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Uma lição de pintura e uma lição de política: de Caravaggio a Lénine

30 de Dezembro de 2009 por Carlos Vidal

CARAVAGGIO. Repouso na Fuga para o Egipto.

1.

Quem nos últimos dois meses, mais ou menos, frequentou este blogue e as suas caixas de comentários, de imediato reparou num facto original, interessante e bizarro: a prolixidade argumentativa para nada, uma avassaladora produção de impasses teórico-retóricos e uma verborreia traduzida em impressivas manchas gráficas desarmantes de texto, sempre invariavelmente crítico a toda e qualquer tentativa de acção ou realização emancipadora, transformadora, prática em suma, seja pela violência ou pelo discurso, sempre mas sempre crítico a todo e qualquer vislumbre de mudança ou ruptura social, tudo isto muito bem representado na figura que assina como comentador Viana e ainda outro, Niet (que anda há 30 anos a tentar compreender o Castoriadis, meu deus!!); um tique também observável (menos no primeiro e mais no segundo) nos meus colegas Ricardo Noronha e Zé Neves.

Não partilham de nenhuma experiência encetada para uma real e não angelical-sublimada emancipação: abominam tudo, tudo o que existe e existiu nesse esteio: os bolcheviques, Lenine, Trotsky, a URSS, Estaline, Mao, Zapata, zapatistas, resistências armadas, resistências desarmadas, comunistas, socialistas, anarquistas violentos, Luigi Galleani (o anarquista que advogava a violência revolucionária), Fidel, Che, sub-comandante Marcos, Chavez, Allende, absolutamente tudo, sem excepção – denotando apenas fascínio por uma típica verborreia umbiguista.

2.

O que eu lhes chamo, para não lhes chamar pior, e porque já estou cansado de tantos pruridos “anti-violência” e “anti-revolução”, é “gnósticos”. São os novos gnósticos, eles não estão próximos nem solidários com nenhuma barricada nem nenhum tirinho, fodem a paciência e não saem de cima. Como Zizek cita de Harold Bloom (“Omens of Millenium”), o gnóstico vive num mundo em que Deus é um alien acima do mundo e da sua complexidade dramática e violenta, um Deus separado disto; o gnóstico distingue-se daquele que tem fé, porque este concebe um Deus que coexiste com o mundo, digamos, com os campos de extermínio, com o “mal”, com a SIDA, com todas as doenças e instantes de felicidade; o gnóstico só acredita num Deus a iogurte seguro e lavado, não vive aqui. Esta malta odeia tudo o que se tentou para mudar o mundo, nos séculos XIX, XX e XXI. São os grandes reaccionários e os fascistóides bloqueadores e engraçadinhos do nosso tempo, neste princípio do século XXI, felizes pelo desaparecimento da União Soviética, felizes pelas dificuldades que o bloqueio causa à sociedade cubana, felizes pela futura queda de Chavez, felizes no seu ódio aos “m-l”, não sei porquê, mas sempre alegres com o que dizem ser o fracasso dos processos totalitários travestidos de emancipação.

É pois muito certo o que diz um excelente, simples e sintético comentário de Joaquim Frazão (parabéns, meu caro amigo!):

“Os velhos militantes não estavam a fazer concursos de inteligência e de espírito aberto, atrás dumas teclazitas. Eram homens e mulheres que intervinham no seu tempo, da maneira que sabiam e podiam, e muitos deles, além da actividade quotidiana, poderiam explicar-vos, para vosso espanto, uma teoria física ou química, um movimento artístico ou uma teoria económica. Serão vocês capazes disso? Além do mais, a vida de sacrifício não era uma opção livre entre outras, conscientemente tomada em desfavor de postar aberta e dialogicamente num blog.”

Ora, isto vale muito mais do que 10 “ensaios” de Viana e de Niet.

Por tudo isto, lembrei-me ontem, na pintura, na sua história, da antítese de tudo isto: Caravaggio. Vou explicar-vos tudo muito bem explicado.

Sustentando, na medida do possível, o paralelo entre Lenine e o pintor lombardo. Para isso recorrerei a, para mim, três tópicos de abordagem fundamentais em torno de Caravaggio: 1) o carácter inédito do seu trabalho lumínico; 2) a sua recusa em mostrar a “mão oficinal”; a, por fim 3) a sua recusa total em elaborar para as suas obras estudos prévios, uns atrás dos outros (nunca desenhou, não se lhe conhece um único desenho); e vamos então chamar a este puro pragmatismo e predisposição para acertar no alvo, um “leninismo pictórico”. 

The Seven Acts of Mercy, Church of Pio Monte della Misericordia

CARAVAGGIO. Sete Obras da caridade.

3.

Quem não tiver paciência para abordagens técnicas da pintura, deixe já aqui o meu texto (mas não deve, porque tentarei falar muito muito claro).

1) A luz, então. Têm forçosamente razão os seus primeiros biógrafos e críticos, lidos com atenção (e este é um dos temas da minha tese de dr.): Scannelli numa carta que Hibbard transcreve na sua importante monografia; Mancini, o rival Giovanni Baglione ou o posterior historiador Giovanni Pietro Bellori: sem o apreciarem grandemente, todos adiantam que o uso caravaggesco da luz não é predominantemente simbólico, não se destina propriamente à divinização da luz ou à figuração lumínica da divindade; destina-se a conferir forma e volumetria forte, directa, marcada, acentuadíssima de um modo que viola o sfumato gradativo de Leonardo ou as laboriosas velaturas dos venezianos Ticiano e Tintoretto.

Já no século XX, Wittkower descrevia a luz do lombardo como algo ao mesmo tempo insubstancial e corpóreo, ou seja, a luz caravaggesca não se relacionava com a substância em que recaía (corpos humanos, panejamentos), não a modelava gradativa ou suavemente; ela iluminava por excesso separando-se (e recortando os corpos) da obscuridade. Portanto, não há atmosfera em Caravaggio como em Ticiano, Rembrandt ou nos impressionistas: há uma luz que se recorta e se separa da obscuridade, e há uma obscuridade densa e pesada como pedra e sem meios-tons ou gradações (como existem profusamente em Rembrandt). A luz caravaggesca é figura e é corpo; a obscuridade não é fundo, como sempre, ela é também figura e corpo (Roberto Longhi, que redescobriu Caravaggio no século XX, afirmou que ele foi o primeiro a conferir corpo à sombra-obscuridade; Wittkower, por seu lado, diz que a luz de Caravaggio não trespassa nem passa pelas zonas de obscuridade, pois estas têm um corpo denso, são matéria não permeável a nada). Os biógrafos citados acertam na ausência de simbolismo desta luz pelas razões erradas, creio eu.

Eles não lêem neste luminismo nenhum simbolismo porque tendem (todos) a considerar Caravaggio como o pintor paradigma do “realismo” avesso ao idealismo de Rafael (o que impressionou Poussin, e o fez proferir a famosa frase que “Caravaggio veio ao mundo para destruir a pintura”). Ora, apesar da escolha dos modelos caravaggescos coincidir com os homens e as mulheres da rua, a ausência de relação luz-obscuridade em Caravaggio dificilmente o leva para um plano de realismo. Mas a sua modelação volumétrica é directa, rígida, hierática, não retórica e inequívoca (alguém dizia mesmo que ouvia o “Rapaz Mordido por Lagarto” gritar).

2) Ausência de “oficina”, gestualidade, agora. Quem viu ou tocou num Caravaggio sabe que a película pictórica do autor, contrariamente a Rembrandt, é fina, lisa e sem marcas – sejam elas do gesto (abundantes em Velázquez) ou da matéria (abundantes em Rembrandt). Tudo aqui aparenta “apagar” a oficina pictórica, como que antecipando-se à fotografia aparecida séculos depois. Além disso, em Caravaggio, raramente há profundidade de campo – ele usava mas não se interessava muito pela perspectiva artificial: temos quase sempre cenas desenroladas num plano demasiadamente próximo do espectador, estas personagens constituem e constituem-se num mesmo plano e em “cima” de nós, exceptuando obras de conjuntos de figuras (mais de 5 ou 6) como o “Martírio de S. Mateus” ou as “Sete Obras da Caridade”. O toque e o gesto desaparecem, são anulados na modelação de corpos e seus panejamentos. Comparável, só Miguel Ângelo que desprezava em absoluto quaisquer elementos paisagísticos e os executava com rudeza e desprezo. Mas Caravaggio poderia ter sido virtuoso na paisagem, que dominava: veja-se o “Repouso na Fuga para o Egipto” ou o “Sacrifício de Isaque”.

Mas preferia ir “directo ao assunto” (como Lenine!). Por fim, 3) a ausência de estudos prévios, desenhos, esquemas. Poderíamos considerar que teriam existido e desaparecido, mas não. Impossível. Nenhum biógrafo seu contemporâneo os cita, e sabe-se que o pintor abordava directa e prodigiosamente a tela (e digo prodigiosamente, porque as suas estruturas compositivas são de extremo rigor, o que não cabe aqui demonstrar).

4.

Como Lenine, Caravaggio seria o mais avesso possível às interessantíssimas e edificantes conversas intermináveis que temos aqui mantido: ora, o que aqui temos feito tem sido desenhar, desenhar, desenhar, e nada realizar nem possibilitar que se realize. Caravaggio, o precursor de Lenine, sempre fez o contrário: realizou sempre obra sem se preparar de forma tradicional. Lenine também, como o lombardo, sabia a necessidade de agir rapidamente, e deixar a preparação para depois (precisamente o contrário daquilo que aqui temos feito, repito). Numa conferência de 1919, proferida na Universidade de Sverdlov, tratou do imperioso problema do Estado, a partir de Engels, na “Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”. O resumo da conferência é simples: o Estado nasce do regime da propriedade privada e da exploração capitalista. Enquanto houver capitalismo tem de existir Estado. O Estado tem de ser tomado pela força (e não ignorado, como querem os nossos amigos libertários: ele existe, logo tem de ser tomado); a tomada do Estado serve para abolir a propriedade, o próprio Estado e o partido; abolida a propriedade, dissolve-se o Estado. É necessário agir (pintar sem desenhar, e sem estudo prévio demasiadamente demorado), e, portanto, agir violentamente (inevitavelmente). Porque a tela tem de ser realizada. Há que a começar e falar depois. Só depois, meus caros amigos. Só depois. Não antes. E agora vou tirar umas férias de 1, 2 ou 3 semanas. Ou talvez não. Volto não tarda nada.

Comentários

Comentário de Joaquim Frazão
Data: 30 de Dezembro de 2009, 20:45

O que une Noronha, Neves e o senhor dos abraços é o seu liberalismo indisfarçável. As posições que sustentam sobre o socialismo são colaças das dos Pachecos todos. Depois, para tapar o sol com a peneira, lançam-se para a frente e armam um corropio tremendo de foguetório radicalóide. E aí os seus traços religiosos, simplistas, apocalípticos, volitivos, emergem como cogumelos depois da chuva. Eles não pensam, verdadeiramente. Não reflectem sobre as reais dificuldades que a transição coloca. Evitam lidar com esses temas sujos, estalinistas. Estão, no entanto, no seu direito.
O resto é conhecido. É uma liturgia repetitiva e sem fim. A propósito de tudo e de nada, sempre o mesmo Castoriadis, autêntico génio da banalidade mas erigido em grande figurão teórico, sempre a mesma treta sobre o modelo de auto-governo, sempre a mesma história da carochinha sobre a submissão do económico ao político, sempre, sempre e sempre. Noronha complementa e Neves completa.
No fim de tudo, uma questão fica: terá a contra-revolução (que tanto celebram) vencido momentaneamente a luta de classes mundial porque os revolucionários do século XX não estavam imbuídos da vossa, digamos assim (termo que vocês adoram), “cultura política democrática”?

Comentário de Renato Teixeira
Data: 30 de Dezembro de 2009, 20:50

Da maré alta ao tsunami… Preciso de 1, 2 ou 3 dias para pensar no assunto… mas também venho já cá ter. Exactamente aqui. Bom ano, ou talvez não.

Comentário de nuno castro
Data: 30 de Dezembro de 2009, 20:51

só um problemazinho (mas obrigado pela lição sobre o Caravaggio): a teoria do Lénine estava errada. Errada no sentido em que se diz que uma teoria não se encontra de acordo com os factos.

O Estado não apenas não desapareceu com a abolição da propriedade privada, como saiu reforçado. O Estado, as elites e, curiosamente, a mercadoria, que passou a circular da forma mais insidiosa no chamado “mercado negro”.

donde, assim como a escrita em Zizek (ver comentário a post de NRA) não será a vontade de agir, sem teorizar, mera compulsão?

Comentário de almajecta02
Data: 30 de Dezembro de 2009, 21:09

isso, vai aplacar essa pulsão de morte e aproveita para descansar.

Comentário de xatoo
Data: 30 de Dezembro de 2009, 21:18

Terá algum fundamento a sugestão de Rorty (ali atrás no post do NRA) “primeiro a prática e depois delinear os princípios”? é que assim sendo, em qualquer comunidade, teríamos sempre de seguir o primeiro grupo com massa crítica que desate aos tiros e seguirmos em marcha de coro grego a produzir legislação que institucionalize a situação. Por humor negro, sempre vos vou dizendo que foi isso que fizeram exactam/ os desenhadores da tela em construção a seguir ao 25 de Novembro. Neste ponto, creio que as correntes que se vão reclamando do socialismo pós-pós moderno estão inquinadas pelo revisionismo, a saber:

Partindo do ponto fulcral da teoria-vs-prática, sempre a partir de Estaline, este na sua época ( perante a contra-revolução branca e a ameaça nazi-capitalista) pode efectiv/ ter sido obrigado a cometer alguns erros (aceitar a tese do socialismo num só país, ignorar a teoria dos ciclos económicos longos, as purgas à militância de extrema-esquerda) mas, foi para obstar a esse rumo que aconteceu no Ocidente a dissidência Maoista – que trouxe mais um contributo para a filosofia da emancipação: primeiro a vanguarda produz directivas, submete-as à prática das comunidades, estas discutem-nas em debates o mais alargados possíveis e os resultados retornam ao directório da revolução (governo, na acepção burguesa) que as converte em legislação passando a partir daí essas regras democráticas a ser de cumprimento obrigatório. Para obviar abusos de poder todos os cargos eleitos são revogáveis a qualquer momento caso se verifiquem desvios. Comparando, é simples de ver como os nossos partidos parlamentares com os seus “programas” apenas produzem uma macaqueação (livre) de democracia. Uma última nota antes de virar de parágrafo: ler, saber, conhecer sempre foi, se bem se lembram, coisa de minorias, já para não mencionar os mecanismos do poder que nos são propositadamente ocultados ou estão no exterior. Como produzir autonomia local perante a imposição do Lieberman-Warner Climate Security Act ?? ir a Copenhaga ser enfiado nas jaulas policiais da comunidade global?

Por outro lado, a exigência abstracta de autonomia que é usada pela maioria dos autores amiúde por aqui no 5Dias, leva-nos a pensar como a tese “caravaggio” de CarlosVidal estaria certa: teoriza-se e pinta-se em simultâneo (como decerto Kropotkine teria apreciado) mas há dificuldades inultrapassáveis; Lenine liderou a prática que já existia nos “conselhos operários” que aglomerou através da teoria construida no exilio. Sabem que Lenine quando vindo de Zurique chegou à estação da Finlândia/SP e recitou os primeiros passos das teses de Abril foi apupado por uma grande parte da população como sendo um enviado dos boches?
Contudo, pelo que aprendemos da teoria Lenine é decerto uma herança inalienável. Mas eu por exemplo (e creio a maioria da malta) não consigo pintar nada à primeira; tenho de pensar, rascunhar, apagar, tornar a fazer (sigo afinal a velho preceito darwiniano do erro e da evolução, até conseguir acertar, ou morrer, digo, no minimo falir socialmente) – não terei eu, por não possuir a habilidade ou o conhecimento apropriado, direito à participação nas decisões da comunidade?

Comentário de Niet
Data: 30 de Dezembro de 2009, 22:24

O dr. Vidal deixa o Debord em paz e descanso-pudera,não é?- e atira-se aos anti-leninistas. Não se descobrem,como por encanto, é referências teóricas para defender tão ingrata posição…A não ser, que nos queira insinuar o marxismo-leninismo dos actuais timoneiros…da Coreia do Norte, do Partido Bolchevique Russo, eu sei lá que mais. Está no seu pleníssimo direito,contudo!
Quando eu digo que leio há mais de 37 anos Castoriadis- vacina explosiva que me afastou dasuper e refinada retórica neo-leninista de Mandel, Frank e Maitain- a IV Internacional – onde se filiou ideológicamente o PSR de Louçã-isso quer, humildemente, provar que abjuro de qualquer apetência por lideres ou poderes. Do mesmo modo, por exemplo, Adorno, Deleuze ou Foucault, são leituras que jamais se terminam. E tenho os meus autores preferidos, transversais: Bataille, Blanchot, Sollers. Todos remetem para centenas de outras referências teóricas ou romanescas, que urge realizar, se se quer perceber alguma coisa…Niet

Comentário de almajecta02
Data: 30 de Dezembro de 2009, 22:36

a guinosi é lá mais pro Triplov, deixa os postadeiros (eruditos) e os comentadores (sapientes) em paz e faz a tua vida.

Comentário de Idi na khui
Data: 30 de Dezembro de 2009, 22:36

CV,neste site existem muitos artigos sobre a história do socialismo, e poderá aconselhar os onanistas fascistas a chafurdarem lá . Pode ser que tenham a sensação da figura de palhaços que fazem.As discussões com esta gente não leva a lado nenhum pq no fundo pensam com os pés (i.e:dá cá o meu oh abreu)
http://hist-socialismo.net/

Comentário de Carlos Vidal
Data: 30 de Dezembro de 2009, 23:20

Niet, não me atiro aos anti-leninistas, aqui tentei atirar-me a Caravaggio, que considerei precursor de Lenine: por vezes, temos de atacar e pensar depois.

Idi na khui, tente também o Marxist Internet Archive – MIA.

Xatoo, V. sabe que é das pessoas mais qualificadas para participar nas decisões da comunidade.

Renato, excelente ano. Nuno Castro, problema interessante aquele que me coloca. Há quem culpe Lénine pela NEP, essa sim teria alargado o regime da propriedade. E depois Estaline já teria vindo tarde para remendar o problema. Estudemos, pois.
Jecta e Joaquim Frazão, a luta, artística e/ou política ainda agora começou.

Comentário de Diogo
Data: 30 de Dezembro de 2009, 23:25

Em quase todos os comentários anteriores só vejo retórica oca, milhares de nomes famosos e citações e nem uma única ideia concreta e inteligente.

Saberão os senhores o que se está a passar? Os bolcheviques têm 100 anos e foram financiados pelos bancos ocidentais. Sabiam?

Comentário de miguel dias
Data: 30 de Dezembro de 2009, 23:30

amanhã vou tentar isso na obra quando o trolha me pedir o boneco. ó sór machado então, e lenine e caravaggio. bom então tá bem sor arquitecto.
Vai, menino guerreiro. Vai para o merecido repouso, que na volta cá estaremos.

Comentário de miguelserraspereira
Data: 31 de Dezembro de 2009, 0:42

Olha, Carlos, isto é uma questão prévia que remete para o teu preâmbulo e um teu post de ontem (ou desta madrugada): não percebo se queres organizar um movimento, uma plataforma, um embrião de partido, uma seita de pós-heideggero-nietzcheanos m-l tendência Badiou (R), ou se pretendes simplesmente entregar-te ao sabor do acontecimento e da desordem, só pensando no assunto ex post e quando nada, nos intervalos, acontece. Suponho que te terá acontecido também a visita do Espírito Santo e a possessão (de ti por ele e dele por ti) de um Espírito Absoluto que supera o da dialéctica hegeliana. Deve ser isso que te impede de pensar enquanto ages ou, se preferes, de cindir tão absolutamente o acto e a palavra (pelo menos quando esta última não é das tuas). E deve ser isso que te possibilita reivindicares-te ao mesmo tempo dos sovietes e de Estaline, do socialismo e da barbárie.
Mas se o que queres é mesmo um movimento ou pelo menos vários serões de promoção de epidemias e massacres que confirmem e refinem os do passado, batendo-se pelo seu eterno retorno ou pelo menos capitulando frente à sua fatalidade, não sei porque porquê ou para quê te reivindicas da revolução e não do terror branco – a menos que faças da revolução a mesma ideia que dela propagam os ideólogos mais reaccionários, que a descrevem como caos, dança dos demónios, orgia sanguinária, arruaça e desvario de uma plebe ignara, incapaz de discernimento ou consciência.
Maré baixa, Carlos, maré baixa…

Comentário de Carlos Vidal
Data: 31 de Dezembro de 2009, 0:57

Miguel, pensaste na hipótese de comparar a abordagem directa ao pictórico em Caravaggio, com a necessidade de acção leninista?
Acho que nem um nem outro brincavam com os meios disponíveis para as suas realizações, imperiosamente sentidas. E, o mais importante, um e outro tinham a humanidade do homem como horizonte.

Ou é a presença de Caravaggio que te faz falar em “orgia sanguinária”?
Olha que a biografia do pintor está quase sempre mal redigida. E os equívocos são mais do que muitos.
Abraço
CV

Comentário de miguelserraspereira
Data: 31 de Dezembro de 2009, 1:13

Carlos, meu caro, não, não foi o Caravaggio que me fez falar em “orgia anguinária”, mas a tua constante apologia da violência como critério “revolucionário”. Quanto à “humanidade do homem como horizonte”, além de se coadunar mal com o teu anti-humanismo altamente proclamado tão amiúde, devo dizer-te que “como horizonte” não basta. É preciso realizá-la tanto quanto possível desde já e nas formas de luta que adoptamos.
Abç

msp

Comentário de Carlos Vidal
Data: 31 de Dezembro de 2009, 1:16

Miguel, quando referes criticamente a hipótese de eu/nós nos deixarmos ir “ao sabor do acontecimento” estás a limitar as formas de luta, e isso eu não entendo ou não posso aceitar.
Abc.

Comentário de viana
Data: 31 de Dezembro de 2009, 1:16

Se há posts neste blogue que não costumo comentar são os do Carlos Vidal. Não o faço porque a confusão argumentativa que neles grassa é tal que não têm ponta por onde se pegue. O Carlos Vidal não escreve posts, pinta. Uma pincelada aqui, outra acolá. Insulto aqui, citação acolá, referência a pintor, talvez um músico, mais uns pozinhos dum arrezoado de palavras desconexas por todo o texto. Este seu post não difere em nada dos anteriores. Aliás, Carlos Vidal repete essencialmente sempre o mesmo post: há que malhar neles. Simples, não é?… Temo que Carlos Vidal ande perdido num labirinto argumentativo só dele, confuso perante a complexidade do mundo em que vive, e por isso, sempre que se sente pressionado a responder a qualquer interpelação directa ou imaginada, dá sempre a mesma resposta: há que malhar neles. Parece-me estar a ficar exasperado com as suas dificuldades de comunicação, e a incompreensão de quem o lê (ai o artista incompreendido!…), e daí ter resolvido atirar-se a dois comentadores, a mim e ao Niet. É interessante que não tenha incluido o Miguel Serras Pereira, ou o Zé Neves, de cujas posições políticas, mais no primeiro caso, do que no segundo (em parte, porque são menos claras para mim), estou próximo, e com quem tenho tido o prazer de argumentar, nesta sua pequena “lista de incómodos”. Será porque são membros do blogue e não meros comentadores?… Vislumbro aqui um toque de cobardia do grande timoneiro das barricadas gloriosas?… De qualquer maneira, sinto-me honrado por saber que o deixei indisposto. É mesmo isso que pretendo quando aqui comento: deixar indipostos todos aqueles que, ditos de Esquerda, estão na realidade a marimbar-se para os objectivos da Esquerda, pretendendo apenas exorcizar frustações existenciais. Calhou acharem-se de Esquerda. Tivessem acordado a olhar para o espelho, teriam antes escrito um post a desancar nalgum pobre skinhead que em vez de andar a atirar uns coktails molotov contra o Estado-inimigo-da-nação lembrou-se de perguntar: porquê? para quê?…

Mais do que paciência para ler, falta ao Carlos Vidal o verdadeiro espiríto igualitário daquele que assume à partida a opinião do outro como sendo tão importante como a sua, e que por isso está disposto a ler e a ouvir, e se necessário contra-argumentar, o que o outro tem para dizer. E por isso efectivamente nada percebe do que os outros dizem, como o demonstra cabalmente com as suas afirmações falsas neste post. Não tenho dúvida alguma que realmente admire “processos totalitários de emancipação”. Toda a sua atitude transpira intolerância perante o outro e desprezo por aqueles que acha inferiores. Para aqueles que escrevem neste blogue, e que se recusam aceitar que pior é possível, peço-vos que imaginem um “processos totalitário de emancipação” sob a batuta, ou talvez o pincel, de Carlos Vidal. Pior é possível…

Comentário de Carlos Vidal
Data: 31 de Dezembro de 2009, 1:37

Pois, “processos totalitários” que eu considero de emancipação (e o senhor considerará “totalitários”) – certo, assim, percebeu? Ou melhor “processos totalitários” para Viana, de “emancipação” para mim, logo “travestidos” [como acrescentei, para semi-analfabeto perceber] de emancipação, para Viana. Percebeu o leitor?
É que Viana é crónico onanista político. A sua classificação ou definição de “totalitarismo” não me diz nada. Pode usá-la em relação a tudo o que defendo – nas tintas.
Defendo Outubro e a Revolução Cultural. E o senhor?
Defende alguma coisa?
O ONANISMO, sim, eu sei. Mas olhe que o onanismo puro praticado por cegos não é bom conselheiro.

Não abuse. Pelo menos quando eu escrevo, ou no que escrevo.

(O MSP não é citado – há dez anos que ele conhece e analisa por escrito partes do que escrevo como crítico de arte; há mais de dez anos que eu o leio como o nosso mais criterioso tradutor, e não só; não é necessário estarmos de acordo; e conversamos frequentemente, como vê, até porque se dá o caso de nunca nos encontrarmos pessoalmente; outra coisa: o Zé Neves é citado, sim. A cegueira é de cura complexa e difícil. Por vezes, impossível: entretanto, como descobriu este post? E ao que veio, concretamente? Não estou certo de aqui, nas minhas caixas, ser bem-vindo; mas venha, que remédio. Que fazer?)

Comentário de Carlos Vidal
Data: 31 de Dezembro de 2009, 1:43

Além disso, meretíssimo corrector (ortográfico), este post é sobretudo sobre pintura. E não é pintado.
É até sobre alguém que pintava para ocultar a própria pintura.
E a revolução/transformação é também isso: há que vê-la nascer sem para tal fazer grande esforço.
A revolução não se masturba. Acontece.

Comentário de Uma boa lição tem sempre música…
Data: 31 de Dezembro de 2009, 4:02

Agora, sim.

http://www.youtube.com/watch?v=B5okzOrTYGU

Comentário de Olaio
Data: 31 de Dezembro de 2009, 4:36

Ora só por este post e respectiva caixa de comentários já valeu o ano de 2009 e já temos matéria para o ano 2010.
As palavras começam a ter sentido!

Comentário de miguelserraspereira
Data: 31 de Dezembro de 2009, 10:47

Ilustre controleiro Frazão: contra-revolucionário será você mais os seus sequazes ou chefes – não me interessa aqui apurar se é um pau mandado se um sargento-mor dos caceteiros nostálgicos dos gloriosos fura-greves do MJT dos idos de 1974.
Conheço bem de mais a sanha posta na caça ao esquerdita, no uso da calúnia contra os que reclamam democracia e liberdade de pensamento e de expressão, precisamente por parte dos que defendem a “direcção consciente”, o partido sacralizado como depositário do grau superior da “consciência de classe”, o direito (ou dever) desse partido a metralhar os trabalhadores simplesmente empíricos que se atrevam a supor que podem ter razão contra a sua consciência e direcção revolucionária ou ousem querer ser eles a decidir do seu caminho e a fazê-lo.
Olhe, se estou aqui a escrever isto, não é porque me mova grande esperança de o ver discutir e confrontar razões com o Noronha, o Neves ou o pobre Pereira, que muita coisa serão, mas não creio que sejam religiosos, apocalípticos, radicalóides, no que é uma atitude que contrasta q.b. com as suas posições. “Volitivos”, sim, serão eles – como toda a gente que tem vontade e querer: até você, na sua servidão voluntária, o é também. Não há grande volta a dar-lhe. Ma dizia eu que, embora sem grande esperança de o convencer a conversar em vez de uivar de furor burocrático para não deixar que os outros discutam, creio que vale a pena responder à sua última questão no interesse de todos: sim, uma das razões da derrota da luta revolucionária ao longo de boa parte do século XX foi a descrença, alimentada pelo estalinismo e seus herdeiros, na possibilidade da construção de um regime de liberdade e igualdade políticas efectivas, que governasse também, através da participação de todos os cidadãos, a actividade económica, acabando com a exploração e uma divisão (política) do trabalho que, para além da extorsão da mais-valia, expropria os trabalhadores do poder de decidirem sobre os próprios processos de trabalho, sobre as finalidades e o lugar do trabalho numa sociedade por eles organizada de maneira a assegurar a sua emancipação. Parafraseando a “cultura política democrática” de Rosa, o socialismo é mais democracia a todos os níveis, e não a supressão das liberdades e direitos que os trabalhadores e o conjunto dos cidadãos puderam conquistar, limitando os poderes do Estado capitalista e da exploração na esfera da economia.

Caro Xatoo, creio que a sua descrição da China maoísta é absolutamente idealizada. De qualquer modo, o que seria revolucionário seria promover que as “comunidades” se auscultassem a si próprias – isto é, deliberassem – e depois decidissem e “legislassem” elas próprias, dotando-se de órgãos de poder igualitariamente participados para esse efeito. Sem a tutela de directórios nem de estados-maiores.

Bom fim de ano para tod@s

msp

Comentário de Pedro
Data: 31 de Dezembro de 2009, 11:10

É mais isto:

http://www.youtube.com/watch?v=fIRb8TigJ28

Se estivéssemos à vossa espera para a revolução, estávamos bem tramados, ó camaradas. É o caralhágio, é. Vê-se mais revolução num disparo de pressão de ar numa barraca de feira. E têm o descaramento de ir buscar o exemplo dos “velhos militantes”… O nem fode, nem sai de cima, aplica-se mais ao Carlos Vidal, e à vanguarda intelectual do… coiso, do movimento, sei lá o que isto é. Aliás, o 5 Dias deve ser o blog mais original de sempre. Pelo menos estalinistas e “esquerdistas” tudo na mesma sala (e mais? trotskistas? social democratas). Ou são amigos íntimos desde o ciclo preparatório, ou isto é uma aberração histórica. O video dos Monthy Python ali em baixo colocado pelo NRA não retrata bem isto: nunca os gloriosos malucos conseguiram tanto. O Carlos Vidal até acumula esses ismos todos. É como ver o Trotsky a bater na própria cabeça com uma picareta, enquanto dança a kalinka.

Comentário de almajecta02
Data: 31 de Dezembro de 2009, 11:54

já em uso noutras áreas, qualquer que seja o termo a evidência já existe. Aqui na fábrica para obras em pedra já nem com o pantógrafo electrónico. Michael tens que me apresentar o Sór Machado.

Comentário de xatoo
Data: 31 de Dezembro de 2009, 12:08

Viana
se não se verificarem determinadas condições prévias não existem análises correctas: 1. sobre factos tratados de modo avulso 2. que não atendam à dialéctica inerente aos objectos tratados 3. que não levem em linha de conta a integração dentro do materialismo histórico 4. que não atendam ao facto de o objecto não poder ser considerado simplesmente “em si”, ignorando o que lhe circunda as fronteiras, próximas ou longinquas 5. se a filosofia servir para esconder e não para mostrar até às últimas consequências.
Posto isto, já estou como diz o CarlosVidal: não se percebe bem o que veio cá fazer e sobre o que fala, uma vez que a sua especialidade é produzir grandes retóricas sobre citações avulso que criam uma pasta lamacenta imperceptível para gente comum. A mim parece-me que de facto este seu ataque a CV é mais uma emocional “conversa da treta” que visa o homem e não qualquer ideia.

Comentário de Carlos Vidal
Data: 31 de Dezembro de 2009, 13:47

Caro Xatoo,
e leitores,
sobre Viana, permitam-me que repita o que já escrevi acima. E nada mais direi sobre Viana:
A revolução não se masturba. Acontece.

Comentário de almajecta02
Data: 31 de Dezembro de 2009, 14:34

Gesto Concreto

Existem sete obras de misericórdia corporal (Alimentar os famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, abrigar os peregrinos, confortar os prisioneiros, visitar os doentes. sepultar os mortos ensinar os ignorantes) e sete de misericórdia espiritual (Rezar pelos vivos e pelos mortos, corrigir os pecadores, aconselhar a quem está na dúvida consolar os tristes, suportar as injustiças com paciência, perdoar as injustiças de boa vontade). Passa a praticá-las no dia-a-dia, tá?

Comentário de Nuno
Data: 31 de Dezembro de 2009, 14:40

Meu caro, compreendo as suas palavras e também acho que ir ao passado buscar o que de mal se fez para meter na mesma conta o presente é ser intelectualmente desonesto.

Mas sejamos justos numa coisa, Se Caravaggio e Lenine eram intelectualmente honestos consigo próprios e se não recorriam a esboços e ensaios para realizar uma obra que sabiam estar correcta de início; se Caravaggio tinha o dom de acertar com a mestria dos sábios, Lenine teve o dom de arrastar meio mundo na lama de uma ditadura absolutista.

Acima de tudo respeito os mortos e respeito a história e por conseguinte respeito Lenine como Respeito Salazar, olhar com atenção para os erros do passado permite-nos enfrentar o mundo com mais clarividência.

Deus por outro lado é desculpa para tudo, para a imbecilidade dos fundamentalistas da igreja e para a visão monocromática dos teóricos da esquerda. No fundo, utilizar a igreja ao longo dos anos para falar de Deus só encontra paralelo na utilização dos regimes facínoras comunistas e nos seus métodos subversivos para falar de um comunismo que se quer democrático.

Não caia o meu caro no erro de utilizar Deus com arma idêntica aos que utilizam os Gulags para o atacar a si, Deus tem mais que se lhe diga e não pode ser analisado com a verticalidade fria com que o faz Saramago, acima de tudo Deus não pretende mais ou menos do que pretende Marx, promover a igualdade e a fraternidade entre os homens e através disso anunciar o caminho da salvação. Distorcer esta mensagem mais que ser incorrecto é ser intelectualmente desonesto.

Comentário de LAM
Data: 31 de Dezembro de 2009, 15:11

http://shaneguiter.tumblr.com/post/307172349/via-belabrava

Comentário de Niet
Data: 31 de Dezembro de 2009, 15:16

Oh.Dr.Carlos Vidal, por mil diabos:Fica-lhe muito mal atacar dessa maneira o companheiro de lídes teórico-histórico-bloguistas, Viana. Eu penso que Viana trabalha, pensa e expõe com meridiana clareza os seus pontos de vista. E o que é mais importante: mostra abertura e heterodoxia para avançar. O que é maravilhoso! Como assinala Castoriadis num texto muito importante, ” Da mesma forma que o problema filosófico do livre arbítrio no plano individual não passa de um falso problema, porque não é senão pela acção que o Homem pode mostrar que é livre a cada momento, de igual forma no plano histórico, é a acção consciente da humanidade e da classe revoluconária que, num quadro de possibilidades,determina a orientação da História. O processo histórico nuna segue uma linha de ascensão direita e uniforma. Como dizia Trotsky,” A história sofre muitas vezes pelos impasses criados por Estaline “(…)Não é por cogitações a priori que se pode determinar a extensão e a profundidade de tais periodos, mas sim, pelo estudo dos factos e acima de tudo, propriamente, pela acção revolucionária”.Bom Ano, quand même, dr. Vidal! Niet

PS: Saiu em Novembro em Amesterdão- Instituto Internacional de História Social- a obra completa de Michael Bakounine em CD-ROM, com todos os textos teóricos e mais de 1200 cartas e 350 textos- muitos dos quais inéditos. Quem quer ir à raíz dos problemas, tem desta feita uma soberana ocasião para ficar de posse de mais um indispensável instrumento de trabalho. Pedidos a Edita-Knaw P.O. Box 19121 1000GC Amesterdam-Holland

Comentário de Niet
Data: 31 de Dezembro de 2009, 15:45

Errata: No texto anterior há gralhas! Linha sete é: nunca; e não
nuna;
Linha 8 é uniforma , e não uniforma;

Linhas 11 e 14: é Amsterdam ou Amsterdão,claro!

Comentário de Carlos Vidal
Data: 31 de Dezembro de 2009, 16:35

Eu chamo a atenção para o link do LAM. (Comentário 31/12, às 15:11.)
A frase do Warhol que lá figura é uma lição de história, e é uma frase curta, cirúrgica.
Aprendam (os que conseguirem).

Bons sonhos (em 2010).

Comentário de miguel serras pereira
Data: 31 de Dezembro de 2009, 19:23

Super-Carlos,
é verdade que podemos conversar apesar de todas as divergências – mas às vezes seria preferível que não desconversasses tanto e não abusasses do insulto gratuito ou da prática ofensiva. Eu gostaria de poder continuar a frequentar este café em todas as suas mesas ou caixas de comentários. Vais consentir? Então ouve, por favor: abstém-te do ataque pessoal e de ficções injuriosas sobre os costumes das pessoas; não fales para gozo dos que dizem que a Maçonaria é uma espécie de sociedade protectora dos pedófilos; deixa tu próprio de acusar de aberrações sexuais ou cumplicidade com elas os teus inimigos políticos do PS; discute os argumentos do Daniel Oliveira, em vez de chamares repelentes aos seus textos; não declares o Viana indesejável neste café nem efabules sobre as suas práticas eróticas, de modo tão pouco saudável para ti próprio e para os demais circunstantes.
Claro que te assiste todo o direito de não discutir com este ou aquele – mas, se não tens pachorra para o fazer, não interpeles nem difames aqueles com quem não queres discussões.
A justeza da política revolucionária mede-se não pelo grau de violência que pratica ou a que incita, mas pela profundidade e extensão da transformação que promove nas relações de poder.
Espero que o novo ano te seja propício e te disponha a combater mais lucidamente pela liberdade de criação colectiva que é um dos outros nomes da autonomia – tanto mais revolucionária quanto mais democrática, tanto mais democrática quanto mais revolucionária.
Feliz 2010 para ti

msp

Comentário de viana
Data: 31 de Dezembro de 2009, 19:27

Xatoo, escreve o comentário que escreve e depois tem a lata de dizer que não percebe as “grandes retóricas” que escrevo?!… Já alguma vez tentou expôr as suas ideias, se as tiver, em português corrente, ou as suas frases macarrónicas servem apenas para dar ares de cognoscenti? Não percebe o que venho fazer aqui?! Debater. E o xatoo? Quer debater ou está apenas interessado em mandar atordoadas? Se calhar passava melhor o seu tempo a fazer algo de violentamente útil, que realmente fizesse avançar a revolução, segundo a sua óptica. Se não lhe interessa debater e que outros debatam, o que diz serve apenas para fazer ruído. É isso para que aqui vem?…

O meu comentário é uma crítica ao Carlos Vidal, ao homem, não tenha dúvidas. Não podia ser de outra maneira, porque não lhe conheço qualquer tipo de pensamento político minimamente estruturado que possa criticar. É a mesma razão porque habitualmente não comento os seus posts. Mas neste, talvez porque se sente cada vez mais isolado neste blogue, resolveu atacar-me e a outros. Ou não acha que foi um ataque pessoal, xatoo?…

Comentário de miguel serras pereira
Data: 31 de Dezembro de 2009, 19:56

Caro Niet,
bem esgalhado. Excelente fim de ano e melhor começo do novo.
Vigoroso abraço

msp

Comentário de miguel serras pereira
Data: 31 de Dezembro de 2009, 20:23

Caro Viana,
acho que vai gostar do último post do Zé Neves.
Será que a maré se vai levantar em 2010 – ou, enfim, começar a subir?
Abraço cordial e um excelente novo ano

msp

Comentário de Zé Neves
Data: 31 de Dezembro de 2009, 21:18

olá carlos vidal,

não queres voltar a ler o que escreveste no post e acrescentar qualquer coisa? que reveja, modele, matize, desenvolva o que escreveste?
isto é, era mesmo isto que querias dizer?

Comentário de Carlos Botelho
Data: 1 de Janeiro de 2010, 0:10

O Carlos não quereria escrever um post sobre ‘A Invocação de São Mateus’?…

Comentário de Carlos Vidal
Data: 1 de Janeiro de 2010, 3:33

Dois comentários, duas sugestões: Carlos Botelho sobre a “Vocação [mas está certo Invocação, é um chamamento] de Mateus”, e Zé Neves sobre uma eventual incompletude do post. Confesso Zé Neves que não entendo a tua proposta. O que é que achas que devo alterar?
O tom? O contexto? O conteúdo? A comparação? A descrição da tua posição política?
Caro Botelho, a “Vocação de Mateus” da Capela Contarelli é o começo de um novo mundo – em Caravaggio e na história da arte. Foi o início do luminismo caravaggesco (não confundir com o claro-escuro, que há em Leonardo e Rembrandt, mas Caravaggio coloca outros problemas). Caravaggio é o que é por causa (apenas, chega!) do período 1600 – 1610. E tudo começou nessa “Vocação”. Como ocupa quase um lugar central na minha tese, deixe-me apenas defendê-la, que depois falerei disso e muito mais. Para já, repare numa coisa, no corpo de Cristo praticamente tapado por S. Pedro. Porquê?
Veja depois a “Ressurreição de Lázaro” de 1608. É Cristo na mesma posição, 10 anos depois. Num, entra pela direita em cena, noutro pela esquerda. Num está de frente para nós (apesar de tapado), noutro está de costas. A mão é a de Adão (Miguel Ângelo) da Sistina. Porquê a simetria? Porque é que, num e noutro, Cristo quase não é visível?
Bom ano a todos, sobretudo aos muito críticos.

Comentário de almajecta02
Data: 1 de Janeiro de 2010, 12:47

Com o ano novo as hienas do cerco já zarparam? e de abutres como estamos?

Comentário de Carlos Vidal
Data: 1 de Janeiro de 2010, 14:44

Miguel

Como é fácil verificar, o Viana, passado um limiar de complexidade determinado, não entende, não percebe, não comenta, ataca o autor (cito o próprio), diz que o Outro (em maiúsculas, como em Levinas) não possui pensamento coerente. Por mim, como viste/leste, liguei as dicotomias derridianas Justiça/Direito, ou Lei/leis, à emergência de movimentos transformadores, irruptivos, emancipadores e/ou revolucionários. O sr. citado não percebeu. Não me cabe fazer mais nada.

Ou talvez lhe possa indicar alguma bibliografia: que procure (vi-o há dias na FNAC) um livrinho intitulado “Sombras Irredutíveis: Arte, Amor, Ciência e Política em Alain Badiou”, com a vantagem de não ser um livro apenas sobre Badiou.

Quanto a outro tópico teu, o Daniel Oliveira.
Achas que ele tem argumentos para discutir ou encetar uma discussão, ou possui antes um conjunto de ideias feitas, estereotipadas e blindadas na legalidade existente (apenas porque é a existente)?

Eu não acusei ninguém do PS de aberrações sexuais. Eu ouvi Pedro Namora dizer algo muito pertinente; considerando que a defesa dos arguidos do processo Casa Pia trabalha no esmiuçar de dia e hora das violações, encontrando alibis para os seus constituintes, o P. Namora veio dizer que um ou mais miúdos sujeitos a violações não sabe ao certo nem a hora nem o dia em que isso aconteceu. Isso não se regista num caderninho, não é? Aqui, P. Namora tem razão. Arranje a defesa de X ou Y os alibis que arranjar. E sobre o P. Namora não gostaria de me alongar mais.

Quanto ao Viana, que faça aquilo que Lenine mais gostava de fazer: estudar, estudar. Já lhe dei um título fácil de localizar, adquirir e ler. Pois que lance mãos à obra (e provoque depois).

Para ti, Miguel, um grande ano.
CV

Comentário de viana
Data: 1 de Janeiro de 2010, 21:16

Estranho que mencione Badiou, dado que muitas das posições deste são diametralmente opostas às suas. Um exemplo é a crítica lúcida de Badiou às experiências revolucionárias do séc. XX, e a conclusão de que daí tira da exaustão do modelo revolucionário preferido no séc. XX, por si defendido no último parágrafo deste post: o-partido-revolucionário-toma-o-Estado-pela força-e-depois-instaura-o-ideal-comunista. Suponho que deve ter lido a “A Hipótese Comunista” de Badiou. Deixo-lhe aqui o extracto relevante:

“The second sequence of the communist hypothesis runs from 1917 to 1976: from the Bolshevik Revolution to the end of the Cultural Revolution and the militant upsurge throughout the world during the years 1966–75. It was dominated by the question: how to win? (…) It was no longer a question of formulating and testing the communist hypothesis, but of realizing it: what the 19th century had dreamt, the 20th would accomplish. The obsession with victory, centred around questions of organization, found its principal expression in the ‘iron discipline’ of the communist party—the characteristic construction of the second sequence of the hypothesis. (…) But the second sequence in turn created a further problem, which it could not solve using the methods it had developed in response to the problems of the first. The party had been an appropriate tool for the overthrow of weakened reactionary regimes, but it proved ill-adapted for the construction of the ‘dictatorship of the proletariat’ in the sense that Marx had intended—that is, a temporary state, organizing the transition to the non-state: its dialectical ‘withering away’. Instead, the party-state developed into a new form of authoritarianism. Some of these regimes made real strides in education, public health, the valorization of labour, and so on; and they provided an international constraint on the arrogance of the imperialist powers. However, the statist principle in itself proved corrupt and, in the long run, ineffective.(…)”

em http://www.newleftreview.org/?page=article&view=2705

Deixo-lhe também a conclusão de Badiou – hoje, antes de mais, é preciso renovar e transmitir a hipótese comunista (e não agir cegamente, com base em métodos historicamente provados como incapazes de concretizar tal hipótese):

“Which is no doubt why, as in the 19th century, it is not the victory of the hypothesis which is at stake today, but the conditions of its existence. This is our task, during the reactionary interlude that now prevails: through the combination of thought processes—always global, or universal, in character—and political experience, always local or singular, yet transmissible, to renew the existence of the communist hypothesis, in our consciousness and on the ground.”

Parece-me que não interpretou correctamente as ideias políticas de Badiou, ao contrário de Raymond Lotta, que parece partilhar o que se percebe das concepções ideológicas do Carlos Vidal, e que escreveu este artigo em que ataca ferozmente Badiou:

http://www.demarcations-journal.org/issue01/demarcations_badiou.html

Comentário de Niet
Data: 1 de Janeiro de 2010, 21:42

Uma das melhores frases do ano 2009

” Sarkozy´é todavia pior que um varredor maliano!

Autor Alain Badiou

Salu! Niet

Comentário de Niet
Data: 1 de Janeiro de 2010, 22:03

A frase de Badiou provém de um face-a-face com Finkielkraut
publicada no http://bibliobs.com SaluT! Niet

Comentário de Carlos Vidal
Data: 1 de Janeiro de 2010, 22:47

VIANA,

Viu, em cima, o seu nome em maiúsculas??

É para si, isto que eu escrevo.

Sou obrigado a quebrar o meu acordo mais ou menos tácito com o Miguel Serras Pereira, e a, de novo, mandá-lo passear, passear para fora destas caixas que eu administro e policio (se se mantiver de má-fé e mal informado e a persistir no logro enganoso/maldoso).

A posição de Badiou em relação à HIPÓTESE COMUNISTA é esta, recentemente expressa numa carta a Slavoj Zizek. Resumo eu: incluir na discussão futura TODAS, TODAS as experiências encetadas no sentido da emancipação, desde ROBESPIERRE a ENVER HOXHA (não treme perante este nome??).
E Badiou faz o mais do que lúcido apelo: ESTA É UMA DISCUSSÃO ENTRE “NÓS”.
E V., sr. VIANA, deste “Nós” está excluído por razões óbvias.
Deste modo, escrevi neste blogue em Março:

Numa recente carta endereçada por Alain Badiou a Slavoj Zizek encontramos uma das melhores definições não apenas do que é ser comunista, como ainda do momento actual do comunismo perante o seu próprio «factor» como invariante histórica de emancipação; sendo que outra invariante a humanidade não dispõe:

BADIOU:
“Nós encontramo-nos no limiar de um ponto de método essencial e no qual, creio-o bem, não há entre nós nenhum desacordo de princípio. Tratando-se de figuras históricas como Robespierre, Saint-Just, Babeuf, Blanqui, Bakounine, Marx, Engels, Lenine, Trotski, Rosa Luxemburgo, Estaline, Mao Tse-Tung, Chou Enlai, Enver Hoxha, Guevara, Castro e alguns outros (e penso nomeadamente em Jean Bertrand Aristide [Haiti]), é ponto capital, sobre todos eles, nada ceder perante as tentativas de criminalização reaccionárias ou perante as anedotas eriçadas com que o capital os pretende fechar e anular. Nós podemos e devemos discutir entre nós (um ‘nós’ que sinaliza aqueles para quem o capitalismo e as suas formas políticas são um horror, um ‘nós’ que nós somos para quem a emancipação igualitária é a única máxima de valor universal) o uso que fazemos, ou não fazemos, dessas figuras históricas. Essa discussão pode ser eventualmente viva e fortemente antagónica, mas ela dá-se ‘entre Nós’, e a nossa regra opõe-se absolutamente a toda a conspiração de latidos do adversário”.

Se não percebeu, não volte cá, VIANA. Não administro má-fé.

Niet, põe-me outra questão, a frase, a frase.
Sarkozy, que considera o emigrante “escumalha”, é, para Badiou, pior ou menos relevante para a vida e a “saúde mental” colectiva do que um varredor maliano.
Muito bem, Niet, eu subscrevo a frase.
Acordem, senhores.
Falta-vos lucidez, argúcia, sagacidade.

Comentário de Carlos Vidal
Data: 1 de Janeiro de 2010, 23:04

Ah, o modelo “partido”, sim, o modelo “partido”.

Badiou sempre considerou que não falhou nada da invariante comunista no século XX, mas sim o modelo “partido”.
Se VIANA colocasse este problema, seria diferente, e um princípio de discussão. Mas, não, ele volta com argumentos descabelados e má-fé.
A discussão do modelo emancipatório “partido” é que é interessante.

Eu, quanto a isso, tenho a minha resposta. O PCP é um partido. Eu não milito, mas estou desse lado.
É simples.
E agora não vou fazer à maneira de VIANA: escrever 20 parágrafos para nada!
Não. Apenas repito isto: não milito, mas estou desse lado, junto.

Comentário de viana
Data: 2 de Janeiro de 2010, 0:55

Uh, o Carlos Vidal ficou mesmo irritado por eu ter citado Badiou… que realmente parece não compreender. Que parte é que não percebeu da crítica que Badiou faz às tentativas de concretização da hipótese comunista no séc. XX?… Quanto à citação de Badiou que traz à baila, e que consiste numa reacção defensiva perante aqueles que pretendem tirar partido do debate à Esquerda, devia atentar à parte em que ele afirma “Essa discussão pode ser eventualmente viva e fortemente antagónica(…)”. Porque se realmente percebesse o que ele quis dizer com isto não vinha para aqui com ameaças de censura contra quem, literalmente, o antagoniza. Não aguenta o debate? Não me interpele, ignore-me, que eu vou fazer o possível, como já fazia, para o ignorar a si.

Comentário de Carlos Vidal
Data: 2 de Janeiro de 2010, 0:57

Voltando a frase citada po Niet.
Convem esclarecer os leitores de uma coisa, um contexto.

A frase sobre o varredor do Mali vem de um debate entre Badiou e o desinteressantíssimo autor de direita, Alain Finkielkraut, em torno do debate lançado por Sarkozy sobre, nos termos de Finkielkraut, a “herança”, a “civilização”, a “cultura” ou a “identidade francesa”. Nesse debate, Badiou esmaga o pobre Finkielkraut e eu repito com Badiou, claro: “Sarkozy é pior do que um varredor do Mali”, sem sombra de dúvida!

Niet, que ataque de reaccionarismo lhe deu?

Comentário de Carlos Vidal
Data: 2 de Janeiro de 2010, 1:16

Viana, quase acertou.
Não estou propriamente irritado, mas um pouco deprimido com o tempo que me faz perder. E um pouco cansado daquilo que o meu colega Nuno chama conversa da treta.

Repare, a frase é esta:
“Essa discussão pode ser eventualmente viva e fortemente antagónica, mas ela dá-se ‘entre Nós’, e a nossa regra opõe-se absolutamente a toda a conspiração de latidos do adversário”.

A conversa entre comunistas dá-se, pode dar-se, de forma viva e fortemente antagónica, mas é entre comunistas, o “Nós” é explícito.
E esse NÓS opõe-se aos meros latidos do adversário, onde eu o incluo – no campo do adversário. Porque no que respeita aos citados por Badiou (exceptuando um ou dois) você todos aqui tem abominado. Como Castoriadis, aliás, que dizia ser Lenine “o verdadeiro criador do totalitarismo”.
Portanto, o sr. está no campo do adversário – pelo menos nesta discussão.
Volte quando quiser.

Comentário de Niet
Data: 2 de Janeiro de 2010, 1:24

Dr. Vidal: eu entendo que fui claro quando intitulei uma das melhores frases do ano, justamente, a do Badiou. E indiquei a origem para todos irem ler a profundidade da argumentação de Badiou neste caso.
Onde ele- num grande orgão da Imprensa Social-Democrata francesa – escalpeliza, em lances desdobrados e articulados, o projecto insâne de poder pessoal – ao arrepio de todas as promessas eleitorais – que o ” nababo ” Sarkozy está a tentar criar de forma histérica e paranóica,sem controlo de espécie nenhuma. Eu vou amiúde a França, país que conheço muito bem há décadas, e sinto profundamente o mal que o autoritarismo à la Sarko está a desencadear. Portanto, dr. Vidal, creio que se precipitou na sua análise à minha simples proposição. Entendo que devia, se me permite, usar este método de destaque em textos com grande força política( e teórica).Entendo que Finkielkraut- como Luc Ferry ou Alain Renaud- têm análises fundamentadas em certos campos, que nos evitam, por vezes, horas exaustivas de procura e circunscrição. Está de acordo e fica esclarecido? Salut! Niet

Comentário de Carlos Vidal
Data: 2 de Janeiro de 2010, 1:43

Niet, vejo-o então próximo de Badiou. Gratificante.
Mas não concordo consigo no que respeita a Finkielkraut, Renaud ou Ferry. Certo, por vezes fundamentados. Todos podemos ser fundamentados, o que não basta. Eles são essencialmente soporíferos. Fundamentados e soporíferos. Isto se o meu caro me permitir opinar. Trata-se apenas de uma pequena divergência. Nada de importante.

Comentário de Carlos Botelho
Data: 2 de Janeiro de 2010, 1:54

Carlos,
obrigado pelas suas observações. Cá ficamos à espera do seu post.
Bom ano!

Comentário de Niet
Data: 2 de Janeiro de 2010, 2:02

Carlos Vidal, já sabe que eu sofri uma muito forte e maravilhosa vacinação contra os neo-leninistas. Essa vacina intitula-se o imenso Castoriadis, textos e intervenções. Sim, porque Voline escreveu que até Lénine se dizia anarquista, de vez em quando, le pauvre…Leio Badiou e gosto de certas coisas: já aqui há tempos o destaquei em letras impressas.Mas, como dizia Gramsci, costumo ser um pouco pessimista na teoria, mas muito optimista na prática. Bom vento! Niet

Comentário de Carlos Vidal
Data: 2 de Janeiro de 2010, 2:26

Bom vento, também.
Mas suponho sempre que Castoriadis e “prática” é uma contradição nos termos. Impasse total. Não se sai daí.

Comentário de Niet
Data: 2 de Janeiro de 2010, 10:27

Carlos Vidal: Uma breve resposta ao seu precedente comentário. Precisamente, Castoriadis assinala- in A Experiência do Movimento Operário- Como Lutar-o seguinte: ” Há mais de 10 anos que os filósofos franceses não cessam de escrever sobre a classe operária, o socialismo,o estalinismo,o partido, as contradições e as não-contradições. Na Hungria, os operários pegaram em armas, constituiram Conselhos- e reduziram a zéro os pseudo-problemas dos filósofos. Todavia, eles não equacionaram tudo- longe disso. Contudo, do ponto de vista puramente filosófico, os Conselhos húngaros contribuiram mais e elevaram-se a um nível superior do que os filósofos baseados em 25 séculos de cultura. Integrar organicamente a experiência operária à elaboração teórica, significa mudar a sua maneira de ver, a sua forma de falar, o seu próprio estilo de pensar. Mas significa também criar um espaço estimulante no qual se possam encontrar e unir as duas correntes e os que as incarnam- os operários e os intelectuais revolucionários “. E noutra passagem muito importante, Castoriadis sublinha: ” Não existem reivindicações económicas ou minimais que visem a defender o operário como vendedor da sua força de trabalho, e a preservar a sua existência biológica, e, na outra extremidade, um programa socialista ” máximo “, quase exclusivamente centrado sobre o problema do poder. De igual modo, não existe um fosso entre o problema de organizaçã dos operários agora, e o da sua organização futura para gerir as fábricas e a sociedade.Nos dois casos- através de uma multidão de diferenças enormes que só um louco poderá negligenciar – o fundo da questão é o mesmo: não é senão quando os operários se organizam e se dirigem a eles próprios que a sua acção servirá os seus interesses e as suas necessidades- só quando os operários se organizam e dirigem a si-próprios é que a sua acção será própria e materialmente eficaz “. Conhece aquela expressão da Rosa Luxemburgo que diz, se a sociedade realizasse efectivamente o que pensa, o capitalismo não duraria mais de 24 horas? O debate continua. Niet

Comentário de Renato Teixeira
Data: 2 de Janeiro de 2010, 23:37

Cá estamos no ano novo e de regresso a este post como prometido.
Gostei da elaboração mas não posso deixar de fazer uma pergunta relatica ao ponto três, relativo à parte em que suporta o paralelo entre Caravaggio e Lenine com aquilo a que chama “a recusa total em elaborar para as suas obras estudos prévios”. Não serão as teses de Abril um estudo prévio de Outubro? Acha mesmo Lenine assim tão intempestivo? Tinha-o como um tipo mais racional, mas de estudos prévios… É assim tão disparatada a ideia?

Comentário de almajecta02
Data: 3 de Janeiro de 2010, 1:19

De lição de pintura até agora ainda nada, como muito bem sabes neste tempo e neste género de artista, desenhavam com o pincel directamente na tela branca e ou suja, a tal que tanto te angustia, acertavam a composição preliminarmente até porque a grande narrativa era enorme digerida e sentida, de seguida com modelos era dar-lhe até ao finito-acabado. Aconteciam acidentes e desproporções perspecticas como a do tamanho da Virgem e do menino Jesus em 3º plano maiores que as figuras do primeiro plano, talvez pelo conteúdo do culto mariano, não? ou por falta de prójecto, aquela malta estava à vontade e à maneira. Por acaso também gosto das tempestades no Lac Leman, de Geneve e da maison Saussurre, de um activismo sanguinário, até porque a suiça é um país de mercenários.

Comentário de Carlos Vidal
Data: 3 de Janeiro de 2010, 1:43

Renato,
São, as Teses de Abril são um programa de governo: recusa de uma república parlamentar, defesa de uma república de sovietes; supressão da polícia e do exército; confiscação de terras; nacionalizações; banco único, etc. Num contexto aí também definido: “A peculiaridade do momento actual na Rússia consiste na transição da primeira etapa da revolução, que deu o poder à burguesia por faltar ao proletariado o grau necessário de consciência e organização, para a sua segunda etapa, que deve colocar o poder nas mãos do proletariado e das camadas pobres do campesinato.”

Mas, num outro texto, também de Abril, Lenine diz isto (VII Conferência de Abril de toda a Rússia do POSDR (b) ): “Queremos que o campesinato vá além da burguesia, que tome a terra dos latifundiários, mas agora não se pode dizer nada de detrminado sobre a sua conduta futura”.

Isto é, há algo que num determinado momento, de acção, na acção, aí e só aí tem de ser resolvido ou decidido. Um revolucionário e táctico, ou estratego, genial é aquele que no momento decisivo faz a escolha “certa”. Quantas e quantas coisas têm de ser decididas (em todos os aspectos e não apenas numa revolução) num momento “sem tempo”? A comparação com Caravaggio passava por aí: há que exaltar aquele que faz a escolha certa no momento, que se move no momento de forma decidida e aí se fideliza. As obras de Caravaggio não tiveram, como as de Rafael (o modelo “perfeito” e ideal para os críticos da época) ou as de Poussin, estudos prévios detalhados, mas, do ponto de vista da invenção e composição são tão ou mais perfeitas que as dos citados.

Em política, no momento decisivo, há que, como diz Alain Badiou, tomar uma decisão e mantermo-nos fiéis ao acontecimento que nos obrigou a tomar essa decisão.
Na irrupção de um momento de transformação (chamemos-lhe “revolução”) há, sigo Badiou, uma finitude “na” escolha e uma infinitude “da” escolha. Feita a escolha, o que se pode fazer com ela, a escolha e aquilo que se escolheu, é imprevisível e de espectro infinito.

Na música, Schoenberg criou novas leis de harmonia. Teve discípulos, Alban Berg e Webern. Berg e Webern escolheram seguir as invenções de Schoenberg (não por coacção, claro). Depois de feita a escolha, de cimentada a nova realidade, tudo é possível: dois discípulos, vinte discípulos, ainda hoje se pode escrever a partir das invenções de Schoenberg (que se prolongaram por Luciano Berio ou Luigi Nono, etc.).
Fui claro? Respondi?

Comentário de Carlos Vidal
Data: 3 de Janeiro de 2010, 2:27

Grande Jecta, regressado e em força da Suíça e do Torino dos Artistas Poveros.
Ora, ora, como sabes, naquele tempo desenhava-se de mais, desenhava-se mesmo mais do que se pintava.
E os escultores então….

Mas os pintores, meu deus: Rafael, Poussin, Rembrandt, Ingres … só lá iam depois de tudo bem desenhado.
Queres que te faça um desenho, é?

Comentário de almajecta02
Data: 3 de Janeiro de 2010, 2:42

não, isso não por favor, basta o aconselhar dos livros.

Comentário de Renato Teixeira
Data: 3 de Janeiro de 2010, 3:45

Os paralelos sugeridos não são propriamente a minha praia. Mas sim, parece claro. Num comentário meu a um post que já não sei bem qual era, sublinhei a importância do tempo na decisão política, aprendizagem que de facto herdei da tradição leninista. Agora não tinha entendido que era a esse aspecto da acção política que tinha posto em contraste com o esboço de uma obra de arte. Tenho um preconceito relativamente aos pintores devido à sua necessidade de esboçar a fantasia. Nesse sentido acho o paralelo forçado, uma vez que em política me parece sobejamente mais importante, e usando palavras suas: “aquele que no momento decisivo faz a escolha “certa” “. Por isso mesmo se está condenado a errar muito mais na política do que, imagino, na pintura. Mas isso é só uma impressão de um leigo na matéria.

Comentário de Niet
Data: 3 de Janeiro de 2010, 12:02

No texto II de N.R. de Almeida sobre o Discurso da Treta é evocada a crítica de Marcuse ao esquematismo marxista e leninista da luta de classes e a proposição de alteração estratégica sobre o fim do papel de agente de subversão social do proletariado industrial no capitalismo sofisticado gerado pela automação crescente dos processos de produção. Marcuse, de quem Adorno elogiou muito o trabalho tecido em torno das teses de ” Razão e Revolução”, avança no ” Homem Unidimensional ” escrito em 1964 e tenta criticar a racionalidade política instituida pela racionalidade tecnológica acorrentada a um muito sofisticado sistema de dominação, imposto pelo que ele elucida como formas do empirismo e positivismo radicais. ” La pensée unidimensionnelle est systématiquement favorisée par les faiseurs de politique e par leurs fournisseurs d´information de masse. Leur univers discursif est plein d´hypothèses qui trouventen elles-mêmes leur justification et qui, répétées de façon incessante et exclusive, deviennent des formules hypnotiques, des diktats. Par exemple sont ” libres ” les institutions fonctionnant dans les pays du Monde Libre; les autres modes transcendants de liberté sont, par définition, de l´anarchisme, du communisme ou de la propagande. Sont ” socialistes ” tous les empiètements sur l´entreprise privée que l´entreprise privée n´impose pas elle-même, tels une bonne assurance sociale, ou la protection de la nature contre une commercialisation trop dévastatrice, ou encore l´établissement de services publics qui peuvent porter atteinte aux bénéfices du secteur privé. Cette logique totalitaire des faits accomplis a sa contrepartie ans les pays de l ´Est. Là, la liberté c´est la manière de vivre en régime communiste et toute forme transcendante de liberté est soit du capitalisme, soit du révisionisme, soit du sectarisme de gauche. Dans les deux camps, les ídées non opérationnelles sont non conformistes et subversives. Le mouvement de la pensée est arrêtê par des barrières qui apparaissent comme les limites de la Raison elle-même. ” La ruse de la Raison ” c´est la Raison qui travaille comme elle l´a si souvent fait dans l íntérêt des pouvoirs établis. A force d´ ínsister sur des concepts opérationnels et béhavioristes, elle est contre la pensée et les comportements libres quand ils s´efforcent de prendre une distance vis-à-vis de la réalité donnée et d´accueillir les alternatives interdites. La Raison théorique et la Raison pratique, le béhaviorisme académique et le béhaviorisme social ont un terrain commun: c´est la société avancée qui fait du progrès scientifique et technique un instrument de domination “. Belíssimo e difícill livro para a luta política; que homenageia a Teoria Crítica de Adorno e Horkheimer; e não deixa de se socorrer dos primeiros trabalhos semióticos de Barthes, bem como referencia com alegria Maurice Blanchot , Wittgenstein e Karl Kraus, entre centena de referências de grande intensidade conceptual libertária. Niet

Comentário de Niet
Data: 3 de Janeiro de 2010, 12:42

Errata: A falar três línguas e com cansaço a pesar…E a urgência!
Linha 1: evocada – deve ser invocada!

Salut! Niet

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