To Stalin or not to Stalin

A crise de legitimidade, representação, demarcação, whatever, por que passou recentemente (ontem) o 5 dias é para mim assunto encerrado. Sobra da refrega, no entanto, uma questão que gostaria de colocar ao Carlos. Perante a sua identificação como um estalinista empedernido, entre outros atributos diabólicos que lhe são inúmeras vezes imputados, o Carlos tende muitas vezes a reagir dizendo-lhes que sim, que claro que sim e mais sim ainda. Fá-lo, parece-me, mas não estou certo e por isso este post, porque não quer entrar num jogo de abstracção em relação a um passado que, independentemente de nele se rever ou não, de algum modo assume, recusando assim a posição pura e angélica de quem de tudo consegue lavar as mãos. Até aqui, mais coisa menos coisa, e assim sendo, compreendo perfeitamente o gesto do Carlos: é necessário não ficarmos reféns da chantagem que permanentemente é feita a todos e todas que entendam que tudo deve começar por dizermos “Não” ao actual estado das coisas. Essa chantagem diz que quem diz “Não” nada mais faz do que defender o horror estalinista e por aí adiante. A questão está em que aceitar o estereótipo e enfatizá-lo pode servir para subvertê-lo e caricaturá-lo, mas também para nos deixarmos enredar num debate que só confunde. Parece-me que o centro da questão é este: não é simplesmente a diabolização do passado comunista que deve ser rejeitada, é a ideia de que esse passado é um só e não um conjunto de tensões e contradições, com diabos, anjos e tudo o resto que entre estes se situa. E, a partir daqui, podemos então sim cuidar desse passado, retomar os debates que aí foram tidos, as clivagens que aconteceram, não para simplesmente repetir a história, mas para construir algo de novo. Rejeitar esse passado como se ele fosse uma coisa una e homogénea não é solução, mas herdar não é um gesto diferente – é simplesmente o contrário. Enfim, parece-me que quem critica as ideias de representação política, de democracia burguesa, de capitalismo (e deixo de lado o facto, em que todos estaremos de acordo, de nenhum destes conceitos poder ser facilmente manejado), não pode simpatizar – nem por caminhos irónicos – nem com os nacionalismos comunistas, nem com a ditadura sobre o proletariado, nem com o capitalismo de Estado (conceitos que também não são límpidos, reconheço). Para que seja claro para todos que o “estás marcado” utilizado pelo Carlos não tem nenhum tipo de ressonância policial.

ps: é evidente – mas convém dizer – que não está em causa o carácter mesquinho e obtuso do comentário do Ferreira Fernandes. Que não tem nada de novo: quando ele diz que o Nuno não pode – por dever de coerência – trabalhar para uma empresa capitalista e ser contra o capitalismo, está simplesmente a recorrer ao argumento estafado segundo o qual um trabalhador não pode fazer greve contra a “sua” própria empresa.

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19 Responses to To Stalin or not to Stalin

  1. A Comunalha Estalinista aproveita-se do facto de viver num regime livre e democrático para espalhar livremente os seus ideias totalitários, baseados na falácia de defender os direitos dos trabalhadores.

    O Povo é sereno e não é burro. E por isso cada vez terão menos votos.

  2. nuno castro says:

    o problema, digo eu, é que não sei muito bem a que dizes Não.

    O “actual estado das coisas” parece-me demasiado vago para ser levado a sério.

    Continuo a achar que a interrogação de Ferreira Fernandes, por mais “sacana” que tenha sido, faz sentido: dizemos NÃO exactamente a quê?

    ou este NÃO serve para umas coisas e acomoda-se a outras? É o problema de todas as afirmações demasiado radicais que não podem ser sustentadas.

    o argumento estafado que referes, não tem comparação. Pela simples razão que a greve não diz NÃO à sua própria empresa. Apenas às condições de trabalho.

  3. Pingback: O capitalista envergonhado « Solstício

  4. Niet says:

    Proponho três pequenos dados para análise e comentário: 1.Maquiavel contestava a ideia de consenso,rotulando-a de mediocridade dourada;2) Voline narra na sua saga sobre a Revolução Russa que, no tempo rápido da conquista do poder pelo Partido Bolchevique apòs 1917, Lénine, ora dizia,” tenham paciência, pois ainda não sou perfeitamente anarquista”,ora apontava para,” com paciiência,esperarem porque já não sou totalmente marxista”.É obra,convenhamos!;3)Castoriadis, como não pode deixar de ser, apontou:” Para reencontrar Marx, é preciso destruir a sua herança. Tal é a situação histórica paradoxal deste homem, que não desejou ser nem Newton,nem Maomet, mas não é alheio ao facto de se ter tornado nos dois ao mesmo tempo:tal é o resgaste do seu destino, inigualável, de Profeta Científico “. Niet

  5. zé neves says:

    Caro Nuno Castro, greves há muitas: as que dizem não às condições de trabalho e as que dizem não ao próprio trabalho. pelo menos estas. sendo que, muitas vezes, umas imbricam-se nas outras. é evidente que o dizer não não é uma postura moralista; é um direito à resistência e a à crítica que não pode ser… negado, seja em nome do que for, incluindo a alegada “coerência”. não é por vivermos neste mundo que deixamos de querer um outro mundo – construído contra este e (mas) a partir deste.

  6. Nuno Ramos de Almeida says:

    Nuno Castro,
    Acomodar a quê? A teoria do Fernandes que ninguém pode trabalhar numa empresa capitalista e ser contra o capitalismo é um pouco limitada. O estar acomodado, tem outras expressões: Alguém deixa de dar a sua opinião publicamente, porque isso o prejudica profissionalmente. Alguém não participa num plenário de trabalhadores e recusa-se a assinar um abaixo-assinado pq é precário. Alguém que aceita que um proprietário de um órgão de comunicação dê recados sobre o conteúdo editorial dos mesmo. São algumas das muitas formas de pressão para ficarmos acomodados. Eu sempre paguei o preço de ter as minhas opiniões e nunca cedi a nenhuma dessas formas de pressão. Não creio que trabalhar para uma agência de comunicação que tem a conta da Mcdonald’s seja uma questão ética. Não creio, mesmo, que divulgar na imprensa um concurso de música organizado pela Mcdonald seja pecado. Já fiz notícias sobre Igrejas, confederações patronais, partidos de direita e outras coisas. Do ponto de vista profisisonal, esforço-me sempre para que o meu trabalho seja honesto, o melhor possível, independentemente das minhas opiniões políticas. Acho fácil perceber isso.

  7. xatoo says:

    estou de acordo: “não para simplesmente repetir a história, mas para construir algo de novo” então bora lá inserir esta prosa no contexto da grande narrativa que é a História – a era de Estaline, ele que foi tão carinhosamente retratado por Picasso e odiado pela burguesa judia parisience Gertrud Stein (que amava Hitler) – essa época fulcral não poderá ser diabolizada e ficar de fora do debate. Aliás é da pedra de toque “Estaline” que parte toda a clivagem subsquente…
    Hoje em dia, n ao quadrado obras de propaganda intensiva depois (Conquest, Overy, Gilbert, por coincidência todos falsificadores de origem judaica) .. se perguntarmos a um qualquer transeunte da cultura dominante se Estaline matou 3 ou 30 milhões de pessoas, o gajo responderá sem hesitar que foram 30 (ou 40, que foi o total de mortos na IIGG, dos quais apenas 300 mil americanos, os poucos que tiveram azar entre os vencedores)
    portanto,
    venho só deixar o recado que não se safam aqueles que pretendem resolver (encerrar) o passado re-escrito pelos vencedores com uma simples frase quando classificam um tipo qualquer recorrendo ao chavão da “sua identificação como um estalinista empedernido”
    saudações vidalianas

  8. Zé Neves says:

    xatoo, por acaso o retrato do picasso tem mais que se diga… valeu-lhe a crítica do próprio PCF pro representar o camarada stalin em pose pueril e não viril…
    outra coisa: eu não disse que o vidal era um estalinista empedernido, até disse o contrário – que isso é o que lhe é imputado.
    quanto a Stalin, para mim é claro: o autoritarismo, a repressão, a exploração laboral, tudo isso são coisas que abomino. nem que me pintem essas coisas de vermelho.

  9. miguel serras pereira says:

    Caro Zé Neves,
    meia-dúzia de notas avulsas que o teu post e as tuas respostas me sugerem.
    1. Sobre o estalinismo: além de um regime de exploração e opressão abominável, o facto de se pintar e ter sido pintado de vermelho minou catastroficamente as condições políticas ambientes para aqueles que visavam e visam qualquer coisa como o regime (modo de produção incluído) antecipado pela divisa: “A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”, ou pela que serve a Castoriadis para caracterizar a autonomia democrática: nós somos ou queremos ser aqueles que se dão, sabendo que o fazem, a(s) sua(s) própria(s) lei(s). Sim, como diz o Xatoo, para chegar a conclusões a meu ver absurdas, Estaline ou o estalinismo foi uma pedra de toque. Assistimos com ele à monstruosidade da exibição como “socialista” da ditadura de um partido-Estado cujos súbditos podiam ser e foram fuzilados no dia seguinte por terem aplicado a linha do partido na véspera. Por mim, tento ser continuador daqueles que, quando se deram conta da natureza da besta, não recearam combatê-la e desmistificar as suas imposturas. Um regime de tipo estalinista – para voltarmos a discussões das últimas semanas – é um bom exemplo do tipo de opressão contra a qual o recurso à insurreição e à violência se confunde com a legítima defesa da democracia.
    2. A esquerda à esquerda do centro. Tu próprio reconheces que se trata de uma noção fluida e aproximativa. Eu acho que pode até ser equívoca e servir mais para confundir do que para separar as águas. Não me sinto minimamente próximo, em termos políticos, de quem ache que o regime chinês, norte-coreano ou cubano seja um passo em frente ou nos forneça condições de luta mais propícias do que, por exemplo, o regime que temos. Há “gradualistas” e “reformistas” dispostos a lutar contra os aparelhos hierárquicos estatal e económico bem mais decididamente do que muitos arautos da “violência revolucionária” cujas concepções e práticas antecipam pesadelos.
    3. Ficaram já implícitas atrás algumas das razões pelas quais o critério do “não” perante o actual estado de coisas é insuficiente. Não basta odiarmos as ditaduras ou as oligarquias liberais do capitalismo actual e do seu Estado. Teremos de propor desde o primeiro momento que a politização da revolta e do mal-estar, das frustrações e dos descontentamentos, se faça em termos que sejam já expressões “ideológicas” e “organizativas” de democratização radical e de autonomia. Uma revolução que não seja a extensão e radicalização das liberdades democráticas e da cidadania activa (tendencialmente governante) poderá levar ao derrubamento espectacular de um governo, mas não passará de uma reciclagem da dominação, eventualmente regressiva.
    4. Não me passa pela pela cabeça a ideia de que o 5dias seja uma plataforma ou pré-plataforma política. Digamos que é antes uma espécie de café ou de tasca onde aparecemos para discutir isto e aquilo e trocarmos ideias e experiências. A multiplicação destes espaços colectivos informais é politicamente prometedora, na perspectiva em que me coloco. Com efeito, o espaço de uma ágora aberta e não tutelada, a informalidade dos contactos e conversas na esfera da convivência, dos usos e costumes, são condições necessárias – ainda que não suficientes à falta de vontade política explícita – da afirmação, no espaço público formal de deliberação e decisão, daquilo a que chamo a cidadania governante, enquanto forma de poder político que convém à autonomia e à emancipação da “multidão”.
    5. Mas se os espaços como o 5dias e muitos outros – o Arrastão, os Ladrões de Bicicletas, o Entre as Brumas da Memória, são bons exemplos, mas não mais do que exemplos – são revitalizantes e tónicos, não são politicamente suficientes. A transformação da revolta e da frustração em projecto político de autonomia exige, com efeito, a construção, a seu tempo, de plataformas de princípios e de acção que não teria sentido querermos suprir por meio dos nossos cafés ou tascas, ainda que estes possam contribuir para criar as suas condições de emergência.
    Abç e até mais logo
    msp

  10. nuno castro says:

    mas por que é que o MSP não faz dos seus comentários, posts?

  11. Zé Neves says:

    caro miguel, de acordo. não creio que a dicotomia reforma-revolução esteja simplesmente ultrapassada, será mais complicado do que isto, mas também não creio que ela deva ser o alfa e o omega do que quer que seja. mas a isto voltarei novamente. abç

  12. miguel serras pereira says:

    De acordo, Zé. Eu não digo que a dicotomia esteja ultrapassada sem resto – e muito menos que não haja situações, um pouco por toda a parte, em que as reformas são pouco…
    Mas voltaremos mais tarde ao assunto.
    Abç
    msp

  13. miguel serras pereira says:

    Caro Nuno Castro,
    porque me limitei a entrar numa conversa começada pelo Zé Neves, e entrando nos comentários a discussão se torna mais clara, perceptível e organizada, do que o seria se eu abrisse um post para comentar outro. A multiplicação de posts, quando estes podiam ser comentários, dificulta as coisas, pode deixar muitos sem saber ao certo (por mim falo) que post comentar, impede o aprofundamento e a elaboração das questões. É claro que, ao fim de algum tempo, com os comentários cruzados, as intervenções a despropósito e a simples proliferação espontânea das interrogações e problemas, é aconselhável a abertura de uma nova “mesa”.
    Isto é o que me parece. Mas admito que a minha inexperiência nestas lides blógicas me esteja a induzir em erro.
    Cordiai saudações republicanas

    msp

  14. Pingback: cinco dias » UMA CONFISSÃO

  15. Carlos Vidal says:

    To Stalin e pro-Stalin, definitivamente e depois de lida esta caixa de comentários (e outras do género). Há que começar a “realização” de qualquer coisa. Não há tempo para conversas, conversas e desenhos.

    Não sabes o que isso é talvez, mas Caravaggio nunca desenhou antes da execução de uma tela. Abordagem directa. E sem erros.

  16. marilu says:

    ‘Zemskov documentou que entre 1921 e 1953 foram «reprimidas» quatro milhões de pessoas. De entre elas, o regime soviético fuzilou por motivos políticos cerca de 800 mil pessoas, em concreto 799 455. Também se pôde estabelecer que no momento culminante da repressão stalinista, o «grande terror» dos anos 1937-1938, na URSS foram efectuadas 2,5 milhões de detenções.6 Os seus números são tão impressionantes que, a seu lado, pouco importa que até agora se tenha falado de quase vinte milhões de detenções (a historiadora russa Olga Chatunóvskaia) ou de sete milhões de fuzilados, o número que apresenta Robert Conquest, o historiador ocidental mais conhecido na matéria.’

    De: Original castelhano em jornal La Vanguardia,1 edição de 3 de Junho de 2001
    O verdadeiro terror de Stáline
    Texto Rafael Poch

    Xor Zé Neves,o xor é historiador,não?Se é vá saber antes de falar como um papagaio experto,sobre Staline.E não diga que sou estalinista,pq não o sou,mas o Rigor é essencial.Pelos vistos as forças da Democracia,no Iraque, em pouco menos tempo muito mataram mais que o tenebroso Estaline….

  17. marilu

    Conheces aquela dos Ena Pá 2000 ?

    Ainda esta semana um documentário do Panorama BBC referia que Stalin matou mais pessoas que Hitler.

  18. marilu says:

    antónio cunha meu pikinino(à maneira da drª? manela ferreira leite):por detrás dum grande machista,está um granda paneleiro!
    Bem,me parecia seres um ‘entelectuiali a bem dizer’ da BBC.Procura no ano de 2001 no Lavanguardia.

    Pode ver também,se souber ler ,for intelectualmente honesto(não ernesto!) e depois fale com fundamento.Aqui http://hist-socialismo.net/

    ‘-BBC!paletes deles,fascista!’

  19. Idi na khui says:

    O xor antonio cunha,diz logo ao que vem:debitar sem espirito critico as atoardas da BBC que, como sabemos,ultimamente,também viu as provas irrefutáveis das armas de destruição maciça no Iraque e a limpeza étnica no Kosovo….Estamos falados.É um padre,coitado,das berças.

    Eu também sei as letras dos Ena Pá 2000 como aquela:’Pane,pane,pane,pane,paneleiro/Toma,toma duche no chuveiro….’.Foda-se!Sempre pensei q fossem mais consistentes.Absorvida a propaganda,eis que se torna a verdade!

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