Biografias políticas, elucubrações

O meu lugar era na casa das máquinas de uma vasta powerhouse de produção de escrita, num subterrâneo de tectos altos com paredes de tijolo à vista, iluminado pela luz crua de enormes lâmpadas eléctricas, e organizado como uma fábrica oitocentista, onde o nosso exército de factfinders se ocupava febrilmente de desenterrar, dos registos infindáveis de factos sociais, as histórias verdadeiras dos Franciscos, Mateus, Domingos, Manoeis e Conceições, pequenos gatunos que dormiam nas escadas, ladrões de peixe que-não-te-metas-com-eles, putas bêbadas & baratas, que fizeram a história verdadeira e numerosa de Portugal, a história dos que nunca foram cantados nem sequer contados, e que outros depois, nos andares de cima (camaradas, nesta república das letras reinava a igualdade), transformavam em literatura, poderosa na sua inquestionável simplicidade: chamavam-lhe o neo-neo-realismo.

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SEXTA | António Figueira
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2 Responses to Biografias políticas, elucubrações

  1. efe says:

    Desde que o resultado final tivesse mais qualidade que a “Fúria Divina” (o inverso é que seria difícil), até podia ser coisa boa.

  2. Pingback: cinco dias » Biografias políticas, corrigenda

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