
Para tranquilizar os espíritos agitados e contentar os leitores mais atarefados, em vez de uma extensa mancha de texto este post constituirá várias pequenas manchas de texto.
Começo pelo estilo. Não me incomodam e muito menos me assustam palavras fortes, acusações ou até insultos, quando eles se justificam e repousam em argumentos sólidos. Por outro lado, afirmações há que apenas parecem empenhadas em demonstrar que a imbecilidade é um direito constitucional. E nessas tudo me incomoda. A pretensão de “dar uma lição”, de “explicar tudo bem explicado” ou de denunciar “os grandes reaccionários e os fascistóides bloqueadores e engraçadinhos do nosso tempo” contém em si todo um programa. E esse programa, digamo-lo com a clareza possível, é tão reaccionário como o tempo em que vivemos.
Não sei se o Carlos se dá conta do dispositivo retórico que resolveu empregar no seu post e do quanto ele se assemelha ao que outras pessoas costumam empregar para menorizar as opiniões expressas no 5 Dias. Assim é que onde uns aqui descortinavam tascas e loucos a correr nus aos gritos pela rua (ainda a mais poética expressão de 2009), o Carlos tropeça agora em «tiques», «verborreias umbiguistas», «pruridos» e outros sentimentos menos recomendáveis. Palavras que servem fundamentalmente para iludir o simples facto de que há maneiras diferentes de ver o mundo. Aqui chegados, não me contentarei com esta generalidade. Ocorre-me escrever que quem desta maneira procede está a fugir a um debate para o qual lhe faltam argumentos. Os tiques, como as tascas, são o biombo atrás do qual se esconde a fragilidade de uma posição. Direi o mesmo acerca de quem opta por colocar em cima da mesa o número de cartazes colados pelos detractores do leninismo. Mas acrescentarei ainda, a esse respeito, que o seu estilo é demasiado óbvio para que obtenham aqui alguma resposta.




Pingback: cinco dias » CONSTATO Ricardo (mas gosto mais da Lady G. e da URSS)
Maré alta, Ricardo.
Aproveitando a boleia da tua vaga, eu diria mais ou menos a mesma coisa acerca de um certo excesso da denúncia de escândalos políticos e da classe política. Claro que penso que é salutar denunciar abusos e fraudes, as práticas de corrupção em que incorrem os governantes ao arrepio das normas que eles próprios, de melhor ou pior vontade, se fixaram ou foram forçados a fixar-se. Mas sem abusar da tecla nem remexer demasiado na lama, sem insistir nas pessoas e nos seus traços pessoais (os nomes bastam, quando são necessários). A verdade é que a denúncia obcecada dos escândalos, a caça à corrupção, o apelo sensacionalista à intervenção judicial, a evocação da demasiada brandura de juízes ou do justiceirismo à americana de outros, atenua, antes do mais, a percepção dos traços do regime que nos levam a querer transformá-lo e que continuariam a ser inaceitáveis ainda que sem escândalos nem corrupção. Mas há mais: este casuísmo feroz é politicamente suspeito e foi a arma favorita de certas extremas-direitas, bem como dos tempos de glória do estalinismo. É também imbecilizante pois promove as vistas curtas em matéria política, além de que alimenta o ressentimento e o voyeurismo enquanto contrapartidas da participação autónoma e da vontade democrática. Como horizonte de acção, inscreve-se nos antípodas da perspectiva revolucionária da cidadania governante, e aposta na arruaça e na bagunça, contribuindo para alimentar um clima propício à nostalgia de um governo, presidente, primeiro-ministro, partido “como deve ser” ou “direcção revolucionária” que ponha ordem nisto. Incita-nos – à maneira dos tablóides que todos conhecemos – a pormos esperanças em remédios piores do que o mal.
Abç
miguel
Quer o msp escrever que existe uma medida certa para denunciar a corrupção, a fraude ou o roubo? Será o respeitinho?
O Miguel ainda não me respondeu cabalmente a uma questão: porquê tanto fascínio em torno de um tipo que escreveu sobre os PCs e a URSS: “O vocábulo igualdade serviu de cobertura a um regime no qual as desigualdades reais eram, efectivamente, piores do que as do capitalismo”.
Caro Tiago,
eu não acho mal que se denuncie a corrupção – acho péssimo que se faça dela o mal maior (que é o regime, ainda que funcionando impolutamente) e tema privilegiado, sobretudo em termos de fulanização. É por causa dos escândalos que envolvem personalidades deste governo e/ou do PS que você se opõe às políticas do mesmo governo? É só porque há transgressões e infracções por parte dos “responsáveis” às leis vigentes que você quer outro regime (social e político)? Não será um sintoma de alguma impotência ou desespero políticos insistir demasiado nas personalidades dos adversários?
Cordialmente
msp
msp, deixemo-nos estar então.
Lido isto:
«É por causa dos escândalos que envolvem personalidades deste governo e/ou do PS que você se opõe às políticas do mesmo governo? É só porque há transgressões e infracções por parte dos “responsáveis” às leis vigentes que você quer outro regime (social e político)? Não será um sintoma de alguma impotência ou desespero políticos insistir demasiado nas personalidades dos adversários?»
Também mudo e quedo me fico.
Carlos, nunca te responderei cabalmente, sobretudo enquanto as tuas perguntas se transformarem noutras. Desta vez, é mais fácil: as desigualdades reais, nos termos que em última análise contam, em termos de poder, foram de um modo geral agravadas – por comparação com o quadro que apresentavam os países capitalistas liberais “clássicos” (que são os que Castoriadis tem em vista no momento). Como classe, casta ou o que lhe queiras chamar a burocracia e o seu Estado dispunham mais soberanamente do sobreproduto e das alavancas de comando da economia do que as burguesias ou camadas de gestores de topo dos países capitalistas “clássicos”, nos quais importantes conquistas operárias e populares limitavam a arbitrariedade do primeiro capitalismo. Sabes muito bem que assim é – caso contrário, não faria sentido que protestasses se Sócrates quisesse suprimir o direito à greve, generalizar a semana de 60 horas, proibir o Avante!, recorrer internamento em campos de trabalho dos militantes de outros partidos ou os descontentes demasiado ruidosos.
Nenhum marxista que se preze pode sustentar que a “nacionalização” e a “socialização” são a mesma coisa, ou que a supressão propriedade individual dos meios de produção significa por si só o fim da separação entre os produtores e os meios de produção, da exploração e do domínio do capital.
Foram inúmeros os revolucionários – marxistas ou não – que escreveram coisas semelhantes. Procura nos teus arquivos do tempo em que, como dizes, defendias a revolução vestido de negro – já que aqui não é a revolução que defendes por mais que te pintes de vermelho. Boa pesquisa.
Miguel,
Faço-te apenas notar que este deve ser o único sítio/blogue/forum onde se fala em Castoriadis no mundo, hoje, e desde há décadas. É que o pensador e as suas teses que te enformam deixaram há muito de ser relevantes para a história, para a esquerda, para a emancipação. Sobre o assunto e as críticas daí provenientes, já esqueci quase tudo.
Carlos,
enganas-te, mas ainda que isso fosse um facto, talvez pudesses discutir as ideias e teses em si próprias, sem te preocupares tanto com o estatuto mediático do nome que as assina.
Quanto ao engano, olha, folheia o Monde diplomatique e verás que ele lá te aparece, e em muitas outras paragens blogosféricas ou não . Em Espanha e no Brasil, talvez seja mais discutido, editado, estudado, retomado na blogosfera, hoje do que há dez anos. Idem para a Bélgica. Desculpa lá, mas cinjo-me aos casos que conheço melhor.
Carlos: reparo agora que tinhas escrito antes a propósito de outro meu comentário: “Também mudo e quedo me fico”. Ainda bem que já mexes e falas/escreves outra vez. Vais ver que, com um pequeno esforço, poderás, dentro em breve, espero-o bem, fazê-lo melhor.