Perguntas simples aos alegristas complexos

Como o debate político por vezes fica demasiado esdrúxulo, particularmente quando se defende o contrário do que se defendeu ontem, lembrei-me de fazer três ou quatro perguntas muito simples e um apelo aos alegristas. Não a todos. Àqueles que combateram Alegre quando este não tinha o apoio do PS e do governo e se preparam para o apoiar agora que ele deixou de ser candidato independente e carrega o peso do PS, do governo e da defesa da maioria absoluta.

O Alegre da primeira corrida eleitoral estava contra o PS e ainda assim sofreu marcação cerrada e candidatos próprios de todos os partidos de esquerda. Agora que Alegre leva na albarda a defesa do governo Sócrates, e passou a ser o candidato oficial do PS, as mesmas figuras que o combateram como independente atiram-se desta feita para os seus braços, com mais ou menor amor, mas desertos por tirar o pano ao beijo envenenado.

A este propósito nada como ler o texto que serviu para a principal corrente do BE informar os seus camaradas do Secretariado Unificado da Quarta Internacional sobre as últimas eleições presidenciais. Algures no meio da análise pode ler-se uma das melhores caracterizações de Alegre. Mal posso esperar pela nova abordagem desta associação política, volvidos cinco anos e reciclado que foi Alegre como candidato do governo. Estou morto para ler a revisão histórica na pena da Alda Sousa ou outro qualquer socialista revolucionário a quem seja entregue tarefa tão ingrata e obtusa.

Será qualquer coisa do género: ontem era mau e fomos contra; hoje é pior mas somos a favor. E ainda por cima sem condições como disse em conferência de imprensa o líder parlamentar do BE, José Manuel Pureza.

Aqui ficam as perguntas:

1ª- Se alegam que querem trabalhar com os desiludidos do PS porque é que o caminho que lhes sugerem é precisamente a origem da sua desilusão, ou seja, o mesmo PS e o mesmo socialismo democrático? A contra-mão do sentido que tomaram? Não será isso manda-los de volta para o sítio de onde estão a sair? Não será isso, passe o exagero polémico, mandar o escravo de volta para o tempo da escravatura depois de este ter ganho a liberdade?

2ª- Estão na disposição de colar cartazes, apelar ao voto, fazer comícios e arruadas, na companhia do primeiro-ministro José Sócrates e demais membros do governo, condescendendo à defesa sistemática e orgânica das políticas levadas a cabo por eles nos últimos anos? Conseguem assumir o vosso apoio ao Alegre independentemente do lastro do PS e do governo? Não vislumbram a alegria de Sócrates com este cenário?

3ª- Se apoiam Alegre para derrotar Cavaco porque não o fazem apenas na segunda volta depois de terem apresentado as ideias dos partidos nos quais estão inseridos? Cansaram de dizer que o voto útil é o voto nas ideias depois de terem passado tanto tempo a defender essa conversa?

Por fim o apelo: conseguem ser claros a responder a estas questões sem dizer que alhos são iguais a bugalhos ou que o rosa é igual ao vermelho?

“E se Sócrates apoiar [Alegre] “por arrasto”? E se não participar na campanha? E se na construção e na dinâmica da campanha eleitoral de Alegre se expressarem várias componentes de esquerda na qual o PS não estando ausente, não seja hegemónico? É obvio que Alegre não quer nem pode alienar o eleitorado socialista mas ao mesmo tempo sabe que a única forma de ganhar é não se colar a Sócrates.” Miguel Cardina

“Não vês que com Sá Fernandes e Roseta se aposta na democracia participada enquanto Sócrates é centralista? Não vez que o Governo é corrupto enquanto Sá Fernandes foi até agora o único político que se foi queixar à polícia de que lhe estavam a fazer olhinhos? E sobre o tema central do ambiente? Também é todo farinha do mesmo saco? E Alegre não tem tomado boas posições em relação aos serviços públicos, ao código do trabalho, à segurança social, ao SNS?” Saboteur

“Perante a possibilidade de ter um candidato oficial do PS escolhido pela direcção do PS, voto no candidato que podendo derrotar Cavaco e não sendo a escolha querida de Sócrates assusta António Vitorino. Perante a possibilidade de um Jaime Gama ou sucedâneo para chegar ao centro-direita tomando a esquerda à esquerda do PS como garantida na segunda volta, voto no candidato que podendo derrotar Cavaco, não é a escolha querida de Sócrates, assusta António Vitorino e precisa do empenhamento de toda a esquerda logo à primeira. (…) Não tenho qualquer intensão de ter o PS como compagnon de route.” Daniel Oliveira

“Votarei em Alegre não porque o sinta como oráculo da Pátria, salvador do povo ou derradeiro avatar de D. Sebastião, mas porque o encaro como veículo para ajudar a exorcizar essa concepção puramente administrativista da política que nos tem subjugado.” Rui Bebiano

“Com o território à esquerda tão densamente povoado, é lícito supor uma adaptação às circunstâncias no modo como a campanha viria a transformar Alegre numa insólita miscelânea de populismo anti-partidos,  nacionalismo saudosista e memória anti-fascista (versão  narcisista). Se acaso a votar em Manuel Alegre nas próximas eleições será porque a vontade de me despedir de Cavaco Silva encontrou respaldo na capacidade de esquecer o Manuel Alegre de 2006. Não depende de mim.” Bruno Sena Martins

“As eleições presidenciais, cujo debate político será tão importante ao longo deste ano, são eleições que se vão decidir na primeira volta entre duas opções fundamentais: a vontade de uma mudança intransigente, contra a injustiça, ou o situacionismo que quer manter o país e os seus poderes económicos e sociais exactamente como eles estão. (…) É tão importante que haja uma candidatura que saiba tomar posição, como fez Manuel Alegre. E tanto incómodo que ele criou; e tanta esperança que ele mobilizou.” Francisco Louçã

“O Bloco de Esquerda apoia Manuel Alegre como candidato presidencial sem condições.” José Manuel Pureza (citado de cor a partir das declarações proferidas na conferência de imprensa do BE sobre as presidências)

“Manuel Alegre, a member of the PS since forever, was annoyed at not being the choice of Sócrates and made inflammatory speeches against the political parties (!) and their apparatuses, defending an active citizenship. He avoided criticising the government, missed the parliamentary session which voted for the 2006 budget, and remained vague on numerous questions.” Alda de Sousa (sobre Alegre nas últimas eleições presidenciais)

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