O meu lugar era na casa das máquinas de uma vasta powerhouse de produção de escrita, num subterrâneo de tectos altos com paredes de tijolo à vista, iluminado pela luz crua de enormes lâmpadas eléctricas, e organizado como uma fábrica oitocentista, onde o nosso exército de factfinders se ocupava febrilmente de desenterrar, dos registos infindáveis de factos sociais, as histórias verdadeiras dos Franciscos, Mateus, Domingos, Manoeis e Conceições, pequenos gatunos que dormiam nas escadas, ladrões de peixe que-não-te-metas-com-eles, putas bêbadas & baratas, que fizeram a história verdadeira e numerosa de Portugal, a história dos que nunca foram cantados nem sequer contados, e que outros depois, nos andares de cima (camaradas, nesta república das letras reinava a igualdade), transformavam em literatura, poderosa na sua inquestionável simplicidade: chamavam-lhe o neo-neo-realismo.




Desde que o resultado final tivesse mais qualidade que a “Fúria Divina” (o inverso é que seria difícil), até podia ser coisa boa.
Pingback: cinco dias » Biografias políticas, corrigenda