esses meios de informação o mínimo de caução e de tranquilidade intelectuais para suprimir as tentativas de criação que os fariam tremer. Quantos mais debates cretinos, quantos mais filmes narcísicos de autor, na televisão – menos criação possível na televisão e no resto. Gostava de propor uma carta aos intelectuais, na sua situação actual face aos media, tendo em conta as novas relações de força: recusar, fazer valer as suas exigências, tornarem-se produtores em vez de serem autores que apenas têm a insolência dos criados ou a ostentação de um palhaço de serviço. (…) Mas os novos filósofos são verdadeiramente a infecção que se esforça para impedir tudo isto. Por eles não passa nada de vivo, mas terão dsempenhado o seu papel se se mantiverem em cena o tempo suficiente para mortificarem alguma coisa”.

    É isto, pelos palradores da democracia, livre iniciativa, ética da vida, direitos humanos, direito ao pluralismo e à diferença (e todas as infinitas combinações daqui resultantes), por estes nada passa de vivo. E, desse modo, lá perderíamos o meu caro amigo o seu Bakounine, eu o Marx e o Lénine…
    E que ganharíamos?

  18. Carlos Vidal says:

    Ah, esqueci-me de uma coisinha muito importante:
    lendo o comentário de xatoo, repare-se, Niet e outros, como o que acima cito de Deleuze sobre os “novos filósofos” assenta que nem uma luva ao tal de Daniel Oliveira.

    O que Daniel Oliveira escreve “representa a submissão de todo o pensamento aos meios de informação; ao mesmo tempo, ele dá a esses meios de informação o mínimo de caução e de tranquilidade intelectuais para suprimir as tentativas de criação que os fariam tremer. Quantos mais debates cretinos [O EIXO DO MAL, O EIXO DO MAL, O EIXO DO MAL, não esquecer], quantos mais filmes narcísicos de autor, na televisão – menos criação possível na televisão e no resto.”

    Pois, continuando com Deleuze, D.Oliveira e seguidores da sua linha têm “a insolência dos criados e a ostentação do palhaço de serviço”.

    Fiquemos pois por aqui. E, note-se, a frase nem é minha. É de todos os que pensam.

  19. Niet says:

    Caro C. Vidal: Esse texto do G. Deleuze é de princípios dos anos 70. Ele vem numa das recolhas post-mortem dele. Jambet e Lardreau foram da G. Proletarienne, parceiros do Milner, do Serge July e do Benny Levy. Acho que o Lardreau já morreu. O Levy, o último secretário do Sartre, faleceu em Jerusalém. Justamente, o B-H.Lévy e o Milner fundaram com o Benny Lévy- o Pierre Victor, pseudónimo- fundador do Libération-um Centro de Estudos Judaicos na capital israelita, há uns anos. Glucksmann, sobre quem Foucault tecia os maiores elogios, demarcou-se agora do efeito-Sarkozy. De qualquer das formas, todos eles são mais originais e mais ” felizes ” do que a produção do ” novo “, Manuel Maria Carrilho, de sua graça, amigo do inacreditável Jack Lang e dos renegados Luc Ferry e Alain Renaud…Bis morgen,bitte! Niet

  20. Rui F says:

    Carlos

    Quando a Esquerda liga o complicómetro e começa a teorizar a coisa não anda mesmo.

    Oliveirismo, só porque o homem tem opinião própria ou porque admira a Esquerda Nórdica – irmã do BE na Parlamento Europeu – que não tem qualquer receio de se relacionar no poder com os sociais democratas – Irmão dos Socialistas trafulhas Portugueses – Liberais nos costumes e em algum sistema produtivo, com valores éticos exemplares? E que dentro do espectro do centro – esquerda são acérrimos defensores dum generoso sistema ou serviço público amplo e sem reservas, provavelmente o mais perfeito que existe actualmente na terra?

    Devo-lhe confessar uma coisa…quem vota no Bloco (os não aderentes) procura isso.
    Posso garantir-lhe com toda a segurança.

  21. manuelmgaio says:

    Coitado do Manuel Alegre, só por brincadeira se lhe pode desejar que parta uma perna.

  22. xatoo says:

    a listinha da brigada Intelectual militarizada soixante huitards recitada pelo Niet parece decalcada da lista de militantes do movimento da juventude Sionista Beitar (por onde o salazarismo diga-se em boa verdade copiou a ideia da Bufa MP) – talvez para fazer a actualização lhes deva acrescentar o curriculo dos enviados especiais para trabalhar na cultura nacional oliveiresca, p/e o de Esther Mucznik:
    • Graduate in Jewish History and the Holocaust at the Institute of Holocaust Studies, Yad Vashem, Jerusalem.
    • Vice-President of the Jewish Community of Lisbon since 2000, member of the board since 1992.
    • Director of Tikva, the Portuguese Jewish Magazine; Coordinator of
    Programmes for CIL at the Portuguese Public Television (RTP). Member of the Committee in charge of broadcasting religious and faith-based groups programmes on the Portuguese Public Television (RTP).
    • Since 2002, columnist for the daily newspaper “Publico.”
    x

  23. xatoo says:

    peço desculpa, o nome correcto é BETAR (beitar é o actual clube de futebol)
    é muito proficuo verificar as analogias entre o Sionismo e o Nazismo:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Betar

  24. Niet says:

    Oh. Mr. Xatoo: Eu estava a ver se evitava responder ao seu post de ontem.Por todas as razões e mais uma: o seu anti-sionismo,o seu anti-semitismo e negacionismo, que envolve num anquilosado retrato de complot reproduz aquilo que há de mais hediondo e nauseabundo à face da terra. Realmente, é dificil imaginar uma prática de amálgama e injúria, boato e perfídia como a que tenta reproduzir nesses abomináveis comentários.Por certo,não sabe o que está a dizer…ou então deixou-se cativar pelos acordes do islamofascismo…Niet

  25. Carlos Vidal says:

    A relação entre sionismo e Bloco de Esquerda é exagerada e, enquanto relação de facto, a meus olhos, inexistente. Mas o xatoo adopta uma posição virada para a arena internacional que se pode chamar (se chama) anti-sionista, o que nada tem a ver com o anti-semitismo, Niet. Essa confusão é uma armadilha antiga. De resto, a força do sionismo contemporâneo (que desconheço em todas as suas dimensões, tal como todos nós) pode explicar a razão da impotência de todas as administrações americanas para colaborar na resolução de um problema que a todos – judeus e árabes – atormenta (e mata).

    Quanto à sra. Mucznik – também eu desprezo os seus elogios a Sharon ou Perez ou a qualquer chefe do estado de Israel (seja ele qual for, ela apoia-o sempre). Não acompanho a sra. Mucknik em nenhum raciocínio político sobre a actual situação da Palestina-Israel.
    Qual é o problema, Niet??

  26. Niet says:

    Carlos Vidal: O problema está em tentar iludir o próximo por artes da amálgama e da calúnia mais despudoradas. Eu como sou ateu, odeio quaisquer tipos de interferências religiosas na minha maneira de estar no Mundo. Não uso nem me sirvo, jamais, do facto conhecido de Nasser ter escolhido como seu conselheiro de Informação( e Serviços Secretos…),o antigo braço-direito de Goebbels, Johann von Leers… Ou de usar o dado,vero e mais do que histórico, do tio de Yasser Arafat, o antigo grande Mufti de Jerusalém, Amin al-Hussein, o lider espiritual de sucessivas gerações da Al Fatah, ter sido amigo, cúmplice e confidente de Himmler. Niet

  27. Carlos Vidal says:

    caro Niet, o problema Israel-Palestina tem dimensões bíblicas. Quer dizer, dimensões bíblicas na respectiva bibliografia e formas de o abordar. Escrevi aqui dezenas de textos sobre o assunto (sou um observador exterior ao problema, quer dizer, não vivo nem vivi lá, nem tenho família implicada; e quando digo ser observador exterior, quero dizer que, apesar disso, faço escolhas claras, sempre fiz escolhas claras sobre o assunto – se tiver de citar um autor, um só me basta, é, muitos o sabem, Edward Said).
    Consulte entretanto, por exemplo, “Israel” na Tag Cloud deste blogue em baixo. Colaborar com o nazismo até o “herói” Shamir colaborou. Um post apenas (sem que eu queira que esta nossa conversa descambe para o conflito israelo-árabe, pois não era disso que estavamos a falar):

    http://5dias.net/2008/12/30/shamir-heroi-da-independencia-e-colaborador-da-alemanha-nazi-uma-investigacao-em-aberto-e-conhecida/

  28. xatoo says:

    Carlos Vidal
    eu não afirmei em lado nenhum que a doutrina sionista tinha relação com o Bloco de Esquerda; o que eu afirmo é que o Daniel Oliveira tem essa relação, por via da pertença a esse grupo étnico, que aliás já assumiu publicamente.
    O segundo equivoco é que o Sionismo não é uma religião mas uma doutrina politica fundada na religião. Por isso Israel é na prática um Estado religioso.
    Isto é bem visivel nas relações de poder e na influência americana do lobie judaico, que é descrito p/e por conservadores como John Mearsheimer e Stephen Walt (The Israel Lobby and the US Foreign Policy ou por um marxista como James Petras (The Power of Israel in the United States). De facto o sionismo judeu transformou-se numa doutrina global.

    Quanto ao Niet só podia dar no que deu: o insulto acusatório de anti-semitismo baseado em juizos de valor (e na noção de autoridade com que aplica o “Mr” ao portador de mensagens cognitivamente dissonantes; fora da filosofia pós moderna o cavalheiro evapora-se, sobra nada, niet) e a uma vaga alusão ao “islamofascismo”. No minimo vai ter de explicar onde se situa esse poder, se é que existe fora da contrainformação que possibilita a incrementação da “guerra ao terrorismo” imaginada pelo bushismo

  29. Carlos Vidal says:

    Certo, xatoo, V. não disse que há relação entre o BE e o sionismo. Sublinhe-se pois o que disse: o sionismo é omnipresente, ora porque é que não estaria presente no BE?
    Quanto ao sionismo como doutrina política, está aqui:
    “a força do sionismo contemporâneo (…) pode explicar a razão da impotência de todas as administrações americanas para colaborar na resolução de um problema que a todos – judeus e árabes – atormenta (e mata).”
    É política pura e dura, ou seja, é colonialismo e apartheid puro e duro.

    O Niet hoje não passou por cá.
    Não deixaria de ser curioso saber mais do que pensa sobre o conflito israelo-árabe (pode ficar para outro post). Será Niet equidistante aos dois pólos? Culpa um e outro pela violência incessante?
    Esta é, para mim, uma posição insustentável: entre uma força bruta de destruição de vidas e de ocupação/colonização e uma comunidade que resiste e à qual o mundo virou costas, não há outra escolha que não a única possível. Lógica, diria um matemático.

  30. miguel serras pereira says:

    Bom dia a tod@s
    a deriva da discussão nesta caixa de comentários descambou no anti-semitismo. O que nunca pensei que fosse possível nos termos presentes – por parte do Carlos e do Xatoo.
    O que é que quer dizer, por favor, esta frase do Xatoo?

    “eu não afirmei em lado nenhum que a doutrina sionista tinha relação com o Bloco de Esquerda; o que eu afirmo é que o Daniel Oliveira tem essa relação, por via da pertença a esse grupo étnico, que aliás já assumiu publicamente.”

    O sionismo ou anti-sionismo são a pertença a um grupo étnico?
    A política do governo israelita é determinada pela etnia?
    O conflito israelo-árabe é uma luta de raças?

    Como é que o Carlos Vidal deixa passar estas coisas – afirmando que o sionismo está em toda a parte, menos no PCP, ao que suponho, que, para o Carlos, se distingue dos outros por uma superioridade que prima sobre a experiência empírica e a derroga -? Já agora, como é que o Carlos e o Xatoo definem etnicamente o PCP? Por que “pureza de sangue”?

    Terá o Carlos lido, de facto, o Edward Said? E, se sim, onde é que nele leu que o anti-sionismo arafatiano ou do Hamas valia como legitimação política dessas organizações? A guerra suja de Israel contra os palestinianos justifica a ditadura monstruosa a que estes são submetidos pelos que se reclamam da sua “representação”? Ou uma ditadura tornar-se-á mais aceitável se for nacional ou etnicamente “pura”?

    E, se em vez de ultimatos de diva ao Manuel Alegre – até ver o que diz o PCP, que, já se sabe, ele e só ele poderá transubstanciar a candidatura daquele em mais um passo em frente para “outra política” – o Carlos postasse a este propósito algumas citações do Edward Said e tentasse pensá-las, de modo a ver e a dar a ver, não o que no BE é sionista, mas a sua reticência lamentável quando se trata de criticar certos regimes que mantêm na servidão mais degradante os povos do “mundo árabe” ou de tradição cultural islâmica?

    msp

  31. Peste! says:

    Caro CV,
    Na minha humilde opinião, o detalhe da fractura deveria ter incidido sobre as pernas daquele homem que tem um pé de cada lado. A mensagem ficaria mais explícita.
    Cumprimentos,
    Peste

  32. xatoo says:

    miguel serras pereira
    a colagem que faz entre aquilo que eu aqui afirmei e o Carlos Vidal é muito, muitissimo apressada (rotulando a desproposito a conversa com o inevitável puxar de gatilho da arma do “anti-semitismo” e o implicito e censório “não devias deixar passar) mas a pressa deixa de imediato ver o rabo com o gato todo de fora. Se insistir na colagem entre “xatoo” e CVidal eu por mim posso deixar de frequentar esta caixa de comentários (se me apetecer) pq não me apetece que tente minimizar e denegrir por interposta pessoa a maioria das opiniões de CV com as quais na maioria das vezes concordo.
    e já agora, dois conselhos msp: reveja o seu entendimento sobre a diferença fulcral entre anti-sionismo e anti-semitismo; há muitos judeus (uma “raça” inventada segundo o judeu Schlomo Sand) que não são sionistas. Eu e quase toda a gente lemos o “Orientalismo” do Edward Said e sabemos que a expressão “oriental” foi tb uma invenção do Ocidental para melhor colonizar todo um mundo subjugado a uma única designação. Como se vê, por aqui não vamos ter ao moinho msp
    e releia p/f o que foi escrito no m/coment. “o mais pujante de todos os “ismos”: o Sionismo, a doutrina nasceu da mesma raiz do socialismo revolucionário de meados do século XIX e da Revolução de Outubro; os seus mentores eram quase todos (judeus) de origem russa e eslava” – logo, por evolução natural, o PCP nunca poderia estar isento desta contaminação. Toda a gente sabe que o assunto é tabu no partido. Vários militantes têm inquirido as direcções (p/e Jorge Cadima, das relações internacionais ou o Domingos Abrantes, e a resposta é sempre a de chutar para canto). Logo, o recado que dirige a CV “o sionismo está em toda a parte, menos no PCP” vem tb muito a despropósito
    e uma conclusão: será tão dificil provar que o Sionismo Global existe (e não apenas territorialmente no actual estado Israel), como os teólogos revisionistas das novas ideologias autónomas “de esquerda” terão de provar que são um grupo que existe e se procuram institucionalizar com a missão não declarada de partir em dois o movimento comunista para acabar de vez com ele. Não será inocente a regular defesa do danieloliveirismo feita por msp.
    Não tente esconder o rabo

  33. Josina says:

    Se o PCP é o único lugar decente da vida portuguesa tenho mesmo de viver indecentemente.

  34. Carlos Vidal says:

    1.
    Vamos. É preciso sair da toca do Bach pelo Masaaki Suzuki, grande regente e um dos quatro magníficos a fazer do mestre de Leipzig a integral das cantatas sacras (os outros são, como se sabe: Ton Koopmann, Gardiner e Harnoncourt). É pois preciso sair desta toca celestial em que me encontro, pois alguém me chama… e logo anti-semita. Nada mau para quem se levanta tarde, como eu.

    2.
    Posições claras: não conto para nada nisto (internacionalmente), mas sou contra a existência do estado de Israel, por ser – isso mesmo – um estado religioso e, sobretudo, militar (força de ocupação/colonização brutal).

    3.
    Sou favorável, claro, a uma solução que eu chamaria de “solução Mandela” ou “solução Said”; ou seja: estado bi-nacional – um homem um voto (os votos de árabes teriam de valer o mesmo que os votos dos não-árabes, judeus, ou quaisquer outros). Espanta-me que o Miguel Serras Pereira, que enche permanentemente a boca com a palavra “cidadão”, não perceba isto – aquele território em disputa há décadas só pode ser o “estado dos cidadãos” e não o “estado dos judeus” ao lado do “estado dos palestinianos”.

    4.
    Nos meus comentários desta caixa, nunca me referi ao PCP, nem às relações PCP/Médio Oriente. Disse, e repito, que na jogada do BE chamada “Manuel Alegre” o PCP está limpinho. Nada a ver e ainda bem (como em quase tudo o resto).
    Quem vê “PCP” em todo o lado tem algum problema a resolver, político ou outro.

    5.
    Sobre Edward W. Said pode ler-se (se se quiser):
    - Carlos Vidal, “Edward W. Said: O exílio contra a diferença”, Lisboa, Prelo (IN-CM), 7, Janeiro-Abril, 2008 (pp. 36-54).

    6.
    Agora, vou voltar pró sono. (Posso?)

  35. 1896 says:

    Do que gosto é de literatura!
    Ora vejam lá se – no século XIX – não estava já tudo analisado e mais do que diagnosticado?
    “Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado…”. (É Fado??? Parece que sim…)

    “Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio,
    fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora,
    aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias,
    sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice,
    pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;
    um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;
    um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom,
    e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que
    um lampejo misterioso da alma nacional,
    reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
    Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,
    não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha,
    sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima,
    descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas,
    capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação,
    da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
    Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo;
    este criado de quarto do moderador; e este, finalmente,
    tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
    A justiça ao arbítrio da Política,
    torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
    Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções,
    incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos,
    iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero,
    e não se malgando e fundindo, apesar disso,
    pela razão que alguém deu no parlamento,
    de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.”

    Guerra Junqueiro, 1896.

  36. miguelserraspereira says:

    Xatoo,
    1. quem confundiu as coisas foi você: foi você que explicou que o DO era sionista por ser judeu, como ele próprio, de resto, teria declarado publicamente.
    2. Não fiz qualquer apelo censório. O “deixar passar” a que você se refere significa que o CV não se demarcou do seu comentário como devia.
    3. Não sei o que é o danieloliveirismo e não defendo as posições do DO sobre uma quantidade de coisas. Já o disse claramente neste blogue em mais de uma ocasião (sobre questões de fundo, que discuti com o Viana em várias caixas de comentários; sobre o apoio à candidatura de Alegre, ainda recentemente). Mas não é razão para fazer dele o meu inimigo político principal ou aprovar a sua promoção a cérebro da reacção pró-socratista.
    4. Acredito que você não se queira anti-semita, mas nesse caso seria bom que retirasse daí as conclusões que se impõem e se abstivesse de invocar a raça do DO, ou de outro qualquer, como argumento político.

    Carlos Vidal,

    1. Justamente, eu apontei a incoerência que era um leitor de Said citar aprovadoramente um comentário anti-semita sem se demarcar do anti-semitismo (ainda que quisesse apoiar o resto).

    2. Sempre defendi que a solução do conflito israelo-árabe seria idealmente uma república de cidadãos sem distinções de origem nem cláusulas confessionais. No que me limito a retomar o legado das posições assumidas por gente como Martin Buber, Hannah Arendt, e forças políticas hoje subalternizadas, desde o pós-guerra imediato, ou, mais exactamente, desde que os sionistas e outros conceberam qualquer coisa como a solução que viria a vingar. Mas isso não me leva a absolver-te, nem ao PCP, nem ao BE, quando, vestindo a pele do anti-sionismo, não denunciam como deveriam regimes monstruosos que, no mundo árabe ou noutros países de tradição islâmica, fazem guerra aos seus próprios povos.

    3. Se eu estivesse na pele e no papel do Manuel Alegre ou do Daniel Oliveira, condecorava-te. Ninguém mais os tem promovido tanto como tu. A tua demonização delirante dos ditos, os teus ultimatos e as tuas vociferações menorizam e envolvem numa nuvem compacta de não-pensamento aquilo que, em termos diferentes, num caso e noutro, pode e deve ser criticado.

    4. Mantenho que o apoio que FL concedeu em nome do BE a Manuel Alegre assim que este se declarou disponível foi uma atitude que revela um funcionamento democraticamente inaceitável. Dito isto, pergunto-me o que dirás tu e outros, que se movem na mesma órbita da qual a URSS foi o sol, no caso nada improvável de o PCP decidir – ainda que como um mal menor, ou para fazer frente a Cavaco – apoiar Alegre, sem que este tenha dado satisfação às cláusulas do ultimato que lhe endereças.

  37. Niet says:

    Contra o Fanatismo- O Carlos Vidal exortou-me a uma declaração de princípios sobre a longa e trágica guerra israelo-árabe. Embora tivesse feito buscas em diversas obras de teoria política e geoestratégia – Pierre Hassner, Sartre e Alexandre Adler -a minha opção vai para as posições muito claras, poéticas e transcendentes, assumidas pelo admirável escritor e militante de origem judaica, Amos Oz, a favor da Paz e da construção de dois Estados livres, independentes e cooperantes na zona. Soube que, entretanto, acaba de ser publicado nos USA, um livro de ensaios de um dos maiores ensaistas do Holocausto, de esquerda não-alinhada, Leev Sternhell, que apoia desde o início o movimento Peace Now. Cooperou com I. Berlin e Tony Judt em inúmeras iniciativas públicas e editoriais para combater o ódio fratricida que teima em perpetuar-se noaquela zona mártir do Próximo Oriente. Niet

  38. Nuno Ramos de Almeida says:

    Niet,
    É interessante que você não tome posição entre palestinianos e os seus ocupantes. Coisa de somenos. Já agora, não existe nenhum Leev Sternhell, mas um Zeev Sternhell, historiador, autor de vários livros sobre o fascismo e a extrema direita (recomento o Direita Revolucionária) e de uma, excelente, história do sionismo, em que defende que o partido trabalhista “traiu” o movimento operário ao adoptar uma ideologia que dividia os operários segundo a sua raça e religião.

  39. Niet says:

    N.Ramos de Almeida: Como não gosto de brincar com coisas sérias, tirei a referência ao novo livro do Zeev Sternhell no maravilhoso blogue Aldaily. Com. Como a idade não perdoa a falta de visão mais profícua, e pela tentativa falhada de agenciar melhor pista(s),tresli e gralhei…Já agora desvendo-lhe um segredo de polichinelo, que lhe deve ter também ocorrido: Qualquer discussão na Net com o mínimo de qualidade e Infomação deve- a não ser que nos queiramos prostar nas águas turvas da diversão -mobilizar o maior número de dados,conceitos e interpretações. Como grassa grande desordem nos meus Arquivos, foi-me impossível recolher dados dos ideólogos e activistas palestianos favoráveis à hipótese política que tento defender. Niet

  40. Nuno Ramos de Almeida says:

    Meu caro Niet,
    A gralha tem pouca importância, o que me irrita na sua posição é a sua “equidistância” entre os palestinianos e os seus ocupantes. Estou convencido que entre os vietnamitas e as tropas dos EUA você escolheria o Dalai Lama; entre os ocupantes indonésios e os timorenses o seu voto iria para o Carlos Paião e acharia moralmente iguais os palestinianos assassinados em Sabra e Chatila e os seus carrascos. Eu não tenho opinião sobre o futuro da região, não sei se é possível um Estado e dois povos ou dois Estados, apenas sei que me é intolerável o massacre dos palestinianos, como me seria o massacre dos judeus. Não é uma questão de anti-semitismo, alías como você sabe, tanto pelestinianos como judeus são povos semitas.

  41. Niet says:

    NR de Almeida:Verdade, verdadinha, a saltar, confesso-lhe que há, pelo menos, dois três meses que ” desliguei” da cena médio-oriental. Claro que me chocam os miradores, os muros, as patrulhas dos israelitas, desde sempre.Entendo que, tudo isso, agencia uma escalada interminável na guerrilha entre Israel e os grupos sitiados de palestinianos de Gaza e da Cisjordânia.Para aquilo que me interessa e posso perceber, para fundamentar o meu conhecimento e raciocinio, só tenho duas hipóteses: ou que o NR de Almeida me faculte a sua Informação sobre o acontecimento(s); ou me conceda a liberdade de eu a procurar, sem limites de tempo ou espaço, se estiver virado para tal objectivo ou interpretação. Salut! Niet

  42. miguelserraspereira says:

    Caríssimo Nuno,
    sem dúvida, não há maneira de considerar que são os palestinianos que oprimem os israelitas, e tudo o que podemos é condenar a política do Estado de Israel, exigir sanções, apoiar campanhas contra ela, etc. Quero crer que o Niet não dirá o contrário, mas ele falará por si. Dito isto, não basta que o Hamas se bata contra o Estado de Israel para nos calarmos acerca da sua brutalidade ditatorial, cujas principais vítimas são os mesmos palestinianos. É aqui que a lucidez e a coragem de um Edward Said nos pode fornecer critérios de juízo político e princípios de acção. Tal como tem inspirado e merecido o apoio de princípio dos israelitas que se batem contra a perpetuação da opressão que o seu Estado exerce sobre outro povo. Por mim, penso que são as iniciativas de paz em que cooperem em pé de igualdade elementos dos dois povos, juntamente com os esforços dos que se batem pelas liberdades e direitos contra as violações que contra eles praticam as autoridades de um campo e de outro, que mais podem contribuir para transformar a situação existente.
    Abç

    msp

  43. Carlos Vidal says:

    caros Niet, Miguel,
    Os vossos comentários, curtos ou desenvolvidos, sobre o mundo capitalista ou sobre o conflito israelo-árabe (atenção, que eu falo aqui de dois assuntos e não de um amálgama), resumem-se a isto:

    - Israel/Palestina:
    É inaceitável a ocupação sionista, e são inaceitáveis as formas de resistência palestiniana.
    Ora, em última análise, tudo deve e tem de ficar como está.

    - Sobre o capitalismo mundial/global:
    É inaceitável a exploração do mundo do trabalho e do trabalhador/produtor, e são igualmente inaceitáveis as formas existentes de resistir, criticar, transformar aquilo que existe.
    Ora, em última análise, tudo deve e tem de ficar como está.

    - Estes raciocínios e argumentários já não enganam nem espantam ninguem.

    - Sobre tudo o resto, é sempre o mesmo bicharoco de rabo na boca.
    Zelam cirurgicamente e obsessivamente pela ordem das coisas de acordo com os senhores do poder sobre/nas coisas, legitimando toda e qualquer forma de injustiça (por elogio das “acções” inertes).
    Preferem sempre, invariavelmente, o statu quo à mudança, seja ela qual for.
    É um projecto reaccionário como qualquer outro. É mesmo um projecto de vida que me parece pertinente assumirem.

    Esquecem-se de um pormenor importantíssimo: um resistente palestiniano que se passou para o lado do Hamas, combate mais pela sua dignidade do que pelo Hamas. Sempre.
    A distribuição das “culpas” pelos dois lados é, para mim, e para não dizer pior, inaceitável. Ponto final.
    Quanto a demarcações. Claro que não me vou demarcar de nada nem de ninguém. Primeiro, porque não estou num tribunal; segundo, porque não vi aqui ninguém demarcar-se dos textos “compreensivos” com os projectos genocidas sharonescos, textos de uma tal Esther Mucznik (que sempre que escreve sobre Israel, defende as posições do poder em Israel, seja ele qual for).

    Mas, quanto ao essencial, é isto: estarei do lado do Hamas se os palestinianos do lado do Hamas quiserem estar. Estou, aqui, incondicionalmente do lado dos ocupados. Nada mais havendo a dizer, lavre-se esta acta.

  44. miguelserraspereira says:

    Carlos,
    1. Sobre a questão israelo-árabe, lê por favor o que escrevo no post que nesta caixa de comentários precede imediatamente o teu. Se o fizeres, verás que defendo precisamente o contrário das posições que me atribuis quanto à questão palestiniana.

    2. Sobre o capitalismo mundial/global: não sei onde foste buscar a ideia de que eu acho inaceitável resistir, combater, lutar contra o capitalismo. A menos que queiras dizer que “as formas existentes de resistir, criticar, transformar aquilo que existe” são a ordem capitalista da República Popular da China ou a monarquia m-l da Coreia. Explicitando as coisas: entendo que é necessário desenvolver formas de luta que substituam a divisão política do trabalho (“relações de produção”) existente pela cooperação, a autogestão e comunização (viva, Zé Neves!) na esfera da economia, e que substituam a divisão do trabalho político (a distinção entre governantes e governados, mascarada de distribuição de papéis entre representantes e representados) pelo autogoverno democrático dos cidadãos. Defendo também a democratização radical do mercado através da igualização dos “salários” e rendimentos e a exclusão da força de trabalho e de uma enorme proporção de bens (“comuns”) da esfera mercantil. De onde poderás concluir que não só considero urgente uma transformação das bases políticas e económicas da ordem estabelecida, como penso que a sua manutenção e reforço tendem a cada dia que passa a agravar a exploração e a opressão.

    msp

  45. Niet says:

    Carlos Vidal, um neo-leninista fora do vulgar- Mesmo a milhares de Kms de distância, ao largo de uma realidade socio-política dramática e estagnada- o ” mau aluno ” da U.E. – sua irradiação negativa e disseminante ataca tudo e todos, em todos os patamares- o “study case” bloguistico de C.Vidal não cessa de nos intrigar e interpelar.A sua força intelectiva é de tal ordem que é objecto mesmo de discussão no blogue artilhado da reacção sofisticada, o ” Blasfémias “, como devem já ter visto. O seu neo-leninismo de bazar sofisticado, a sua ironia e voluntarismo trabalhados pela alta voltagem conceptual de Alain Badiou não conseguem, no entanto, vencer a tentação totalitária que os envolve. A pulsão da vontade de poder não deve minimizar o diktat fulgurante de Gilles Deleuze:” Nós não temos falta de comunicação; pelo contrário, temo-la em demasia, temos falta de criação.Temos falta de resistência ao presente “. E isso produz o dilema que Castoriadis analisou tão profundamente ao analisar Maio 68 e a sua ” colectivização espontânea “. ” Aceitar que o acto exclui a reflexão é implicitamente admitir que qualquer reflexão não tem objecto verdadeiro. Como o homem não pode passar sem isso, é portanto entregar o campo da reflexão aos mistificadores e aos ideólogos da reacção. Aceitar que espontaneidade e organização se excluem é entregar o campo da organização – sem o qual nenhuma sociedade poderá sobreviver um dia – aos burocratas. Aceitar que racionalidade e imaginação se excluem mútuamente é nada ter compreendido duma e doutra. Onde a imaginação ultrapassa o sonho ou o delírio e leva a resultados duradoiros, é por constituir novas formas universais; onde a racionalidade é razão criadora e não repetição vazia é por se alimentar de fontes imaginárias que nenhuma pseudo-racionalidade ” científica ” pode explicar. (…) Se a revolução socialista tem um sentido, não será com certeza substituir os burgueses por burocratas ” operários “. Seria no entanto a isso que ineluctávelmente chegaria, se recusasse enfrentar estes mencionados problemas “. ” Só esta acção introduz na História o minimo de movimento e de verdade que ela pode tolerar “, frisa ainda C. Castoriadis no seu luminoso texto sobre” Mai 68: La Brèche “. Niet

  46. Aniceto Azevedo says:

    Caro Carlos Vidal,

    A acta lavrada às 2:09, que brilha de dignidade, será por mim assinada. Com orgulho e gosto. Não há mais nada a acrescentar.

  47. j says:

    «Manuel Alegre é o paradigma do “funcionário público político”. Tendo feito “carreira” na “luta pela liberdade” foi “admitido” na Assembleia da República e nunca mais de lá saiu. Entretanto, foi escrevendo uns livros.

    Quando decidiu, há muito tempo, chegar a “general”, então, reformou-se com o tempo todo de serviço. Neste processo de decisão fez as encenações políticas convenientes. Fazendo parecer que não fazia parte do “sistema” quando ele é o “sistema”.

    Acaba a «perder o juízo» querendo ser presidente da república. Um problema complicado para o Partido Socialista. Ou talvez não. Porque para o Partido Socialista é de toda a conveniência que Cavaco Silva continue.

    E não tenho dúvidas. De que Manuel Alegre nunca será presidente com o Partido Socialista no governo.»

  48. Pingback: IMPORTANTE: De como logo que aqui cheguei (ao “5dias”), eu pude mostrar ter toda a razão quanto a este tema: que ou Manuel Alegre destruía o “PS”, ou este o destruiria a ele, Alegre, o bardo (e fiquei-me na expectativa, exigindo

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