Suaves Bolcheviques

Cheguei, mais uma vez, atrasado ao último debate do 5 Dias. A culpa não será tanto minha, que optei por passar o fim de semana longe do mundo e perto do aquecedor, quanto dos incansáveis escrevinhadores que optaram por passar o Natal a escalpelizar currículos. Como o essencial da escalpelização está feita e rapidamente se concluiu pelo óbvio –  pode-se trabalhar para a MacDonalds e ser-se contra o capitalismo, Ferreira Fernandes deveria ser mais criterioso no uso da sua imbecilidade e cingir-se às crónicas irrelevantes que lhe põem comida em cima da mesa – eu opto por escrever acerca do que mais me fez espécie no texto do Diário de Notícias como no de Pacheco Pereira.

Ao repisar a tecla da genealogia violenta  da esqueda radical e ao fazer dos bolcheviques o seu  incontornável termo de comparação, um e outro cronista disseram muito mais acerca do seu imaginário político do que acerca dos debates do 5 Dias e do Arrastão. Eles são reveladores de uma “weltanschuung(ler com sotaque da alta Baviera) que  passa fundamentalmente por utilizar paradigmas históricos  familiares, encaixando neles factos, protagonistas, discursos e posições relativos a acontecimentos que estão a acontecer no presente. Foi assim que o espectro de Munique se viu agitado em múltiplas direcções, por altura da guerra contra o Iraque, como se Daladier e Chamberlain tivessem regressado para tergiversar relativamente a Saddam Hussein. Ou o anti-semitismo, que volta a entrar em cena de cada vez que o Tsahal prepara novas incursões. E ainda recentemente ouvimos falar dos malefícios do PREC, a propósito da nacionalização da água, dos combustíveis ou da eletricidade.

Não desconheço as virtualidades e possibilidades que este tipo de aproximação permite e calculo que haja exercícios interessantes nesse campo. Limito-me a constatar que isso acontece com uma frequência que não deixa de ser surpreendente e que, mais vezes do que seria desejável, assenta em certezas que a historiografia raramente autoriza.

Ao oferecer-nos o epípeto de «bolcheviques suaves», Ferreira Fernandes veio escrever mais uma linha deste livro. Relações entre política e violência? Tomada do palácio de inverno, terror vermelho, execução do Czar e respectiva família. Eis a visão do mundo em que está aprisionado o cronista. E se Pacheco Pereira, refugiando-se atrás de generalidades, se escusou a desenvolver o seu raciocínio, também ele apontou para uma “tradição revolucionária” da inevitabilidade da violência.

Ora dá-se o caso de este debate ter lugar hoje, em 2009, e não num qualquer outro momento histórico. Hoje, à luz de várias análises desses episódios históricos, com argumentos que colocam novas questões em debate, perante problemas de outra ordem e tendo em conta preocupações de outra natureza. É radicalmente falso que o debate que aqui decorreu, e decorre, acerca da violência, ou da hipótese comunista, ou da melhor receita para um bom goulash (não confundir com um bom gulag), seja uma permanente reedição de um qualquer capítulo da história do movimento operário ou do século xx ou da culinária húngara. E só  quem tem falta de argumentos para nele participar é que se esconde atrás desses tortuosos paralelismos, apostado em transformar a questão num indistinto teatro de sombras. Recuando para encontrar refúgio num episódio histórico que julgam resolvido a seu favor, apenas revelam a sua dificuldade em participar nos debates do nosso tempo, que está aberto a múltiplas interrogações e interpretações, e não encerrado ou fechado para balanço. É para evitar falar do que acontece perante os nosso olhos, para evitar o confronto com a situação histórica concreta em que vivemos, que Pacheco e Fernandes evitam sair de 1917.

Seremos, uns mais e outros menos, suaves. Mas dificilmente «bolcheviques», no sentido em que eles o entendem. Para isso teria sido necessária a asfixiante experiência militante que serve de suporte às  suas reflexões, o insuportável espírito de seita e a permanente economia de inteligência que  caracterizou a sua passagem pela militância  e ainda hoje se detecta no que escrevem. Os seus raciocínios nesse campo soam, alternadamente, ora a um incompreensível dialecto ora a uma interminável oração.  Não admira que ambos tenham medo da palavra «comunismo». No seu imaginário de ex-futuros-aparatchiks, ele nunca foi mais do que a ditadura de um punhado de dirigentes sobre a generalidade da população.  Eu também tenho medo disso. Só que nunca me ocorre chamar-lhe «comunismo» e não consigo imaginar que uma revolução possa resultar nisso sem que ocorra  uma contra-revolução.

E será aí, no fundo, que está a diferença fundamental, que obriga Ferreira Fernandes a ir comer ao MacDonalds sempre que quer dizer alguma coisa importante. Para ele, um revolucionário respeitável é aquele que está disposto a todos os sacrifícios e que obterá como recompensa o governo da sociedade. Bem se vê que os que escapam a esse desígnio nunca tomarão o palácio de inverno nem habitarão o Kremlin. Penso que os Ferreira Fernandes deste mundo se arriscam a ser surpreendidos pela realidade básica de que a história das revoluções não ficou encerrada na Avenida Nevsky. Felizmente para ele, os «bolcheviques» de hoje saberão seguramente ser mais suaves do que aqueles que ele tentou, em vão, emular na sua juventude. Tudo faremos para que nunca lhe venham a faltar gelados nem hambúrgueres. Nem gulag, perdão, goulash.

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10 respostas a Suaves Bolcheviques

  1. Renato Teixeira diz:

    Boa malha… quem é que falou em maré alta no outro dia?

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Ricardo,
    Lendo EH Carr e outros historiadores, e as memórias de muita dessa gente, parece-me bastante simplista a ideia da ‘economia de inteligência’ e ‘espírito de seita’ com que descreves os “velhos” bolcheviques. Digamos, que isso mostra mais acerca do teu imaginário político que propriamente acerca da realidade daqueles militantes. 🙂

    Abraço

  3. xatoo diz:

    houve algum debate no Arrastão?

  4. miguelserraspereira diz:

    Magnífica intervenção, Ricardo. É assim a maré alta do livre-pensamento.
    Lá estava eu a resignar-me à ideia de escrever de motu proprio um post sobre o que é e não é a revolução, e apareces tu a estender-me de bandeja mais um comentário como alternativa.

    Enfim, como tu dizes, a revolução não consiste em entregar o governo da sociedade a um punhado de dirigentes, com ou sem culto da personalidade, nem ao “partido revolucionário”. A revolução é democracia radical, autonomia, república de conselhos ou assembleias igualitariamente abertas à participação de todos os cidadãos que não se auto-excluam, conspirando em vista de reservar a decisão política suprema a um grupo, classe, organização ou corpo profissional particular. Sem dúvida que o poder político revolucionário não pode, sob pena de assinar antecipadamente todas as capitulações, pôr de lado a força – em última análise armada – que garanta a cidadania governante, o exercício do poder pelos cidadãos organizados, contra acções que visem expropriá-los desse poder. A garantia das liberdades e direitos da praça da palavra é a força das milícias dos cidadãos armados (este aspecto foi ainda há pouco discutido nos 5dias mais demoradamente em anteriores intervenções tuas, do Viana e minhas – entre outras – pelo que me dispenso de o explicitar aqui). Assim, num vocabulário grato ao Zé Neves, a revolução é o movimento e o encadeamento das acções através das quais a “multidão” institui os seus membros como cidadãos governantes, detentores do poder político “legítimo” e do controle dos “meios de violência” correspondentes. Não é a substituição de governantes mais esclarecidos, mais “desinteressados”, mais “representativos do bem comum ou da classe explorada”, mais “meritórios” ou “competentes”, aos que anteriormente ocupavam os postos governamentais.

    Do mesmo modo, no plano da actividade económica, a revolução não é a substituição dos proprietários ou companhias privadas pelo Estado e seus especialistas, técnicos ou capatazes de serviço, mas a sua gestão cooperativa e democrática pelo conjunto organizado dos interessados. E é, antes e depois desta transformação radical, a subordinação dos valores económicos e a destruição do primado da economia através do exercício político do poder pela cidadania governante (uma medida preliminar neste sentido será, como não se cansou de propor Castoriadis, a – luta pela – igualização do rendimento, segundo a mesma lógica que preside à atribuição de um voto a cada membro de uma assembleia democrática, com a desmercantilização ou “deseconomização” correspondente da força de trabalho). A subordinação da economia radicalmente democratizada ao poder político do auto-governo dos cidadãos e a destruição do seu primado intervêm aqui como garantindo a liberdade de criação de novos valores, usos e costumes, na dimensão informal da existência colectiva da “multidão”, bem como nas condições de existência de cada um dos seus membros.
    Poderia continuar a explicitar estas ideias, mas o que já fica dito é suficiente para sublinhar certas consequências importantes. Podemos conceber, em princípio, uma acção revolucionária bem sucedida que as circunstâncias não obriguem a recorrer ao uso da força (deter os meios que permitiriam o recurso a ela pode, em certas circunstâncias, ser suficiente). E podemos igualmente conceber um partido de “revolucionários profissionais”, como tu dizes, “dispostos a todos os sacrifícios” (próprios e alheios, embora mais alheios do que próprios), que derrame enchentes de sangue e que nada tenha de revolucionário, apesar de todas as proclamações retóricas nesse sentido, e nada mais possa oferecer-nos como perspectiva além da – para te citar outra vez – “ditadura de um punhado de dirigentes sobre a generalidade da população”.

    Dito isto, dispenso-me da elucidativa digressão que seria entrar na desmontagem dos argumentos de Ferreira Fernandes e JPP. Fizeste-a, quanto aos aspectos em que tocas, como eu gostaria de ter sido capaz de a fazer.

    Caloroso abraço

    msp

  5. viana diz:

    Há outra hipótese, muito provável no caso do JPP: ele até saberá bem as diferenças entre a situação actual e a que existia há 100 anos atrás, e saberá também que as analogias históricas que faz são (bastante) imperfeitas, mas o que lhe interessa não será tanto procurar elucidar os seus leitores sobre os debates que existem à Esquerda, mas antes desqualificá-los de antemão colando-lhes etiquetas que supõe repelentes para quem o lê. Implicitamente, o Ricardo assume que JPP tentou ser honesto na sua análise, dizendo o que realmente pensa, mas não foi suficientemente inteligente para perceber as limitações dessa análise. Eu acho antes que JPP é suficientemente inteligente para perceber o que leu, mas a sua desonestidade intelectual e veia manipuladora levou-o a caricaturizar o debate, tentando com isso reforçar na mente dos seus leitores a ideia caricaturial da Esquerda que lhe interessa que eles possuam. Afinal estamos a falar de alguém que é discípulo de Leo Strauss e apoiante de toda a canga neo-conservadora.

  6. Joaquim Frazão diz:

    Com tanto abraço caloroso começamos a ter uma ideia mais viva do que significa para o Noronha um fim-de-semana à roda do aquecedor.
    O mais confrangedor no Ricardo Noronha é o pôr-se em bicos de pés, constantemente, para chamar a atenção do Pacheco e seus amigos. Atentamos nos seus arrazoados neste e noutro blog e é sempre a mesma música: ei, Pacheco e figurões mediáticos, estou aqui, estou a meter-me convosco, liguem-me, entrem em recontros comigo, por favor. Ainda mais confrangedor é o conteúdo inane do que diz Ricardo, a saber: tudo o que dizes, Pacheco, sobre os bolcheviques e o comunismo, é verdade-verdadinha. Só que só é verdade em relação a ti, não a nós, os dos abraços calorosos. Detectei a moscambilha, fiz a psicanálise política do vosso estalinismo estreito, que ainda se mantém! Irra, mas que grande e inteligente raciocínio!
    Afinal são tão distintos, tão inteligentes, tão fora do espírito de seita e da economia de inteligência, e só são capazes disto?!
    A verdade é que o Ricardo Noronha e o senhor dos abraços não sabem falar de nada, porque não conhecem nada. A ladaínha e a missa são sempre as mesmas. Os ditadores contra os porreiros.
    Viu bem o Ramos de Almeida, que disse quase tudo em duas linhas. Compararem-se, em termos de inteligência e de actuação política, com os velhos bolcheviques? Grandes valentões! Os velhos militantes não estavam a fazer concursos de inteligência e de espírito aberto, atrás dumas teclazitas. Eram homens e mulheres que intervinham no seu tempo, da maneira que sabiam e podiam, e muitos deles, além da actividade quotidiana, poderiam explicar-vos, para vosso espanto, uma teoria física ou química, um movimento artístico ou uma teoria económica. Serão vocês capazes disso? Além do mais, a vida de sacríficio não era uma opção livre entre outras, conscientemente tomada em desfavor de postar aberta e dialogicamente num blog.
    Tanto preconceito junto não é grande mérito para quem se intitula historiador.

  7. Pingback: cinco dias » Uma lição de pintura e uma lição de política: de Caravaggio a Lénine

  8. Niet diz:

    Num texto datado de 1972 que, talvez, o MS Pereira traduziu, Castoriadis aponta e mostra-se rendido que a ” Questão Russa “- Revolução e consulados de Lénine e Estaline- como que se assume como” a pedra-de-toque das posições teóricas e práticas que se reclamam da Revolução: porque é também o filão mais rico, a via real da compreensão dos problemas mais importantes da sociedade contemporânea “, in” Introduction” ao primeiro volume da Sociedade Burocrática, Paris 1973. Fica , aqui, esta nota para separar as águas sobre as teses de manipulação. Niet

  9. Ricardo Noronha diz:

    Repare, Joaquim, que a sua reflexão o coloca numa posição pouco confortável. Se eu me ponho em bicos de pés para chamar a atenção de Pacheco Pereira, você está neste momento a pôr-se em bicos de pés para me chamar a atenção a mim. Cada um tem, suponho, os bicos que merece.
    Mas parece me, ainda assim, que haveria estrategias mais pragmaticas para dialogar com pacheco pereira do que chamar lhe estalinista.
    Eu nao me intitulo historiador. E nao disse a respeito dos bolcheviques aquilo que voce pretende que eu tenha dito. Recomendo lhe uma leitura mais atenta.

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