Resposta ao Daniel Oliveira

“Outros há que não me lembro de alguma vez terem concordado com qualquer candidatura.”

Tem má memória. Durante dez anos defendi (apoiei e militei) todas as candidaturas do BE em todas as eleições autárquicas, legislativas e presidenciais. Fui eu próprio candidato em algumas delas. Estive assim nas campanhas de José Manuel Pureza, Francisco Louçã, Fernando Rosas entre outras figuras de menor notoriedade. Se foi candidato, caríssimo Daniel Oliveira, facto que não lembro nem me apetece confirmar, queira saber que até pela sua eleição já me empenhei. Não tenho portanto nenhum problema de princípio com nenhum acto eleitoral.

“São as eleições para as instituições o seu campeonato?

As eleições para as instituições são do campeonato de todos os cidadãos. Para uns, o único campeonato que existe. Para outros, um entre muitos campeonatos. Você está entre os primeiros. Eu, entre os segundos. Pelo enunciado posso concluir que para si a metade dos eleitores que não vai votar e a parte cada vez mais significativa que vota branco e nulo, não podem opinar sobre eleições porque não vestem, aqui e ali, uma das camisolas possíveis. Que grande noção de democracia a sua.

E se não são, que diferença lhes faz?

Sendo, devo dizer-lhe que me baterei (com tudo o que isso significa) por um candidato contra o governo que unifique todos os que querem derrotar quem na Assembleia da República aprofunda o desmantelamento de todos os direitos conquistados e o enraíza da lógica neo-liberal. Está a ver. Não estou só disposto a fazer unidade com quem queira implementar os sovietes. Distingo unidade táctica de unidade estratégica. Sua excelência promove a táctia à estratégia.

E não me recordo de alguma vez terem visto com bons olhos qualquer cultura de unidade. E a minha pergunta volta a ser simples: onde acham que pode acabar o seu solitário caminho que vive da exclusão permanente e do desenho cada vez mais apertado das suas fronteiras?

Compreendo que fique excitado com o alargamento das suas fronteiras e que por isso não veja que fronteiras interessam aos outros. As minhas fronteiras alargam-se a cada revolta popular, a cada insurreição dos explorados, a cada universidade ocupada, a cada reunião das grandes organizações mundiais cancelada, a cada soldado colonialista morto, a cada terra cultivada por gente sem terra, a cada barricada grega, a cada sapatada ou duomo na cabeça dos facínoras, a cada campo de milho transgénico destruído, a cada greve vitoriosa, a cada direito conquistado e a cada revolução consumada. As suas fronteiras crescem a cada voto conquistado, a cada lugar de deputado (da assembleia da junta ao parlamento) angariado, a cada reforma votada e a cada passo dado em direcção ao Partido Socialista.

Querem conquistar alguma coisa ou contentam-se com a sua razão?”

Contento-me por isso com a razão e não ratifico o raciocínio nem ao seu share nem à sua aceitação pelas grandes massas.

Sobre Alegre agradeço que me cite quando escrever sobre o assunto. Até lá, terá que esperar pelo fim da ironia.

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63 respostas a Resposta ao Daniel Oliveira

  1. Renato Teixeira diz:

    Não tenho nada que me meter nas tuas provocações ao DO. Também não gosto que se metam nas minhas. Agora o que não aceito é o argumento de que há bons e maus filhos de classe. Não tenho um percurso muito longo na política, mas do que vi e estudei posso garantir-te que vi tanto ou mais filho de proleta trair a sua classe do que meninos do papá. Estes, na sua maior parte, mais não quer do que estar confortavelmente deitado nos seus privilégios, e não vem a terreiro chatear-se com “coisas menores”. Prefere ficar pelas “coisas mundanas”.
    Aqui vai bem aquela piada em que Trotsky e Estaline se encontram no urinol em pleno congresso do PSDR. Estaline, no seu jeito rufia aborda Trotsky, ainda ambos com a dita cuja em mãos, para o acusar de ser oriundo da pequena burguesia.
    ESTALINE: Oh meu grande fdp tu andas para aí armado em intelectual a querer disputar a direcção do partido. Isto é um partido operário. Tem que ter representantes oriundos do sujeito histórico.
    TROTSKY: Olhe que não. O que interessa é o que defendemos e para onde vamos, não a nossa origem de classe.
    ESTALINE: Como não interessa. Queremos despojar a burguesia como é que vamos pôr os seus filhos na liderança desse processo?
    TROTSKY: (…)
    ESTALINE: Nós somos oriundos de classes com interesses antagónicos. A sua deve ser esmagada com a força da revolução.
    TROTSKY: (…)
    ESTALINE: Queremos filhos de proletas à frente da revolução dos proles.
    TROTSKY: Não queria interromper o seu discurso mas devo dizer-lhe que temos muito mais em comum do que imagina, camarada Estaline.
    ESTALINE: Em comum?!!? Nós os dois!?!?! Você deve estar é doido. Nós somos completamente diferentes. Eu fui operário e sou filho de operários. Parte integrante da classe operária. Já o camarada Trotsky é um intelectual pequeno burguês, oriundo de famílias com posses, latifundiários. Como pode dizer uma barbaridade dessas??
    TROTSKY: Acredite. Temos algo em comum. Aliás, algo em que somos absolutamente iguais.
    ESTALINE: Não! Blasfémia! Ignomínia! Se continua a dizer isso vou-lhe já às trombas. Somos farinha de sacos completamente distintos.
    TROTSKY: (…)
    ESTALINE: Mas diga lá… tanta convicção e agora não diz nada… O que é que acha que temos em comum?
    TROTSKY: Ambos somos exímios traidores de classe.

  2. incrível como ainda existe gente que fala assim com termos como “proleta”

  3. portela menos 1 diz:

    Comentário de Renato Teixeira
    Data: 12 de Janeiro de 2010, 12:48
    “Vem atacar a minha suposta orientação política” … Você tem uma?

    obrigado pelo tratamento por “sua excelência”, escusa ser tão cordial 🙂

  4. José Diogo diz:

    Trotsky construiu nada. Estaline ergueu a URSS pá!

  5. José Diogo diz:

    e sobre as minhas supostas “provocações”, um reparo: acusar o pequeno-burguês Daniel Oliveira de andar a pairar/mamar sobre o movimento social não é uma provocação, antes uma acusação política (infelizmente) bem séria, necessária e factual

  6. José Diogo diz:

    Cunha: o que é incrível é haver doutorizinhos que no século XXI recusam-se a ver que há proletas. queres uma prova? espreita do teu gabinete quentinho os proletas das obras a trabalhar à chuva. Ai a cambada de manéuzinhos que anda por aqui…

  7. E quem te disse que eu sou dr. ? E quem te garante que o pessoal do obral não ganha mais do que eu ?

    Staline é o maior fdp que algum dia existiu. Hitler ao pé dele era um aprendiz de feiticeiro.

  8. Renato Teixeira diz:

    José Diogo, Estaline fez de facto muito mais do que erguer a URSS. Muito mais. Algumas coisas boas, como derrotar Hitler, outras muito más. Dos processos de Moscovo ao gulag, da concepção do socialismo num só país à chacina dos que se lhe opunham mesmo na barricada dos revolucionários. Começou como revolucionário, acabou como imperialista. Da Rússia ao Leste ao Oriente, da África ao espaço.
    Percebo que queira atacar as posições políticas do DO. Ataca com mais força se não se ralar com origens de classe e afinidades afins.
    Portela menos 1, sempre cordial.
    António Cunha, nada se compara a Hitler. Nada.

  9. José Diogo diz:

    Isto parece um jogo de pebolim!

    Mas sempre te digo que se Estaline cometeu seus erros, já Trotsky não fica propriamente isento de falha:

    as suas posições conciliadoras entre mecheviques e bolcheviques antes da revolução;
    as suas posições sobre a a paz de brest-litovsky;
    as suas posições sobre a militarização do trabalho;
    o seu aventureirismo na polónia;
    a sua loucura de exportar a revolução à força…

    que teria sido da URSS se Trotsky tivesse ganho o debate nos anos 20? Nem quero pensar! Mas como Estaline teve de meter a mão na massa… é fácil deitar abaixo!

    Cunha: se você acha assim, experimente subir aos andaimes e fazê-lo à chuva, ao frio e ao vento. Dá para perceber porque se assanham tanto por aqui com a expressão “menino do papá”

  10. José Diogo

    Caro amigo, sabe o que é entrar às 6 da manha nos ctt da praça do comércio e depois subir até ao bairro alto com uma mala cheia de cartas com mais de 30kg ?

    Então esteja calado e deixe-se de conversas da treta. Voce a mim não me ensina nada sobre trabalhar no duro.

  11. Renato Teixeira diz:

    José Diogo, penso que nenhum dos dois quer discutir as tácticas trotskistas num post de resposta ao DO. Muito rapidamente, e mesmo partindo dos exemplos que dá, Trotsky pode ter errado por voluntarismo ou vá lá algum esquerdismo. Já Estaline errou por capitulação à revolução internacionalista que era a única maneira no meu ponto de vista de ter evitado os muros que fecharam o socialismo real do resto do mundo.

  12. AP diz:

    O quê, um defensor da liberdade e contra o grande capital, que usa um computador de uma das empresas americanas que mais restringe a liberdade dos seus utilizadores? A hipocrisia! 😛

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