O instante indeciso

Augusto Alves da Silva tem uma exposição retrospectiva em Serralves. Visitá-la foi para mim a revelação de um dos mais singulares e inconfundíveis produtores de imagens do nosso país. Nem mais.
Não que tal se constate à primeira mirada: como vários críticos já anotaram, a excepcionalidade destas imagens deve ser procurada; não se conquista sem algum esforço.
Vivendo como vivem na encruzilhada entre tantos géneros (o retrato, a paisagem, a reportagem) as obras de AAS sugerem a corrida para os braços do inevitável Barthes; ali recenseamos a presença do studium, a óbvia qualidade ilustrativa (o postal em potência) de muitas destas imagens; mas precisamos de tempo para localizar o epicentro do punctum, a nota dissonante que entra em ressonância com a privada memória, o íntimo sobressalto. E muitas vezes nem o encontramos: se em imagens mais flagrantes (o sem-abrigo que gesticula para o fotógrafo escondido entre os Ferraris, o veado que mira as obras junto ao Zoo) por vezes a “mensagem” se torna demasiado visível, a falta de teatralidade da maioria das fotografias exibe uma rarefacção absoluta de significado e de emoção. No entanto, elas emocionam-nos e crescem debaixo das nossas pálpebras, segredando-nos algo que não se reduz a adjectivos mas que se impõe como urgente e vital. Estamos a anos-luz dos instantes de Cartier-Bresson, das objectivas a correr atrás de histórias humanas, em busca de composições reveladoras.
As fotografias de AAS (não que a presente mostra a elas se limite) expostas no Porto atravessam anos, temas e atitudes diversas sem deixarem de nos atingir com uma força que é estranhamente una – o comentário com conotações políticas, o nu flagrante, a paisagem esventrada por estradas, a indústria surpreendida em plena marcha, tudo impressiona estes negativos com a mesma pulsão inquisitiva.

O que se passa debaixo da pele do mundo? O desamparo, a imensa e inapelável solidão. E se a foto no topo do post ilustra este diagnóstico, ao isolar os corpos em ilhas solipsistas batidas pelo vento real e também por tormentas interiores, certo é que muitas vezes AAS prescinde da figura humana sem nada perder. Ao desvelar-nos uma estrada de terra algures em Espanha ou um amontoado de tubos em aparente levitação, erguidos por uma grua, tudo lá permanece: o dépaysement, o prolongamento do olhar até que a sintaxe das coisas se desfaz em novelos carentes de sentido – como palavras repetidas vezes a mais. Nada de novo, ao fim e ao cabo: de Chirico a Hopper, de Millet a Valls, tantos já retrataram a liquefacção do real, quando escrutinado de perto. O detalhe obsessivo, a atenção à profundidade de campo e à visibilidade absoluta só tornam mais pungente este olhar sobre a frágil ossatura do mundo, das coisas – já pelo menos desde Duane  Hanson sabíamos que a reprodução mais fiel é por vezes a mais melancólica.
Mas poucos conseguem mostrar-nos essas fragilidades do real com imagens tão pouco trabalhadas, tão aparentemente desprovidas de intenção. Em AAS, até o sexo, mesmo que na sua pele mais óbvia e dura, surge remoto e infectado por dúvidas.
Por fim, o efeito “postal ilustrado” não dura mais que uns segundos; e a dificuldade maior surge não na detecção da singularidade destas imagens mas sim no regresso à banal óptica das nossas retinas, mal saímos de Serralves. O olhar de AAS tinge o nosso.

PS: se forem ao Porto, lembrem-se de passar também pela excelente Galeria Pedro Oliveira. Dali, os mais abonados poderão levar uma obra de AAS para casa…

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