Alegrismos

Aqueles e aquelas que tencionam votar em Alegre, sem que neste se revejam, não devem admitir sequer a hipótese de que a consciência lhes acabe por pesar sobre os ombros. A relação de representação, ao contrário do que dizem alguns dos seus apologistas, não é uma relação espelhada. Ninguém tem que se rever naquele em que vota. Era só o que nos faltava se, não ficando os representantes reféns dos representados, tivessem estes que ficar presos àqueles. O único sapo que eu, eleitor desta república, teria que engolir no dia em que fosse votar em Alegre seria o próprio gesto de ir votar em quem quer que fosse. No meu caso, porém, a questão é ainda mais fácil, porque, apesar de ser fiel à tese “prognósticos só no fim do jogo”, está-me cá a parecer que não votarei em Manuel Alegre. Nos últimos tempos, nos últimos anos, digamos antes, Alegre teve posições com as quais as minhas opiniões coincidiram por mais do que uma vez, é certo, mas parece-me hoje claro que toda a actuação de Alegre (planeadamente ou não, não me interessa) deu corpo a uma prática política inaceitável. Se é verdade que Alegre começou, e bem, por criticar tendências de fechamento, burocratização e autoritarismo por parte do sistema partidário (e nem me interessa se ele foi parte activa do sistema partidário que criticou), porém sucede que, desde cedo, a sua emancipação da tutela de Soares e de Sócrates se transformou numa autêntica aventura cavaleiresca, de gosto e sentido sempre muito duvidosos – e eu, tal como o Dr. Álvaro Cunhal, prefiro o Sancho Pança ao Dom Quixote. Que a generalidade da esquerda, com a excepção do PCP (cujas reservas podem ser entendidas como prova de sectarismo, mas que podem também ser vistas como sinal de moderação), tenha embarcado nesta aventura, e aí tencione continuar por mais algum tempo, é algo que me esmorece. É que não podemos passar horas a fio a criticar (e bem) o chavismo ou evismo ou o lulismo ou o obamismo (nestes dois últimos casos, infelizmente, não se vê muita crítica a andar por aí…) e nada dizermos em relação ao alegrismo. E, note-se bem, longe de mim a tentativa de comparar os processos sociais que o populismo consubstancia naqueles movimentos sul-americanos, merecedores do meu apoio, ou que inclusivamente consubstancia no caso norte-americano, com aquilo que se tem passado com o alegrismo. Este melhor poderia ser definido – caso isto não fosse um paradoxo – como uma espécie de “populismo” sem “povo”. A simples ideia, aceite e reiterada por tantos, de que o futuro da esquerda portuguesa passa pela figura de um homem é uma contradição insanável para quem admite que a esquerda deve alguma coisa a uma tradição em que se procura uma participação política cada vez mais alargada das “massas” e não o culto dos “grandes homens” que são eleitos (pelo povo ou por nosso senhor)  para decidir o que será pior ou melhor para a maioria da população de descamisados. Ir para o poder e ter poder não são a mesma coisa, já nos avisava, sensatamente, alguém tão insuspeito de simpatias esquerdistas como o historiador Eric Hobsbawm, num texto seminal escrito nos 50 anos da Frente Popular francesa. De tal modo que, no dia em que Alegre ganhar as eleições presidenciais, a esquerda portuguesa poderá dizer, com legitimidade, que tem alguém no poder; mas dificilmente poderá dizer, nesse dia, que nos aproximámos da tal “esquerda popular”, de que Francisco Louçã foi falando, de forma vaga mas enérgica, nos últimos anos. Não vale tudo para vencer a direita.

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