De vitória em vitória, até à derrota final

O Daniel, sem me nomear, acusa-me de ter o culto da derrota. Era bom a gente perceber o que é uma derrota e uma vitória, para nos entendermos. Para o Daniel, a vitória é derrotar Cavaco Silva. Para ele, o maior problema parece vir da Presidência da República.

O objectivo do Daniel, parece ser, uma coligação governamentel entre PS e Bloco, que ele gostaria que não tivesse Sócrates. Para mim, o objectivo é conseguir criar um polo à esquerda do PS que tenha a ambição de determinar a política portuguesa.

Neste sentido, não vejo as presidênciais como o alfa e omega que traçam o destino do país. Lamento discordar do Daniel, para mim, o maior problema da democracia portuguesa está no mau governo de Sócrates. O maior perigo é dar a Sócrates os instrumentos para ter um governo, um presidente e dar-lhe de bandeja a maioria absoluta nas próximas legislativas. Por sua vez,  a maior dificuldade da esquerda portuguesa, é termos um PS, que é o maior partido eleitoral da esquerda, a fazer uma política de direita. Derrubar o governo Sócrates e ir criando uma alternativa de esquerda, devem ser as prioridades políticas da esquerda da esquerda.

Apoiar, neste contexto, à primeira volta, o mesmo candidato que Sócrates, é legitimar o partido socratista, permitir confundir Sócrates com a esquerda, e entregar-lhe centenas de milhar de votos nas próximas eleições legislativas. É dar um passo atrás no necessário processo de fazer corresponder os votos da esquerda aos partidos de esquerda.

A participação do Bloco numa candidatura apoiada por Sócrates vai ser um abraço de urso. Alegre vai sacrificar todas as diferenças com o centro-esquerda e o centro (código de trabalho, política de alianças) ao sonho de ser eleito presidente. Mais de que um presidente Alegre, comprometido com Sócrates, nós precisamos de reforçar uma esquerda que não se confunda com Sócrates e, sobretudo, que não o reforce.

Alegre podia ter tido um papel histórico na recomposição desta esquerda, se tivesse aceite personificar a vontade de muitos milhares de socialistas que não concordam com Sócrates. Escolheu a sua ambição pessoal, em ver de participar num processo colectivo da reestruturação da esquerda. Fez mal. Faz mal o Bloco se apoiar, nestas circunstâncias, a sua candidatura.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

15 respostas a De vitória em vitória, até à derrota final

  1. xatoo diz:

    as palavras classificativas que se usaram e usam actualmente em politica estão gastas, perderam qualquer significado.
    Na medida em que “a esquerda” se revê numa hipotética “vitória” de Alegre, deixa de ser esquerda. Devemos-lhe cunhar uma nova designação – que tal Socialistas Neoliberais?
    e apelar às bases de militância do PS, BE e PCP no sentido de boicotar a acção dos directórios partidários que se conluiem à revelia dos seus programas com aquela corrente de pensamento apolitico.
    bom,
    mas isto não passa de teorizações da treta. Há milhões de postos de trabalho e outras situações que dependem da colocação por partidos (no antigo ortónimo do Botas metade do país vendia lotaria à outra metade). E aqui é que está o busilis pq é que tanta gente ainda bota o boto a pensar que é assim que descalça o par de botas

  2. Carlos Vidal diz:

    Então, Nuno?

    Estás, vejo agora, de acordo com o que escrevi no teu post em baixo (e num antigo post meu). E tu também o dizes; deste modo:

    “Alegre podia ter tido um papel histórico na recomposição desta esquerda, se tivesse aceite personificar a vontade de muitos milhares de socialistas que não concordam com Sócrates. Escolheu a sua ambição pessoal, em ver de participar num processo colectivo da reestruturação da esquerda. Fez mal.”

    Exactamente. Acabou-se-lhe o prazo. E sabes qual era o prazo para ele ter feito isso que dizes? Foi quando escrevi aqui este post:

    http://5dias.net/2008/11/17/o-que-eu-desejo-para-a-esquerda-em-portugal/

    E já passou mais de um ano.

  3. Nuno e também Renato: quando linko estou a nomear, como é evidente.

  4. Renato Teixeira diz:

    Daniel, quando linka está a linkar e quando cita está a citar, evidentemente. No que me diz respeito (mas minhas desculpas ao Nuno por o fazer no seu post) devo dizer-lhe que ainda não me leu sobre o assunto. Linka uma ironia não uma elaboração. Até se poderia tratar de alguém a defender a deglutição do sapo. Espero que volte quando o argumento substituir a ironia. Espero mesmo.

  5. Renato, a decisão de fazer uma ironia e não uma elaboração foi sua, não foi minha.

    Nuno, o que defendo é um candidato que estando à esquerda deste governo melhor pode travar alguns demandos. Nada tem a ver com qualquer coligação governamental com o PS, até porque o PS é liderado por Sócrates e não por qualquer outra pessoa.

  6. Renato Teixeira diz:

    Daniel Oliveira, a decisão de elaborar sobre uma ironia foi sua não foi minha.

  7. O caro Nuno descobriu o segredo da alquimia! Mas em vez de transformar ferro em ouro, este segredo transforma Votos nas Presidenciais em votos nas Legislativas. Só não percebo bem qual é o rácio…

    De qualquer forma, muito cuidado com a receita! Não queremos que o garantido 2º mandado cavaquista se transforme mais tarde num governo PSD…

    …ou queremos?

  8. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Daniel,
    Responde-me sinceramente, achas que é possível disputar politicamente ao PS a candidatura do Alegre?

    Vicente de Lisboa,
    Tem toda a razão. As presidenciais não são aqui, são em Espanha. Apoiar o mesmo candidato que o PSOE, só vai dar votos ao Zapatero. Tem ideia que as eleições presidenciais são políticas, não são as da t-chirt molhada?

  9. Nuno:
    Como? Como é que essa transmutação se processa? Sinceramente não consigo imaginar o mecanismo causal que leve alguém a votar Sócrates/PS numas hipotéticas legislativas, só porque o PR é Alegre e não Cavaco. Eu percebo que o pessoal mais à esquerda costuma achar que o povo é estúpido por não votar “naqueles que defendem os seus verdadeiros interesses”, mas achar que o eleitorado não sabe distinguir Presidenciais de Legislativas é demais.

    Mais digo – Alegre é um factor desagregador do PS, e Cavaco um factor unificador. Se alguém pode favorecer Sócrates/PS em legislativas, é um PR de Direita com a mania que é líder da oposição.

  10. The Studio diz:

    Mais vale ser derrotado com honra que vitorioso de rabo para o ar.

  11. Xavier Brandão diz:

    É sempre a mesma frase mal escrita: “a esquerda da esquerda”. Não quer antes dizer “a esquerda DE esquerda”.Porque o Sócrates e quase todo o PS não são de esquerda; quando as suas políticas são de direita, são de direita.E já é assim há muito tempo. E um dos problemas da esquerda é precisamente não reconhecer isso. O Sócrates/PS são efectivamente neste momento o grande adversário da esquerda, porque, reclamando-se dela, dão-lhe mau nome e, por arrasto, inviabilizam qualquer projecto de esquerda em Portugal (e noutros sítios: França,por exemplo). O meu mote é: Morte ao PS.

    A este propósito, sugiro um texto (link: http://www.mouvements.info/Le-centrisme-erreur.html) de um economista francês, Frédéric Lordon, e que diz, mais ou menos, de maneira bem mais desenvolvida e argumentada, aquilo que aqui escrevi. É sobre o PS francês, mas a análise é perfeitamente transponível para o nosso caso.

  12. toni diz:

    também concordo mais com “a esquerda de esquerda” ou “a esquerda que é de esquerda” ou ainda “a esquerda realmente de esquerda”.

  13. Augusto diz:

    Mas o Eanes na sua segunda candidatura foi apoiado por quem…

    E o Soares na sua primeira

    E o Jorge Sampaio

    Se a direita se unir de novo á volta de um candidato…

    O centro e a esquerda devem tambem unir esforços para lhe oporem uma candidatura ganhadora…

    Ter na Presidência da Republica o Manuel Alegre, não é certamente o mesmo que ter lá o Cavaco Silva.

    E é só isto que está em cima da mesa…

  14. Xavier Brandão diz:

    Ao dizer-se “a esquerda da esquerda” não se diz grande coisa sobre a esquerda e fica implícito que, apesar de tudo, há certos grupos da sociedade que, dizendo-se de esquerda, são-no efectivamente, mas em versão “soft”.

    Já a expressão “esquerda de esquerda” não é, de modo algum, ambígua; ao dizer-se as coisas assim exprime-se claramente que há uns tipos que andam com a boca cheia de “esquerda”, mas que, cuidado, é tudo um verbo de encher: são de direita, porque os seus actos assim os definem. E permite, um pouco, que as regras do jogo fiquem menos baralhadas por essa gente.

  15. Pingback: cinco dias » Sócrates Alegre

Os comentários estão fechados.