Uma lição de pintura e uma lição de política: de Caravaggio a Lénine

CARAVAGGIO. Repouso na Fuga para o Egipto.

1.

Quem nos últimos dois meses, mais ou menos, frequentou este blogue e as suas caixas de comentários, de imediato reparou num facto original, interessante e bizarro: a prolixidade argumentativa para nada, uma avassaladora produção de impasses teórico-retóricos e uma verborreia traduzida em impressivas manchas gráficas desarmantes de texto, sempre invariavelmente crítico a toda e qualquer tentativa de acção ou realização emancipadora, transformadora, prática em suma, seja pela violência ou pelo discurso, sempre mas sempre crítico a todo e qualquer vislumbre de mudança ou ruptura social, tudo isto muito bem representado na figura que assina como comentador Viana e ainda outro, Niet (que anda há 30 anos a tentar compreender o Castoriadis, meu deus!!); um tique também observável (menos no primeiro e mais no segundo) nos meus colegas Ricardo Noronha e Zé Neves.

Não partilham de nenhuma experiência encetada para uma real e não angelical-sublimada emancipação: abominam tudo, tudo o que existe e existiu nesse esteio: os bolcheviques, Lenine, Trotsky, a URSS, Estaline, Mao, Zapata, zapatistas, resistências armadas, resistências desarmadas, comunistas, socialistas, anarquistas violentos, Luigi Galleani (o anarquista que advogava a violência revolucionária), Fidel, Che, sub-comandante Marcos, Chavez, Allende, absolutamente tudo, sem excepção – denotando apenas fascínio por uma típica verborreia umbiguista.

2.

O que eu lhes chamo, para não lhes chamar pior, e porque já estou cansado de tantos pruridos “anti-violência” e “anti-revolução”, é “gnósticos”. São os novos gnósticos, eles não estão próximos nem solidários com nenhuma barricada nem nenhum tirinho, fodem a paciência e não saem de cima. Como Zizek cita de Harold Bloom (“Omens of Millenium”), o gnóstico vive num mundo em que Deus é um alien acima do mundo e da sua complexidade dramática e violenta, um Deus separado disto; o gnóstico distingue-se daquele que tem fé, porque este concebe um Deus que coexiste com o mundo, digamos, com os campos de extermínio, com o “mal”, com a SIDA, com todas as doenças e instantes de felicidade; o gnóstico só acredita num Deus a iogurte seguro e lavado, não vive aqui. Esta malta odeia tudo o que se tentou para mudar o mundo, nos séculos XIX, XX e XXI. São os grandes reaccionários e os fascistóides bloqueadores e engraçadinhos do nosso tempo, neste princípio do século XXI, felizes pelo desaparecimento da União Soviética, felizes pelas dificuldades que o bloqueio causa à sociedade cubana, felizes pela futura queda de Chavez, felizes no seu ódio aos “m-l”, não sei porquê, mas sempre alegres com o que dizem ser o fracasso dos processos totalitários travestidos de emancipação.

É pois muito certo o que diz um excelente, simples e sintético comentário de Joaquim Frazão (parabéns, meu caro amigo!):

“Os velhos militantes não estavam a fazer concursos de inteligência e de espírito aberto, atrás dumas teclazitas. Eram homens e mulheres que intervinham no seu tempo, da maneira que sabiam e podiam, e muitos deles, além da actividade quotidiana, poderiam explicar-vos, para vosso espanto, uma teoria física ou química, um movimento artístico ou uma teoria económica. Serão vocês capazes disso? Além do mais, a vida de sacrifício não era uma opção livre entre outras, conscientemente tomada em desfavor de postar aberta e dialogicamente num blog.”

Ora, isto vale muito mais do que 10 “ensaios” de Viana e de Niet.

Por tudo isto, lembrei-me ontem, na pintura, na sua história, da antítese de tudo isto: Caravaggio. Vou explicar-vos tudo muito bem explicado.

Sustentando, na medida do possível, o paralelo entre Lenine e o pintor lombardo. Para isso recorrerei a, para mim, três tópicos de abordagem fundamentais em torno de Caravaggio: 1) o carácter inédito do seu trabalho lumínico; 2) a sua recusa em mostrar a “mão oficinal”; a, por fim 3) a sua recusa total em elaborar para as suas obras estudos prévios, uns atrás dos outros (nunca desenhou, não se lhe conhece um único desenho); e vamos então chamar a este puro pragmatismo e predisposição para acertar no alvo, um “leninismo pictórico”. 

The Seven Acts of Mercy, Church of Pio Monte della Misericordia

CARAVAGGIO. Sete Obras da caridade.

3.

Quem não tiver paciência para abordagens técnicas da pintura, deixe já aqui o meu texto (mas não deve, porque tentarei falar muito muito claro).

1) A luz, então. Têm forçosamente razão os seus primeiros biógrafos e críticos, lidos com atenção (e este é um dos temas da minha tese de dr.): Scannelli numa carta que Hibbard transcreve na sua importante monografia; Mancini, o rival Giovanni Baglione ou o posterior historiador Giovanni Pietro Bellori: sem o apreciarem grandemente, todos adiantam que o uso caravaggesco da luz não é predominantemente simbólico, não se destina propriamente à divinização da luz ou à figuração lumínica da divindade; destina-se a conferir forma e volumetria forte, directa, marcada, acentuadíssima de um modo que viola o sfumato gradativo de Leonardo ou as laboriosas velaturas dos venezianos Ticiano e Tintoretto.

Já no século XX, Wittkower descrevia a luz do lombardo como algo ao mesmo tempo insubstancial e corpóreo, ou seja, a luz caravaggesca não se relacionava com a substância em que recaía (corpos humanos, panejamentos), não a modelava gradativa ou suavemente; ela iluminava por excesso separando-se (e recortando os corpos) da obscuridade. Portanto, não há atmosfera em Caravaggio como em Ticiano, Rembrandt ou nos impressionistas: há uma luz que se recorta e se separa da obscuridade, e há uma obscuridade densa e pesada como pedra e sem meios-tons ou gradações (como existem profusamente em Rembrandt). A luz caravaggesca é figura e é corpo; a obscuridade não é fundo, como sempre, ela é também figura e corpo (Roberto Longhi, que redescobriu Caravaggio no século XX, afirmou que ele foi o primeiro a conferir corpo à sombra-obscuridade; Wittkower, por seu lado, diz que a luz de Caravaggio não trespassa nem passa pelas zonas de obscuridade, pois estas têm um corpo denso, são matéria não permeável a nada). Os biógrafos citados acertam na ausência de simbolismo desta luz pelas razões erradas, creio eu.

Eles não lêem neste luminismo nenhum simbolismo porque tendem (todos) a considerar Caravaggio como o pintor paradigma do “realismo” avesso ao idealismo de Rafael (o que impressionou Poussin, e o fez proferir a famosa frase que “Caravaggio veio ao mundo para destruir a pintura”). Ora, apesar da escolha dos modelos caravaggescos coincidir com os homens e as mulheres da rua, a ausência de relação luz-obscuridade em Caravaggio dificilmente o leva para um plano de realismo. Mas a sua modelação volumétrica é directa, rígida, hierática, não retórica e inequívoca (alguém dizia mesmo que ouvia o “Rapaz Mordido por Lagarto” gritar).

2) Ausência de “oficina”, gestualidade, agora. Quem viu ou tocou num Caravaggio sabe que a película pictórica do autor, contrariamente a Rembrandt, é fina, lisa e sem marcas – sejam elas do gesto (abundantes em Velázquez) ou da matéria (abundantes em Rembrandt). Tudo aqui aparenta “apagar” a oficina pictórica, como que antecipando-se à fotografia aparecida séculos depois. Além disso, em Caravaggio, raramente há profundidade de campo – ele usava mas não se interessava muito pela perspectiva artificial: temos quase sempre cenas desenroladas num plano demasiadamente próximo do espectador, estas personagens constituem e constituem-se num mesmo plano e em “cima” de nós, exceptuando obras de conjuntos de figuras (mais de 5 ou 6) como o “Martírio de S. Mateus” ou as “Sete Obras da Caridade”. O toque e o gesto desaparecem, são anulados na modelação de corpos e seus panejamentos. Comparável, só Miguel Ângelo que desprezava em absoluto quaisquer elementos paisagísticos e os executava com rudeza e desprezo. Mas Caravaggio poderia ter sido virtuoso na paisagem, que dominava: veja-se o “Repouso na Fuga para o Egipto” ou o “Sacrifício de Isaque”.

Mas preferia ir “directo ao assunto” (como Lenine!). Por fim, 3) a ausência de estudos prévios, desenhos, esquemas. Poderíamos considerar que teriam existido e desaparecido, mas não. Impossível. Nenhum biógrafo seu contemporâneo os cita, e sabe-se que o pintor abordava directa e prodigiosamente a tela (e digo prodigiosamente, porque as suas estruturas compositivas são de extremo rigor, o que não cabe aqui demonstrar).

4.

Como Lenine, Caravaggio seria o mais avesso possível às interessantíssimas e edificantes conversas intermináveis que temos aqui mantido: ora, o que aqui temos feito tem sido desenhar, desenhar, desenhar, e nada realizar nem possibilitar que se realize. Caravaggio, o precursor de Lenine, sempre fez o contrário: realizou sempre obra sem se preparar de forma tradicional. Lenine também, como o lombardo, sabia a necessidade de agir rapidamente, e deixar a preparação para depois (precisamente o contrário daquilo que aqui temos feito, repito). Numa conferência de 1919, proferida na Universidade de Sverdlov, tratou do imperioso problema do Estado, a partir de Engels, na “Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”. O resumo da conferência é simples: o Estado nasce do regime da propriedade privada e da exploração capitalista. Enquanto houver capitalismo tem de existir Estado. O Estado tem de ser tomado pela força (e não ignorado, como querem os nossos amigos libertários: ele existe, logo tem de ser tomado); a tomada do Estado serve para abolir a propriedade, o próprio Estado e o partido; abolida a propriedade, dissolve-se o Estado. É necessário agir (pintar sem desenhar, e sem estudo prévio demasiadamente demorado), e, portanto, agir violentamente (inevitavelmente). Porque a tela tem de ser realizada. Há que a começar e falar depois. Só depois, meus caros amigos. Só depois. Não antes. E agora vou tirar umas férias de 1, 2 ou 3 semanas. Ou talvez não. Volto não tarda nada.

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67 respostas a Uma lição de pintura e uma lição de política: de Caravaggio a Lénine

  1. Carlos,
    obrigado pelas suas observações. Cá ficamos à espera do seu post.
    Bom ano!

  2. Niet diz:

    Carlos Vidal, já sabe que eu sofri uma muito forte e maravilhosa vacinação contra os neo-leninistas. Essa vacina intitula-se o imenso Castoriadis, textos e intervenções. Sim, porque Voline escreveu que até Lénine se dizia anarquista, de vez em quando, le pauvre…Leio Badiou e gosto de certas coisas: já aqui há tempos o destaquei em letras impressas.Mas, como dizia Gramsci, costumo ser um pouco pessimista na teoria, mas muito optimista na prática. Bom vento! Niet

  3. Carlos Vidal diz:

    Bom vento, também.
    Mas suponho sempre que Castoriadis e “prática” é uma contradição nos termos. Impasse total. Não se sai daí.

  4. Niet diz:

    Carlos Vidal: Uma breve resposta ao seu precedente comentário. Precisamente, Castoriadis assinala- in A Experiência do Movimento Operário- Como Lutar-o seguinte: ” Há mais de 10 anos que os filósofos franceses não cessam de escrever sobre a classe operária, o socialismo,o estalinismo,o partido, as contradições e as não-contradições. Na Hungria, os operários pegaram em armas, constituiram Conselhos- e reduziram a zéro os pseudo-problemas dos filósofos. Todavia, eles não equacionaram tudo- longe disso. Contudo, do ponto de vista puramente filosófico, os Conselhos húngaros contribuiram mais e elevaram-se a um nível superior do que os filósofos baseados em 25 séculos de cultura. Integrar organicamente a experiência operária à elaboração teórica, significa mudar a sua maneira de ver, a sua forma de falar, o seu próprio estilo de pensar. Mas significa também criar um espaço estimulante no qual se possam encontrar e unir as duas correntes e os que as incarnam- os operários e os intelectuais revolucionários “. E noutra passagem muito importante, Castoriadis sublinha: ” Não existem reivindicações económicas ou minimais que visem a defender o operário como vendedor da sua força de trabalho, e a preservar a sua existência biológica, e, na outra extremidade, um programa socialista ” máximo “, quase exclusivamente centrado sobre o problema do poder. De igual modo, não existe um fosso entre o problema de organizaçã dos operários agora, e o da sua organização futura para gerir as fábricas e a sociedade.Nos dois casos- através de uma multidão de diferenças enormes que só um louco poderá negligenciar – o fundo da questão é o mesmo: não é senão quando os operários se organizam e se dirigem a eles próprios que a sua acção servirá os seus interesses e as suas necessidades- só quando os operários se organizam e dirigem a si-próprios é que a sua acção será própria e materialmente eficaz “. Conhece aquela expressão da Rosa Luxemburgo que diz, se a sociedade realizasse efectivamente o que pensa, o capitalismo não duraria mais de 24 horas? O debate continua. Niet

  5. Renato Teixeira diz:

    Cá estamos no ano novo e de regresso a este post como prometido.
    Gostei da elaboração mas não posso deixar de fazer uma pergunta relatica ao ponto três, relativo à parte em que suporta o paralelo entre Caravaggio e Lenine com aquilo a que chama “a recusa total em elaborar para as suas obras estudos prévios”. Não serão as teses de Abril um estudo prévio de Outubro? Acha mesmo Lenine assim tão intempestivo? Tinha-o como um tipo mais racional, mas de estudos prévios… É assim tão disparatada a ideia?

  6. De lição de pintura até agora ainda nada, como muito bem sabes neste tempo e neste género de artista, desenhavam com o pincel directamente na tela branca e ou suja, a tal que tanto te angustia, acertavam a composição preliminarmente até porque a grande narrativa era enorme digerida e sentida, de seguida com modelos era dar-lhe até ao finito-acabado. Aconteciam acidentes e desproporções perspecticas como a do tamanho da Virgem e do menino Jesus em 3º plano maiores que as figuras do primeiro plano, talvez pelo conteúdo do culto mariano, não? ou por falta de prójecto, aquela malta estava à vontade e à maneira. Por acaso também gosto das tempestades no Lac Leman, de Geneve e da maison Saussurre, de um activismo sanguinário, até porque a suiça é um país de mercenários.

  7. Carlos Vidal diz:

    Renato,
    São, as Teses de Abril são um programa de governo: recusa de uma república parlamentar, defesa de uma república de sovietes; supressão da polícia e do exército; confiscação de terras; nacionalizações; banco único, etc. Num contexto aí também definido: “A peculiaridade do momento actual na Rússia consiste na transição da primeira etapa da revolução, que deu o poder à burguesia por faltar ao proletariado o grau necessário de consciência e organização, para a sua segunda etapa, que deve colocar o poder nas mãos do proletariado e das camadas pobres do campesinato.”

    Mas, num outro texto, também de Abril, Lenine diz isto (VII Conferência de Abril de toda a Rússia do POSDR (b) ): “Queremos que o campesinato vá além da burguesia, que tome a terra dos latifundiários, mas agora não se pode dizer nada de detrminado sobre a sua conduta futura”.

    Isto é, há algo que num determinado momento, de acção, na acção, aí e só aí tem de ser resolvido ou decidido. Um revolucionário e táctico, ou estratego, genial é aquele que no momento decisivo faz a escolha “certa”. Quantas e quantas coisas têm de ser decididas (em todos os aspectos e não apenas numa revolução) num momento “sem tempo”? A comparação com Caravaggio passava por aí: há que exaltar aquele que faz a escolha certa no momento, que se move no momento de forma decidida e aí se fideliza. As obras de Caravaggio não tiveram, como as de Rafael (o modelo “perfeito” e ideal para os críticos da época) ou as de Poussin, estudos prévios detalhados, mas, do ponto de vista da invenção e composição são tão ou mais perfeitas que as dos citados.

    Em política, no momento decisivo, há que, como diz Alain Badiou, tomar uma decisão e mantermo-nos fiéis ao acontecimento que nos obrigou a tomar essa decisão.
    Na irrupção de um momento de transformação (chamemos-lhe “revolução”) há, sigo Badiou, uma finitude “na” escolha e uma infinitude “da” escolha. Feita a escolha, o que se pode fazer com ela, a escolha e aquilo que se escolheu, é imprevisível e de espectro infinito.

    Na música, Schoenberg criou novas leis de harmonia. Teve discípulos, Alban Berg e Webern. Berg e Webern escolheram seguir as invenções de Schoenberg (não por coacção, claro). Depois de feita a escolha, de cimentada a nova realidade, tudo é possível: dois discípulos, vinte discípulos, ainda hoje se pode escrever a partir das invenções de Schoenberg (que se prolongaram por Luciano Berio ou Luigi Nono, etc.).
    Fui claro? Respondi?

  8. Carlos Vidal diz:

    Grande Jecta, regressado e em força da Suíça e do Torino dos Artistas Poveros.
    Ora, ora, como sabes, naquele tempo desenhava-se de mais, desenhava-se mesmo mais do que se pintava.
    E os escultores então….

    Mas os pintores, meu deus: Rafael, Poussin, Rembrandt, Ingres … só lá iam depois de tudo bem desenhado.
    Queres que te faça um desenho, é?

  9. não, isso não por favor, basta o aconselhar dos livros.

  10. Renato Teixeira diz:

    Os paralelos sugeridos não são propriamente a minha praia. Mas sim, parece claro. Num comentário meu a um post que já não sei bem qual era, sublinhei a importância do tempo na decisão política, aprendizagem que de facto herdei da tradição leninista. Agora não tinha entendido que era a esse aspecto da acção política que tinha posto em contraste com o esboço de uma obra de arte. Tenho um preconceito relativamente aos pintores devido à sua necessidade de esboçar a fantasia. Nesse sentido acho o paralelo forçado, uma vez que em política me parece sobejamente mais importante, e usando palavras suas: “aquele que no momento decisivo faz a escolha “certa” “. Por isso mesmo se está condenado a errar muito mais na política do que, imagino, na pintura. Mas isso é só uma impressão de um leigo na matéria.

  11. Niet diz:

    No texto II de N.R. de Almeida sobre o Discurso da Treta é evocada a crítica de Marcuse ao esquematismo marxista e leninista da luta de classes e a proposição de alteração estratégica sobre o fim do papel de agente de subversão social do proletariado industrial no capitalismo sofisticado gerado pela automação crescente dos processos de produção. Marcuse, de quem Adorno elogiou muito o trabalho tecido em torno das teses de ” Razão e Revolução”, avança no ” Homem Unidimensional ” escrito em 1964 e tenta criticar a racionalidade política instituida pela racionalidade tecnológica acorrentada a um muito sofisticado sistema de dominação, imposto pelo que ele elucida como formas do empirismo e positivismo radicais. ” La pensée unidimensionnelle est systématiquement favorisée par les faiseurs de politique e par leurs fournisseurs d´information de masse. Leur univers discursif est plein d´hypothèses qui trouventen elles-mêmes leur justification et qui, répétées de façon incessante et exclusive, deviennent des formules hypnotiques, des diktats. Par exemple sont ” libres ” les institutions fonctionnant dans les pays du Monde Libre; les autres modes transcendants de liberté sont, par définition, de l´anarchisme, du communisme ou de la propagande. Sont ” socialistes ” tous les empiètements sur l´entreprise privée que l´entreprise privée n´impose pas elle-même, tels une bonne assurance sociale, ou la protection de la nature contre une commercialisation trop dévastatrice, ou encore l´établissement de services publics qui peuvent porter atteinte aux bénéfices du secteur privé. Cette logique totalitaire des faits accomplis a sa contrepartie ans les pays de l ´Est. Là, la liberté c´est la manière de vivre en régime communiste et toute forme transcendante de liberté est soit du capitalisme, soit du révisionisme, soit du sectarisme de gauche. Dans les deux camps, les ídées non opérationnelles sont non conformistes et subversives. Le mouvement de la pensée est arrêtê par des barrières qui apparaissent comme les limites de la Raison elle-même. ” La ruse de la Raison ” c´est la Raison qui travaille comme elle l´a si souvent fait dans l íntérêt des pouvoirs établis. A force d´ ínsister sur des concepts opérationnels et béhavioristes, elle est contre la pensée et les comportements libres quand ils s´efforcent de prendre une distance vis-à-vis de la réalité donnée et d´accueillir les alternatives interdites. La Raison théorique et la Raison pratique, le béhaviorisme académique et le béhaviorisme social ont un terrain commun: c´est la société avancée qui fait du progrès scientifique et technique un instrument de domination “. Belíssimo e difícill livro para a luta política; que homenageia a Teoria Crítica de Adorno e Horkheimer; e não deixa de se socorrer dos primeiros trabalhos semióticos de Barthes, bem como referencia com alegria Maurice Blanchot , Wittgenstein e Karl Kraus, entre centena de referências de grande intensidade conceptual libertária. Niet

  12. Niet diz:

    Errata: A falar três línguas e com cansaço a pesar…E a urgência!
    Linha 1: evocada – deve ser invocada!

    Salut! Niet

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