
Há espécies que tendem a atrair as esperanças de quase toda a humanidade. Espécies que gostamos de adorar como se fossem a essência de todo o bem. Os bombeiros, por exemplo. Toda a gente gosta dos bombeiros e a humanidade descobre-se sempre um pouco mais falhada quando se sabe que, afinal, foi mesmo o bombeiro quem ateou o fogo. Semelhante descrença ocorre quando os fiéis descobrem que alguns padres tendem à criminalidade sexual, embora o padre, diga-se, tenha melhor sorte que o bombeiro e este possa legitimamente invejar a resistência da figura clerical às provas que dão conta da sua possível malignidade.
Quando entramos no universo infantil, os referentes alteram-se. Além da avó e do avô (que neto pode não gostar da sua avó ou do seu avô?), temos os golfinhos. Basta dizer que funcionam como o negativo do terrível tubarão. Mesmo os Simpsons – naquele episódio em que Springfield é atacada por golfinhos-assassinos, no que terá sido uma sátira aos tubarões do Spielberg? –, mesmo os Simpsons, dizia, não conseguiram colocar em causa a pureza do golfinho.
Ora, os professores pertencem a este mesmo tipo de espécie. As razões serão muitas. Entre elas, é claro, o facto de existirem muitos professores de que os alunos guardam as melhores memórias. A tentativa de transformar os professores em tubarões junto da opinião pública, tentativa que marcou parte da última legislatura, desde logo embateu com aquelas memórias. Agora, se não acreditamos em tubarões, também é verdade que não devemos acreditar em golfinhos. E por isso importa debater o modo de governo que impera na sala de aula, debate este que tem estado envolto em mistificações de vária ordem.
A primeira mistificação é de ordem historiográfica e traz consigo uma série de outras mistificações: os críticos do eduquês tendem a julgar que o modelo antigo – isto é, o modelo que os terá educado – era muito melhor do que o modelo actual; o modelo antigo seria um modelo que tinha defeitos mas que produziria resultados positivos. Ou seja, notem bem, os críticos do eduquês fazem o elogio de si e da “sua” geração, o elogio deles que, apesar de terem sofrido às mãos da escola salazarista, resultaram ainda assim como… bons. Eles são os tais “resultados positivos”, que assim se distinguem da “massa” que hoje atravessa as escolas e este efeito de distinção que é assim obtido não devia ser tão facilmente ignorado por muitos dos que – à esquerda, pelo menos à esquerda – aderem tão facilmente à crítica ao eduquês. Alguns historiadores da educação, como Jorge Ramos do Ó, Rui Canário ou António Nóvoa, têm chamado a nossa atenção para isto mesmo. Sem muito sucesso, diga-se, porque a malta gosta é do Nuno Crato, das bujardas que a Maria Filomena Mónica manda sobre o assunto ou do Marinho Pinto a lamentar o laxismo em que isto está desde que se abandonou a obrigatoriedade do latim na infantil. Enfim, à direita como à esquerda, prefere-se muitas vezes saudar a estratégia da punição enquanto forma de civilização. Tal como sucedia nas colónias, exactamente assim: será preciso infligir dor e provação para que o infligido se “faça homem”.
Os críticos mais sofisticados do eduquês dizem mesmo que “isto” anda tudo ligado. E que o mal é do neoliberalismo e do novo espírito do capitalismo, de que o eduquês não seria mais do que o complemento perfeito. No fundo, Maio de 68 – tomado como momento épico da crítica às figuras quotidianas da autoridade: crítica do polícia-sinaleiro, do pai, do professor, do padre – seria não só contemporâneo mas também consentâneo com o neoliberalismo. Não será por acaso, acrescentam, que ambos partilhariam a crítica do Estado e a exaltação da liberdade.
O que este tipo de ideias ignora é que aquilo que se designa como eduquês, ou como modelo novo por oposição ao antigo, não é propriamente novo. Desde há muito que, nesse espaço de conflituosidade que é a sala de aula, o professor e o aluno negoceiam formas de governo. E nessas negociações a autoridade do primeiro é forçada a fazer cedências à resistência do segundo e o desejo do segundo vai sendo recuperado pela autoridade do primeiro, desenvolvendo-se assim ”modelos” de educação que não esperaram por Maio de 68 ou pelos neoliberalismos. Embora estes não sejam alheios à questão, sendo aliás aqui que podemos encontrar boa parte das diferenças entre um autor como Zizek e uma dupla como Hardt e Negri. Mas isto fica para um outro post.




“… das bujardas que a Maria Filomena Mónica manda sobre o assunto ou do Marinho Pinto a lamentar o laxismo em que isto está desde que …”
Eu sou um dos que neste particular acha que esses dois têm razão. Por exemplo, no meu tempo a ninguém ocorreria escrever “bujardas”.
A discussão a que aqui assisti sobre o “eduquês” é essencialmente a mesma que teve lugar sobre outras roupagens também neste blogue, entre os que defendem o cepticismo perante a autoridade e os que se sentem desconfortáveis (para dizer o mínimo) perante tal posição. Obviamente, autoridade à Esquerda (o partido, a vanguarda, a inteligenzia) não significa superficialmente o mesmo que à Direita (o clero, a aristocracia, o dinheiro), mas a exigência de prostração perante os seus detentores é a mesma. E é isso que importa constatar. Para que se perceba que nem todas as revoluções vão dar ao mesmo sítio.
O que cada vez falta mais nas escolas portuguesas é a democracia! É esquesito ver tanta gente a falar de “liberdade” como abstracção e, achar normal que as escolas se transformem cada vez mais em espaços onde aliberdade falta e abundam os conceitos neo-liberais de individualismo e sacanagem.
Sim, aparentemente, na “antiguidade” ninguém escrevia mal e todos sabiam ler obras de literatura comparada. Os professores eram uns senhores e os alunos portavam-se como deve ser. Sim, aparentemente. Quem fosse diferente que se amanhasse, quem fosse indisciplinado levava até às lágrimas e os professores chegavam sempre ao topo da carreira, nem que fosse só por estarem. Os professores bons eram bons e os maus também eram bons, nem pensar em questionar a autoridade e a incompetência. Hoje em dia não. Há o bom e o muito bom, o razoável e o excelente. E se alguém não sabe ler bem porque não teve as mesmas oportunidades do filho do senhor doutor, a escola preocupa-se um bocadinho mais em fazer levar a água ao moinho da igualdade. A culpa deve ter sido do eduquês. Ou então da nostalgia, que não costuma ser boa conselheira na altura de analisar o presente.
Zé Neves, com toda a frontalidade continuo sem perceber bem que escola pretendes tu. Percebo o que não gostas. És bastante claro nesse aspecto. Mas pareces o Zizek a falar sobre o capitalismo. Brilhante a deitar abaixo, obscuro a apontar caminhos. Fico à espera de um post em que te esforces por deixares o que defendes mais claro. Não te esforces em fazê-lo num comentário apressado. Abraço.
jmg, no seu tempo é que era bom. é isso que tem para dizer? já agora diga logo: eu é que sou bom.
já agora, esclareça-me: acha que é bojardas e não bujardas ou acha que a palavra é simplesmente indigna de ser escrita? é coisa para para quem fala e não para quem escreve, é isso?
renato, mas eu defendo algumas coisas da escola que existe. embora seja verdade o que dizes: não tenho um pensamento estruturado em torno da escola que deva existir. mas voltaremos a isso. abç
Bom post mais uma vez. E, mais uma vez, é triste e sintomatico que o texto não seja compreendido num blogue que se reclama “de esquerda”.
Isto prova que o maior inimigo da esquerda é, hoje… a moda. Moda intelectual saloia de se dizer de esquerda porque ficamos a matar vestidos de Che Guevara, mas sem haver a minima preocupação em discutir problemas de esquerda (para além da revolução proletaria que se avizinha, de que so falamos porque a unica possibilidade de a vermos é no ultimo filme sobre o Che Guevara).
Não digo que não existam criticas certeiras à maneira como evoluiu o ensino publico, ou às politicas de educação dos ultimos 30 anos. Ninguém (nem o autor do post) esta aqui a afirmar que não devemos discutir. Mas discutir implica também perceber que a educação e o ensino, numa democracia social, têm uma função e um modo de funcionamento que não pode (continuar a) ser aquele que existia quando o sistema tinha como unica finalidade criar uma pseudo-elite de funcionarios encarregues de manter os labregos quietos no seu quintal.
E nesse aspecto, o Zé Neves tem toda a razão quando lembra que as interrogações sobre o problema (que estão na origem do que chamamos hoje o “Eduquês”) não são de ha trinta anos, longe disso. E tem razão ainda quando afirma que o facto de os professores se estarem a colar ao discurso do “antigamente é que era bom” é profundamente confrangedor, vindo de quem vem.
Confrangedor porque denota, para além de dogmatismo e de uma forma desesperada de se agarrar a privilégios (como chamar outra coisa a regalias que não são justificadas por realizações concretas ?), uma profunda ignorância da sua função.
Muito bem Zé Neves, de facto para um inimigo do, digamos, hegelianismo cortante de Alain Badiou (que não pode ser lido sem Mao, e ainda bem), não está nada mau o teu post: não conduz a nada, mas ‘tá bem. Diz Badiou que não há senão corpos (a política “bio” ou biopolítica, o “direito à vida”) e linguagens (a “livre expressão”), excepto que há verdades (que, claro, não é corpo nem linguagem). Ora, não vindo tu desta escola, fazes algo semelhante, mas sem finalidade: não apoio o modelo da autoridade, nem tudo da actual “corresponsabilidade” do “aprender a aprender”, mas não sei o que, no fundo, apoio. Ou seja, a tua relação tese/antítese não dá nem síntese nem “terceiro elemento” (como em Mao, onde o um se divide em dois, sem síntese). Esperemos então. A moderação é, de facto, um impasse doloroso.
Comentário de Viana: ora, uma vez viana, sempre viana.
Nada de sujeições, nem ao clero nem à inteligentzia, para evitar todo e qualquer tipo de prostrações. E eu que sempre gostei de me prostrar: perante Deus, Sartre, Caravaggio, um par de mamas, etc. Estou tramado.
Por mim, não duvido que os meus filhos tenham recebido preparação mais apurada e exigente em matérias como a Matemática do que eu. E os dois mais velhos fizeram do 10º ao 12º numa escola pública.
zé neves:
Hoje de manhã, como todos os dias, fui tomar café e comprar tabaco SG gigante, que é o que fumo (dois maços por dia). Dei comigo a pensar que nenhum dos meus operários pode fumar como eu, nem metade, por esse vício, ao preço absurdo a que está o maço de cigarros, lhes estar fora de alcance. Não foi sempre assim: quando fundei a minha primeira chafarica muitos operários (que cravava volta e meia, por isso sei) fumavam o mesmo que eu. Isto para dizer que o horror ao fascismo levou a que no pós-25 de Abril se rejeitasse em bloco tudo o que cheirava à velha senhora e se aderisse, entre outras coisas, a quanta moda de comportamento estivesse no ar. No ensino, não saiu dos programas apenas a propaganda do regime, o autoritarismo, a visão nacionalista e romanceada da História, etc.; e não entrou apenas a necessária actualização científica mais a prevalência do Inglês: saiu quase tudo, e entrou, à boleia de um experimentalismo acéfalo, de uma modernidade acrítica e de um igualitarismo ingénuo, a destruição da autoridade do professor e o nivelamento por baixo do grau de exigência. Não espero que concorde comigo, é claro. Mas no meu comentário anterior, aproveitando uma palavra sua mal grafada, quis brincar um pouco consigo – não leve a mal. Eu, que sou um facho retinto na vossa terminologia (na minha um democrata liberal) venho a este blogue comunista com prazer, curiosidade e, às vezes, proveito. E sempre com o respeito de quem sabe que a qualidade das pessoas não depende de se reconhecerem nesta ou naquela corrente ideológica.
Caros,
Ja sabiamos o que esta por detras da critica do “Eduquês”, ou seja, nas palavras de JMG, a denuncia de “uma modernidade acrítica, de um igualitarismo ingénuo, da destruição da autoridade do professor e do nivelamento por baixo do grau de exigência”.
Gostava é que essas ideias-feitas fossem confrontadas com a realidade, e não simplesmente tidas como provadas mercê da simples evocação das pretensas qualidades do ensino do “antigamente”, abstraindo totalmente do facto de esse ensino deixar de fora uma grande parte da população.
Que esse discurso seja aceite “acriticamente” por professores é algo que me deixa bastante preocupado…
Meus caros defensores do eduquês:
Desçam à terra. Venham conhecer a escola pública tal como ela é. Venham leccionar numa escola do 2º ou 3º ciclo do ensino básico, ou mesmo numa secundária. Depois tirem as vossas conclusões. A realidade está para além de qualquer ideologia. Não sendo “facho”, nem “democrata liberal”, nem aceitando outro rótulo, concordo em absoluto com o JMG.
Cumprimentos e desculpem esta breve falta de paciência. Pagam as teclas.
jorge, diga lá então o que é a escola pública tal como ela é…
Respondo-lhe com esta excelente comunicação. Poupa-me tempo e redundâncias. A globalização tem destas coisas: o que se encontra em França (descontando algumas pequenas particularidades locais), encontra-se em Portugal. Substitua “francês” por “português” e IUFM por ESE (Escolas Superiores de Educação) e o quadro fica composto:
http://ferrao.org/educacao/Escola.pdf
portanto, a escola pública tal como ela é, a tal que devemos ir conhecer, é igual à de frança. e como é que foi que descobriu: foi ver a escola em frança tal como ela é?
Não desconverse, Zé Neves. Quem lecciona no ensino básico e secundário em Portugal (um mundo à parte das torres de marfim das ESE) reconhece imediatamente as fortes semelhanças.
jorge, não estou a desconversar. acho piada é que, quando se trata de discutir o que se passa em portugal, você diz para irmos às escolas; mas o mesmo já não vale para estabelecer comparações entre frança e portugal. aliás, o seu princípio (vocês não sabem do que estão a falar porque não estão lá) permite-lhe apenas que fale sobre a sua própria escola…
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