UMA CONFISSÃO


Bispo de Hipona

CARÍSSIMO ZÉ NEVES

Tudo o que for acontecendo, tudo o que vem acontecendo, tende a favorecer um rápido liame de problemas. Por meu lado, pelo contrário, vou agora escrever para todos vós sem afectação e sem canseira, como a coisa mais natural e mais fácil do mundo, através da língua que aprendi e na maioria das circunstâncias sempre falei. Não sou eu que a tenho de modificar nem de modificar-me. Os ciganos consideram com razão que só devemos dizer a verdade na nossa própria língua; na do inimigo deverá reinar sempre a mentira, costumo eu citar. E deste modo me fui encarreirando, durante toda a adolescência, lenta mas inevitavelmente, para uma vida de aventuras e de olhos abertos.

Confesso que vi concluir-se, antes dos meus vinte anos, a parte pacífica da minha juventude; e a partir daí a obrigação que tive foi a de seguir sem freio todas as minhas propensões indesejáveis, embora em condições sempre difíceis. Senti primeiro simpatias pelo círculo de gente, muito atractivo, diga-se de passagem, onde um extremo niilismo já nada queria saber, nem prosseguir, sobretudo, de quanto fora anteriormente admitido como ocupação da vida ou das artes. E, repara, este meio facilmente me reconheceu como um dos seus.

E ali se extinguiram rapidamente as minhas últimas possibilidades de voltar um dia ao fluxo normal da existência. Ou seja, Zé, toda a minha vida sempre vi tempos inquietos, tumultos extremos na sociedade, e destruições sem fim; e eu entro nessas desordens.

Sempre com amizade,

Carlos Vidal

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14 respostas a UMA CONFISSÃO

  1. Olha que isto está muito bonito, Vidal. Os meus parabéns.

  2. Niet diz:

    Oh.Dr.Vidal, com franqueza: em menos de 24 horas V.Excia passa do oxímoro da Alexandra, da ortodoxia proto-“comunista” mais gélida e rasante para a camuflada-olé-confissão do Guy Debord. Isso não assinala uma mutação no iluminado e majestático pensamento de V.Excia? Assistiremos nós impávidos a uma auto-crítica demolidora, frenética e em velocidade extravagante feita por V.Exccia por volta da meia-noite de 29 de Dezembro 2006? Oh.Céus. Convém lembrar-lhe no entanto, que o ” metafísico ” G-E.Debord era um irresgatável Conselhista, isto é, um fervoroso adepto dos Conselhos Operários. Lembro-lhe a tese 117 da Sociedade do Espectáculo:” No poder dos Conselhos,que deve suplantar internacionalmente qualquer outro poder, o movimento proletário é o seu próprio produto,e este produto é o próprio produtor. Ele é para si mesmo a sua própria finalidade. Sómente lá a negação da vida é por sua vez negada “.Niet

  3. Carlos Vidal diz:

    (Amigo Niet, corrigi-lhe dois acentos no comentário acima: não gosto de ver o nome do meu mestre escrito com acento. Atente nisso, sff.)

  4. Niet diz:

    Dr. Vidal: Uma vez, em 1972, no auge dos bombardeamentos USA contra o Vietname, participei numa manif em Paris, ilegal e altamente policiada.A malta reunia-se lá para as bandas da Gare Saint-Lazare, a pensar na ofensiva contra a embaixada yankee na Place da Concorde. Sartre, Foucault,Claude Mauriac, a Nathalie Sarraute e a Simone de Beauvoir, estavam de fronte à estação ferroviária. Houve uma carga da polícia de choque, a malta voou, os intelectuais protestam e, no meio de uma grande tensão, ouço o Foucault a elogiar um tract de um palestiniano escrito com o sangue e pleno de erros…O sr. Vidal como só usa a sensibilidade para nos tentar impressionar com as suas magras leituras de Derrida, de Deleuze( meu prof.),Habermas, Badiou, e tutii-quanti, tenta corrigir-me os acentos do Debord, de quem tenho 5 edições em línguas diferentes da Sociedade do Espectáculo. V. Excia deitou tudo a perder, portanto. Eu que estava a acreditar na sua supersónica auto-crítica, facto político que devia merecer destaque nos ilegíveis jornais lusitanos, atreve-se a censurar como um ímpio mestre escola quem lhe descobre a razão das suas panaceias. Niet

  5. Carlos Vidal diz:

    Belo como a tremura das mãos no alcoolismo, o seu texto Niet.
    Há noites comoventes, mas muito difíceis.
    Cumprimentos.
    CV

  6. repara na representação da mão direita do Santo, parece a mãozinha do L’Aiglon, fortes dificuldades, as deste pinta monos. Ou é um falcão by de book?

  7. marilu diz:

    Em honra ao seu companheiro de blog Zé Neves e a todos os jppereiras e expertos:

    ‘Zemskov documentou que entre 1921 e 1953 foram «reprimidas» quatro milhões de pessoas. De entre elas, o regime soviético fuzilou por motivos políticos cerca de 800 mil pessoas, em concreto 799 455. Também se pôde estabelecer que no momento culminante da repressão stalinista, o «grande terror» dos anos 1937-1938, na URSS foram efectuadas 2,5 milhões de detenções.6 Os seus números são tão impressionantes que, a seu lado, pouco importa que até agora se tenha falado de quase vinte milhões de detenções (a historiadora russa Olga Chatunóvskaia) ou de sete milhões de fuzilados, o número que apresenta Robert Conquest, o historiador ocidental mais conhecido na matéria.’

    De: Original castelhano em jornal La Vanguardia,1 edição de 3 de Junho de 2001
    O verdadeiro terror de Stáline
    Texto Rafael Poch

    Xor Zé Neves,o xor é historiador,não?Se é vá saber antes de falar como um papagaio experto,sobre Staline.E não diga que sou estalinista,pq não o sou,mas o Rigor é essencial.Pelos vistos as forças da Democracia, no Iraque, em pouco menos tempo mataram muito mais que o tenebroso Estaline….

  8. marilu diz:

    Ena, 5 edições em línguas diferentes,ou é alfarrabista ou é d’alguma seita que adora o deus livro ‘Sociedade do Espectáculo’…Xharachó

  9. Carlos Vidal diz:

    Sim, marilu, observa bem, parece-me que para Niet a colecção das “5 edições” d’A Sociedade… é mais importante do que o conteúdo de uma só. E ainda por cima dá-se o caso do Debord ter uma especial predilecção pela portuguesa.

  10. Niet diz:

    Dr. Vidal, por quem vem, Excelência: Tenho três edições portuguesas da Sociedade do Espectáculo. E a original francesa, datada de 1967 Além de uma inglesa e outra alemã. Mas o que me interessa é o conteúdo: magistral denuncia do Leninismo e do Centralismo Democrático. Sabe que Debord aprendeu muito com Castoriadis? Mas, dr. Vidal, continuo a ver que V. Excia insiste no Lénine, o que é uma coisa péssima.E por aí não se vai a lado nenhum… V. Excia pensa virar-o-bico-ao-prego das questões. V. Excia cita um trecho do Debord- salvo erro do “Panégyrique ” ou da ” Cette Mauvaise Réputation …”e fica todo contente. Eu vou à S.do Espectáculo e mostro-lhe a divina citação em que ele, G-E-Debord, faz a exaltante apologia dos Conselhos Operários. Consequências, dr Vidal, do seu homérico gesto? Insiste em deitar poeira nos olhos dos incautos. Como escreveram os companheiros de G. Debord,” A sobrevivência é a não-superação do que se tornou insuportável “. Dr. Vidal, boa tarde! Niet

  11. Carlos, dê uma vista de olhos nisto, se ainda não conhece é interessante. Duvido que o Debord tenha demonstrado uma predilecção pela edição portuguesa. Diria mesmo que tinha divergências com o seu editor.

    http://juralibertaire.over-blog.com/article-revolution-portugaise-mode-d-emploi-41903624.html

    nesse blog encontrará nos posts mais recentes a correspondência de Debord sobre portugal

  12. Carlos Vidal diz:

    Chuckie Egg, ainda não fui ao seu link, mas certamente conhece isto:

    “Les premières traductions ont été partout infidèles et incorrectes, à l’exception du Portugal et, peut-être, du Danemark”, do “Prefácio à Quarta Edição Italiana….”, de 1979.

    Contudo, tenho os 7 volumes da Correspondência (Fayard), tentarei reler algumas cartas do vol. 5 e 6, os que tratam do tema (sobretudo o 6), e passarei também pelo seu link.
    Abraço.
    CV

  13. estou a ler este São do Chesterton e não me parece mal, excluindo a catequese está claro.
    Aqui o da sociedade da comichão é que me parece pior, com mais catequese ainda,
    a minha edição é a da vulgata, já o dos commentaires sur… de 88 e o préface à la quatriéme ed. italienne… de 79 na pag 11, edição mobilis in mobile, lisboa, 1995 parece-me melhor ou seja, é interessante, funciona e tem muita qualidade.

  14. confissões pessoais em domínio público? é para provocar a comoção ao vivo e em directo
    ou estou presente a algum grupo-análise?

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