Ironia Alegre VI


Ninguém pode acusar Manuel Alegre de falta de coerência. O homem tem e sempre teve um só programa, uma só ideologia: o próprio Manuel Alegre. Que alguém com meio neurónio a funcionar queira ver semelhante figurão com o poder de dissolver a AR, eis coisa que nunca deixa de me espantar.
Lembrem-se de que se trata do mesmo Alegre que há uns tempos queria fundar um novo partido para dar «uma lição» aos demais. O mesmo sapo inchado que aguardava pedidos de desculpa do PS por alguns dos seus dirigentes terem achado desleal a sua candidatura contra Soares – agora o protestante meteu a viola no saco e já se arvora de novo em referência do seu partido.
Mas parece que há quem se alegre tremendamente ante a perspectiva de poder por fim subir ao palanque da festa, de braço dado com um Vencedor. Talvez isso compense as agruras de vidas dedicadas a remar contra marés, mas não é qualquer garantia de acrescida influência sobre coisa alguma. Quando estamos entregue a um auto-governo que talvez seja o mais abominável dos últimos 30 anos da nossa História, como é que passa pela ideia de alguém oferecer-lhe um PR aquiescente e devedor?
Imagine-se Sócrates livre da mesquinha e atabalhoada vigilância de Cavaco. Imagine-se a criatura sem freio nem trela, à vontade para encorajar o seu bando de gafanhotos. A esta espécie de primeiro-ministro, bastaria manter o PR Alegre entretido com inaugurações semanais de estátuas a si mesmo para desanuviar o seu horizonte. Ou imaginem um outro primeiro-ministro que venha a irritar o Vate Alegre; as famosas “bombas atómicas” presidenciais logo passariam a fogo-de-artifício quotidiano.
Quando o Daniel nos interpela com o lancinante «Querem conquistar alguma coisa ou contentam-se com a sua razão?», só posso responder que quero conquistar muita coisa, mas sem nunca desistir da minha razão. E não consigo mesmo ver uma só razão para querer ter como presidente um saco de vento solipsista e auto-obcecado. Antes uma criatura desprovida de cultura mas cautelosa e timorata.

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