Proibir a burca?

No meu recente artigo sobre a identidade nacional e o debate actual em França o único ponto que deu azo a comentários foi o projecto de proibição da burca. Pergunta Nuno Castro se concordo com o uso da burca; é uma pergunta à qual tenho dificuldade em responder com um sim ou um não.

Por um lado, acho que cada um deve poder vestir-se como deseje dentro de limites que são variáveis consoante as épocas, as regiões do mundo e as circunstancias. Por outro lado, incomoda-me a ideia de tapar totalmente o corpo de uma mulher para a subtrair ao olhar do resto do mundo. A questão importante para mim é a de saber se se deve proibir a burca : eu acho que não. Por várias razões: a primeira, é que esta será uma lei dirigida apenas contra os muçulmanos, ninguém pensa em proibir os hábitos das freiras ou dos monges budistas. A segunda razão, é que me parece bem mais urgente fazer respeitar a lei que dá às mulheres os mesmos direitos que aos homens, e sobretudo fazer respeitar a obrigação de educação, será muito mais eficaz que uma qualquer proibição. A terceira razão, é que em termos práticos uma lei vai trazer problemas que poderão levar a novas descriminações: se por um lado imagino facilmente a polícia impor num qualquer arrabalde de Paris a lei imagino mal alguém chatear uma das mulheres de um qualquer cheick do médio oriente que venha gastar os petrodólares nas lojas de luxo dos Champs Élysées vestida de burca.

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6 respostas a Proibir a burca?

  1. Antónimo diz:

    No Supermercado cruzo-me muitas vezes com um ser de burka. O marido, um fedelho magrela, de barba insípida, fica no carro com o bebé enquanto o fantasma faz as compras lá de casa.

    Não existe nenhuma semelhança entre aqueles olhos, um monge budista ou uma freira franciscana. Gosto pouco de encapuzados.

  2. Pingback: Multiculturalismo ma non troppo « Solstício

  3. Zé_Lucas diz:

    Estes dois comentários lembraram-me uma história recente passada comigo. Dizia-me um conhecido, que, em casa dele, quando ligava a luz da sala, imediatamente ligava o rádio, pois tinha os dois circuitos interligados. Não é que ficou zangado comigo, porque lhe disse que em minha casa não era assim, dado gostar de manter as opções em aberto – ouço ou não ouço rádio- ?!

  4. Bernardo Sardinha diz:

    Ao longo dos tempos, em todas as latitudes e longitudes, pessoas se ocultaram atrás de vestes religiosas para fins diversos. A burka pode ser mais um esconderijo. Mas, politicamente, não sei se será correcto, oportuno ou conveniente a interdição do seu uso em França. Há ainda muitas partes do mundo em que mulheres e homens andam praticamente nus nas suas aldeias. E se eles se apresentassem assim na Sorbonne? A mim não me fazia diferença nenhuma, mas penso que escandalizaria muitas pessoas. Não pensariam o mesmo que o “fedelho magrela” do Antónimo pensa das mulheres com o rosto destapado?

  5. Antónimo diz:

    Acho que ir despido para a sorbonne (embora eu até gostasse de ver) é tão disparatado como andar de burka em qualquer sítio do mundo. Mas tem uma clara vantagem, não representa uma menorização fascista da mulher. Se o sujeito acha que as portuguesas de cara destapada ou de calças são uma cambada de putas – e se a mulher dele se veste assim é porque há gente naquela família que pensa isso mesmo -, tenho pela manifestação das ideias dele ainda menos consideração que pelas do senhor César das Neves dos Almoços Grátis ou do senhor arcebispo emérito de Braga, que aprendeu beaucoup avec as deambulações de um ovo no Ai No Corrida, do Oshima.

  6. V diz:

    Quanto atraso! Os governantes franceses não possuem altoridade para proibir a burqa. Isso seria ferir os costumes dos mulçumanos que creem na religião ao seu modo. O que deve ser proibido é o ato de crime e não os costumes diferentes daquilo que temos como certo. Se falamos que o ocidente é tão sofisticado e o oriente não, se criticamos os povos do Oriente Médio que temos por tiranos, ao crermos certo o veto da burqa, estaremos em pé de igualdade com aquilo que dizemos ser tirania.
    A quem é dado o direito de suprimir a cultura alheia? Quem pode negar que o que fazemos com nossas meninas, deixando-as semi-nuas e sem instrução, gerando gravidezes fora de hora, não é ser tão tirano quanto a burqa quando posta à força? Lembremos que em ambos os casos o culpado é pouco citado: Os governos, que criam temas polêmicos para tirar a atenção das pessoas de seus monopólios e tornando o cidadão alienado e sem metas de prosperidade.

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