Pontos Prévios sobre as Presidenciais

Na esteira do que já foi aqui defendido há dias pelo Zé Neves, no seu Alegrismos, seguem-se algumas reflexões, por assim dizer, preliminares sobre a questão das próximas eleições presidenciais.

Não querendo seguir o exemplo de Foucault, ao escrever os sucessivos volumes da sua crónica das aventuras da sexualidade, enquanto sustentava que a coisa não teria importância de maior, hesitei bastante em publicar um post em que tento mostrar por que razões as próximas presidenciais não me parecem merecer demasiado espaço numa agenda política orientada pela luta pela autonomia democrática e pela ruptura que esta implica com os actuais modos de exercício e reprodução do poder hierárquico no quadro das actuais formas de direcção, tanto dos aparelhos estatais centrais  como dos órgãos que regulam a chamada actividade económica – ou seja, que definem politicamente o actual regime de relações de poder no campo da economia.

Tendo acabado, apesar de tudo, por considerar que “desmitificar” a importância das próximas presidenciais não seria de todo inútil e poderia contribuir de uma maneira ou de outra para alargar um debate que, a travar-se, talvez possa dissipar algumas ilusões e despertar novas interrogações críticas, esquematizei nos seguintes três pontos a minha maneira de ver as coisas.

1. Convém recordar que o Presidente da República é o “Chefe de Estado”. Como “chefe de Estado”, e enquanto o for, o Presidente é um símbolo por excelência de uma sociedade hierarquicamente organizada, assente, entre outras coisas, na distinção permanente e estrutural entre governantes e governados. A ideia de que é bom é ter um bom chefe à cabeça do Estado é apostar, mantendo a actual divisão do trabalho político, numa forma de poder que só pode impedir o caminho da sua conquista e exercício   pelo auto-governo organizado e igualitário do conjunto dos cidadãos.  O quadro de uma república instituída como expressão e actualização da vontade de autonomia da cidadania governante não conservaria o lugar e o cargo da “chefia do Estado”. No caso de ser necessário, em certas circunstâncias  – protocolares, por exemplo –, que alguém desempenhasse o papel de “presidente da República”, isso poderia ser feito, como já defendi, por tiragem à sorte.

Há algum tempo, respondi ao Carlos Vidal, que insistia na eventual necessidade de uma organização hierárquica e com liderança clara para conquistar e impor o poder revolucionário, fazendo-lhe notar que ele permanecia prisioneiro da problemática e do “problema do bom governante ou, no sentido platónico, do político como pastor”, quando  a emancipação democrática não pode deixar de, desde o primeiro momento, tentar “romper com a problemática do rebanho e as condições do arrebanhamento”. Creio que a mesma objecção vale contra os que apostam no tema das próximas eleições presidenciais sem pelo menos contestarem a instituição do chefe de Estado.

2. Como os que frequentam as discussões deste café sabem,  não me tenho cansado de insistir numa concepção activa da cidadania, pelo que entendo o auto-governo dos cidadãos organizados, e na denúncia do carácter classista e anti-democrático da limitação da actividade política regular a “políticos profissionais” e “especializados”. Assim, à partida, os apelos de Manuel Alegre aos “movimentos de cidadãos”, mulheres e homens comuns que assumissem plenamente a acção política como seu direito e responsabilidade, dever-me-ia merecer aplauso e solidariedade.

Há, no entanto, o facto de Manuel Alegre ser um “político profissional” por excelência, o que o tornaria pouco indicado para encabeçar um movimento semelhante de contestação das formas que organizam a cena política dominante. No mínimo, seria necessário um gesto de ruptura com o papel até agora desempenhado, e não, como aconteceu das últimas presidenciais para cá, a sua atitude de ex-dirigente partidário e de “dirigente partidário em potência”. Até mais ver, não deixou a sua atitude de cabecilha de uma oposição frouxa à direcção actual do PS, e tudo leva a crer que uma eventual sua ruptura com o PS não o levaria a romper com a lógica do bom pastor que acima evoquei.  Compete-lhe a ele provar que é capaz do contrário. E oxalá fosse capaz de tal coisa – digo-o sem grandes esperanças, mas também sem ironia.

Seja como for, uma interrogação permanece. Ainda que Manuel Alegre venha a mostrar-se capaz de satisfazer as condições em causa, será assumindo a causa de uma nova candidatura presidencial, que melhor se poderá desenvolver e propor a acção em vista da construção de uma cidadania quotidianamente activa e potencialmente governante, em que todos decidam das leis por que se governam e das leis que governam a sua actividade na esfera da produção e da economia? Será batendo-nos pela eleição de um chefe de Estado que, aos olhos  da “multidão” dominada no seu dia a dia por toda a espécie de expropriações e de menorizações, expressaremos da melhor maneira a nossa vontade de autonomia e de avanço no sentido da emancipação?

3. Evidentemente, não vejo objecção de princípio a uma intervenção no cenário eleitoral, a título de combate secundário ou de “aproveitamento” que permita chamar a atenção para as questões de fundo e funcione de modo a contestar, no seu próprio campo, os princípios hierárqucos que prevalecem na cena política dominante e lhe são consubstanciais. E aqui parece-me que devemos ter em conta as circunstâncias actuais e, por assim dizer, a dimensão da conjuntura em que as próximas eleições presidenciais terão lugar.

Acontece, com efeito, que a “crise” financeira em curso acarreta ou torna mais ameaçadores os riscos veiculados por certas propostas de reforma ou redefinição dos regimes liberais abalados.
Por exemplo, as “intervenções providenciais”, acima da “política”, e desqualificando-a (mediante o aproveitamento e a insistência na “corrupção” e nos “escândalos”, bem reais, de resto), insistindo na sabedoria, na autoridade e na competência de um chefe, acima dos partidos e das classes, que “meta isto na ordem”, são efectivamente um risco no contexto actual. Os regimes de tipo fascista, na base de corporativismos vários, também se apresentavam, no seu tempo, como “sociais” – e propagavam uma concepção “providencial” do Estado, afirmando-se como uma espécie de “Estados-Providência” reaccionários, através da sua imposição dos compromissos entre os diferentes interesses de classe (“sócio-profissionais”).

Outra variante da mesma ameaça vem das vozes e pareceres dos que nos convidam a investir em “organizações de confiança”, em “direcções seguras”, em “rumos certos” definidos por ideologias, concepções, competências “firmes” e aplicados por equipas “capazes” – e para isso dotadas da “autoridade” necessária. Trata-se de uma orientação que encontramos em quadrantes que se reclamam de diferentes tradições, e assume muitas vezes a forma da reivindicação de um maior papel do Estado, ao mesmo tempo que alimenta a confusão entre “estatal” e “público”, ou identifica a defesa do “bem público” com o reforço dos aparelhos de Estado centrais e das suas competências de “direcção”, tanto da actividade económica como do espírito.

Trata-se de uma tendência bem patente, por exemplo, nalgumas “novas” versões direitistas da “doutrina social da Igreja”. E afirma-se ao mesmo tempo que, em certas forças e corrente de “esquerda” vemos uma reabilitação cada vez mais assumida do “socialismo real” à Brejnev, quando não à Estaline: significativamente, foi vendido na festa do Avante! e tem sido citado fervorosamente na blogosfera por militantes e/ou simpatizantes do PC um livro chamado Um Outro Olhar sobre Estaline, escrito por um tal Ludo Martens, m-l belga, que é um autêntico trabalho “negacionista”. O facto de a corrente m-l do autor sustentar que a URSS se tornou “social-fascista” depois de Estaline parece não incomodar um certo sector de apoiantes do PCP: aprovam Estaline, o regime que lhe sucedeu, a China maoísta e também a actual… O que é sintomático são os termos cada vez mais decididos da reabilitação e da proclamação sem complexos da nova síntese, por contraste com o reconhecimento dos erros cometidos, as alegações de ignorância dos métodos dos “partidos-irmãos” no poder, etc., que, há poucos anos ainda, definiam a posição oficial e vinculativa, se bem que, conforme os casos, mais ou menos relutante ou contrafeita, do PCP.

Valeria a pena, mas é impossível aqui, continuarmos a analisar a importância e a capacidade de influência que todo um leque de propostas muito diferentes, mas tendo em comum a valorização da autoridade do Estado, de um governo esclarecido, de uma organização correctiva, de um “poder dos melhores”, etc., acompanhada nalgumas versões da insistência no papel a desempenhar por um “timoneiro”, chefe ou condutor de forte personalidade. Terei de me limitar a sugerir para terminar que este traço do contexto conjuntural, introduzido por certas declinações da actual “crise”, deveria levar-nos a olhar com uma desconfiança democrática ainda maior um excessivo investimento da “questão das presidenciais”.

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22 Responses to Pontos Prévios sobre as Presidenciais

  1. Chessplayer diz:

    gostei. fico ansioso a aguardar a resposta do C. Vidal.

  2. Chessplayer diz:

    onde se lê resposta, fica melhor, comentário.

  3. Pingback: cinco dias » Sócrates Alegre

  4. Niet diz:

    Belo texto: pela factura de qualidade e equilibrio teórico consumados. Tudo bem. A discussão ainda vai no adro.Convenhamos. E Alegre e o seu MIC podem tentar surpreender-nos e criar qualquer coisa de novo.Não é impossível, mas as dificuldades são mais do que muitas. O que eles necessitam é desfazer-se daquele obsoleto, viscoso e arrepitante imaginário capitalista que acompanha os rituais do chefe, do demiurgo e do iluminado…E que têem a ver também com a abracadabrantesca ganga de pulsões e sublimações teóricas ligadas ao messianismo marxo-bolchevique datado e inoperante, que irriga e paraliza os coriféus do seu estado-maior.A idade e a experiência política do candidato causam embaraços de monta para fazer passar uma mensagem recauchutada de caudilho ou condottieri. O que quer dizer- a não ser que se crie um big-bang de irradiação multifuncional – de todo-em-todo, inverosimel e historicamente quase impossível- que novos e graves erros se acrescentarão ao curso da história política portuguesa. Niet

  5. Caríssimo Miguel,
    Aqui na Tailândia o Manuel Alegre ainda não chegou, no entanto, no intervalo das filmagens, gostaria de dizer duas coisas. O episódio da Festa do Avante é saboroso, mas é enganador. O livro foi vendido na feira do livro da festa, onde se podem encontrar livros de vários matizes, até do Castoriadis, sem que isso signifique o apoio do PCP às teses do simpático Cornelius. Pelo que sei, o livro não se encontra à venda em nenhuma livraria de um centro trabalho do PCP, ao contrário dos do Campo das Letras, editora que edita o Castoriadis. Quer dizer, sob esse critério, não se retira o apoio oficial do PCP`ao mirífico Ludo.
    Segundo, o facto de não concordarnos com a forma com que o poder é exercido não significa que o poder não interfira nas nossas vidas. Pelo que percebo, o Miguel defende que nos devemos abster de qualquer intervenção eleitoral enquanto as estruturas de poder não se tornarem não hierárquicas. Fico sem preceber, para além do proselitismo, qual é o caminho para conseguir este objectivo que me parece bastante nobre e positivo. Vou voltar ao Muay Thai.

    abraço,
    Nuno

  6. miguelserraspereira diz:

    Caríssimo Nuno,
    1. tens provavelmente razão quanto à venda do livro na festa do Avante! Mas permanece a questão de o livro em apreço e outros de teor afim, ainda que sem o aval oficial, serem aprovadoramente citados e retidos na área do PCP. E também é verdade que a demarcação em relação ao período estalinista, ao maoísmo, etc. deu lugar a uma atitude de conjunto mais evasiva. Dir-se-ia que “tudo o que vem à rede é peixe”, contanto que venha de um regime (passado ou presente) em que o lugar dirigente do Partido e o exclusivo do poder nas suas mãos hajam conseguido manter-se. Tal é o aspecto que conta para os efeitos da minha análise.
    2. Não defendo que nos abstenhamos de qualquer intervenção eleitoral. Limito-me a dizer que seria bom que desvalorizássemos o episódio das próximas eleições presidenciais em benefício de outras prioridades da luta política. Insisto sobretudo no perigo que corre de contribuir para o pior, ainda que contra vontade, quem valorizando uma candidatura, acabe por alimentar a nostalgia de dirigentes salvadores ou organizações redentoras, que reforcem o sentimento da fatalidade da hierarquia e da desigualdade. Se vires bem, é só isso que digo acima. E é possível que diga pouco.

    Abraço

    msp

  7. Bruno Peixe diz:

    Caro Miguel Serras Pereira,

    No léxico historiográfico “negacionista” costuma adjectivar as posições que negam a existência ou o carácter massivo do extermínio nazi.

    O uso do mesmo termo para reavaliações, mesmo que pouco sérias do ponto de vista historiográfico, mais não serve do que para reforçar as comparações entre o regime soviético e o nazismo, comparação inútil em termos de compreensão histórica, e perniciosa do ponto de vista político.

    Todos os anos somos bombardeados com novas hagiografias de Churchill, opressor da classe operária britânica e colonialista. É de chamar-lhes negacionistas? Na minha opinião não. Tentemos denunciar tais trabalhos como propaganda, sem para isso tomarmos de emprestado conceitos que, dado o seu uso rigoroso noutro contexto, tomaram um prestígio que se torna tentador usar para denunciar outras opressões.

    Atentamente,
    Bruno Peixe Dias

  8. miguelserraspereira diz:

    Caro Bruno,
    já tive ocasião de dizer neste blogue que não considero que o regime de Estaline e o de Hitler tenham sido idênticos. Mas não vejo que isso me impeça de estabelecer uma semelhança entre maneiras de falsificar a história de um e de outro regime. Acresce que escrevi “negacionista” entre aspas, precisamente para assinalar que estávamos perante uma falsificação de outra realidade, que não a dos campos de extermínio nacional-socialistas.
    Uma coisa é, por exemplo, interpretar a iniciativa dos “processos de Moscovo”, em 1937-1938, como uma medida que as circunstâncias justificariam (parece-me uma interpretação aberrante, sem dúvida, e politicamente mortífera, se se sustentar que essa medida foi um momento da defesa do socialismo). Outra coisa, é negar o carácter “forjado” dos mesmos processos, a falsidade factual das acusações endereçadas a Kamenev, Zinoviev, Bukharine, Rykov, etc., bem como a Trotsqui (apesar de este não se contar entre os réus). Aqui passa-se um limiar importante – quer do ponto de vista historiográfico, quer do ponto de vista político – e entra-se no “negacionismo”.
    Espero ter respondido à sua objecção.
    Saudações republicanas

    msp

  9. zé neves diz:

    estou de acordo com muito do que o mps escreve. e parece-me importante, sobretudo, sublinhar este ponto: longe de uma posição de não-intervenção em eleições (creio que o msp não defende isso), importa debater se todas as instituições do regime que derivam de eleições merecem-nos ou não a mesma importância. E essa mesma importância não depende apenas da importância dessa posição para o funcionamento do actual regime (o que é discutível neste caso concreto como noutros). Porque se dependesse ficaríamos absolutamente reféns da lógica de poder do próprio regime. Por exemplo, sendo o poder autárquico, do ponto de vista institucional, uma instância menor em relação ao governo e à presidência, é compreensível que existam partidos (é o caso do pcp) que valorizem (por razões várias, bem o sei) esse tipo de poder em detrimento de outros.

    ps: em relação ao livro, estou de acordo com o nuno. e acrescent isto: o que é significativo é que um livro promovido (legitimamente) por determinados sectores do PCP ou afectos ao PCP não tenha sido publicado pelas Edições Avante! Posso ser eu a tentar ver o copo meio cheio, é claro, mas importa sublinhar isto.

  10. xatoo diz:

    Maré baixa. Boa para apanhar conquilhas, mas o miolo nesta época do ano está magrinho.
    Não sou um particular adepto do pensamento mágico assente sobre bases imateriais (que é o modo de classificação deste texto, como em Tolkien ou José Carlos Espada)
    As condições sociais existentes em cada época são as que são determinadas pela base económica que as sustentam – por isso é antes do mais urgente e necessário que se compreenda a Politica como factor que determine a primazia da Economia sobre a pequena politica (Olof Palme vai ao cinema com a gente, que fixe pá)
    Neste sentido, a teoria da escolha dos nossos representantes por sorteio entre desiguais, é um idealismo, uma regressão à dialéctica primitiva em Hegel, ou até mesmo a Kant, com a sua filovisão da paz eterna ligada apenas ao software mental de “pessoas perfeitas”.

    Não se percebe a tentativa de reli-gare (religiosa portanto) a comunidade como se fosse uma ilha estanque, inafundável, que navega incólume por um mar hostil – com a esperança posta no horizonte de que “um outro mundo é possivel” – eis no que se converteu o pensamento pós-moderno: numa religação entre (novos) cristãos que entaipam os mortos em grutas (Habermas, Castoriadis, Negri e tutti quanti), à espera de ressuscitarem para uma vida melhor lá no alto onde a Nasa espreita sem nada percepcionar que seja digno de registo. Lá do alto só chovem estrelas, galáxias e deus, nada mais.
    Então se é para regredir, prefiro de longe as práticas primitivas: queimar os mortos. Ou seja, como diria o nosso companheiro Mao: fogo sobre todos os quartéis generais, tanto do poder, da burguesia, como dos intelectuais que os justificam. Que mil flores desabrochem.
    É nessa supressão que radica o pânico dos revisionistas de todos os matizes, cujo delirio se vê na febre reaccionária do comentador “Niet” ao tentar assassinar “o marxo-bolchevique datado e inoperante”. Olha que uma enormidade dessas não se faz ao avô, pá! temos que lhe preservar a experiência e os ensinamentos de vida, sem os quais nada aprenderemos sobre o nosso futuro. (ou aprenderemos por outros, e quando nos dermos conta já somos também velhos, e prontos a ser despejados para o lixo)

  11. xatoo diz:

    miguelserraspereira
    no debate sobre o “momento estalinista” omite-se por exemplo que após o golpe de estado de Krustchev este também mandou assassinar Béria, um herói da segunda grande guerra. Essa fonteira estanque que começa na era que pretendem chamar de “estalinismo” é cada vez mais difusa e não datável – voltamos assim ao nosso diálogo anterior sobre os factores externos que condicionaram a construção do socialismo na URSS e à interrogação: poderia Estaline ter sido outro e sair com o país incólume e vencedor do grande ataque das potências capitalistas entre 1917-1945?

  12. Niet diz:

    Mr. Xattoo: Febre reaccionária para quem ataca o marxismo-leninismo de algibeira vestido na Loja das Meias? Oh, Mr.Xatto, isso fica-lhe mesmo muito mal…E depois a defender Mao, considerando mortos para a esperança revolucionária experiências tão contraditórias como belas, tais como as de Habermas,Castoriadis, Negri,etc. Deuses, Inferno: para onde vai a ideologia de Esquerda portuguesa? Precisamente, leio um livrinho de Badiou/Zizek e outros sobre a Hipótese Comunista, neste momento. E lá s verificam pontos de contacto interessantes entre Negri,Badiou e…mesmo Zizek.
    Marx e um certo Lénine- como tem sido apontado no Blogue-são referências para a História do Movimento Operário internacional. DizCC, papel de ” fermento positivo ” dos actores e movimentos de insurreição, é sempre curto e aleatório face ao poder instituinte da nova sociedade: ” O imaginário instituinte activa-se e privilegia explicitamente a transformação das velhas instituições “. Mr.Xatoo, tudo isso não tem nada de ontológico nem de religioso,se bem pode compreender.Niet

  13. miguelserraspereira diz:

    Zé Neves – sim, camarada, já reconheci que o Nuno tem provavelmente razão quanto ao episódio da festa do Avante! Este, no entanto, como terás compreendido, não afecta o fundo do meu argumento.
    Abç

    Caro Xatoo, não posso de momento retomar a discussão consigo sobre a natureza da URSS – mantenho, pelas razões que já expus noutras caixas de comentários de outros posts ainda recentes, que o único socialismo merecedor do seu nome seria uma forma radical de democracia, cuja construção implica a participação igualitária dos trabalhadores e do conjunto da população no governo político (incluindo o que se exerce na esfera económica). O governo da sociedade por uma organização que se afirma detentora de uma consciência histórica superior dos interesses comuns ou da classe e dispõe, embora sob formas renovadas, dos meios de produção e de direcção da economia, conserva e muitas vezes reforça monstruosamente os traços fundamentais da dominação classista.
    Quanto à determinação pelas relações económicas do conjunto das relações sociais, o que me parece indiscutível é que as relações económicas, as relações de produção, são relações de poder, relações politicamente definidas. Não são determinadas pelo estado da técnica, pela natureza ou por uma lógica da história exterior à história quotidianamente feita pela acção humana. Aliás, de outro modo, a política – que é sempre acção e vontade, projecto e proposta de alternativas – não teria sentido, ou não passaria de uma representação ilusória.
    Saudações democráticas

    msp

  14. zé neves diz:

    caro msp, de acordo. e uma pergunta: verias com bons olhos, por exemplo, listas de cidadãos que fossem candidatas ao poder autárquico?
    abç

  15. miguel serras pereira diz:

    Caro Zé Neves,
    a resposta é sim – no caso de essas listas de cidadãos (que não teriam de ser todos gente apartidária, bastando que a lista não o fosse ) terem um programa que apostasse não só em boas medidas como na vitalização da participação organizada dos munícipes na democratização da vida local.

    Dito isto, recordo que, tal como tu, não sou fundamentalista em matéria de participação ou não participação em actos eleitorais no quadro do regime actual. Limitei-me a chamar a atenção para os aspectos explícita e implicitamente antidemocráticos – se entendermos por democracia o governo dos cidadãos por si próprios – que a valorização excessiva das próximas eleições presidenciais me parece acarretar.

    Veja-se, por exemplo, o apoio instantâneo que Francisco Louçã assegurou, em nome do BE, à candidatura de Manuel Alegre. O problema da “instantaneidade” no caso é que ela significa, até prova em contrário, que FL se crê autorizado a interpretar e a aplicar, na ausência de qualquer deliberação expressa e regular do seu partido, a política que o mesmo partido deve adoptar. E se assim é, as perspectivas da democracia interna do BE não são propriamente exaltantes – faltando ainda acrescentar que um funcionamento menos democrático ao nível interno compromete gravemente a credibilidade das afirmações que o mesmo partido faça em defesa da democratização efectiva das relações de poder que governam a sociedade actual.

    É a mesma lógica profunda, prisioneira de uma concepção hierárquica da organização e da acção política, que torna tão normal a tomada de posição de FL como “evidente” a importância das próximas eleições presidenciais.

    Re-abraço

    msp

  16. Pingback: cinco dias » Revolução, emancipação, organização política, liderança: COMO SE DESLOCA UMA MONTANHA

  17. xatoo diz:

    Niet
    vc é que escreveu a expressão “o marxo-bolchevique datado e inoperante” não fui eu. E foi apenas essa citação sua que fiz, quando ao resto confesso não estar interessado nas suas comichões estéticas sobre, como eu disse acima, pensamentos mágicos assentes sobre bases imateriais. É apenas disso que os acuso e já não é pouco.

  18. Niet diz:

    O sr. Xatoo quer iludir as questões decisivas centradas sobre a oposição irrefragável entre Vanguarda e Poder Operário.E para tal está disposto a tudo, lançando a mão a todos os expedientes da cartilha estalinista… Justamente, há medida que avança e se aprofunda o debate no Blogue, começa a ser cada vez mais nítida a diferença entre os candidatos a burocratas e os postulantes em prol da implantação da Democracia Directa. O sr. Xatoo torna-se mesmo um fervoroso adepto do pensamento mutilado e da rasteira indigência maniqueista que, Adorno, estigmatizava com a ditirâmbica tese dos que ” tornam a incompreensão uma virtude”. E ficou-lhe marcada( e questiona cheio de mauvaise foi.)incursão que levei a
    cabo junto de algumas categorias do pensamento de Baudrillard, que sinaliza como “comichões estéticas sobre pensamentos mágicos assentes sobre bases imateriais “… Ao contrário do que possa tentar pensar, sr.xatoo, partilho da forte convicção preconizada por Castoriadis:” A ideologia comunista( o marxismo-leninismo)está reduzida a pó. Mas os aparelhos comunistas subsistem, algumas vezes no poder( China,Coreia do Norte,Cuba),outras vezes esses resíduos tentam perpetuar-se por estranhos fenómenos de sobrevivência nos chamados partidos comunistas “.Niet

  19. grão mestre do biquini diz:

    Uma coisa eu sei, e sabe quem ler e confirmar as fontes do livro “A verdade e a mentira na Revolução de Abril (A contra-revolução confessa-se)” do camarada A. Cunhal, o Alegre já conspirava com o Spínola na Alvorada da democracia. E para se ver o pedigree do animal político já o pai era um político (maçon muito fraquinho mas certamente mais republicano que muitos reles sucedâneos actuais – estes trapalhões são uma monarquia dentro da república!) quando o Artur Oliveira Santos pediu reforços policiais para impedir o embuste das Aparições, o então Governador Civil (pai do Alegre reaccionário) recusou, (está documentado n’A Cova dos Leões do Tomás da Fonseca)

  20. zé neves diz:

    grão mestre do biquini,

    olhe que para quem está preocupado com o facto dos maçons de hoje mais parecerem monárquicos, talvez não seja boa ideia vir atacar o alegre por causa do pai dele… o homem não herda o trono mas também não herda os pecados…

  21. miguel serras pereira diz:

    Grão Mestre do Biquini,
    é difícil encontrar uma prosa mais reaccionária e caceteira do que a sua, ao serviço de uma antevisão assustadora do Estado policial – com leis de pureza de sangue, pelos vistos – a que aspira. Não quer ir pregar para outra freguesia?

    msp

  22. dekn diz:

    Niet
    vc é que escreveu a expressão “o marxo-bolchevique datado e inoperante” não fui eu. E foi apenas essa citação sua que fiz, quando ao resto confesso não estar interessado nas suas comichões estéticas sobre, como eu disse acima, pensamentos mágicos assentes sobre bases imateriais. É apenas disso que os acuso e já não é pou

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