O Outro Lado da Crítica

A política é a arte do possível, diz-se por estes dias. Cruzei-me com a ideia neste post do Miguel Vale de Almeida, a propósito da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da não-aprovação da adopção. Que dizer, para além do óbvio, isto é, que me alegra a sua alegria e que me anima a aprovação do casamento e que me desanima a não-aprovação da adopção? Dizer, talvez, que a ideia de que a política é a arte do possível não me pareça uma ideia nem muito radical nem muito sensata. É porque houve quem tivesse passado muitos anos, em tempos em que quase toda a gente dizia que o casamento homossexual não era possível, a insistir numa tal proposta, é por isso – não só, mas também – que o casamento é hoje possível. Limitarmo-nos ao que é possível é limitarmo-nos ao que é evidente e o nosso papel político não é apenas governar o possível, mas também ir além do que é evidente. Enfim, depreciamos demasiadamente o lugar da crítica, lugar que o Miguel seguramente valoriza, mas do qual está agora mais afastado, para pena nossa e destes tempos em que a crítica mais respeitada é a que desdenha os que criticam. Temos um primeiro-ministro que diz à oposição de esquerda que esta só sabe criticar, uma oposição de esquerda que diz à esquerda que corre por fora que esta só sabe criticar, e por aí adiante, até à vitória final do pragmatismo e do espírito positivo. Por cima do bolo, a cereja: o lugar dominante dos dias de hoje e que é dizer-se que não basta criticar, que é preciso também construir, e que o mal dos portugueses é só saberem criticar. Depois queixem-se que o pior livro do José Gil é o que mais vende ou que a Laurinda Alves acabe por ser eleita deputada.

 

Com tudo isto, não quero dizer que devemos advogar um culto do Não em detrimento do culto do Sim. Gostaria antes que procurássemos levar a cabo processos políticos em que o negativo não se dissocia do positivo, isto é, em que a crítica não precede simplesmente a ciência mas é recorrente a esta; assim como o movimento será recorrente ao partido, o poder constituinte ao poder constituído, etc.. Por isso é que tanto importa que a luta contra o que existe contenha desde logo os princípios organizadores do novo. E regresso ao início, quando disse que a ideia de que a política é a arte do possível me parece simultaneamente pouco radical e pouco sensata. Pouco radical porque limita o possível ao que é evidente, como já disse, e pouco sensata porque poderá trazer consigo o princípio do vanguardismo, seja reformista ou seja revolucionário, pois a ideia de que a crítica seria insuficiente parece muitas vezes ser, acima de tudo, o sinal de uma nossa incapacidade em encontrarmos possibilidades de transformação além da linguagem construtiva (e neste sentido, não-crítica) que caracteriza o discurso político-ideológico-científico. Como se não fosse da vida ordinária (das vidas ordinárias, na multiplicidade das singularidades que a compõe e na precariedade dessas mesmas singularidades) que as coisas pudessem e tivessem que surgir. Como se a economia moral da multidão não albergasse possibilidades de levar a cabo um processo de mudança político-social. Enfim, temo que a depreciação da crítica tenda, não raras vezes, a remeter-nos para uma clivagem entre o tempo do Não (da crítica, da rua, das massas) e o tempo do Sim (da ciência, das instituições, das vanguardas), como se estes pudessem (devessem) ser dois momentos separados, logo convocando dois tipos de protagonistas hierarquizados: massas e elites, movimento operário e partido político, representantes e representados.

Ora, se entendermos a crítica como um exercício de negação que é tão actual e constituinte como os exercícios de afirmação, percebemos que a crítica revela o que já existe mas que ainda (e pode ser que para sempre, não há quem o saiba) está oculto, retomando-se aqui muito do debate em torno do problema da alienação. Trata-se, note-se, de um problema que não tem que ser limitado a uma determinada discussão teórica, frequentemente referenciada aos debates da dialéctica negativa ou da teoria crítica. A crítica, com todas as ressonâncias marxistas e frankfurtianas em termos de pensamento político-filosófico, acabaria por ser compaginável com uma certa ideia de involuntarismo (no que este possa ter de anti-vanguardista), na medida em que ambas as vias traduzissem a convicção de que o mundo existente pode deixar de ser esse próprio mundo existente – isto é, a possibilidade da auto-emancipação, de uma sociedade civil contraditória que dispensa a síntese de um qualquer agente de índole e forma estatal. Não quer isto dizer que o que de novo surgirá deva ser tido como algo que já está necessariamente inscrito na realidade prévia, pois de outro modo não seria novo. Mas quer dizer que o novo nasce contra o velho, mas também em relação com o velho, sendo que é aqui que a questão da dicotomia reforma-revolução ressurge como importante. A verdade é que, tanto revolucionários como reformistas, muitas vezes depreciam abusivamente a crítica. Face aos revolucionários deveremos dizer que não nos serve um pensamento sobre os fins que não se preocupe com os meios. Contra os reformistas devemos referir que o facto de não adoptarmos uma relação puramente instrumental entre fins e meios não significa que os meios sejam tudo e os fins nada interessem. Tratar-se-á não de dissolver meios e fins num só, mas de procurar uma relação em espiral entre ambos. Cada geração tem direito à sua revolução, dizia Thomas Jefferson (acho eu).

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20 respostas a O Outro Lado da Crítica

  1. ezequiel diz:

    nem muito radical nem muito sensata

    —-

    pois, não é sensata porque não é suficientemente radical, certo?? LOL

  2. punheta diz:

    Comentário a todos os posts do dia 4:

    Já experimentaram bater punhetas? Parece que liberta imensa testosterona

  3. José Teles diz:

    Foi preciso um esforço danado para conseguir ler esta oração de sapiência até ao fim. Que chato, Zé !

  4. Excelente, Zé Neves, não encontro outra palavra.

  5. Niet diz:

    O texto do ZNeves tem o alto mérito de nos inquietar.Pois coloca fulgurações das importantes questões que nos separam e podem unir: O legado de Marx, Lénine e epígonos face à questão do Poder e do Estado; a tentativa persuasiva de prolongamento do Marxismo na base da Teoria Crítica da Escola de Francfort;a herança de Maio 68, o turbo-capitalismo e a alternativa(s).Ou então, como diria Baudrillard- que estava tão perto dos filosofemas artísticos de Wahrol- baixarmos os braços, aceitando a diagonal do fatal com o acontecimento,

  6. uma coisa que se calhar nada tem a ver com o teu post (ou tem muito): reparaste que o “pior” livro de José Gil é também o mais inteligível, acessível, o mais, digamos, “democrático”?

    para além disso, e por andares a campear nos terrenos negrianos-jeffersonianos aka origens de um certo pragmatismo cívico, a tua noção de crítica aproxima-se da “virtude genuína” assim como entendida por Dewey, e que era essa capacidade crítica de transcender uma estrutura social concreta…em favor da “comunidade”, que aqui é judiciosamente substituída, pace Negri, pela multidão (embora se vires bem os termos até são interchangeables).

    a “tua” ideia de sociedade civil auto-contraditória com a síntese estatal indesejável também roça o republicanismo cívico dos pragmatistas norteamericanos. e daí não vem mal nenhum ao mundo. agora só falta completar com a dimensão “ética” dessa mesma crítica, ou seja, a participação cívica é o mecanismo que permite a livre expressão da individualidade (traduzindo para os termos actuais: economia moral da multidão não ceifando as singularidades)

    e ainda, o Dewey também faz uma crítica ao individualismo liberal…

    enfim, aquilo que me parece a algum tempo, que Negri é o pragmatismo americano embrulhado em roupagens pós-modernas.

    o busílis começa com a questão do “novo” contra o velho. É que os fascismos também se organizaram em torno da gramática política do “novo”.

    O absolutamente novo – lembremos a injunção de Pound “Make it new” – foi a divisa dos modernistas e essa não trazia nenhuma emancipação “social” (seja lá qual for) atrelada.

    contínuo a achar que é preciso qualificar o “novo” sob pena de termos um movimento para a frente que procura o “novo” pela sua novidade. algo que está entre nós sob a forma de consumo. portanto, se calhar, e numa vertente muito sloterdijkiana, convém é extremar o processo…

  7. Antónimo diz:

    Vocês estão chatos comó C. Não são capazes de dizer as mesmas coisas descomplicando, ou pelo menos fazendo mais parágrafos?

    Parecem todos doutorandos das sociologias e desses sucedâneos das ciências sociais e humanas que se querem legitimar através de um discurso que valha-nos N. Sra.

    Frases curtas, meninos, frases curtas.

    O primeiro parágrafo consegue ler-se, daí para a frente ou um gajo está mesmo muito interessado ou desiste. Mas no fundo até têm razão pq eu é que insisti em ler o resto.

    Parecem aquelas conversas dos neo-liberais cheias de colaboradores, sinergias, benchmarkings e outros ings. Ou seja “BorING”

    Para dizer “Não deite lixo na Praia” é escusado dizer “Tenha cuidado e evite depositar resíduos sólidos, orgânico ou outros no areal”, como li um dia num sítio de veraneio num cartaz pago pela Comissão de Ordenamento, Ambiente, Território, Desenvolvimento e Planeamento da Orla Costeira, Áreas Limítrofes de Lazer, Poços, Furos Hertzianos e Cursos de Água Desaguantes e Afluentes da Direcção Regional Centro – Distritos de Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda e Viseu

  8. Vitor Alves diz:

    Será que alguém já se lembrou que se dois gays adoptarem uma criança, como é que essa criança se vai sentir quando crescer e os amigos se afastarem quando lhe começarem a chamas Gayzinho. filho de paneleiros, também és Gay? … etc etc.
    Ser gay é uma coisa. Cada um é como é. Se gostam de se beijar, apalpar, etc. é com eles, desde que não se metam com mais ninguém.
    Agora adoptar uma criança que não é gay, é um desvio completo na educação dessa criança e cujo futuro se advinnha negro

  9. Zé Neves diz:

    Caros Punheta, Antónimo e Teles: eu também gostaria de ocupar menos tempo do vosso tempo e, mais ainda, demorar menos tempo do meu tempo a escrever o que escrevo (mas é que quanto mais curto o texto, mais tempo levo…).

    Nuno Castro, não acho que seja essencialmente por ser inteligível que “Portugal – o Medo de Existir” é o livro mais lido do Gil. Ah, e não acho os dois outros livros que conheço (o que, na realidade, torna a minha classificação “o pior livro do José Gil” em “aposta”) ininteligíveis.

    Isso do Negri tem mais que se lhe diga… Não conheço bem (quase nada mesmo) do Dewey. Mas a importância do pensamento de Negri para o que escrevi neste post não é, parece-me, relevante. Mais até: do que se trataria, quanto muito, era da crítica ao Negri feita por um autor como Holloway e por vários outros autonomistas. Que criticam justamente a “positivização” do autonomismo que, a partir do seu spinozismo de final dos anos 70, Negri teria protagonizado. Críticas que não acho completamente pertinentes, mas que são bastante interessantes.

    cumps

  10. Zé Neves diz:

    nuno, ainda isto: a ideia de sociedade civil auto-contraditória é muito… marxiana, independentemente dos conceitos usados; a ideia de que é a partir das contradições de classe que se resolve o processo histórico, sem necessidade (mas isto é todo um debate, eu sei) de uma intervenção estatal (hegelianamente) que fizesse o político coincidir com o social; a questão (e isto podes dizer que é “negriano”) é dissolver o político no social sem que isto signifique afirmar apenas e só a certeza da continuidade do que existe.

  11. miguelserraspereira diz:

    Caro Zé Neves,
    excelente texto, como diz a Joana Lopes.
    Não vou discuti-lo agora. Digo só isto: o poder político democrático exercido pelo conjunto dos cidadãos (cujas formas terão de ser criadas sem que haja caminhos ou modelos, mas quando muito exemplos inspiradores) não coincide com o social, não o absorve, ou não absorve nem esgota a multidão, como não resolve a singularidade de cada um dos membros da multidão. É um desdobramento, uma “parte”, do social que estabelece as condições da liberdade e da igualdade nos usos e costumes (em última análise, trata-se de instituir e incorporar nos usos e costumes uma igual liberdade de criação e invenção nas dimensões da vida colectiva, da vida dos grupos particulares e dos indivíduos). É essa lei ou regime que o social instaura, desdobrando-se na afirmação da sua autonomia e potência criadora, ao assumir-se como auto-criação histórica.
    Enfim, em resumo, eis como eu “concluo” a leitura do teu post e do teu comentário das 16:24. Só falta acrescentar aqui um abraço

    miguel

    Caros tod@s,
    é verdade que há, sobretudo, nos comentários, partes mais “eruditas”. Mas o post do Zé Neves em si próprio só tem a dificuldade que caracteriza um modo de pensar que procura romper, no interior da reflexão comum, com a anestesia e o automatismo que a limitam e subordinam às ideias feitas. Nada que se compare em dificuldade ao que encontramos na leitura de Marx – por exemplo.
    A democracia – entendida como auto-governo dos cidadãos, e livre das cadeias “representativas” que, em nome dos mesmos cidadãos, limitam estritamente a sua participação activa -, a democracia e a livre associação dos produtores não são decerto as coisas mais fáceis deste mundo. Obedecer cumprindo a lei ditada pelos antepassados, pelo comité central ou pelos “governos saídos de eleições de representantes” é mais fácil do que reflectir enquanto cidadão co-governante, deliberar e decidir das regras e medidas pelas quais nos (auto-)governamos. Mas será a obediência, por ser mais fácil, também mais democrática do que a autonomia – isto é, do que a própria democracia?

    Cordiais saudações republicanas

    msp

  12. Vitor Alves diz:

    PRECISA-SE

    Precisa-se de Matéria Prima para construir um País.

    A crença geral anterior era que Soares, Cavaco, Guterres, Barroso, não serviam, bem como Santana. Agora dizemos que Sócrates também não serve.
    E quem viera depois de Sócrates também não servirá para nada….
    Por isso estou a começar a suspeitar que o problema não está em nenhum dos dirigentes. O problema está em nós. NÓS COMO POVO! Nós como matéria-prima de um País
    Porque pertenço a um País onde a “esperteza” é a moeda que sempre é valorizada, tanto ou mais do que o dólar.
    Um País onde ficar rico da noite para o dia é a virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito pelos demais.
    PERTENÇO a um País onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como noutros países, isto é, pondo umas caixas nas calçadas onde se paga um só jornal e se tira um só jornal, deixando os demais onde estão.
    PERTENÇO a um País onde as Empresas Públicas e Privadas são papelarias particulares dos seus empregados desonestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clipes e tudo o que possa ser útil para o trabalho dos filhos, e para eles mesmo.
    PERTENÇO a um País onde as pessoas se sentem o máximo porque conseguiram “puxar” a TV Cabo do vizinho, onde as pessoas falseiam a declaração do IRS para não pagarem, ou pagarem menos impostos.
    PERTENÇO a um País onde a falta de pontualidade é um hábito.
    Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano mas sim a cor partidária.
    Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas deitam lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos.
    Onde os nossos parlamentares trabalham 2 dias por semana para aprovarem leis e projectos que só servem para afundar quem não tem, encher ainda mais o saco dos que têm muito e beneficiar só alguns e retirarem-se com reformas chorudas.
    PERTENÇO a um País onde as cartas de condução e os atestados médicos podem, por vezes, serem “comprados”, sem fazerem nenhum exame.
    Um País onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um invalido, ficam de pé no autocarro, enquanto as pessoas que estão sentadas fingem que dormem, para não darem o seu lugar.
    UM País no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão. Um País onde fazemos um monte de coisas erradas, mas fartamo-nos de criticar os nossos governantes (muitas vezes com razão)
    Como “Matéria-prima” de um País, temos muitas coisas boas, mas falta-nos muito para sermos homens e mulheres de que o nosso País precisa.
    Esses defeitos, essa esperteza saloia” congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos e escândalo, essa falta de qualidade humana, mais do que Soares, Cavaco, Sampaio, Sócrates, etc. é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são portugueses como nós, Eleitos por nós. Nascidos aqui, ou em qualquer outra parte.
    Entristeço-me porque ainda que se o Presidente ou Sócrates renunciassem hoje mesmo, o próximo presidente ou o futuro primeiro ministro que lhes sucedessem teriam que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima, defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderão fazer nada.
    Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor. Mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.
    Qual é a alternativa? Precisamos de mais um ditador para que nos faça cumprir a Lei com força e por meio de terror??????
    Aqui faz falta uma coisa. E enquanto essa coisa não começar a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados,,, Igualmente “sacaneados”.
    É muito gostoso ser português. Mas quando essa “portugalidade” autóctone começa a ser um empecilho ás nossas possibilidade de desenvolvimento como Nação, aí a coisa muda…… Não esperamos acender uma vela a todos os Santos, para ver se nos mandam um Messias.
    Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmo portugueses não poderá fazer nada.
    Está muito claro… SOMOS NÓS QUE TEREMOS DE MUDAR
    Agora decidi procurar o responsável não para o castigar mas sim para lhe exigir que melhore o comportamento e que não se faça de surdo, de desentendido.
    Sim decidi procurar o responsável e estou seguro QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO.

  13. viana diz:

    Concordo genericamente com o post. A lógica binária, aceitação vs. oposição, contamina demasiado o discurso e a reflexão. Em particular, no seio da Esquerda, como temos visto neste blogue, é colocada demasiada ênfase na dicotomia acção-reflexão e reforma-revolução. Infelizmente a maioria das pessoas apoia mais facilmente posições “claras” do que aquelas que reflectem a complexidade dos problemas abordados. Como tais posições “claras” radicam numa simplificação da realidade, não estão “preparadas” para o enfrentamento com esta e para todas as contingências possíveis. O resultado mais frequente é não serem atingidos os objectivos pretendidos. O modo como este problema pode ser ultrapassado é definindo e utilizando meios de acção que contribuam no imediato para a resolução (parcial) do problema em questão, não deixando a obtenção de resultados efectivos (eg. mudança efectiva da realidade sócio-política na direcção desejada) para um futuro incerto. Este tipo de acção tem consequências a curto prazo, mas sem perder de vista o que é pretendido num prazo mais alargado. Uma das vantagens é a possibilidade de alterar efectivamente a realidade (no sentido desejado) durante o decorrer da acção, diminuindo o leque de possíveis desenvolvimentos perniciosos para os objectivos finais em mente. Mas para assim actuar é preciso reflexão crítica, sem preconceitos, capacidade para definir o que se pretende como objectivo final, e flexibilidade táctica perante as contingências da realidade associada a teimosia estratégica. Este tipo de atitude é completamente oposta à que possuem aqueles que insistem em criar um abismo intransponível entre os conceitos de revolução e reforma. O que precisamos é de uma estratégia controlada de transformação, reformadora na aparência e nos meios, mas radical na essência e nos fins, que apenas poderá ser conseguida através do exercício duma pressão constante e sufocante sobre o Poder, cercando-o através duma multiplicidade de acções tanto quanto possível coordenadas, infiltrando-o se necessário, até à sua dissolução. Puxar o tapete debaixo dos pés dum adversário é um modo mais eficiente de o deitar abaixo do que dar-lhe um pontapé, principalmente se o adversário fôr mais forte do que nós…

  14. Antónimo diz:

    Vocês não sabem ao menos fazer parágrafos?

    Tem sempre de ir tudo a eito?

    É só no fim de cada ideia clicar duas vezes nessa tecla mais gorda que está à direita do teclado.

  15. Antónimo diz:

    Caro Miguel Serras Pereira, O drama não é a erudição.

    Aprecio, só entre as coisas que tenho em mãos, o Faulkner, o Mário Cláudio e a Metafísica do Aristóteles (Em português apenas os dois primeiros livros do Joaquim de Carvalho que o resto tenho de fazer o esforço de ler em francês e inglês).

    Do Ulisses gosto muito.

    Do que para aqui tenho d’O Capital desisti, pois não tenho pachorra para aquilo, mas li com bastante agrado o manifesto – se calhar por ser escrito a meias.

    O problema é que o blogue é em princípio uma outra coisa. Podem assumir que não, justo, mas podiam ao menos separar os parágrafos uns dos outros tornando menos densa a mancha gráfica, menos fastidiosa a leitura.

  16. miguelserraspereira diz:

    Caro Antónimo,
    acho que tem bastante razão. A minha resistência, só há poucos meses vencida, aos blogues baseava-se no “penso rápido”, demasiado rápido, que o blogue me parecia impor. Hoje, parece-me que vale a pena arriscar, e que talvez a reflexão e o solicitá-la não seja impossível na blogosfera. Mas reconheço que não é fácil e não pretendo ser mestre na arte. Terei em conta as suas pertinentes recomendações gráficas – que o material parece de facto impor.
    Obrigado.
    Saudações republicanas

    msp

  17. Renato Teixeira diz:

    Numa entrevista recente que fiz ao José Manuel Beiras, com o seu afastamento da direcção do BNG após as teses que o aproximavam (acabaram juntos no governo galego) do PSOE como pano de fundo ouvi um dos melhores resumos da parte inicial deste post. Disse ele justificando o seu afastamento: A política passou a ser a arte do possível ao invés de ser a arte do necessário. Fica quase tudo dito.

  18. zé neves diz:

    ei, renato; o josé manuel beiras é um tipo relativamente alto e bem-parecido? é que um dia, quanto foi a cena do petroleiro na galiza, levámos um tipo desses a sines, a um debate da attac-sines, que fazia a ponte entre o caso galego e o a “greve verde” de sines. era um tipo bem porreiro.

  19. Corvo Verde diz:

    Caro Zé
    Li. Reli. Apreendi alguma coisa.
    Natural.
    Agora eu, não quero armar ao pigarelho mas parece que se a politica é a arte do possível, voto na arte de conquistar o necessário.
    A politica arte-do-possível aceita os encerramentos de empresas que abrem com os mesmos trabalhadores com metade dos salários.
    (oh, desculpem, falava-se do casamento de homossexuais)
    A arte-que-conquista-o-necessário “sequestra” patrões que fazem a politica arte-do-possível até que cedam na manutenção do emprego.
    (Para não fugir ao temas se me pedirem para subscrever a petição de referendo aviso o peticionário que não estou interessado em casar com ele)
    Enfi, até pode ser um pouco arcaico, mas é assim que vejo as coisas.
    Prometo, contudo, Zé que vou reler o artigo

  20. Niet diz:

    Z.Neves: Ontem tive um problema técnico grave e o meu comentário saiu seccionado. Ou terá sido o relâmpago provocado pela ” Magia Negra ” do pensamento antagonista de Jean Baudrillard? Tenho andado a reler a Teoria Crítica( Horkheimer), e, pelo que senti nos comentários de MS Pereira, fui experimentar a produção da Utopia Positiva que o Negri despoleta em “Marx para-lá de Marx”…Ora o que se nota nas páginas admiráveis de saber e profundidade de Horkheimer sobre o renovamento do Marxismo- seus conceitos e posicionamento principal- relaciona-se com o legado mais puro do Marxismo Revolucionário, que Daniel Guérin,H. Lefebvre e Antonio Negri tentam valorizar e re-descobrir.De uma forma sucinta , Negri sublinha que a capacidade autónoma, de autonomia, do proletariado , radica no fomento da ” luta de classes que, por si, funda o seu projecto pela destruição do trabalho assalariado onde, que maravilha,também é projectada a destruição da teoria da mais-valia…” As categorias marxistas são categorias de subversão; são categorias que provêem de um processo de subversão(…). A troca da libertação do trabalho contra a mutação do trabalho forma o centro, o coração da definição do comunismo “. ” Todas as categorias marxistas são categorias do comunismo “, frisa Negri. “A verdade é um momento da praxis justa;mas aquele que a identifica imediatamente com o sucesso, põe a história entre parêntesis e torna-se num apologista da realidade dominante!”, Horkheimer.Como Jean-Marie Vincent, Jankélevitch ou Lacan, Baudrillard foi dos raros ” germanistas” da inteligentzia francesa, isto é, dos que leram Marx, Freud e a Escola de Francfort no original. Por isso, num recorte adorniano/horkheimiano; ele, Baudrillard, sugeriu: ” A teoria está sempre do lado do falso, de uma espécie de falso sublime, de um falso mais falso que o falso e sobre a qual se erguem por vezes os acontecimentos, dotando-a de um acréscimo de atracção !”. Avanti, salut! Niet

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