Sócrates Alegre

Contra capa da revista Rubra nº5

“Sócrates governa, Alegre critica. Sócrates decreta, Alegre declama. Sócrates diz sim, Alegre diz porém. Sócrates diz não, Alegre diz talvez. Alegre canta um PS que já não existe para que o PS que existe, o de Sócrates e quejandos, continue a existir.”

Estava anunciado como o debate do ano e agora confirma-se: Alegre será candidato presidencial.

Na verdade a sua candidatura já estava decidida pelo menos desde o Verão (acredito que para o PS e o BE desde as últimas eleições presidenciais), mas a táctica política tem destas coisas e o comum dos mortais só teve direito à declaração agora. Sem surpreender ninguém que estivesse minimamente atento à realidade, o militante do Partido Socialista anunciou a sua candidatura: “Venho aqui dizer-lhes que estou disponível para esse combate com todos vós, com todos os portugueses que já estão connosco e com todos os que a seu tempo virão ajudar para mudar e para vencer, pela República e por Portugal”.

Há dez perguntas que a esquerda deve formular antes de decidir o que fazer nas próximas eleições presidenciais:

I- Quem é Manuel Alegre, que sectores representa, o que quer e para onde vai?

II- Qual natureza e a agenda do MIC (Movimento Intervenção e Cidadania)?

III- Que compromissos assumiu com o PS para garantir o seu apoio e o que fará o seu partido de sempre?

IV- Sairá do seu “eterno PS” para se candidatar à presidência?

V- Como se vai organizar a esquerda?

VI- Será melhor do que outros para unificar a esquerda contra Cavaco Silva?

VII- Que esquerda interessa unificar?

VIII- Valerá a pena a esquerda engolir novo sapo?

IX- De que valeu engolir Soares?

X- Que alternativas neste quadro político?

As respostas são no meu entender claras e levam-me a dizer desde já que votarei em qualquer candidatura que surja contra o governo e a direita.

Quem é Manuel Alegre, que sectores representa, o que quer e para onde vai?

Alegre é um histórico do partido socialista, mas é também uma aposta para o futuro. É o deputado com mais anos na Assembleia da República, e portanto aquele que mais votos deu ao programa do PS ao longo dos tempos. Sempre esteve ao lado do socialismo democrático mesmo quando este passou a socialismo liberal. Com o passar dos anos, e depois do período que se passou erroneamente a chamar de consolidação democrática, Alegre foi ganhando protagonismo pelas críticas de rodapé que ia fazendo. Passou a ser uma espécie de consciência de esquerda do PS. Essa realidade nunca chateou verdadeiramente as sucessivas direcções do Partido Socialista que viam em Alegre um tampão à fuga de votos e militantes para as correntes à sua esquerda. Alegre representa a pequena e a média burguesia urbana, e a disputa deste sector específico leva-o a tomar o BE como seu concorrente directo, e vice-versa. A relação entre os dois pode, em boa medida, ser explicada por este factor, pelo que diria que se relacionam com uma espécie de mútuo parasitismo. Desde que percebeu que a sua carreira como deputado estava a chegar ao fim, e principalmente desde que perdeu a disputa da direcção do partido para José Sócrates, só sobrava a Alegre um caminho: a Presidência da República. Assim o tentou nas últimas eleições e o resultado tinha uma leitura que Alegre nunca quis fazer: há mais de um milhão de pessoas à esquerda sem partido. Este número impressionou tudo e todos tomaram medidas preventivas. Estou em crer que o PS desde este dia percebeu que teria que apoiar oficialmente Alegre na corrida a Belém, o BE percebeu que afinal não absorveu tudo o que havia para absorver à esquerda da esquerda e o PCP percebeu que além do BE havia outro pólo aglutinador da esquerda heterodoxa. No fundo todos tiveram medo desse milhão de votos, e Manuel Alegre também. Podia ter impulsionado uma nova corrente de pensamento à esquerda, um novo movimento basista que “transformasse em acção o pensamento”. Mas Manuel Alegre nunca quis trazer o tal milhão de votos “do papel para a página da rua”. Ou seja, o que Alegre quer em verso, Alegre não faz na prosa da vida.

 

(em anexo sete textos declamados por Mário Viegas, o melhor candidato presidencial desde que há República)

Qual natureza e a agenda do MIC (Movimento Intervenção e Cidadania)?

Basta ir a uma qualquer iniciativa do MIC, ou à falta de tempo e paciência, espreitar o seu portal na internet, para se perceber a sua agenda e natureza. De intervenção e cidadania nem uma palavra. Alegre, Alegre, Alegre; Presidência, Presidência, Presidência. É tudo o que interessa e o único tema em carteira. É absolutamente abusivo o uso das palavras que dão nome ao movimento que na verdade se deveria chamar MFA, ou seja, Movimento Força Alegre. O MIC não é um movimento, e muito menos uma organização. É antes uma claque de apoio, uma falange. O seu único objectivo é promover Alegre à Presidência e esse é igualmente o único tema de debate. Dos temas que a esquerda se habitou a defender nem uma palavra. Não há bandeiras, ideias, teses, propostas. Há Alegre.

Que compromissos assumiu com o PS para garantir o seu apoio e o que fará o seu partido de sempre?

O PS, como toda a social-democracia, sempre precisou de figuras que mantivessem vivo o seu património simbólico, para ter caminho livre para a sua neo-liberalização. Alegre sempre cumpriu no PS essa função, e os anos e anos de mau centralismo podem agora ser compensados. O PS percebeu o erro de apoiar Soares nas últimas presidenciais e não mais poderia cometer esse erro. Tal como a direita, o PS sonha com uma maioria, um governo e um presidente, pelo que na sua declaração de candidatura, Alegre troca as tintas dizendo ao que vem: “É grande a tentação de reagrupar o bloco conservador à volta do actual Presidente da República para, através da sua eventual reeleição, conseguir o que não se consegue por via partidária: uma maioria, um governo, um Presidente. Independentemente da pessoa do Presidente, que não ponho em causa, tal projecto, que foi sempre o sonho da direita, comporta riscos para o PS, para toda a esquerda e para o equilíbrio do regime. E tem uma lógica de deriva política de pendor presidencialista.”

E o que quer o PS e Alegre senão exactamente o mesmo que acusam a direita de sonhar? Para ser Presidente com o prometido apoio do PS (espera a hora certa de o anunciar para manter a aparente independência da sua candidatura), Alegre não pode cuspir no prato que comeu e não pode enfrentar nem Sócrates nem outro qualquer que o suceda neste campo político. Alegre terá que ser do PS ou de coisa nenhuma, mas nunca poderá ser contra o PS e contra o governo.

Sairá do seu “eterno PS” para se candidatar à presidência?

Provavelmente. É de resto quase uma cerimónia das pré-candidaturas e um dos maiores embustes da propaganda presidencial. Todos dizem, de Francisco Louçã a Paulo Portas que esta não é uma eleição partidária, mas todos mentem com quantos dentes têm na boca. Nunca nenhum presidente veio da dita sociedade civil e todos sem excepção foram escolhidos pelas direcções políticas do PS ou do PSD. Todos. A venda desta ilusão serve a agenda escondida dos partidos que querem granjear objectivos que não se conseguem de bandeira às costas. É um pacto de regime que permite a todos usarem fulano ou beltrano para atingirem os seus objectivos. Alegre, irá entregar com toda a certeza o seu cartão de militante. Mas como Cavaco no PSD, e como Soares e Sampaio no PS, a sua correia de transmissão ao PS será inquebrável.

No anúncio da sua candidatura Alegre clarifica que compreenderá sempre o tempo e a agenda do PS. Advoga a defesa da estabilidade que é tudo o que não se queria de um candidato para romper com a anormal normalidade do sistema político: “Sei que para o PS e para os outros partidos parlamentares este é o tempo do Orçamento Geral do Estado. Desejo que seja possível que seja negociado, sem que as negociações sejam orientadas de fora, na tentativa de o orientar para certo sentido. Compreendo que para o PS seja o momento do Orçamento”. A seu tempo o PS falará, como disse de imediato o líder da bancada parlamentar Francisco Assis, e esse tempo Alegre seguramente sabe qual é. Desta feita estão todos com as agulhas afinadas.

Como se vai organizar a esquerda?

Apesar de sobrarem poucas dúvidas sobre como se vão organizar os partidos de esquerda relativamente à candidatura de Alegre e do PS, é esta a parte mais interessante do debate presidencial. Estou convencido que o BE e a CDU vão apoiar a candidatura. O primeiro com toda a certeza (Louçã pré-anunciou o apoio e reafirmou-o no dia do anúncio), o segundo pode ser mais astuto tacticamente. Porque motivos? O Bloco de Esquerda passou os últimos quatro anos a pré-anunciar o seu apoio a Alegre, e foi de facto a força política que mais promoveu esta corrida. Todos os dirigentes nacionais do BE sem excepção apoiam Alegre, isto apesar de na sua base muitos militantes se recusem a apoiar a mesma candidatura do Governo. Desde a IV convenção, em 2005, que o BE corre para o colo do PS. Alegre é a via mais honrosa, eleitoralmente menos castigadora, e internamente mais favorável para o BE passar a ser cada vez mais os Verdes do PS. O BE queria que Alegre fosse um Oskar Lafontaine à portuguesa, mas Alegre só quer ser presidente e vai deixar o BE órfão da recomposição com que este sonhava.

O PCP é neste momento a maior incógnita. Sabemos pela trajectória do partido que se tiver que comer o sapo, o sapo é para comer. Cunhal votou Soares contra Freitas do Amaral e no limite Jerónimo votará Manuel Alegre contra Cavaco Silva. Apesar de sabermos disso, o PCP sabe que pode fazer uma jogada de mestre. Com o BE refém do PS e de Alegre sobra toda a esquerda ao PCP, pelo que a tentação de avançar com um candidato próprio para os lados da Soeiro Pereira Gomes é grande e compreende-se que assim seja. É de resto uma jogada de mestre. O PCP avança um candidato que soma todos os votos à esquerda do PS-Alegre-BE, e força a realização de uma segunda volta contra Cavaco, apoia Alegre na segunda volta e, em caso de vitória, ainda pode sair como o grande vencedor. Não será Alegre, que sabe-se que perderia sozinho, não será o BE que se dissolveu na candidatura do PS, e o PCP pode dizer que foram os seus votos que deram a vitória ao Alegre. É a única incógnita neste momento e, pese embora a tentação, a linha dura do PCP pode querer não ser acusada de dividir a esquerda e apoiar desde o primeiro momento a candidatura do Alegre e do PS.

Será melhor do que outros para unificar a esquerda contra Cavaco Silva?

Alegre não é o melhor para unir a esquerda. Este argumento, usado por todo o esquerdista útil tem a perna demasiado curta. Alegre não é mais do que aquele milhão de votos. Com o passar de quatro anos sem nada fazer a não ser promover a sua própria imagem e a sua pretensa candidatura, Alegre não mais é visto como o Dom Sebastião da esquerda em Portugal, como ele por certo gostaria. Não é de sebastianismos que a esquerda precisa. Pouco são já são os que se entusiasmam. Mesmo entre defensores da sua candidatura o entusiasmo já esmoreceu. Quase todos preferiam Carvalho da Silva (ainda mais depois do apoio deste a António Costa), e ninguém pareceu pular de entusiasmo com o anúncio da sua candidatura. Ninguém, salvo seja, Francisco Louçã pulou quase em tempo real aos microfones do Mário Crespo. Mas à excepção de Louçã não veio mais ninguém a terreiro dar pulos de alegria. Sobram declarações e manifestações de militantes de todos os partidos à esquerda do PSD a manifestar desconfiança com Alegre: muitos no PS, no BE e no PCP não vão sequer votar Alegre, ou a votar, não vão interpretar nenhum movimento de base com interesse e potencial protestativo. Na blogosfera, ao fim das primeiras horas do anúncio, pode contactar-se isso mesmo. Nem à esquerda nem à direita se encontraram grandes manifestações de agrado ou desagrado. Apenas se registou a constatação. (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). (E mais recentemente aqui também. O melhor exemplo até ver de falta de entusiasmo)

O chamado que Alegre faz às esquerdas representa bem a consciência de que o candidato do PS tem sobre os anticorpos à esquerda, relativamente à sua candidatura: “Fazer da próxima eleição presidencial uma grande mobilização, não só das esquerdas, mas de todos aqueles, de todos os quadrantes, que desejam a mudança num outro sentido e querem ver renascer a esperança num Portugal sem bloqueios, um Portugal que valha a pena, um Portugal de todos. É esse Portugal que nos interpela. É esse o combate que chama por nós. E o que venho aqui dizer-vos é que estou disponível para esse combate. Com todos vós e com todos os portugueses que estão connosco, com todos os que a seu tempo virão a estar, para mudar e para vencer, pela República e por Portugal.”

Alegre não corre nem pela República nem pelo país, corre por si próprio, pelo governo e pelo PS.

Que esquerda interessa unificar?

Se não fosse a cegueira oportunista que atacou o BE, e ainda não saberemos se atacará o PCP, esta era uma oportunidade de ouro para ir às urnas com o potencial dos 31 deputados do BE e da CDU, que também são mais de um milhão de pessoas. Esta seria a esquerda que interessa unificar. Ainda que venha a diluir-se no PS e em Alegre, continua a haver a oportunidade para que todos à esquerda do sistema e do oportunismo esbocem uma candidatura classista contra o Governo. Haverá possibilidade? A ver vamos. Agora o que não interessa de todo unificar é toda a esquerda atrás do sonho do PS de ter uma maioria, um governo e um presidente. Mais do que se tratar de um populismo sem povo tratasse de uma frente popular sem programa mínimo. Uma frente popular para defender a força política que mais contribui neste momento para o mal-estar da população.

Valerá a pena a esquerda engolir novo sapo?

O sapo não vale a pena engolir por tudo o que foi dito mas também porque o sacrifício desta deglutição não vai trazer nada de novo. Cavaco balbucia, Alegre não fará mais do que estátuas a si próprio e ao patriotismo balofo que exalta. Não previne nenhum Reich, nem garante nenhuma conquista. Não recompõe a esquerda, antes a descompõe. Ao contrário do que pensam os seus correlegionários, Alegre não é a salvação da esquerda. É antes, e citando de novo o Poemarma do poeta, “a estátua que atravanca”.

De que valeu engolir Soares?

A única coisa que a esquerda conseguiu ao engolir Soares, e ainda assim fê-lo numa segunda volta, depois de todas as correntes terem apresentado candidato próprio, foi a entrega ao PS do exclusivo da luta contra o Cavaquismo. Ainda hoje, a esquerda da esquerda sofre as consequências disso mesmo.

Que alternativas neste quadro político?

Neste quadro político é urgente um chamado a que se organize uma candidatura classista contra o governo. Que represente de facto os sectores sociais mais desfavorecidos, uma candidatura fracturante contra o sistema e a normalidade. Uma candidatura da esquerda necessária contra a direita e a esquerda possível. Os dois partidos à esquerda do PS têm esta responsabilidade, mas se falharem, por oportunismo ou medo, a sua omissão não desresponsabiliza os movimentos políticos fora do espectro parlamentar. Esta é uma demanda bem mais interessante, do que um mal maior chamado Cavaco Silva ou o jardim de ilusões que Manuel Alegre representa.

É importante que o debate não se faça entre as duas correntes que mais fizeram para a degradação da qualidade de vida das pessoas, que mais fizeram pela degeneração das conquistas de Abril, e que mais fizeram para o desmantelamento do Estado de Direito, seja lá o que isso ainda signifique. Nem PS, nem PSD.

Nem Alegre nem Cavaco!

Por uma candidatura classista contra o Governo liberal do PS e a direita conservadora!

Por uma candidatura pelos direitos de Abril e pela esquerda necessária!

Textos relacionados no 5Dias: Ironia Alegre #I; #II; #III; #IV; #V; #VI; #VII; Alegrismos; Pontos Prévios Sobre as Presidenciais; Candidato; Resposta ao Daniel Oliveira; De Vitória em vitória até à derrota final; Vence ou cala-te!; A esquerda possível não me trás alegria; Improvavelmente alegre.

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67 Responses to Sócrates Alegre

  1. Nada do que Manuel Alegre tem feito e tem afirmado até agora leva a acreditar que possa ser um candidato de ruptura e da mudança necessária ou, pelo menos, um futuro presidente que garanta rigor na defesa e aplicação da Constituição da República Portuguesa: um militante activo que lute para que se respeitem os direitos trabalhadores e do povo. Nem sequer imagino que, a nível internacional, possa ser suficientemente independente para vir a ter algum papel na defesa das causas que unem os países que procuram vias de desenvolvimento alternativas e lutam contra a pressão imperialista.
    Na minha modesta opinião, no essencial, Manuel Alegre adaptou-se à evolução do PS, distanciou-se dos ideais de Abril e, deste modo, não tem qualquer possibilidade de unir a esquerda, a menos que a esquerda tenha objectivos políticos, económicos e sociais muito limitados. Nesta medida, apresentá-lo como galvanizador de um projecto popular que mobilize e impulsione a mudança, será criar falsas ilusões e enganar as expectativas criadas.
    Julgo que a imediata adesão do BE e de pequenos grupos políticos à candidatura de Manuel Alegre tem mais a ver com estratégias de consolidação e de futuro crescimento eleitoral do que com qualquer projecto de unidade ou de transformação da sociedade e de desenvolvimento económico e social para o nosso país.
    Só pela negativa, por oposição, como foi o voto em Mário Soares, ou com uma negociação séria que aprove um plano de acção muito concreto, se poderia pensar no apoio a uma candidatura como a de Manuel Alegre.
    Há, certamente, candidatos mais consensuais.
    Mas eu não sou, nem quero ser, politólogo e não tenho pretensões a comentador de cenários políticos. Dou apenas a meu contributo para o processo de decisão.

  2. Diogo diz:

    Caro Renato,

    Desde as últimas eleições decidi deixar de votar. Acabaram para mim os «representantes eleitos». Com a evolução da Internet já temos acesso à democracia directa. Vamos a ela. Chega de políticos e partidos a soldo da Banca e de outros interesses económicos.

    Quanto ao Alegre, quero que se cosa (poeticamente).

  3. Ao discutirmos a candidatura de alegre estamos só a discutir quem será o próximo PR,não é nada nem para sarar nem abrir grandes feridas,a recomposição da esquerda far-se á muito mais fácilmente se alegre ganhar do que se cavaco ganhar quer por razões de interesses quer de emoções,tudo num plano muito relativo,sem alegromanias mas conscientes de que o cavaco faz mal à saúde…

  4. viana diz:

    A candidatura de Manuel Alegre deixa-me relativamente indiferente. Não aprecio particularmente a personagem, mas possui duas qualidades interessantes: pode derrotar Cavaco; caso seja eleito presidente, e a médio prazo após Sócrates cair, pode servir de referência para um reposicionamento do PS mais à Esquerda.

    Agora alguns comentários sobre o post:

    Quem é Manuel Alegre, que sectores representa, o que quer e para onde vai?

    Concordo genericamente, mas existe um erro de análise sintetizado na frase “há mais de um milhão de pessoas à esquerda sem partido”. Porque assume que as pessoas “têm um partido”, **à direcção** do qual são fiéis. Os votos em Manuel Alegre serviram para demonstrar antes de mais que, mesmo que as pessoas se sintam próximas das posições de certo partido, as direcções partidárias não podem de todo assumir que essas pessoas automaticamente aceitam as suas decisões. Os votos em Manuel Alegre serviram também para mostrar a existência duma clivagem ideológica e de praxis (tradição vs. tecnocracia) entre os eleitores do PS. É um erro assumir, como o Renato faz, que aqueles que votaram em Alegre são “pessoas à esquerda sem partido”. Não me lembro se algum estudo foi feito para tentar identificar a “origem partidária” dos eleitores de Manuel Alegre, mas não me parece difícil de concluir que a sua grande maioria eram eleitores tradicionais do PS, e uma parte muito significativa (a maioria?..) continuaram a sê-lo (por exemplo votando em Sócrates nas últimas eleições).

    Qual natureza e a agenda do MIC (Movimento Intervenção e Cidadania)?

    É verdade quanto ao MIC. Já não é verdade quanto à “tendência” que o Manuel Alegre criou no PS, a Corrente de Opinião Socialista. A sua revista de opinião, a Ops!, produziu trabalho de reflexão muito interessante, e bem à Esquerda das políticas da actual direcção do PS.

    Que compromissos assumiu com o PS para garantir o seu apoio e o que fará o seu partido de sempre?

    Com que compromissos se poderia comprometer? Se fôr eleito presidente, mais do que qualquer outro candidato com possibilidade de ser apoiado pelo PS, oferece a perspectiva de independência perante a actual direcção do PS. Aliás, se Manuel Alegre fôr eleito, torna-se na referência principal do PS, e não tenho dúvidas que ele utilizará esse poder de influência para conseguir um reposicionamento do PS mais à Esquerda, quando Sócrates cair, talvez já em 2011.

    Para já, não tenho dúvidas que a direcção do PS irá apoiar Manuel Alegre, mas isso não quer dizer que tenha conseguido retirar concessões dele. Quer mais dizer que Manuel Alegre conseguiu enconstar a direcção do PS à parede. Adorava ver Sócrates a promover outra candidatura. Tenho a certeza que se tal acontecesse o PS iria se fracturar definitivamente. Aliás, desconfio que o entusiástico apoio do BE a Manuel Alegre em parte se deve a uma tentativa de fracturar o PS, levando a sua ala mais à direita a exigir a Sócrates o apoio a outro candidato.

    Sairá do seu “eterno PS” para se candidatar à presidência?

    Não é verdadeira a frase “todos sem excepção foram escolhidos pelas direcções políticas do PS ou do PSD”. Basta ver o tempo que mediou entre a apresentação de certas candidaturas, como a de Jorge Sampaio, e o apoio da direcção do “respectivo partido”. Acho que o Renato está a forçar a verdade, ao afirmar que Manuel Alegre foi escolhido pela direcção do PS… É óbvio que Manuel Alegre não vai hostilizar a direcção do PS até às eleições presidenciais. Para ser eleito presidente, Manuel Alegre vai ter que aglutinar a grande maioria dos que votaram em CDU, BE e PS nas últimas eleições. Olhando para as motivações e perfil desses eleitores vê-se logo a tarefa difícil que terá. Se Manuel Alegre quer ser presidente terá que fazer um grande bailado, por vezes dando a mão, outras vezes batendo em Sócrates. À partida eu diria que, numa segunda volta, que é quando importa fazer “o pleno ideológico”, ele corre o risco de perder mais votos “à Direita” (entre o centrão que vota Sócrates) que “à Esquerda”.

    Como se vai organizar a esquerda?

    Não acho que o PCP apoie desde já Manuel Alegre. A estratégia pensada pelo Renato é inteligente, mas comporta riscos. E se a votação do candidato do PCP tiver menos votos que a CDU nas últimas eleições?… Para ter sucesso o PCP teria de escolher um candidato “atraente” para os eleitores do BE, por exemplo que não fosse militante do PCP. O que me parece difícil…

    Será melhor do que outros para unificar a esquerda contra Cavaco Silva?

    Talvez Carvalho da Silva fosse melhor, mas nunca mostrou interesse. Quem então, Renato? É que não basta dizer que Manuel Alegre não é o melhor para unir a Esquerda contra Cavaco Silva (e aqui suponho que o Renato quer dizer também, e com possibilidade de derrotar Cavaco silva), é preciso provar, apresentando candidatos melhores e disponíveis. Quem?…

    Que esquerda interessa unificar?

    Renato, é preciso descer à terra. Neste momento, a possibilidade das direcções do PCP e BE apoiarem um candidato comum, encontrado por acordo mútuo, é zero. E mais uma vez o Renato comete o erro de assumir que uma candidatura presidencial se resume necessariamente aos apoios partidários que recebe, e que portanto necessariamente uma vitória de Manuel Alegre será vista como uma vitória de Sócrates.

    Que alternativas neste quadro político?

    Que é isso duma “candidatura classista”? O Renato faz parte dos “sectores sociais mais desfavorecidos”? Então como é que uma candidatura dessa classe o representa, e como é que pode apoiá-la? Se representa o seu interesse individual e não da classe a que pertence, parece-me redutor apresentar tal candidatura como “classista”, dado que claramente pode recolher apoios que transcendem a classe.

  5. mc diz:

    “Assim o tentou nas últimas eleições e o resultado tinha uma leitura que Alegre nunca quis fazer: há mais de um milhão de pessoas à esquerda sem partido.” Eu tenho partido, ajudei o BE e a CDU a ter os tais 31 deputados e Manuel Alegre a ter 1 milhão de votos. Felizmente, para não estragar esta belíssima análise em palha anti-alegrista sem sentido, devo ser caso único e raro.

  6. João Delgado diz:

    “Todos os dirigentes nacionais do BE sem excepção apoiam Alegre”. Dirigentes nacionais são os membros da Mesa Nacional e daí decorre a falsidade desta afirmação, como o Renato tem obrigação de saber.
    O apoio a Manuel Alegre é uma construção de Francisco Louçã e da Comissão Política (toda?), que não mereceu qualquer discussão ou ratificação no forum competente.
    À semelhança do que aconteceu com o Acordo de Lisboa, um pequeno comité toma e divulga as grandes decisões tácticas, e assim captura a livre expressão de quem de direito, a tal Mesa Nacional, remetida para a figuração pseudo-participativa.
    O apoio a MA suscitou uma onde de choque que está a percorrer o bloquismo. Terá efeitos?

  7. Antónimo diz:

    Mesmo achando eles que o tema é extemporâneo os autores do 5 dias têm feito a propósito das presidenciais leituras bem interessantes e clarificadoras. Pelos comentários passa também muito do que vai sendo a práxis e a acção da esquerda, algo que não se lê nos jornais e que devia.

    Acrescento as heterodoxas (porque infelizmente ninguém lhes liga) aritméticas do Vitor Dias

    http://tempodascerejas.blogspot.com/2010/01/o-be-as-presidenciais.html

    e as cáusticas ironias de medeiros ferreira (aqui não é ele que ironiza, mas as circuntâncias)
    http://cortex-frontal.blogspot.com/2010/01/alegre-corre-para-situacao-de-soares.html

  8. Bruno Julião diz:

    Nunca resistes a posicionar-te no extremo das opções… Afastar assim a hipótese de apoiar esta candidatura é, a meu ver, irresponsável e uma manifestação de apoio a Cavaco Silva. À partida só digo que nunca contribuirei para a vitória da direita. E, ao contrário dessa visão sectária, não sendo uma manifestação de apoio ao perfil e candidatura de MA, acho, obviamente, que é um candidato de esquerda… Portanto, espero bem que a esquerda que muitas vezes interessa unificar não se esgote no PCP + BE, como desejas. Dito isto, prefiro esperar pelo momento em que este tema for mais importante para o país para uma análise exaustiva aos cenários.
    Abraço

  9. Carlos Pinheiro diz:

    O mundo está numa época de mudança. A ordem económica mundial tem que mudar. Como? Não sei, mas não peçam aos economistas que levaram isto para este beco que ajudem. O Madoff está preso e só espero que bem preso. E os seus acólitos onde é que estão? Onde está o dinheiro, sim onde está o dinheiro que esistia e que no final de contas foi a razão deste descalabro? E por cá onde é que estão os responsáveis dos BPN, BPP e até os malabaristas do BCP? E onde é que está também o dinheiroque desapareceu?
    Tudo isto para dizer que o Alegre e o Soares lançados da forma como foram há 4 anos serviram para que o cavaco fosse eleito. E este lançamento antecipado do poeta não estará a servir para a malta se distrair do orçamento do estado que está a ser negociado pelos partidos? O que é que o orçamento trará para aliviar a carga dos mais desfavorecidos? E dos deficientes? E dos ex-combatentes? Por exemplo? Ninguém sabe nada. Mas está a ser discutido. A politica tem coisas muito complicadas e esta complicação de agora ajuda bem a complicar a compreensão das pessoas, só porque não lhes dizem a verdade toda.

  10. Renato Teixeira diz:

    Manuelmgaio, para quem diz que não é “politólogo e não tenho pretensões a comentador de cenários políticos”, faz uma análise melhor do que muitos especialistas da praça. Parabéns. Acho particularmente assertivo quando alerta para o perigo que Alegre pode constituir para a esquerda: “Na minha modesta opinião, no essencial, Manuel Alegre adaptou-se à evolução do PS, distanciou-se dos ideais de Abril e, deste modo, não tem qualquer possibilidade de unir a esquerda, a menos que a esquerda tenha objectivos políticos, económicos e sociais muito limitados. Nesta medida, apresentá-lo como galvanizador de um projecto popular que mobilize e impulsione a mudança, será criar falsas ilusões e enganar as expectativas criadas. Julgo que a imediata adesão do BE e de pequenos grupos políticos à candidatura de Manuel Alegre tem mais a ver com estratégias de consolidação e de futuro crescimento eleitoral do que com qualquer projecto de unidade ou de transformação da sociedade e de desenvolvimento económico e social para o nosso país.” Sem tirar nem pôr.

  11. Renato Teixeira diz:

    Diogo, votar não deve ser, na minha opinião uma questão de princípio. Tem eleições em que vale a pena, outras que nem por isso. Se a próxima eleição se resumir ao debate Alegre vs Cavaco muito provavelmente farei como o Diogo pois o mal menor já não me motiva a sair de casa ao domingo. Mas imagine-se em 95. Não votaria Mário Viegas? Ou o referendo do Aborto, não iria votar Sim? Quanto ao Alegre de acordo. Seja na panela seja na costureira. Em qualquer lado menos no boletim de voto.

    António Geraldo Dias, é precisamente aí que tenho dúvidas. Estou convencido que a candidatura de Alegre (com ou sem vitória) será para a esquerda mais um anestésico ou um bálsamo do que um histamínico. Será mais valium do que prozac. De todo o modo será sempre como digo no texto: um jardim de ilusões. Alegre não quer recompor a esquerda. Quer que a esquerda o componha.

  12. Renato Teixeira diz:

    Viana, antes de mais deixe-me que lhe diga que para uma candidatura que o deixa indiferente tem imensas coisas para dizer. E ainda bem. Tem razão no primeiro ponto. De facto, daquele milhão que votou em Alegre, alguns eram do PS, outros do BE e talvez alguns até da direita que não grama Cavaco e nunca votaria Soares nem nos candidatos CDU e BE. Ainda assim acho que uma parte significativa desse milhão não se revê em nenhum dos partidos da praça. Acho que se trata maioritariamente de abstencionistas.
    Não posso concordar com o seu entendimento no terceiro ponto: “[Alegre] oferece a perspectiva de independência perante a actual direcção do PS”. Acho que Alegre vai chamar o grosso do Partido Socialista e a esmagadora maioria dos dirigentes nacionais. Vai ser o candidato do partido pelo que a sua independência está irresolutamente comprometida.
    Ainda no ponto três a pior das ilusões: “[Alegre vai proporcionar um] reposicionamento do PS mais à Esquerda”. Acho o contrário e começo o post por ai: “Sócrates governa, Alegre critica. Sócrates decreta, Alegre declama. Sócrates diz sim, Alegre diz porém. Sócrates diz não, Alegre diz talvez. Alegre canta um PS que já não existe para que o PS que existe, o de Sócrates e quejandos, continue a existir.”
    No ponto quatro: Exemplifica Jorge Sampaio como uma candidatura independente? Não consigo sinceramente ver onde. Por ter tido o apoio de outros sectores da esquerda? Quem o escolheu? Quem serviu? Que agenda alinhavou? Diz que Alegre não vai hostilizar o PS até às eleições. E depois delas? Imagina um enfant terrible a sair dali? Nah. Vai ser um mandato inteiro de poemas, estátuas e tiros aos faisões. Vai ser o verdadeiro candidato cabide. Porque assim o vai querer e porque outra coisa não vai puder fazer mesmo que mude de ideias.
    Melhor que Alegre? Qualquer um que não traga o PS atrás. Não chega para ganhar a Cavaco? Que se dane, serve para reorganizar a esquerda para os combates que interessam. E Alegre ganha a Cavaco? Nem isso me parece certo a esta altura do campeonato.
    A esquerda que interessa unificar é toda a esquerda que não se tenha dissolvido no socialismo liberal. Toda. Alguma até está em alguns militantes do PS mas que no PS não servem rigorosamente para nada. Outros na CDU e no BE. E outros ainda fora dos partidos parlamentares.
    Ultimo ponto: Uma candidatura classista é uma candidatura classista. Que defenda os interesses dos mais desfavorecidos. Não é uma candidatura de desfavorecidos. Parece-me claro. Não é redutor porque não é só isso que digo. Digo mais: “Neste quadro político é urgente um chamado a que se organize uma candidatura classista contra o governo. Que represente de facto os sectores sociais mais desfavorecidos, uma candidatura fracturante contra o sistema e a normalidade. Uma candidatura da esquerda necessária contra a direita e a esquerda possível. Os dois partidos à esquerda do PS têm esta responsabilidade, mas se falharem, por oportunismo ou medo, a sua omissão não desresponsabiliza os movimentos políticos fora do espectro parlamentar. Esta é uma demanda bem mais interessante, do que um mal maior chamado Cavaco Silva ou o jardim de ilusões que Manuel Alegre representa. É importante que o debate não se faça entre as duas correntes que mais fizeram para a degradação da qualidade de vida das pessoas, que mais fizeram pela degeneração das conquistas de Abril, e que mais fizeram para o desmantelamento do Estado de Direito, seja lá o que isso ainda signifique. Nem PS, nem PSD. Nem Alegre nem Cavaco! Por uma candidatura classista contra o Governo liberal do PS e a direita conservadora! Por uma candidatura pelos direitos de Abril e pela esquerda necessária!”.

  13. Renato Teixeira diz:

    Antónimo, obrigado pelo elogio e pelos contributos ao debate. No que me toca não acho o tema extemporâneo. Acho que pode oferecer à esquerda uma oportunidade única de clarificações.

    Mc, a análise não é anti-alegrista. Não tenho nada contra o homem em pessoa. É contra a candidatura do PS.

  14. Renato Teixeira diz:

    Bruno Julião, conheces-me há demasiados anos e percebes mais de política do que confundires o que é algo radical de algo extremista. Uma coisa é procurar ir à raiz dos problemas outra é ir aos extremos. Nesse particular acho que o teu PS é bem mais extremista do que qualquer outra força política à esquerda. As suas responsabilidades desde o 25 de Abril são insuperáveis, e diria mesmo, imperdoáveis. Ninguém foi tão extremista a tornar Portugal no país assimétrico e injusto em que se tornou. Ninguém foi tão extremo a desmantelar praticamente todas as conquistas que Abril conquistou. Como disse na resposta ao António Geraldo Dias, acho que Alegre é mais um perigo do que uma solução para a esquerda. Como te disse já noutras circunstâncias os militantes do PS que interessam, só interessam livres do espartilho do socialismo liberal. E isso é fora do PS. Nunca dentro. Preferes esperar o tempo certo ou preferes ter a certeza que Alegre é de facto o candidato oficial do PS? É que se é isso que esperas é perda de tempo. Podes elaborar a tua posição pois o ensemble está mais do que claro aos olhos de toda a gente. Não há teatro que o PS promova que o desvincule da estratégia Alegre.

    Carlos Pinheiro, de facto a política é complicada, mas neste caso acho que não é preciso queimar muitos neurónios. A intenção de lançar Alegre em cima do OGE serve para permitir ao PS dizer que tem tempo para se posicionar sobre o assunto e por em marcha a “independentização” da sua candidatura. A direita ganhará se conseguir deixar isso claro. Isso irá dar a vitória ao Cavaco? Se der, já sabe a quem agradecer.

  15. Renato Teixeira diz:

    João Delgado, dirigentes nacionais são aqueles que são reconhecidos como tal e devo dizer-lhe (e eu sei que sabe disso) que são os que têm assento na comissão política, ou outro nome que tenha entretanto herdado. Aqueles que decidem e são reconhecidos nacionalmente como dirigentes do BE. Os 15% dos quais faz parte, na lista dinamizada pelo Ruptura FER, para além de não contar um chavo no que são as opções do BE (isso é exclusiva responsabilidade da maioria PSR+UDP+Manifesto), nunca foram capazes de construir uma figura nacional de relevo.
    Diz também “que [a decisão de apoiar Alegre] não mereceu qualquer discussão ou ratificação no fórum competente”. Não serei eu a defender o BE quando sei que este há muitos anos perdeu o lastro de democracia interna que tinha, mas não decidiram isso em congresso? Eu li as moções e creio que a maioria foi clara no que queria para as presidenciais. Sobre o PS é ainda mais clara, particularmente desde o IV em 2005. A minoria não gosta de ver o seu partido transformado nos verdes do PS. Eu também não gostava e foi, entre outras coisas, o motivo da minha dissidência. O caminho ficou aberto.
    Por fim diz que “o apoio a MA suscitou uma onde de choque que está a percorrer o bloquismo” e questiona: “terá efeitos?” Só vejo que os tais 15% de que faz parte chocado. Não vejo mais ninguém. E só vejo dois tipos de efeitos. A minoria de que faz parte passa a valer 18% e passa os próximos anos a fazer estátuas a si própria e a galvanizar-se com balanços chauvinistas, ou de uma vez por todas compreendem que a disputa pela transformação do BE num partido de combate não só é uma batalha perdida como uma perfeita perda de tempo. Uma pena, pois muitos dos militantes dessa minoria tinham bem mais para dar à esquerda revolucionária do que apenas serem a consciência de esquerda dos Verdes do PS. Nesse particular cumprem para o BE uma função bem parecida do que Alegre e BE cumprem para o PS. Espero que percebem isso a tempo de poderem reorganizar alguma coisa fora do oportunismo e da social-democracia. Espero mesmo. Se for esse o caso, aí nos encontraremos.

  16. Nunca será demais repetir – e aqui já o disse várias vezes – apoiar Manuel Alegre com o apoio do PS socrático reaccionário e neo-liberal, seria para a verdadeira esquerda – aquela que defende o Trabalho, a Família e os Direitos Sociais dos mais desfavorecidos – um enorme erro e talvez um verdadeiro suicídio.

    Atente-se às evocações ridiculas que Manuel Alegre fez em Portimão e os apoios do Dr.Louçã para constatarmos a verdadeira aventura que seria o apoio da CDU tão folclórica e já describilizada candidatura.

    Aliás, o BE está inquieto para ganhar protogonismo nesta candidatura e com isso abafar a voz do PC e daqueles que sempre viram no Manuel Alegre o seguro de vida do impostor que está no poder e que se arroga da «esquerda moderna».

    Muito cuidado, camaradas.

  17. toni diz:

    não quererias dizer PSR+UDP+Manifesto?

  18. Renato Teixeira diz:

    Sim Toni… parece-me óbvia a gralha. Mas para evitar mal entendidos vou rectificar.

  19. Renato Teixeira diz:

    Abílio Rosa, aconselha bem cuidado aos seus camaradas da CDU. Ainda para mais quando com um pouco de perspicácia táctica podem fazer uma jogada de mestre. Talvez seja desta que apoiarei um candidato da CDU. E olhe que não será um sapo pequeno de engolir…
    Mas claro, se tiver a coragem de não cair no colo do PS e do Alegre, e se essa for a única candidatura pela esquerda, não terei outro remédio.

  20. João Carlos Silva diz:

    Pela primeira vez não vou votar BE e votarei muito provavelmente no candidato do PC. Só não sei se será a primeira vez de muitas.

    Lamentável a decisão de Louçã sem consultar a Mesa Nacional ou Comissão Política do BE.

  21. Renato Teixeira diz:

    João Carlos Silva, estamos exactamente no mesmo barco no estado de espírito que expõe. Mas uma vez mais, acho que desta vez a direcção do BE foi bastante clara na última convenção. Isso faz do BE um partido que respira democracia interna? Não. Mas no caso concreto acho que o seu queixume, tal como o do João Delgado, não se justificam do ponto de vista do método. Politicamente, como disse, tem toda a razão.
    Se a CDU apresentar uma política concreta correcta nenhum sectarismo nos deve cristalizar.

  22. o marreta diz:

    AH, AH, AH, AH, AH!

    TENHAM CONSCIÊNCIA DE QUE NA SOEIRO JÁ SE ABRIRAM AS PRIMEIRAS GARRAFAS DE CHAMPANHE (de produção nacional, claro!).

    ISTO NÃO É O FIM, NEM SEQUER O PRINCÍPIO DO FIM, MAS É SEM DÚVIDA O FIM DO PRINCÍPIO!

    BLOCO DE ESQUERDA? FUCK THEM

    conseguiram a proeza de se vender por menos de meia dúzia de tostões…

  23. Carlos Vidal diz:

    Por acaso, acho que o Bloco se está a meter num grande sarilho (o que não me incomoda nada).
    Veremos e vou pensar melhor no assunto.

  24. João Delgado diz:

    Não vale a pena especular, o que a Convenção do BE aprovou foi isto (proposta de alteração às Teses vencedoras):

    “PROPOSTA DE JORGE COSTA, JOSÉ GUILHERME, PEDRO SOARES
    Adenda à Tese 17, p38

    O Bloco de Esquerda defenderá a necessidade de uma candidatura presidencial da convergência mais ampla possível para a luta política da esquerda, sem prejuízo da possibilidade de apoiar uma candidatura da sua área política no caso de essa alternativa não se concretize.

    RESPOSTA: Aceite. Defende a candidatura convergente da esquerda nas presidenciais, que ocorrem no final do período de vigência das decisões desta Convenção.”

    O que as declarações de F Louçã vêm dizer é que a candidatura de Alegre é a “candidatura presidencial da convergência mais ampla possível para a luta política da esquerda”.
    Esta posição está longe de merecer consenso dentro do Bloco, sendo a reacção negativa transversal às várias correntes e não apenas da ex-Moção C, como Renato Teixeira sugere. E se esse consenso não existe entre a militância bloquista muito menos acontece entre o eleitorado do BE; esta é uma convicção pessoal, suportada em testemunhos “ao vivo” e em inúmeros posts e comentários que circulam na Web, de gente que se identifica e protesta.
    Este protesto pode não alterar a decisão tomada, mas tem certamente valor no cenário das presidenciais, porque revela a existência, também no BE, de povo de esquerda que não aceita apoiar a candidatura de quem apoiou Sócrates e o PS. Veremos o que daqui resulta, recordando a velha máxima que só quem não luta tem a certeza da derrota.
    E é por isso que não hesito em manifestar a minha discordância publicamente, e de nesta esfera “juntar forças” com todos quantos acreditam que ainda é possível uma candidatura anti-capitalista.

  25. “Eu li as moções e creio que a maioria foi clara no que queria para as presidenciais.”

    Renato, nas conclusões da Convenção do BE está escrito (é o único parágrafo sobre Presidenciais):
    “O Bloco de Esquerda defenderá a necessidade de uma candidatura presidencial da convergência mais ampla possível para a luta política da esquerda, sem prejuízo da possibilidade de apoiar uma candidatura
    da sua área política no caso em que essa alternativa não se concretize.”

    Estás pois engando na clareza da posição da Maioria aquando da Convenção…a não ser que a CP do BE ou tu me consigam mostrar em que é que este Alegre “encaixa” no tal parágrafoi único.

    Não sei se passas pelo Facebook…e sei o que é o Facebook. Mas se passares, experimenta ler alguns comentários …sei lá, pode ser que tanto tu como a maioria do Bloco pensem um pouco de maneira diferente se o fizerem quanto a quem são os que têm dúvidas ou não se mostram disponíveis para fazer campanha ao lado do Sócrates…afinal, numa rede social os amigos dos amigos dos amigos têm a maioria das vezes algumas coisas em comum…srem militantes ou eleitores do mesmo Partido, por exemplo.

    De uma coisa tenho a certeza: se aparecer uma qualquer candidatura alternativa à Esquerda ou se Sócrates veir a apoiar Alegre…o Bloco passará um mau bocado. E, como ainda sou militante e dirigente do BE…lamento que a Comissão Política do meu partido não tenha aprendido nada com a CML e Sá Fernandes. Nem dentro…nem fora do partido!

  26. o marreta diz:

    João Delgado:

    Como sempre, o candidato que a CDU apresentar, será o candidato “anti-capitalista”. O mais são Anacletos do caviar, Zés que fazem falta e Alegres toureiros. Isto é como diz a propaganda: CDU – esquerda de confiança

  27. Renato Teixeira diz:

    Marreta, não me parece que a esquerda anti-capitalista tenha ganho alguma coisa desde que o BE se enamorou do PS. Agora que passaram à acção e já trocam fluidos amorosos, menos ganhos vislumbro. A não ser que claro, sirva para uma nova reorganização à esquerda ou simplesmente para esquerdizar o PCP. De facto a hasta pública é de baixa monta…

    Carlos Vidal, um grande sarilho, sem dúvida. Neste caso acho mesmo que o BE corre o risco de caminhar para o abismo (ainda é cedo para as previsões do Marreta sobre o principio do fim ou o fim do principio), mas o cenário vai ficar muito nublado para aquelas bandas. Ao menos, o caso Alegre tem a virtude de deixar claro para toda a gente (e não só para os profetas da desgraça-iluminados-adivinhadores- como sempre fui acusado enquanto lá andava) o que move o BE desde 2005. Por esse prisma, e pelo que pode significar para a reorganização da esquerda, podemos estar ante uma belissima noticia.

  28. Renato Teixeira diz:

    João Delgado, como disse e repito, não vou perder muito mais tempo a discutir o sexo dos anjos, no que diz respeito à democracia interna do BE. Sei que é pobre e sei que muitas vezes é podre. No caso concreto não percebo como não lê nas entrelinhas: Trata-se de uma proposta do Jorge Costa, do José Guilherme e do Pedro Soares. Só os proponentes já fazem adivinhar a aproximação ao PS. Mas ainda assim eles escrevem: “O Bloco de Esquerda defenderá a necessidade de uma candidatura presidencial da convergência mais ampla possível para a luta política da esquerda, sem prejuízo da possibilidade de apoiar uma candidatura da sua área política no caso de essa alternativa não se concretize.” Não diz Alegre? Pois não. Mas para bom entendedor meia palavra basta. Eu leio Alegre nas costas de cada uma das palavras desses três cavalheiros. Mas tem razão no substâncial: Não há democracia interna no BE e quem decide tudo é um triunvirato de representantes das três correntes da maioria. Lembra-se do Porto? Ou do acordo de Lisboa (que refere) bem mais gritante na minha opinião.
    Agora a parte política, bem mais interessante. O que votou na adenda que refere? – “candidatura presidencial da convergência mais ampla possível para a luta política da esquerda”? é que esquerda, dito assim, é um pouco vago e não é outra coisa senão o que a direcção do BE mais gosta: carta branca para fazer o que entender. Deu-a?
    Quanto ao resto espero que tenha razão: que a maioria dos militantes do BE não acabe a colar cartazes ao lado dos jovens do partido do governo com a cara do Manuel Alegre; que não seja só a sua moção (não era tendência? fracção?) chateada com o episódio Alegre; e por ai fora. Como compreende estará em melhores condições que eu para opinar sobre o estado de espírito do BE. Quando daí saí eram quase todos “Zé Guilhermes”, se é que me entende.
    Tem toda a razão quando diz que “só quem não luta tem a certeza da derrota”. Estou a fazer a minha parte e espero saber da vossa muito em breve. O que vai fazer a Moção C? Apoiar criticamente o BE para apoiar criticamente o Alegre, que apoia criticamente o PS, que apoia criticamente o Governo? Como vão descalçar a bota? Vão apoiar um candidato fora da área política do BE? Se a Moção C ainda não tem opinião sobre isso, diga-me a sua. Gostaria imenso de o saber, sinceramente.
    Isso porque como o João também gostava de ver a esquerda a valer: “juntar forças com todos quantos acreditam que ainda é possível uma candidatura anti-capitalista”.

  29. o marreta diz:

    RENATO TEIXEIRA:

    A única “esquerda anti-capitalista” que existe no país é o Partido Comunista Português!

    Eu sei que é fodido, sobretudo para ti que andaste a promover as carreiras dos dirigentes do Bloco e agora tanto criticas aquilo que já foste… Mas ao invés de desconversar, tens agora uma boa oportunidade para mudar de rumo e passar a apoiar a única força de esquerda activa, actuante e consequente: o PCP.

    Temos enganos Temos defeitos? Claro! Ao contrário de certos teóricos que têm sempre razão no “papel” nós efectivamente andamos na luta de classes com todos os riscos e erros que isso acarreta. Porém, se há uma força que sempre esteve ao lado dos trabalhadores, da democracia e do progresso em Portugal essa força foi o PCP. Sem os seus militantes e mártires, sem o seu combate incansável no tempo do fascismo, o Renato não estaria aqui hoje a dar-se ares – desculpe a expressão.

    Deixe, portanto, de ser sectário. E por uma vez reconheça a VERDADE: só com o PCP se pode contar. Seja nas presidenciais de 2011; seja no combate ao desemprego; seja na luta pelo socialismo.

    E como referi: JÁ SE ABREM GARRAFAS DE CHAMPANHE pelo apoio do Bloco ao Alegre.

    eh, eh, eh, eh. mal me aguento por ver os comícios e tempos de antena em que Alegre, Louçã, Sócrates, António Costa e Sá Fernandes estarão juntos…

  30. Renato Teixeira diz:

    Isabel Faria, o que disse ao João Delgado vale para a sua interpelação também, no que diz respeito à leitura do que quer a direcção do BE. Menos claro parece-me ser o que vai a Moção C fazer? As mesmas perguntas que endossei ao João Delgado endosso a si… Pela mesma ordem de razões, gostava de saber a sua opinião, se ainda não souber a da Moção C.
    De resto tenho todo o acordo quando diz: “De uma coisa tenho a certeza: se aparecer uma qualquer candidatura alternativa à Esquerda ou se Sócrates vier a apoiar Alegre…o Bloco passará um mau bocado.” Acredite, a CDU não vai perder a oportunidade de voltar a sentar os seus deputados nos lugares mais à esquerda da Assembleia da República e a capitalizar o oportunismo barato e inconsequente do BE.
    Diz que: “Lamento também que a Comissão Política do meu partido não tenha aprendido nada com a CML e Sá Fernandes”. E a Isabel, o que aprendeu? Que lições retira da trajectória do BE nos últimos cinco anos? Ou pelo menos desde os episódios que refere? É que o que o BE quer, eu discordo mas percebo, já o que a Moção C quer, cada vez percebo menos. Pode dar-me umas luzes sobre isso também?

  31. João Delgado diz:

    Renato, se entendeu que votei essa adenda foi lapso de escrita meu. O que eu subscrevi e votei foram as teses da Moção C, que eram claras e se mantêm actuais:

    “MOÇÃO C

    Apesar das votações divergentes e das iniciativas unitárias com o BE, é possível, no entanto, que Alegre e os contestatários do PS mantenham o apoio a Sócrates nas próximas eleições legislativas, voltando a integrar as listas do PS, o que garantiria a Sócrates capitalizar votos à esquerda.

    A manutenção de uma política de convergência com Alegre, sem que este rompa com o seu apoio ao Governo e sem uma clarificação programática, colocaria o BE comprometido com uma política mais recuada e indirectamente ligado à área governamental.
    Esta questão é particularmente relevante quando é bastante provável que, não rompendo com Sócrates, Alegre possa vir a lançar uma candidatura presidencial apoiada pelo PS, lançando um repto ao BE e ao PCP para apoiarem o candidato da esquerda contra Cavaco.
    Neste contexto, o Bloco não apoiará qualquer candidatura do PS, mesmo que esta seja encabeçada por Alegre, pois a unidade da esquerda deverá servir para combater o governo e as suas políticas, e não para o sustentar.”

    Quanto ao que vai fazer a Moção C a seu tempo se saberá, sendo certo que não vai “apoiar criticamente o BE para apoiar criticamente o Alegre, que apoia criticamente o PS”. E não vamos refugiar-nos no silêncio cúmplice, até porque nunca o fizemos.

  32. Renato Teixeira diz:

    Marreta, compreendo o champanhe na Soeiro Pereira Gomes. Têm razão para o abrir, especialmente se já decidiram ter um candidato próprio. Quanto à sua declaração de fé deixe-me que lhe diga: não sou monoteísta. Aconselho-o a ter a mesma prudência. Não vá acabar a promover a carreira de dirigentes que hoje dizem alhos para amanhã dizer bugalhos.

  33. Renato Teixeira diz:

    João Delgado, esclarecida a sua posição, pelo menos no que diz respeito ao que defendeu no interior do BE sobre as presidênciais. Lamento no entanto que não me antecipe a sua opinião sobre o que vai fazer para o futuro, agora que a colagem do BE ao Alegre e ao PS é uma certeza. A Moção C já tem centralismo democrático? Fico à espera então pelo momento que entenda mais oportuno.
    Uma coisa é certa, hoje por hoje, nas presidenciais ou fora delas, apoia, milita e financia uma moção que apoia (a)criticamente o BE, que apoia (a)criticamente o Alegre, que apoia (a)criticamente o PS, que apoia (a)criticamente o Governo. É que enquanto estiverem a pensar no assunto isso só pode ser entendido como um “silêncio cúmplice”.

  34. o marreta diz:

    Renato Teixeira:

    como sabe, no passado, alguns dirigntes comunistas trocaram os alhos pelos bugalhos. Porém, o Partido ficou, quem mudou foram eles! No seu caso, mudou-se o Bloco, ficou só você.

  35. Renato Teixeira diz:

    Marreta, acredite que não fui só eu que resisti à tentação oportunista à qual o BE cedeu. Como pode ver por outros comentários a este post, alguns ainda lá estão dentro. Outros sairam do PCP pela esquerda, não foram só Zitas e companhia limitada. Mas sobre isso falaremos na altura de debater o seu partido. Até ver só o vi fazer declarações de fé que em nada contribuem para o debate e pouco contribuem para a construção do seu tão querido PCP.

  36. Bruno Julião diz:

    Renato, dizes bem, o PS tomará a decisão óbvia, logo entendes que a minha moderação não decorrerá desse posicionamento. É que, ao contrário do BE, não estou entusiasmado com a candidatura de MA (mas é o que temos) e por não ser inteligente fragilizar um movimento contra a direita. A outra razão é que este não é, a sério, um assunto que me entusiasme neste momento – há tantos problemas por resolver no país… Quando fizer a minha análise sobre as presidenciais, debruçar-me-ei sobre as hipóteses de MA, as de Cavaco, do que é preciso no terreno para vencer Cavaco, se a CDU apresenta ou não candidato e quando deve manifestar o apoio a MA, o que Cavaco fez de mal no seu mandato, etc… Ou seja, a minha análise servirá, no momento próprio, para lutar contra a direita que é o que todos os esquerdistas, mesmo extremistas ou radicais, deveriam fazer. Como sabes, eu vou sempre achar que é um erro abdicar do Renato Teixeira para esta luta. 🙂 Mas já percebi que achas que Alegre é mais perigoso para a esquerda do que Cavaco Silva – gostava é que tivesses a coragem de pôr as coisas nestes termos.
    Já agora, este não é, como queres pôr também, um debate essencialmente sobre o PS, protagonista do 25 de Novembro, a maior conquista de Abril 🙂 e, com certeza também, protagonista inevitável de alguns erros governativos ao longo da nossa democracia.

    Abraço

  37. Renato Teixeira diz:

    Bruno Julião, Sobre o que dizes do BE acredito que seja verdade. Estão mais entusiasmados que tu. Sintomático do efeito do tempo para aquelas bandas.

    Para lá do elogio de deixas e que agradeço, deixa-me que concorde contigo em outros tantos pontos: Cavaco e Alegre não acrescentam nada ao país. Um ou outro são perfeitamente indiferentes. Qualquer um deles deixará o ar que Sócrates precisa para fazer o que quiser.

    Agora, para que fique claro: Alegre é pior para a esquerda do que Cavaco. Sem sombra de dúvidas. Voltando às comparações narcóticas, para a esquerda Cavaco (hoje por hoje) não passa de uma infusão insípida de chá verde que só dá sono, e Alegre (hoje por hoje) poderá ser uma perigosa morfina que mal usada pode matar. (como bem identificas o BE foi o primeiro a não controlar o consumo e verás que caminho leva a partir daqui).

    Espero a tua análise que lerei com todo o interesse, mas adianto-te que se tiver mais brindes como este: “protagonista do 25 de Novembro, a maior conquista de Abril”, só contribuirás para colar Alegre ao Jaime Neves. Como compreenderás não é argumento que me vá fazer mudar de ideias.
    Re-abraço.

  38. isabel faria diz:

    Renato, como o nome indica uma Moção é uma Moção. Tem um limite temporal, o duma Convenção (daí o JD meter o ex) . A Moção C nunca se transformou em corrente/tendência dentro do Bloco porque os elementos que a constituiram recusaram o Regulamento do Direito de Tendência aprovado pela maioria (a facção, permite que te diga, lembra-me outras “guerras de outros guerreiros” e para quem critica a democracia interna dentro do Bloco, como fazes, prefiro ver o uso do termo como uma “provocaçãozinha”).

    Logo, o que aqui expressei foi a minha opinião. Que não tenho nenhum problema (nunca tive problema em manifestar as minhas opiniões fora e dentro do meu Partido!).
    Continuo a subscrever o que aprovei em Convenção e que o JD aqui deixou; Não farei campanha ao lado de Sócrates; Não considero que um candidato apoiado por Sócrates (não faço ideia se Alegre o será) encaixe, sequer no tal parágrafo que aqui deixei e que a maioria aprovou em Convenção; um candidato presidencial terá que ter um programa político de Esquerda e de combate às políticas de Direita – de Cavaco e de Sócrates; considero um erro que o meu partido aceite dar tiros no escuro e manifestar o seu apoio a Alegre sem conhecer o seu programa político nem as forças que o apoiam; considero que a Direcção do BE se chama Mesa Nacional, independentemente do que quem quer que seja dentro do meu partido entenda fazer da democracia interna e dos estatutos do Bloco, e essa não foi ouvida; enquanto achar que dentro do Bloco me é possível lutar por um Bloco de Esquerda fiel aos principios que nortearam a sua formação, continuarei lá dentro; no dia em que achar que “perdi” a guerra sairei; como fui eleita para a MN tentarei continuar na MN a representar aqueles que me elegeram até ao final do mandato; não considero que isso seja estar a ser conivente com o que quer que seja, pois se assim fosse não teria subscrito uma Moção e sido por ela eleita; o facto de sermos 15 ou 5% não me assusta nada, nunca tive medo das minorias nem de ser minoria; como não há uma corrente chamada Moção C, não sinto nenhuma necessidade de uma posição colectiva nem me parece existir essa tua figura do silêncio cúmplice (dá para ver, por este forum que silenciosos é que os eleitos pela Moção C (e não só, tens camaradas meus eleitos por outras Moções que também já manifestaram individualmente a sua posição) não estão.

  39. Renato Teixeira diz:

    Isabel Faria, não respondeu às minhas perguntas: Vai apoiar criticamente o BE para que este apoie criticamente o Alegre, para que este apoie criticamente o PS, para que este apoie criticamente o Governo?
    Alegre vai ser apoiado pelo PS (ainda tem mesmo dúvidas???). O que fará? Vai a Ex-Moção C de que faz parte (têm que arranjar um nome para a coisa que assim não dá jeito nenhum) apoiar um candidato fora do BE? Vai dizer obrigado mas não fumo? Vai avançar com o Gil Garcia como candidato independente? O que vão fazer? É esta a pergunta. Não outra.
    Lamúrias sobre o BE não quero saber delas. Já carpi as minhas mágoas. Agora veja lá… se não é importante o que representam lá dentro, ao não se assustar em passar de 15% para 5%, qual o limite do seu medo?

  40. rafael diz:

    Transcrevo aqui um post que dediquei a este tema:

    Vem este post a propósito do apoio do Bloco de Esquerda a Manuel Alegre. Nao pelo apoio em si. O que realmente me motiva a escrever este post foi a forma, practicamente automática, com que Louça expressou o apoio do partido que dirige ao candidato-poeta.

    Da mesma forma que um José Sócrates ou um Paulo Portas fariam, Louça passou por cima de toda a sua “esquerda aberta, moderna, democrática, participativa” e outros adjectivos que aparentemente sao adornos inuteis do seu discurso – ou seja, sem significado – apoiando numa primeira fase em nome pessoal (pelo menos aparentemente) e num segundo momento em nome de todo o partido o candidato Alegre, tudo isto sem nenhuma deliberaçao nem da Comissao Politica ou da Mesa Nacional do BE, pelo menos do que foi dado a conhecer ao publico em geral.
    Francisco Louça, com esta sua intervençao, esmaga com a sua opiniao todo um colectivo partidário e, nao conhecendo os estatutos do BE, parece-me que extrapola, em demasia, as suas competências de coordenador. Sinceramente, nao sei o que o motiva: se é apenas o desrespeito pela opiniao dos outros, se é um impulso incontrolável de apoiar Alegre ou se é pelo facto de existirem dentro do BE várias pessoas que torcem o nariz a Alegre depois de este ter apoiado Sócrates nas legislativas…

    De qualquer modo, para quem tao duramente critica o centralismo democrático do PCP, para quem faz tanta gala de mostrar que as tendencias do BE sao vivas, actuantes e importantes e para quem quer assumir o papel de re-fundador da esquerda, nao está nada mal para começo…

    O centralismo democrático até pode ser criticável de vários ângulos, mas pelo menos os militantes sao consultados, os organismos de direcçao pronunciam-se e só depois se toma uma decisao. Parece que no BE, reina agora um centralismo burocrático, onde a inevitabilidade da decisao leva uma Nomenklatura a assumir as rédeas do Poder. Eventualmente, os orgaos de decisao serao chamados a ractificá-los…ou nao.

  41. Renato Teixeira diz:

    Rafael, de acordo em quase tudo na substância política. Apenas uma nuance: O centralismo do PCP não é democrático, é burocrático. O do BE não é melhor? Não. Mas isso não resolve o problema, pois não?

  42. rafael diz:

    uhmmmm, Renato, vejo-me obrigado a discordar…por experiencia propria. Tivesse Jerónimo a ousadia de fazer o que fez Louça e deixaria de ser secretário-geral por grave atentado à democracia interna. Disso nao tenho duvidas.

  43. Renato Teixeira diz:

    Disso também não tenho dúvidas. Mas se o CC decidisse fazer isso o Congresso calava-se em torno da decisão da direcção.

  44. rafael diz:

    mas aí o que colocas em causa é a atitude critica do colectivo partidário (e nao tenho certeza que fosse assim, já assisti a criticas bastante fortes à direcçao em Congressos), visto que o CC estaria a desempenhar o seu papel de direcçao máxima entre Congressos. Mas tudo isto é do dominio da especulaçao, uma atitude individual nunca se poderia sobrepôr ou condicionar de forma tao clara à vontade do colectivo no PCP e no BE acabou de acontecer…

  45. Renato Teixeira diz:

    Acho que começamos, como diria o Marreta no Arrastão, a discutir as diferenças entre a merda e o cagalhão. No PCP não se pode apresentar duas listas para direcção do partido. Se isto é democracia interna eu vou ali e já venho.

    É verdade que essa possibilidade no BE é teórica pois desde a eleição para delegados ao aparelho burocrático do Congresso a derrota da maioria é formalmente impossível. Mas convenhamos… dar como alternativa o modelo organizativo do PCP não é lá grande solução.

  46. o marreta diz:

    Querido Renato:

    “Profissão de fé”?!?! Alguns de nós não estão interessados em “descobrir a roda” todos os dias. Você fala em “debate”? Claro! Você não faz outra coisa: parole, parole, parole… Mas alguns de nós insistem em lutar e organizar ao invés de passarmos a vida na conversa. Somos básicos estalinistas, não é? Plo menos não vamos atrás do primeiro vendedor da banha da cobra, chame-se ele Louçã ou Alegre. TENHA HUMILDADE

  47. Renato Teixeira diz:

    Humildade… bom conselho. Bom conselho.

  48. Pingback: cinco dias » A derradeira Ironia Alegre

  49. rafael diz:

    Caro Renato, vejo que és adepto do modelo unico de democracia…nao me parecia, mas todas as opçoes sao respeitáveis…

  50. Aristes diz:

    A questão agora é: Aceita Manuel Alegre, para ter o apoio de Sócrates, ser o “manto diáfano” das pornográficas políticas de direita do actual Governo?

    Se sim, se aceita, o que é que nos interessa a candidatura de Alegre?

    Se não, se não aceita, que hipóteses tem de ser realmente apoiado em 2011 pela mesma direcção do PS cujo candidato em 2006, não declarado mas real, foi Cavaco Silva?

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