Os bandalhos

Eu cá nunca sonhei chegar tão longe. Era um miúdo com lábia, boa pinta e fui liceu afora rebocado por esses patrimónios. Depois, a vida como quadro médio de província nem parecia má. Mesmo sem grande talento para profissão alguma, os conhecimentos tapavam muita lacuna: assinatura aqui, carapau acolá, ia deixando a minha marca no burgo. Mas o bichinho das ânsias não parava de me roer a imaginação. Queria, sonhava, almejava mais. E onde dar com o escadote capaz de elevar um rapaz sem grandes qualidades às alturas da sua ambição? A política, claro. Uma Juventude airosa e despachada, seguida de um bom tirocínio nas bases esperançosas de uma matilha fadada a mandar. E os amigos que ali se angariam, meu deus? Gente com tino para a diplomacia, para a ortografia, para os grandes voos nas finanças… ainda havemos de mostrar aos emproados de Lisboa quem somos. Os negócios em que nos metemos deram todos em fracassos manhosos? As obras com a minha assinatura metem medo ao susto? Pouco determina o fraco feito, quando cotejado com o tamanho desmedido da vontade. Hei-de voltar a subir, por mais que me espezinhem. Que me importa que no grémio todos me tomem por um rústico de segunda? A minha oportunidade há-de chegar; e se os meus horizontes já se encolheram à medida do razoável, a vontade de ir mais longe só mudou em âmbito: se antes queria fama, agora o vil metal da fortuna tem de  bastar. Não tenho portas abertas para o Olimpo? Paguem então o que me é devido: trinta, trezentos, trinta mil dinheiros. Umas moedas aqui, outras acolá – sabe-se lá quanto tempo é que a teta demora a exaurir-se. Mas de repente tudo muda: os meninos da capital são colhidos de uma só vez por processos desvairados, abrindo caminho ao palonço serrano a quem ninguém convidava para jantar. E triunfa a vara de animalejos antes subalternos: o mundo agora é nosso. Depois, com o poder vem a invulnerabilidade: todos se viram para mim em busca de abrigo, todos me acodem como quem defende a própria prosperidade. Os meus amigos de sempre saem das tocas para tomar conta da coutada: os bufarinheiros de ontem são os lordes de agora. Ninguém para me fazer frente – tenho quem escreva letras acusatórias em louvaminhas carregadas de estilo; quem de repente me ame acima de todas as contrariedades; quem lobrigue em mim profundas intenções e visionárias ideias. O passado? As tropelias desastradas de anteontem? A têmpera sanguínea? O poder trata de incinerar todos os cadáveres incómodos, mais o seu cheiro tão deslocado nos salões em que agora recebo e alimento os amigos a sério: os meus iguais em ambição, mediocridade e descaro. Podem escutar-me, perscrutar-me, vigiar-me à vontade. Nada a fazer, minha rica. O menino dorme feliz e saciado. Tudo o mais acabou.

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10 Responses to Os bandalhos

  1. Jorge Paulo says:

    Grande texto. Chapeau. Agora só falta é identificar os mabecos na foto.

  2. antonio says:

    do melhor, Luis!

  3. Olaio says:

    Gostei…principalmente desse remate com a Caranguejola mdo Mário de Sá-Carneiro.

  4. Fuser says:

    Porque que logo às primeiras palavras me lembrei do Vara? Se calhar estou a ser injusto… Há mais gente para além do Vara.

  5. carlos graça says:

    Excelente!

  6. ezequiel says:

    Rainha no seu melhor.

    congrats
    :)

  7. Pisca says:

    Jorge
    Gostei dessa dos mabecos, são seres incrivelmente desprezíveis
    Quem não souber pode sempre pesquisar no google

  8. Jorge says:

    Em grande!
    “Dinossauro Excelentíssimo” versão séc. XXI – a da República oligárquica do menino doirado.

  9. R. says:

    Absolutamente fantástico.
    Tem de se falar assim, hoje em dia. Por metáforas.
    Parabéns.

  10. fnv says:

    Não são , naõ senhor. Os mabecos são os mais extraordinários mamíferos caçadores de matilha.

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