Lá em cima está o Van Zeller, cá em baixo está o tiroliroló

Francisco Van Zeller terminou a sua liderança da Confederação Industrial Portuguesa (CIP), iniciada em 2002, e deu uma das suas poucas entrevistas ao último Diário Económico do ano de 2009 (31 de Dez/2009), ano em que manifestou a sua oposição ao aumento do Salário Mínimo Nacional (SMN). O que não o impede de fazer a afirmação extraordinária que recebeu destaque de primeira página. Se FVZ se refere à incapacidade de viver com esse valor por mês, não será por falta de imaginação, mas sim por falta de capacidade de observação da arraia miúda à sua volta. Presumo que não se confronte com a pobreza de quem trabalha nas suas deslocações de Mercedes ou BMW entre a sua vivenda ou condomínio fechado e os escritórios da CIP. Presumo que a sua afirmação não se refere à incapacidade de imaginar-se a manter o mesmo nível de vida auferindo o SMN. Só a roupa que traz vestida deve rondar esse valor.
Porque recusa o aumento do SMN?

«O salário mínimo constitui un encargo muito grande para dois, três, quatro sectores. Claro que haverá organizações pequenas que podem reflectir esse preço no serviço, na exportação não é assim. Os sectores que estamos a falar, a cerâmica, a confecção, cablagem, sector eléctrico, debatem-se em mercados externos. Todos exportam para cima de 80% do que produzem, se não vendem não têm dinheiro para pagar e essa é uma realidade.
[Não me imagino a viver com 450 euros mensais.] É terrível. Mas com 500 também não, com 550 também não, com 600 também não. É demagógico pensar que os 25 euros corrigem, não corrigem nada. O que corrige é aumentar a produtividade, e esse é um caminho que se está a seguir, para termos salários decentes e mais altos do que isso. Há três anos desenhamos um caminho para os 500 euros, baseado num crescimento da produtividade que nunca aconteceu, e por isso as nossas boas intenções encalharam (…) porque a economia parou, porque a inflação baixou, a produtividade baixou, o PIB baixou. Como é que se continua, ignorando tudo isso, com um projecto que foi calculado há três anos baseado em premissas completamente diferentes.

Sempre interessante ouvir a voz do capital. Claro que do seu ponto de vista “25 euros não corrigem nada”. Pelos vistos nem 150 euros corrige nada. Creio que um trabalhador a receber o SMN sentiria porém uma diferença se recebesse mais 25 euros por mês, já para não falar dos 150 euros.

Inundado com produtos baratos estrangeiros, inúmeros sectores produtivos viram-se obrigados a procurar o escoamento dos seus produtos no exterior. Por um lado, os baixos salários nacionais não levam as famílias a procurar os produtos (estrangeiros) mais baratos, em vez dos produtos nacionais. Por outro, as empresas nacionais correm que nem galinhas sem cabeça à procura de escoar os seus produtos em países onde os seus preços ainda são competitivos, porque os salários dos trabalhadores portugueses são relativamente baixos. E por quanto tempo, merece a pena perguntar. Se no contexto de um mercado globalizado, a economia nacional continua a assentar em mão-de-obra barata tem os dias contados. As empresas nacionais têm de ultrapassar de vez esse paradigma, pois nunca conseguirá competir com os baixos preços vindos, por exemplo, da China. Tem de apostar em produtos de qualidade, com características singulares, de perfil mais personalizado, fugindo ao produção em massa de mercadorias super-baratas, bom para idades dos 7 aos 77 anos. Quer seja transformando materiais de marca reconhecida, quer produzindo produtos de desenho nacional próprio. Só esses produtos poderão ser competitivos no estrangeiro. Mas esses produtos não devem ser pensados apenas para exportação. Naturalmente que produtos de qualidade, que exigem mão-de-obra qualificada, desde da concepção à produção, serão mais caros, e portanto mais acessíveis aos consumidores de países com nível de vida mais elevado. Mas por isso mesmo é que é necessário aumentar o poder de compra nacional. Porque é que os Portugueses recorrerem às lojas de produtos baratos? Não é por preferirem laranjas e bolachas espanholas, ou barretes chineses. É também porque não têm rendimento para comprar produtos de qualidade nacionais. Um significativo aumento de vendas dos produtos nacionais só terá lugar com um aumento do poder de compra nacional.

A queda de produtividade não é culpa dos trabalhadores que têm vindo a apertar o cinto, furando novos buracos para o continuar a apertar ainda mais. Não me venham com a história do Sócrates que o caminho da modernização foi interrompido por uma crise que nos caiu em cima, pela qual não tivemos responsabilidade nem controle. Crise essa que não impediu o sector bancário e energético de arrecadarem lucros tremendos.

O aumento do SMN é um questão de justiça social e também de estimulo à economia nacional. Caro FVZ, não meça a sua necessidade pela sua capacidade de imaginação, nem a sua viabilidade meramente por considerações macro-económicas. Lançou-lhe um desafio à sua imaginação: viver como um dos 610 mil trabalhadores abaixo do limiar da pobreza; ou como um dos milhão e meio de reformados com rendimentos interiores a €330 mensais. Melhor ainda, não imagine. Penhore os seus bens, e viva no real.

Texto publicado no Jangada de Pedra

About André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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10 Responses to Lá em cima está o Van Zeller, cá em baixo está o tiroliroló

  1. carlos graça says:

    É, de facto, impressionante o descaramento…

  2. Tiago Mota Saraiva says:

    Não sei bem porquê lembrei-me daquela anedota da menina rica que fez uma composição sobre uma família muito pobre, que tinha criadas muito pobres, um jardineiro muito pobre, um mordomo muito pobre…

  3. mc says:

    a lata mágica do agiota maldito

  4. Renato Teixeira says:

    deixa lá Van Zeller… com o aumento miserabilista do salário mínimo para 500 euros em 2012 já ficarás com o que falta para o charuto. Grande ignóbil!

  5. ezequiel says:

    Vergonhoso.

  6. JMG says:

    Se bem percebo a santa indignação que por aqui vai, FVZ deveria: i) Habituar-se a viver com o salário mínimo, aumentando os seus trabalhadores com o que resultasse da divisão por eles da diferença entre o que recebe e o que passaria a receber; ii) Recomendar aos colegas patrões que desatarrachassem as pouco imaginativas cabeças, substituindo-as por outras mais criativas e competentes para orientar a produção de artigos com maior valor acrescentado, como sàbiamente se aconselha no post; iii) Recomendar o encerramento daquelas empresas, ai!, tão pouco performantes: nasceriam no lugar delas outras exemplares – pelo menos é o que dizem alguns liberais, que nisto se casam com os negregados comunistas.
    Confesso: Sou um desses abomináveis patrões que pagam mal aos seus trabalhadores, e menos mal a si mesmos. E, quase tão mau como isto, sou também um invejoso: tenho inveja de quem vê o Mundo com tanta simplicidade. O meu Mundo, diabos me carreguem, é bem mais cheio de dúvidas.

  7. antónimo says:

    Também seria interessante relacionar com uma discussão que mais ou menos vai andando por aí acerca do que é classe média em Portugal – ou de como certas elites salariais publicadas e/ou poderosas se querem encaixar nelas à viva fora mas ignoram a realidade.

    Uma elite intelectual faz ou não faz parte das classes médias? Em princípio diria que sim, mas os seus salários não os deixa incluir nas classes médias definidas à la Câncio, Pedroso ou Pitta (este mais antigamente).

    Veja-se
    http://www.publico.pt/Educação/bolseiros-apelam-ao-parlamento-por-novo-estatuto-que-os-tire-da-precariedade_1416442

  8. antónimo says:

    Publiquem antes este comentário, sem gralhas:

    Também seria interessante relacionar com uma discussão que mais ou menos vai andando por aí acerca do que é classe média em Portugal – ou de como certas elites salariais publicadas e/ou poderosas se querem encaixar nelas à viva força mas ignoram a realidade.

    Uma elite intelectual faz ou não faz parte das classes médias? Em princípio diria que sim, mas os seus salários não os deixa incluir nas classes médias definidas à la Câncio, Pedroso ou Pitta (este mais antigamente).

    Veja-se
    http://www.publico.pt/Educação/bolseiros-apelam-ao-parlamento-por-novo-estatuto-que-os-tire-da-precariedade_1416442

  9. Morgada de V. says:

    …o motorista era pobre, a governanta era pobre… Eram todos pobres!

  10. Corvo Verde says:

    Hoje, no Plenário Nacional de Sindicatos da CGTP, um dirigente da Federação dos Têxteis, Vestiário, Calçado e Curtumes lembrou:
    nos 20 anos anteriores a 2006, o salário médio dos operários têxteis e do vestiário cresceu 2,4%. No mesmo período, a “produtividade do sector” (vulgo lucro patronal) subiu 2% ao ano, ou seja, 40%.
    É preciso dizer mais?

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