Hallward e o Haiti

Peter Hallward é um académico fora do comum, na medida em que mantém um duplo regime de produção, que não é muito comum por estes dias. Especialista em filosofia francesa contemporânea, é um dos mais importantes intérpretes de Alain Badiou, e um dos responsáveis pelo interesse que este filósofo tem suscitado nos últimos anos no espaço anglófono. Escreveu também um livro sobre Deleuze (Out of this World), e um estudo sobre o pós-colonial que é uma fortíssima crítica, e proposta de renovação deste campo de estudos e intervenção.

Em paralelo ao seu trabalho mais teórico, Hallward tem escrito regularmente sobre política Haitiana, tendo publicado em 2007 o livro Damming the Flood: Haiti, Aristide, and the Politcs of Containment, onde expõe o esforço do movimento popular Lavalas, e de Jean-Bertrand Aristide, para libertar o Haiti de uma ditadura apoiada pelos Estados Unidos, e onde denuncia as subsequentes tentativas imperialistas de sabotagem violenta de um regime que  experimentou formas de mobilização popular no exercício do poder pouco comuns, mesmo para a América Latina mais recente.

Vale pois a pena ler o artigo que publicou a 13 de Janeiro no Guardian a propósito do recente terramoto. Hallward aponta, e bem, para o processo histórico de exploração colonial e opressão pós-colonial que está na raiz da actual vulnerabilidade do Haiti, e denuncia a hipocrisia de uma comunidade internacional que agora se mostra tão solícita na ajuda, mas que foi o garante da dita opressão.

Cito apenas uma parte do texto para a qual vale a pena chamar a atenção. « As mesmas tempestades que mataram tantos em 2008 [nota: no Haiti] atingiram Cuba com a mesma intensidade matando apenas quatro pessoas. Cuba escapou aos piores efeitos da “reforma” neoliberal e o seu governo mantém a capacidade de defender o seu povo de desastres. Se queremos ajudar seriamente o Haiti na sua crise então devemos ter esta comparação em linha de conta. » É claro que esta afirmação é um escândalo para as boas almas (nem sequer falo das más almas, que dessas nem vale a pena falar) que, a propósito de Cuba, só sabem falar em falta de liberdade de expressão e de liberdades democráticas (sem se preocuparem muito em definir o que é isso de democracia). Deixar impunes os traidores e os vendidos resultaria muito simplesmente nisto: exploração, miséria e dependência. Aquele que tem sido, justamente, imposto ao Haiti.

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