Hallward e o Haiti

Peter Hallward é um académico fora do comum, na medida em que mantém um duplo regime de produção, que não é muito comum por estes dias. Especialista em filosofia francesa contemporânea, é um dos mais importantes intérpretes de Alain Badiou, e um dos responsáveis pelo interesse que este filósofo tem suscitado nos últimos anos no espaço anglófono. Escreveu também um livro sobre Deleuze (Out of this World), e um estudo sobre o pós-colonial que é uma fortíssima crítica, e proposta de renovação deste campo de estudos e intervenção.

Em paralelo ao seu trabalho mais teórico, Hallward tem escrito regularmente sobre política Haitiana, tendo publicado em 2007 o livro Damming the Flood: Haiti, Aristide, and the Politcs of Containment, onde expõe o esforço do movimento popular Lavalas, e de Jean-Bertrand Aristide, para libertar o Haiti de uma ditadura apoiada pelos Estados Unidos, e onde denuncia as subsequentes tentativas imperialistas de sabotagem violenta de um regime que  experimentou formas de mobilização popular no exercício do poder pouco comuns, mesmo para a América Latina mais recente.

Vale pois a pena ler o artigo que publicou a 13 de Janeiro no Guardian a propósito do recente terramoto. Hallward aponta, e bem, para o processo histórico de exploração colonial e opressão pós-colonial que está na raiz da actual vulnerabilidade do Haiti, e denuncia a hipocrisia de uma comunidade internacional que agora se mostra tão solícita na ajuda, mas que foi o garante da dita opressão.

Cito apenas uma parte do texto para a qual vale a pena chamar a atenção. « As mesmas tempestades que mataram tantos em 2008 [nota: no Haiti] atingiram Cuba com a mesma intensidade matando apenas quatro pessoas. Cuba escapou aos piores efeitos da “reforma” neoliberal e o seu governo mantém a capacidade de defender o seu povo de desastres. Se queremos ajudar seriamente o Haiti na sua crise então devemos ter esta comparação em linha de conta. » É claro que esta afirmação é um escândalo para as boas almas (nem sequer falo das más almas, que dessas nem vale a pena falar) que, a propósito de Cuba, só sabem falar em falta de liberdade de expressão e de liberdades democráticas (sem se preocuparem muito em definir o que é isso de democracia). Deixar impunes os traidores e os vendidos resultaria muito simplesmente nisto: exploração, miséria e dependência. Aquele que tem sido, justamente, imposto ao Haiti.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

26 Responses to Hallward e o Haiti

  1. zé neves diz:

    de acordo: muitos dos críticos de Cuba não se preocupam em definir o que é isso de democracia e limitam-na à “política”, como se esta fosse separável da “economia”. mas isso não pode fazer esquecer os “críticos internos”, muitos dos quais colocam a ênfase em ambas as dimensões do problema: falta de democracia “política” e “económica”. O nosso problema é que imaginamos Cuba a partir do conflito entre Fidel e os de Miami e conhecemos demasiado mal as lutas internas que se processam no interior do regime cubano.
    abç

  2. Carlos Vidal diz:

    Zé Neves,
    se há lutas internas, há democracia.
    Se não há democracia, não há lutas internas. O problema é esse: qual o conceito de democracia operativo e usado e para quê.
    Já agora, haverá democracia na sociedade cubana de Miami?
    Há “críticos internos” em Miami?
    Certo, Miami não é a bitola.

    Mas é preciso conhecer a sociedade cubana em detalhe e não embarcar nos “contos” da imprensa europeia.
    No meio cultural, há muita gente a viver e a circular com razoável facilidade entre os EUA e Havana: artistas como Tania Bruguera ou críticos de arte como Gerardo Mosquera (com quem colaborei). Este, por vezes, tambem fala em democracia, mas acentua sempre aquilo que a sociedade cubana pós-revolucionária conseguiu e tem de preservar. Critica aspectos da vida cubana, mas vive em trânsito entre Havana e Nova Iorque. Não vive enclausurado nem num lado nem no outro.

  3. Xuntanuclear diz:

    zé neves,um wise guy e,especialista em amandar bocas q fit weel ao imperialismo do EUA.Independente,sempre,meo fileo!

  4. Xuntanuclear diz:

    Digo, well.

  5. Xuntanuclear diz:

    Talvez fosse tb aconselhado em ler Michel Chossudovski e,não ficarmos pela treta do xor zé neves que ficam bem num desses ‘jornais’ para o ‘grande público’,sim desses à borliú….
    Aqui b
    vai o link
    http://resistir.info/chossudovsky/haiti_15jan10.html

  6. Ricardo Noronha diz:

    Bruno, não sei de que boas almas falas. Mas existem certamente críticos do regime cubano que falam da falta de liberdade de expressão e da repressão, sem se limitarem a isso.
    Não percebo porque razão achas conveniente usar a boleia de um terramoto no Haiti para justificares e branqueares a falta de democracia em Cuba. Achas mesmo que só os «traidores e os vendidos» são reprimidos em Cuba? E quem define a aplicação dessas categorias? O politburo?
    Na incapacidade de admitir a possibilidade de uma crítica do castrismo que não esteja na lista de pagamentos da CIA, o teu argumento revela-se frágil. E mostra para que serve, exactamente, a posição de badiou, zizek e cia face ao socialismo real. Tantas frases ornamentais apenas para reivindicar o direito à cumplicidade com a nomenklatura.

  7. Bruno Peixe diz:

    Zé,
    acho que é preciso definir também o que se entende por “democracia política”, porque senão corremos o risco de identificar a democracia política ao sufrágio universal, e aos direitos políticos dos regimes parlamentares liberais.

    quanto às lutas internas, de facto não sei o suficiente para as discutir, mas não é pelo facto de serem lutas e de não serem pró-capitalistas, ou pró-americanas, que merecem a minha adesão. não sou, como sabes, um entusiasta da metafísica do antagonismo tão cara às falanges autónomas (assim está bem, Ricardo?), libertárias e anarquistas.

    a avaliação de posições políticas concretas tem obviamente um lado de adesão a doutrinas, a teses, aos conteúdos que fazem as afirmações e palavras de ordem da política. mas não se pode, na minha opinião, ficar por aí, temos de avaliar a situação concreta em que se fazem essas afirmações. porque, de contrário, fazemos apenas o papel do juiz que avalia as políticas concretas em relação a um ideal que não é, definitivamente deste mundo. entre isto e a tal metafísica do combate social que vê em cada pedra lançada a um polícia uma poética do antagonismo, entre estas duas opções, dizia eu, prefiro não escolher nenhuma.

    Ricardo, belas almas são aquelas que têm sempre palavras como a liberdade de expressão, as liberdades democráticas e a falta das liberdades democráticas na ponta da língua.

    por mim, acho que é preciso ver as coisas de um ponto de vista diferente do que nos propõem os críticos da repressão da liberdade de expressão e da liberdade de associação política. há que aprofundar a igualdade em Cuba? com certeza que sim, mas não no sentido que propõem as críticas liberais, nem sequer as libertárias.

    agora, a meu ver o que não se podem é por em causa os ganhos de muitos, que são, na minha opinião, ganhos de uma causa igualitária, para satisfazer o interesse de uns tantos, estejam ou não na lista de pagamentos da CIA.

    Dois abraços, um para cada um, que é para não ficarem com inveja.

  8. Olaio diz:

    A propósito da falta de liberdade em Cuba, em Julho passado estive 15 dias de férias na ilha, não em hoteis mas em quartos alugados aos próprios proprietarios em Havana, cienfuegos, Santa Clara, Trinidad… No jardim em plena Praça velha de Havana, frente à Opera envolvi-me numa discução com cubanos que rápidamente juntou um grupo onde todos botavam opinião e nem todos eram muito afim do regime, antes plo contrário, a policia apesar de andar por lá, não deu sinais de ligar ao ajuntamento, talvez por haver mais na Praça.

    Por todos os sitios por onde andei falei com cubanos e a reacção deles às perguntas que lhe faziamos não era muito diferente da actitude que os portugueses têm.

  9. Ricardo Noronha diz:

    Caro Bruno, fica a faltar neste debate a tua definição de «democracia política» que, parece-me, faltará à chamada. Há críticos do regime cubano para todos os gostos, ainda que te convenha confrontar-te apenas com as variações liberais dessa crítica.
    A tua valorização dos «ganhos de muitos», em prejuízo da «decisão de muitos», caminha num sentido ambíguo e perigoso. A liberdade é sempre a liberdade de quem pensa de maneira diferente, lembras-te?

  10. Carlos Vidal diz:

    Caríssimo Ricardo,
    Nem numa catequese primária isso é verdade:
    a liberdade é a liberdade de poder derrotar quem pensa de maneira diferente. Isto, sim, é a liberdade. Depois, podemos é discutir os termos da luta, as regras da luta, etc. Agora, “a liberdade é a liberdade de quem pensa de maneira diferente”??
    Nem pensar.

  11. Ricardo Noronha diz:

    Está bem Carlos. Vemo-nos nas barricadas.

  12. Bruno Peixe diz:

    Ricardo,
    entendo por democracia, sem ter a pretensão de lhe fixar o sentido, aquela política que toma como seu o pressuposto da igualdade de todos, mas também (e aqui afasto-me do rancière) que tem essa igualdade como horizonte de estabelecimento de uma comunidade.

    talvez tu queiras também explicar-nos o que é que entendes por liberdade, de que falas como se fosse uma evidência. talvez seja, mas é uma evidência ingénua ou acrítica, como o foucault mostrou tão bem. liberdade é a capacidade de um indivíduo traduzir em actos a sua vontade? é a ausência de obstáculos à agência individual? é que me parece ser essa concepção, a concepção liberal de liberdade, aquela que defendes quando dizes que a liberdade é a liberdade de pensar de maneira diferente. mas de maneira diferente em relação a quem?

    política é emancipação colectiva, é quando os dominados se tornam sujeitos da sua libertação, e é defesa dessa emancipação.

    abraço

  13. Pingback: cinco dias » Hallward e o Haiti (2)

  14. zé neves diz:

    bruno,
    a metafísica do antagonismo não é para aqui chamada. o que é chamado é a situação concreta: e a situação concreta não se divide entre fidel e anti-fidel. existe no interior (embora, é verdade, as fronteiras entre interior e exterior sejam complicadas de definir, o que para mim é um problema que não aflige) do regime cubano uma crítica que é uma crítica de esquerda (e não liberal). a posição dos trotsquistas (não estou a falar do BE ou do Louçã enquanto líder do BE) em relação ao assunto parecem-me um sinal disso. Estou a recordar-me, por exemplo, da conferência do M.Lowy a que ambos assistimos.

    Agora, não me parece que seja justo (não o fazes claramente, mas fica no ar) associar as posições do RanciÈre em torno da igualdade às posições liberais. A igualdade (no poder de decisão) é o que mais importa. Tudo o resto, és tu a dizer às massas o que é melhor para elas.

    Em relação ao que o Carlos diz: a liberdade de cada um pensar diferentemente do outro não impede a liberdade de cada um derrotar o outro e fazer vencer a opinião de uma maioria. Pelo contrário: não se vence o que é igual.

    abç a todos

  15. Bruno Peixe diz:

    Zé,

    a metafísica do antagonismo não foi eu que a trouxe á baila. quanto ao Rancière, não me parece que se depreenda do que eu escrevi qualquer associação do rancière ao liberalismo. tal associação está bem longe da minha avaliação do pensamento dele. o que eu escrevi foi que a concepção de liberdade que subjaz à afirmação do Ricardo é, no essencial, liberal. e se não é nos pressupostos, que não ficaram explicitados, parece ser nas consequências: liberdade de expressão e de opinião, num regime de pluralidade de opiniões.

    quanto às críticas de esquerda, partes do pressuposto de que elas são interditas em Cuba, mas a partir de quê? não é com certeza a partir das reportagens da Sandra Felgueiras para a RTP, porque sei que sabes mais do que isso, e que desprezas a propaganda anti-comunista e anti-socialista tanto como eu.

    a verdade é que tenho lido entrevistas de intelectuais cubanos que criticam o regime e que continuam a viver e a trabalhar em Cuba, e até a viajar ao estrangeiro. os artistas de que o Carlos fala parecem confirmar essa minha impressão. trata-se tão simplesmente de criticar no sítio certo, como diz (e bem), a malta do PCP.

    abraço

  16. maria povo diz:

    CUBA é o ÚNICO pais das américas que aboliu a desnutrição infantil!!!

    CUBA é o ÚNICO país das américas que tem 0% de analfabetismo!!!

    CUBA é o ÚNICO pais das américas cuja produção de alimentos aumentou, nomeadamente através da permacultura (aproveitamento de terrenos nos arredores das cidades para praticar culturas biológica tendo como fertilizantes os residuos biológicos)!!!

    CUBA é o ÚNICO país das américas onde a escolaridade até ao fim de um curso superior é gratuita!!!

    CUBA é o UNICO país das américas onde a prestação de cuidados de saúde é gratuito!!!

    depois de estas e muitas outras atitudes de Cuba, AINDA ANDAM A FALAR DE DIREITOS HUMANOS EM CUBA?!?!?!?!

    enfim…. CUBA É UNICA por isso é melhor não divulgar muito não vá alguém acreditar…. bem A SEMENTE “CUBA” JÁ ESTÁ LANÇADA a toda a América latina…. pode ser que um dia chegue à europa… quando os EUROPEUS quiserem!!!!

  17. Ricardo Noronha diz:

    Olha Bruno, cada debate que levamos um pouco mais longe torna mais claro o perfil dos leitores de Badiou. É com pena que o digo, mas parecem ser pessoas para quem a história do movimento operário começou quando ele tropeçou numa máquina de escrever.
    É um pouco lamentável que classifiques enquanto «liberal» uma expressão de Rosa Luxemburgo. Serás provavelmente o primeiro a fazer semelhante diagnóstico. Deixo-te a citação um pouco mais ampla: “A liberdade apenas para os partidários do governo, só para os membros de um partido – por numerosos que sejam – não é a liberdade. A liberdade é sempre, pelo menos, a liberdade do que pensa de outra forma (…). Sem eleições gerais, sem uma liberdade de imprensa e de reunião ilimitada, sem uma luta de opinião livre, a vida acaba em todas as instituições públicas, vegeta e a burocracia torna-se o único elemento activo”.
    Quando situas a igualdade no horizonte, estás a dizer coisas bem verdadeiras. Como sabes, a linha do horizonte tem a propriedade de se manter sempre à distância, por mais que caminhes na sua direcção. É por isso que a política que toma a igualdade como uma meta, em vez de um pressuposto, se deixa sempre aprisionar em ambiguidades como aquelas que tu não tiveste receio de exprimir. E a esse respeito, não há «metafísica do antagonismo» atrás da qual te possas esconder.
    A liberdade de que falei ṇo podia ser mais evidente Р̩ a liberdade de expresṣo e livre associa̤̣o. Aquela que eu reivindico para mim e, por isso mesmo, ṇo me atrevo a negar aos outros.
    Quando uma revolução necessita de censurar para se defender, está apenas a preparar uma contra-revolução a partir de dentro. Depois virás lamentar a «traição» dos dirigentes que, detendo todo o poder para defender a revolução, não hesitaram em utilizá-lo para a destruir, como aconteceu na URSS.
    Mas nota como a palavra «branqueamento» se adequa ao que escreves. Provavelmente não te dás conta, mas dizes sobre Cuba o que os fascistas diziam sobre o salazarismo: “há tanta liberdade que até há pessoas que fazem críticas e que continuam a viver e a trabalhar em Cuba, e até a viajar ao estrangeiro.” Para quem não se contentava com uma formulação ingénua de «liberdade», eis que te revelas muito indulgente no seu uso.

  18. Carlos Vidal diz:

    Ricardo, uma tua citação correcta:
    “Sem eleições gerais, sem uma liberdade de imprensa e de reunião ilimitada, sem uma luta de opinião livre, a vida acaba em todas as instituições públicas, vegeta e a burocracia torna-se o único elemento activo”.
    Gostaria apenas que apontasses este lugar no mapa.

    Uma outra citação (ou frase em forma de citação), incorrecta (despropositada):
    “há tanta liberdade que até há pessoas que fazem críticas e que continuam a viver e a trabalhar em Cuba, e até a viajar ao estrangeiro.”

    Primeiro, ninguém disse isto.
    Eu disse, partindo do meio artístico cubano (um dos mais interessantes, e não apenas na actualidade: a coisa vai de Lezama Lima ao meu amigo Gerardo Mosquera), que há crítica em Cuba que sabe ver a realidade. Que sabe, por exemplo, o que deve mudar e o que não deve mudar.
    Por cá, por exemplo, o Peter Hallward (autor de um portentoso “Absolutely Postcolonial”) sabe fazê-lo.

    Vai longo este comentário.
    Não te esqueças por isso de me apontar no mapa o lugar onde vivifica aquilo que Rosa disse.
    É o enigma mais importante.
    É que eu (e julgo que o Bruno também) estou à espera.

  19. Ricardo Noronha diz:

    Carlos, acho que a citação faz inteira justiça ao raciocínio desenvolvido pelo Bruno. A existência de «artistas» que viajam não demonstra absolutamente nada acerca do grau de liberdade – que, repito, quer aqui dizer liberdade de expressão e associação – existente em Cuba.
    Nenhum de nós está em condições de analisar o tema em pormenor ou profundidade, mas seria bom que não se aproveitasse o terramoto do Haiti para louvar o partido único cubano e afirmar que ali os prédios não caem porque o politbureau não dorme em serviço.
    É engraçado o desafio que me colocas, porque evidentemente também não há qualquer lado no mundo onde o comunismo esteja na ordem do dia e isso não tem inviabilizado as discussões em torno do tema.
    Se bem entendo, o teu argumento é que um cenário como o que Rosa descreve seria inviável e condenaria uma revolução a ser derrotada pelos seus inimigos. Convido-te a formular o teu pensamento de um modo mais explícito, para saber se assim é e responder-te o que penso sobre o assunto.
    Pergunto-te, em todo o caso: essa crítica que “sabe ver a realidade. Que sabe, por exemplo, o que deve mudar e o que não deve mudar.” faz exactamente o quê? Palestras e exposições? Jornais? Manifestações? Propostas construtivas para aperfeiçoar a via cubana para o socialismo? Romances?

  20. Bruno Peixe diz:

    Ricardo,

    confesso que me é difícil perceber porque insistes em trazer o Badiou para aqui. se acaso estás a sugerir que não sou capaz de escrever nada sem uma figura tutelar por detrás, além de não ser simpático, neste caso até foimum tiro ao lado, no que diz respeito anjo da guarda teórico. penso que seria muito difícil defender um projecto de regime de partido único a partir do pensamento da política do Badiou.

    para que se possa seguir para a frente, tomo a liberdade de citar o Badiou numa entrevista realizada em 1997, justamente com o Peter Hallward (o gajo que suscitou este post), para a tradução inglesa de “l’éthique”: « Respeito Cuba como uma figura de resistência, pois devemos respeitar todas as formas de resistência à hegemonia do mercado global, e ao seu principal organizador: o imperialismo americano. Mas Cuba dá-nos um testemunho singular de uma concepção ultrapassada da política. Portanto Cuba terá, inevitavelmente, problemas muito sérios, porque é um testemunho, de grandeza incontestável, de uma figura do Partido-Estado que pertence a uma outra época política. Tudo o que existe nasce, desenvolve-se e acabe. Depois disso vamos para outra coisa. »

    quanto à Rosa, mais do que o enunciador, o que interessa neste caso é o enunciado. foi dito pela Rosa Luxemburgo, mas podia ser dita com a mesma candura pelo Voltaire, pelo Tocqueville, pelo Churchill, ou pelo João Carlos Espada, figuras que, creio, tu também não recomendas a ninguém. és de facto muito claro, e ainda bem, quando reivindicas para ti a concepção de liberdade como livre associação e expressão. é, sem tirar nem por, a concepção de liberdade negativa que, do Benjamin Constant ao Isaiah Berlin, os liberais defendem como a condição sine qua non do viver em sociedade.

    apoiando-me no post da maria povo, diria que entre as conquistas da revolução como a educação, a saúde, e a alimentação, e a tua liberdade de expressão e de associação, não hesito em escolher a primeira. dir-me-ás que essa é a chantagem de todos os poderes instalados, e que temos de recusar a falsa escolha. temos de facto de recusar falsas escolhas e chantagens, e podemos discordar do modo em que a escolha se pôs, historicamente, aos Cubanos. eu prefiro acreditar que, bem ou mal, foi uma opção formulada em boa fé.

    em política, os desejos, vontades, enfim as singularidades dos humanos não devem ser um dado que tomemos como imutável. não há projecto político que valha a pena que não traga consigo uma concepção do homem novo e, para glosar Robespierre, não pode, em política, haver virtude sem haver terror.

    o meu problema com a tua liberdade de expressão e de associação é que, no contexto de construção de uma comunidade nova e de um homem novo, teria necessariamente de aceitar a existência de quem, em nome dos seus interesses, vontades ou desejo, recusasse essa proposta de colectivo de iguais e que, em nome dessas ideias, agisse contra o tal colectivo igualitário, em nome de uma ideia diferente do que é viver em conjunto (digamos, uma ideia individualista, ou burguesa). é nisto, Ricardo, que me parece que estamos em desacordo.

    abraço

  21. Carlos Vidal diz:

    Não vou falar do meio artístico cubano, que sim, faz tudo o que tu comentas, Ricardo, crítica dura, expos, conferências, bienais (a de Havana é sempre contestatária ao “regime”, como lhe chamas, e das mais importantes da actualidade) – mas isto das artes é muito específico, pouco interessante: olha, vale para um gajo como o Badiou, que a diz (à arte) produtora de “verdade” (coisa esquisita!), juntamente com a ciência, o amor (outra coisa esquisita!) e a política (esta já não é esquisita).

    Ora, falemos então de liberdade, e com brevidade.
    Por mim, sem vida humana digna desse nome consolidada como “verdade” ou “evidência”, eu nem sequer falaria em liberdade.
    Tu, por exemplo, não prezas conquistas da sociedade cubana como determinantes por si, e eu não prezo nada a liberdade dos seus vizinhos, da Argentina ao Canadá. Posições.
    Paisagens. Irredutibilidades.
    Ah, onde estamos em desacordo, já agora, é no facto de que não só não defines democracia, como não defines NA SOCIEDADE CONCRETA (situação) a liberdade. Toma-la como valor em si, abstracta.
    Coisa pura. Cristal. E não é.

    E, para ser ainda mais concreto e direccionado, talvez eu ache que em Cuba seja mais importante a prática da resistência, resistir como nos “Amantes Crucificados” (um filme das preferências do Badiou; outra vez? outra vez!), dizia eu talvez seja mais importante a resistência do que a liberdade. Que se lixe a liberdade.

    E quanto às “eleições”, aí é que eu acho mesmo que nem vale a pena discutir nem dizer nada.

  22. Aniceto Azevedo diz:

    Bruno Peixe,

    viu muitíssimo bem o fundo da questão em relação ao Ricardo Noronha. A base do pensamento dele é liberal. Liberalismo burguês puro e duro. Leiam o Hayek, que deve ser lido como cadinho do pensamento reaccionário do século XX, e depois digam se não é a mesma visão que o Ricardo Noronha sustenta: a liberdade abstracta, a democracia pura, o desprezo pelo concreto social.
    Falta-lhe entretanto dizer uma coisa, Ricardo Noronha. O próprio texto de Rosa Luxemburg que cita, escrito na prisão durante a revolução russa, foi mais tarde, como acho que sabe, revisto e criticado pela própria, precisamente em relação aos pontos em que se referia à “liberdade” de maneira abstracta. O seu azar, Ricardo, é haver muita gente pelo mundo fora que lê os textos directamente do alemão. Que não se impressiona com pequenas citações atiradas em forma de estribilho. Tiram-lhe o tapete, é verdade. Mas impedem, pelo menos, que a arrogância impante de que dá mostras, citando como se num duelo estivesse, fique impune.

    PS – o seu paralelo com o salazarismo fica registado. No entanto, rico salazarismo, o cubano. Numa reportagem da Felgueiras em Cuba, ela foi a casa dos “dissidentes”, filmou-os, entrevistou-os, identificou-os, ouviu-os, teceu-lhes loas, benzeu-os, e tudo o mais. Fez-me lembrar o salazarismo, realmente, quando os nossos “dissidentes” eram entrevistados em casa e diziam mal da PIDE, do salazar e da vigilância de que eram alvo. E há ainda outro paralelo: ambos os regimes são contra-revolucionários, Ricardo, exploram os dois juntos o proletariado. Não é assim?

  23. Justiniano diz:

    Caríssimos…!! Esta posta é, sem dúvida, moralmente vesga e assente em erro sobre os pressupostos.
    Que raio de argumento esse das fundações mais ou menos liberais e da sua pertinencia à suposta permeabilidade do edificado, acaso o sol será diferente e a produtividade (palavra a desgosto de muitos mas simplesmente traduzida em produtos da terra ou outra coisa qualquer) a mesma.
    O desconhecimento impertinente da natureza social (democrata-Universal) de quase todos os Estados das Américas, da Argentina ao México (salvo poucas excepções). Ou será a medida do sucesso medida do princípio!? Então, que dizer dos fracassados!!? Pouco esforço!? Que fazer!?
    Tecer loas aos Cubanos (para alguns aqui uma espécie de Nórdicos das Américas). Que seja(m)!!
    Sujeitemo-nos, então, a toda a utilidade e aceitemos (como diz o Vidal e não diria Kant) os limites imanentes à liberdade (coisa despicienda quando, em concreto, comparada com uma malga de sopa).

  24. Ricardo Noronha diz:

    Eu não reivindico uma «concepção de liberdade». Eu tenho da liberdade uma leitura prática – a liberdade de fazer isto ou aquilo. Concreta e politicamente, a liberdade de exprimir abertamente um ponto de vista e de o poder defender em conjunto com outras pessoas para o fazer valer. Se Tocqueville ou Berlin formularam a questão nesses termos é porque essa é a condição essencial para fazer política. Quando isso falta pode-se consumir democracia, mas não exercer democracia.
    Mas é curioso porque, dentro desse impenetrável quadro conceptual traçado pelo Bruno e pelo Carlos, o partido bolchevique, que até 1921 reconhecia o direito de tendência e, portanto, uma prática interna «pluralista», seria liberal. E como nos primeiros anos da revolução russa também os mencheviques e os socialistas revolucionários foram tolerados e podiam publicar a sua imprensa e reunir-se, teríamos também aqui uma ditadura do proletariado amarrada ao liberalismo.
    É fácil «vencer» debates contra interlocutores censurados ou metidos na prisão. Mas essa concepção administrativa da política implica sempre um preço elevado a pagar mais tarde. Uma ideia reaccionária que se silenciou em vez de se desmontar ou refutar apenas ganhará mais força.

    Bruno, o teu último paragrafo parece saído de uma composição da escola primária soviética. Um colectivo igualitário do qual foram erradicados interesses, vontades ou desejos individuais equivale a um conjunto de prisioneiros num campo de trabalhos forçados. Tu não sobreviverias 30 segundos.
    Esta afirmação – “não há projecto político que valha a pena que não traga consigo uma concepção do homem novo” – é completamente gratuita e, tristemente, volta a ser o Badiou (estavas mesmo à espera que eu fosse simpático?) a usar o teu teclado. Quem é que «concebe» esse homem novo? Tenho a impressão que tão exigente tarefa, para a qual raramente faltam voluntários, ficará a cargo de um qualquer homem velho.
    Outra frase que brilha pela sua estupidez é a citação que fizeste da entrevista: “devemos respeitar todas as formas de resistência à hegemonia do mercado global.” Todas as formas? Mesmo a de quem denuncia nessa hegemonia a dominação secreta da grande conspiração judaico-maçónica? Mesmo a do «fascismo anti-plutocrático»? E quem distingue o que são formas de resistência de formas de degenerescência? Mais uma vez, imagino, um homem velho se encarregará da tarefa.

    Aniceto Afonso (onde é que vocês inventam estes nomes? há alguma base de dados?), a minha arrogância impante não desconhece o debate polémico em torno dessa «revisão» do texto de Rosa Luxemburgo e da sua respectiva autoria.
    Mas note que nada há de abstracto na formulação original. Acho mesmo que não poderia ser mais clara, a não ser talvez na sua versão alemã (queira partilhar, deixe de ser tímido). A única coisa do concreto social que eu verdadeiramente desprezo são os comentários idiotas.

    Carlos, continuamos a fazer de conta que debatemos. Eu não prezo as «conquistas sociais» da revolução cubana? Mas quem to disse? Eu apenas não as uso como argumento contra a necessidade de uma prática democrática que inclui, evidentemente, a possibilidade de expressar opiniões divergentes e de lutar para as ver concretizadas.
    A minha «liberdade», como a minha «democracia» são tão abstractas como a tua «verdade». Parece-me um bocado sonso acusarem-me de não avançar nenhuma definição concreta destes termos. É evidente que essa forma concreta varia historicamente e resulta de lutas em torno da sua determinação. Mas não nos escondamos por trás dessa evidência. Há uma prática da política enquanto conflito que não dispensa um conjunto de condições. Evidentemente que durante uma guerra civil ninguém está preocupado com a liberdade de expressão do inimigo. Mas Cuba não atravessa uma guerra civil e, se é pelo seu conteúdo emancipatório que celebramos/apoiamos/defendemos a revolução cubana, então dificilmente se poderá sustentar que o partido-estado é a condição desse conteúdo, como se pode ler no post do Bruno.

  25. Carlos Vidal diz:

    Ricardo, não chames Aniceto Afonso a quem se chama Aniceto Azevedo (autor de um comentário extremamente pertinente).

    Mas tens razão, quando “debatemos” ou “discutimos” não “discutimos” nada. Aliás a livre expressão é isso mesmo: discutir, emitir opiniões (o que Platão conhecia bem e reprovava nos sofistas), produzir paralisias.

    Ora, se as obras de arte falassem…
    Às vezes falam.
    Mais acima mostro e comento a obra de Alys, “Cuando la fe mueve montañas”. A liberdade é isso.
    Mas não vou debater mais.
    Vou citar o que deixei nesse post como comentário a um comentário de um amigo:
    « [Desta obra] emana um projecto de emancipação, de transformação impossível a partir da extrema coesão. Esta obra expressa uma quintessência da modernidade: o colectivo. Quando li Lyotard, há muito, ele dizia que um projecto colectivo já não mobilizava ninguém (por exemplo, convencer os franceses a ultrapassar o PIB alemão, acho que era este o exemplo); mas aqui configura-se uma força que só existe num colectivo fortemente organizado e mobilizado. A obra “Cuando la fe…” é moderna e é…. algo “terrorista”, ilegal (um colectivo organizado não obedece à lei porque pode mudar a lei, as leis). (…) até daqui pode nascer uma ideia de liberdade: a liberdade é a possibilidade de, através da extrema coesão, fazer deslocar uma montanha. Quer dizer, a liberdade não tem de ter o “possível” como horizonte. A liberdade não é a “liberdade de expressão, reunião, associação”. A liberdade é a “liberdade de transformação” do que, à partida, não pode ser transformado.»
    A liberdade é o impossível. Ou nada.
    Como disse algures, o teu limiar que eu chamo do “real possível” interessa-me quase nada. Nada mesmo.

    (por isso Badiou Рoutra vez? outra vez! Рfala e muito bem na inumanidade da arte e do belo. Entendido? Ṇo? Lamento. Ou ṇo lamento.)

  26. Aniceto Azevedo diz:

    Ricardo Noronha,

    consigo nenhuma confiança.
    Além do desprezo pelo concreto social, que reafirmou, dos “comentários idiotas” e da inaptidão para ler directamente do original alemão, exibe ainda uma boa dose de ignorância. Abstracto não significa falta de clareza. Seja tímido, tire uma sabática. Depois venha a terreiro.

    Bruno Peixe,

    o comentário das 19:52 brilha pela exactidão e pela profundidade.

Os comentários estão fechados.