O Outro Lado da Crítica

A política é a arte do possível, diz-se por estes dias. Cruzei-me com a ideia neste post do Miguel Vale de Almeida, a propósito da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da não-aprovação da adopção. Que dizer, para além do óbvio, isto é, que me alegra a sua alegria e que me anima a aprovação do casamento e que me desanima a não-aprovação da adopção? Dizer, talvez, que a ideia de que a política é a arte do possível não me pareça uma ideia nem muito radical nem muito sensata. É porque houve quem tivesse passado muitos anos, em tempos em que quase toda a gente dizia que o casamento homossexual não era possível, a insistir numa tal proposta, é por isso – não só, mas também – que o casamento é hoje possível. Limitarmo-nos ao que é possível é limitarmo-nos ao que é evidente e o nosso papel político não é apenas governar o possível, mas também ir além do que é evidente. Enfim, depreciamos demasiadamente o lugar da crítica, lugar que o Miguel seguramente valoriza, mas do qual está agora mais afastado, para pena nossa e destes tempos em que a crítica mais respeitada é a que desdenha os que criticam. Temos um primeiro-ministro que diz à oposição de esquerda que esta só sabe criticar, uma oposição de esquerda que diz à esquerda que corre por fora que esta só sabe criticar, e por aí adiante, até à vitória final do pragmatismo e do espírito positivo. Por cima do bolo, a cereja: o lugar dominante dos dias de hoje e que é dizer-se que não basta criticar, que é preciso também construir, e que o mal dos portugueses é só saberem criticar. Depois queixem-se que o pior livro do José Gil é o que mais vende ou que a Laurinda Alves acabe por ser eleita deputada.

 

Com tudo isto, não quero dizer que devemos advogar um culto do Não em detrimento do culto do Sim. Gostaria antes que procurássemos levar a cabo processos políticos em que o negativo não se dissocia do positivo, isto é, em que a crítica não precede simplesmente a ciência mas é recorrente a esta; assim como o movimento será recorrente ao partido, o poder constituinte ao poder constituído, etc.. Por isso é que tanto importa que a luta contra o que existe contenha desde logo os princípios organizadores do novo. E regresso ao início, quando disse que a ideia de que a política é a arte do possível me parece simultaneamente pouco radical e pouco sensata. Pouco radical porque limita o possível ao que é evidente, como já disse, e pouco sensata porque poderá trazer consigo o princípio do vanguardismo, seja reformista ou seja revolucionário, pois a ideia de que a crítica seria insuficiente parece muitas vezes ser, acima de tudo, o sinal de uma nossa incapacidade em encontrarmos possibilidades de transformação além da linguagem construtiva (e neste sentido, não-crítica) que caracteriza o discurso político-ideológico-científico. Como se não fosse da vida ordinária (das vidas ordinárias, na multiplicidade das singularidades que a compõe e na precariedade dessas mesmas singularidades) que as coisas pudessem e tivessem que surgir. Como se a economia moral da multidão não albergasse possibilidades de levar a cabo um processo de mudança político-social. Enfim, temo que a depreciação da crítica tenda, não raras vezes, a remeter-nos para uma clivagem entre o tempo do Não (da crítica, da rua, das massas) e o tempo do Sim (da ciência, das instituições, das vanguardas), como se estes pudessem (devessem) ser dois momentos separados, logo convocando dois tipos de protagonistas hierarquizados: massas e elites, movimento operário e partido político, representantes e representados.

Ora, se entendermos a crítica como um exercício de negação que é tão actual e constituinte como os exercícios de afirmação, percebemos que a crítica revela o que já existe mas que ainda (e pode ser que para sempre, não há quem o saiba) está oculto, retomando-se aqui muito do debate em torno do problema da alienação. Trata-se, note-se, de um problema que não tem que ser limitado a uma determinada discussão teórica, frequentemente referenciada aos debates da dialéctica negativa ou da teoria crítica. A crítica, com todas as ressonâncias marxistas e frankfurtianas em termos de pensamento político-filosófico, acabaria por ser compaginável com uma certa ideia de involuntarismo (no que este possa ter de anti-vanguardista), na medida em que ambas as vias traduzissem a convicção de que o mundo existente pode deixar de ser esse próprio mundo existente – isto é, a possibilidade da auto-emancipação, de uma sociedade civil contraditória que dispensa a síntese de um qualquer agente de índole e forma estatal. Não quer isto dizer que o que de novo surgirá deva ser tido como algo que já está necessariamente inscrito na realidade prévia, pois de outro modo não seria novo. Mas quer dizer que o novo nasce contra o velho, mas também em relação com o velho, sendo que é aqui que a questão da dicotomia reforma-revolução ressurge como importante. A verdade é que, tanto revolucionários como reformistas, muitas vezes depreciam abusivamente a crítica. Face aos revolucionários deveremos dizer que não nos serve um pensamento sobre os fins que não se preocupe com os meios. Contra os reformistas devemos referir que o facto de não adoptarmos uma relação puramente instrumental entre fins e meios não significa que os meios sejam tudo e os fins nada interessem. Tratar-se-á não de dissolver meios e fins num só, mas de procurar uma relação em espiral entre ambos. Cada geração tem direito à sua revolução, dizia Thomas Jefferson (acho eu).

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