O destino do terror

O recurso a actos considerados “terroristas” não tem a modernidade que se julga. Se as gerações mais novas apenas ouviram a generalização desse vocábulo desde o início da cruzada de Bush contra os “infiéis”, a verdade é que este epíteto é usado desde a formação do Estado como estrutura formal da organização das pessoas.

No império romano os bárbaros eram os terroristas de então, os escravos que se revoltavam terroristas ficavam, os movimentos anti-coloniais terroristas lhes chamavam. Nos tempos modernos quem desafia a sacrossanta democracia de mercado por fora das instituições e das regras pré-definidas, terrorista é ou terrorista será. Não importa que seja um pacifista que caminha pelas ruas de Seattle, Génova ou Copenhaga, que desce as avenidas com colares da paz e as mãos pintadas de branco erguidas para os céus, ou um mais inquieto anarquista de turno, se a sua forma de acção for além do voto e do abaixo-assinado o mais provável é o seu nome vir a constar numa qualquer lista de potenciais terroristas nesta ou naquela polícia secreta.

Há contudo, em particular desde a explosão do “terrorismo” islâmico, um dilema para os que optam pela difusão do medo na sua acção política. A questão é então sobre o destino do medo. Dois filmes reflectem com muita qualidade esse dilema no interior de duas organizações que marcaram os anos setenta: as Brigadas Vermelhas em Itália e a Facção Exército Vermelho mais conhecida por Baader-Meinhof na Alemanha.

A melhor juventude, uma longa-metragem de Marco Tullio Giordana, mostra como pode ser devastador para uma organização a desfocagem na selecção dos alvos do medo. Giulia, uma das personagens principais, faz parte das Brigadas Vermelhas, e vê a sua acção política destruir a sua vida quando a organização à qual pertence passa ao ataque aos alvos fáceis deixando os verdadeiros responsáveis políticos fora da mira. No complexo Baader-Meinhof, pode ver-se que essa facilitação do destino da acção política leva ao afastamento total da organização relativamente ao estado de espírito germânico. Ainda que sobrevivessem a três gerações de rebeldes, é importante lembrar (e apesar de reaccionário o filme lembra isso) que no início da sua actividade a organização gozava do apoio de um em cada quatro alemães. O mesmo vale para as outras organizações armadas da Europa, da ETA, ao IRA, ou mesmo qualquer organização guerrilheira da América do Sul ou do continente africano.

Sempre que o destino do medo passou a ser populações indefesas ou quadros médios de segunda linha, estas organizações perderam a ponte que as podia ligar às massas, enveredando por um caminho que só podia ter um destino: o isolacionismo.

Se é verdade que o Estado moderno dá poucas oportunidades reformistas, o que levará a prazo ao aumento exponencial dos revolucionários, não é menos verdade que estes têm que ponderar com muita sobriedade a sua acção política, de foram a que ela vá de facto à raiz dos problemas e não se limite a fisgar meia dúzia de abrunhos marginais. É demasiado fácil, demasiado injusto e demasiado improcedente rebentar aviões contra esta ou aquela torre diabólica ou assustar 400 passageiros que viajam na véspera de natal. Este tipo de terror não pode almejar coisa nenhuma e para tal basta perceber que quem o inventou e divulgou não foram integristas islâmicos mas ocidentais convictos que andaram décadas a financiar a demência anti-comunista da burguesia nacionalista árabe, hispânica ou israelita.

Sem nunca ter posto uma bomba nem tão pouco atentado contra a integridade física de ninguém, meia dúzia de berros nas manifestações antiglobalização, meia dúzia de invasões do senado da Universidade de Coimbra e uns empurrões aos fascistas numa missa em homenagem ao Salazar valer-me-ão o título de terrorista para toda a vida. A passagem pelo Bloco de Esquerda e pelo Ruptura FER quase me davam credibilidade democrática, mas para mal dos meus pecados acabei por sair. Como não passa no meu horizonte a capitulação à democracia burguesa não creio que possa gozar da absolvição de outros enfants terribles. Uso este exemplo pessoal para demonstrar que sobram poucas oportunidades aos que querem correr por fora do sistema de evitar o tão pesado como perigoso rótulo de terrorista. Estejamos a falar das diabruras de um “jovem radical pequeno-burguês de fachada socialista” (antecipo desde já a crítica dos ortodoxos de direita e de esquerda), estejamos a falar da ocupação de uma fábrica por um grupo de operários impolutos.

Um dilema e uma reflexão que se torna fundamental numa altura em que o combate à normalidade violenta não mais pode ser feita apenas com o recurso à normalidade apática e atónica das orquestras mudas das instituições. Citando pela enésima vez a Alice de Lewis Carroll a questão é “quem é o chefe” e isso vale mais do que o que os múltiplos significados atribuídos às palavras.

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42 respostas a O destino do terror

  1. ezequiel diz:

    um terrorista da baader meinhof a usar uma uzi…
    ironia q.b


    Sem nunca ter posto uma bomba nem tão pouco atentado contra a integridade física de ninguém, meia dúzia de berros nas manifestações antiglobalização, meia dúzia de invasões do senado da Universidade de Coimbra e uns empurrões aos fascistas numa missa em homenagem ao Salazar valer-me-ão o título de terrorista para toda a vida.

    n sejas ridículo. és comunista. não és terrorista. até parece que gostarias do título.

  2. Diogo diz:

    Excelente post! Quando o Grande Dinheiro tem a soldo os políticos, os Media e os tribunais, alguma coisa terá de se fazer.

  3. Miguel José diz:

    A questão das Baader Meinhof é mais complexa do que isso, e apesar de concordar que o filme não é o melhor que já se fez sobre a RAF – o melhor é um da ZDF/ARD um pouco mais antigo – não é reaccionário apesar de tudo. Demonstra por um lado a desorientação ideológica que estava no seio das RAF e o voluntarismo pela causa e a falta de reflexão política.

    Que na minha modesta opinião foram a causa do seu início e do seu fim.

  4. mesquita alves diz:

    Renato e Diogo,

    A Ryan Air está com belíssimas promoções para a Coreia do Norte.Não percam a oportunidade, têm o direito de serem felizes.
    Boa viagem.

  5. Renato Teixeira diz:

    Ezequiel, não gosto do epíteto mas devo dizer-te que são os critérios quer da polícia quer da bufaria de ocasião. Quanto ao resto, os comunistas (que não apenas os partidários) são aos olhos do regime, terroristas. Isso sim é ridículo, sem dúvida. Essa dos gajos dos B.M. não poderem usar Uzi’s está quase ao nível do Ferreira Fernandes que alega que um anti-capitalista não pode trabalhar para empresas capitalistas. Haverá armas libertárias para além da fisga, do calhau, do sapato e do Duomo?
    Diogo, a questão é precisamente essa. Se “alguma coisa” continuar sem ser feita os donos do grande capital vão continuar a ter o exclusivo do terror e tudo continuará na mesma.
    Miguel José, acho o filme reaccionário mas bom, cinematográfica e até, em alguns casos, historicamente. De acordo quanto à desorientação ideológica não tanto quanto ao voluntarismo. Sem ele, nenhum militante mantém actividade mais do que a meia dúzia de meses de aspirante. Obrigado pela dica do outro mais antigo. Já tinha ouvido falar e assim fico com o nome.
    Mesquita Alves, boa viagem para Singapura… Está mais ao seu jeito. Mas cuidado para não cuspir no chão nem beber uma pinga fora de horas. Ouvi dizer que pode correr mal…

  6. ezequiel diz:

    Caro Renato,

    eu não disse que eles não podiam usar uzi ou ak ou steyr ou o que lhes apetecer.

    estes meninos n me preocupam (a n ser q o filme incite os jovens radicais alemães)

    apenas disse que era irónico. só isso. já viste um revolucionário esquerdista armado com uma M-16?? acho que não. pois, seria irónico, pela mesma razão.

    eu enfiava-lhes uns tiritos com uma AK, no probs!!! ok? satisfeito??

  7. viana diz:

    Estou espantado. Em posts passados o Renato Teixeira apoiou todo o tipo de violência que cheirasse a revolucionária, desde a perpretada durante as revoltas estudantis na Grécia ao murro ao Berlusconi. Agora vem efectivamente afirmar que violência como meio até sim, mas só se permitir ficarmos efectivamente mais perto duma mudança sistémica, ou seja só se tiver interesse estratégico. Pergunto-lhe se a destruição cega efectivada na Grécia ou agressão a Bersluconi criou “a ponte que as podia ligar às massas”?…

    Este post só peca por defeito. Acerta ao dizer que a violência indiscriminada é um erro. Mas em vez de afirmar simplesmente que é legítima desde que planeada com um fim em vista que a justifique, parece afirmar que é legítima desde que atinja os “responsáveis políticos” independentemente das consequências para o fim último que se pretende.

    Independentemente do meio utilizado para se atingir um certo fim, esse meio deve ser utilizado de modo inteligente! Não consigo compreender como é que pessoas inteligentes conseguem apoiar (no sentido: se pudesse voltar atrás devia fazer o mesmo) actos estúpidos cometidos por idiotas, que são autênticas benesses para a oligarquia reinante.

  8. ezequiel diz:

    uns tiritos no Baader M, claro.
    no worries at all.

    ciaozino,
    z

  9. ezequiel diz:

    Renato,

    na história recente de Portugal (nos últimos 20 anos, digamos) JAMAIS ouvi qualquer persona política portuguesa a referir-se aos comunas como Terroristas?? sim, houve ou ainda há as FP-25 etc…mas..hoje…achas que os burgueses consideram os comunas uma cambada de terroristas. n me parece. mas, confesso, sai do país muito novo.

  10. ezequiel diz:

    with love, LOL

  11. Donatien diz:

    Terroristas chamavam os nazis (que por acaso eram socialistas)e os colaboracionistas de Vichy aos homens da Resistência Francesa…

  12. IC diz:

    Não, a questão não é quem é o chefe. A questão é de que vale a violência exercida de forma isolada das acção das populações, presumivelmente revoltadas?
    O uso da violência não pode ser negado, ( senão como se libertaria Timor? ) mas usado no momento em que são as próprias massas a fazê-lo.
    Quando a violência se desenrola sob a forma de terror, sobre as populações indefesas, indiscriminadamente, como foram os actos terroristas do 11 de Setembro ou os atentados em Espanha de 11 de Março, ou as bombas da ETA no aeroporto de Barajas… isso é terror fascista. Essa violência só tem servido para alimentar o imperialismo e a repressão sobre o povo.

  13. Renato Teixeira diz:

    Ezequiel, tem um gosto aprimorado para ler mal as entrelinhas dos meus posts e neste caso o mesmo vale para si, IC. Quando é preciso um tirito, pouco importa se é AK ou UZI. Para a direita e para a esquerda. Tudo depende da pontaria… como dizia o Zé Mário. Acho que o post é claro em condenar abertamente o terrorismo contra “populações indefesas ou quadros médios de segunda linha”. Isso foi precisamente o que aconteceu no 11 de Setembro nos EUA e no 11 de Março em Espanha e acontece quase todos os dias no Iraque e no Afeganistão. Portanto, no meu ponto de vista, depois de saber onde está a justiça importa saber quem e onde está o chefe.
    Viana, não encontro contradição. Bush, Berlusconi e o Papa não são “responsaveis políticos” como lhes chama? De resto nada de novo. Há boa e má violência revolucionária. Sobre a má estamos de acordo, sobre a boa há umas piores e outras melhores. Porventura é aqui que reside o debate. Se quer dou-lhe o meu ranking: O sapato é melhor do que o Duomo e o Duomo melhor do que a mulher. Ou seja, Bush merece mais do que o Berlusconi e o papa mesmo que mereça menos do que os dois também é digno de oferendas.
    Devo dizer-lhe que nos tempos que correm não consigo perceber como é que pessoas inteligentes e de esquerda (os inteligentes de direita percebo que não pensem desta forma) não vejam como positiva qualquer manifestação de repudio aos titulares da coroa. Qualquer atentado (neste quadro) à normalidade. Se o rei vai nu viva quem lhe grita a nudez. Não vejo onde é que a burguesia se fique a rir. Não vejo mesmo. Mas pode ser só falta de esperteza minha.

  14. Renato Teixeira diz:

    Donatien… outro bom exemplo.

  15. miguelserraspereira diz:

    Caro Viana,
    perfeitamente de acordo no essencial, uma vez mais.

    Caro Renato,
    um atentado à normalidade, ainda que “neste quadro”, não é de qualidade garantida; pode ser pior do que a própria normalidade contra a qual atenta, reforçar e agravar as qualidades repressivas do “quadro”, ser regressiva, etc., etc.
    Aqui há uns anos largos, na ressaca do PREC, discutia-se na redacção de um jornal militante se se devia ou não referir elogiosamente um atentado (ou dois, ou três, já não me lembro) que tomara por alvo uma esquadra da polícia em Lisboa (ou mais do que uma, continuo sem me lembrar). O argumento dos partidários do elogio era que, sendo a polícia um pilar do Estado capitalista, qualquer acção violenta contra ela seria revolucionariamente legítima e digna de aplauso. Felizmente (do meu ponto de vista) o argumento não convenceu a maioria (eu não fazia parte do colectivo; limitei-me a ser autor de um ou dois textos publicados no jornal). Dias mais tarde, soube-se que os atentados tinham sido levados a cabo por restos da PIDE/DGS. Para bom entendedor, meu caro…

    msp

  16. viana diz:

    O Renato não parece compreender que o que as pessoas, cidadãos, povo, mais temem é a instabilidade (a não ser que a estabilidade que possuem seja insuportável, o que não é o caso provavelmente para uma maioria de pessoas nas sociedades do tipo ocidental). Em particular, a possibilidade de serem alvo de violência (física). Isto quer dizer que qualquer violência indiscriminada sobre a população, como o terrorismo do tipo 9/11, ou das Brigadas Vermelhas só conseguirá aumentar o apoio ao Poder vigente, visto como único meio de acabar com tal ameaça. E aqui o Renato acerta. Num registo de menor intensidade, foi o que aconteceu com a revolta grega do ano passado. Mas reparei que o Renato evitou mencionar o que pensa desta no contexto do seu post… No entanto, mesmo a violência dirigida contra os “responsáveis políticos” assusta, porque a maior parte das pessoas conhece (ou julga conhecer, tanto faz) exemplos históricos de violência dirigida que rapidamente passou efectivamente a indiscriminada assim que os revolucionários tomaram o Poder. Parece-me ser assim fácil de perceber a acção da PIDE no exemplo dado pelo msp, e que tantas vezes se repetiu ao longo da história. Sugiro que leia sobre o que aconteceu em Itália nos Anos de Chumbo, anos 70-80, por exemplo escreva “Strategy_of_tension” na Wikipedia.

    “Devo dizer-lhe que nos tempos que correm não consigo perceber como é que pessoas inteligentes e de esquerda (…) não vejam como positiva qualquer manifestação de repudio aos titulares da coroa.”

    Mas qual é o interesse?! Por acaso os titulares da coroa perdem Poder, perdem “legitimidade”, respeito ou “status” perante a população? Ou não será o contrário o que acontece? A acção revolucionária não tem como objectivo servir de escape para a frustração.

    “Não vejo onde é que a burguesia se fique a rir.”

    O objectivo da acção revolucionária não é acabar com a festa da burguesia, fazer-lhe a vida miserável. É tirar da miséria aqueles que nela vivem. Não me interessam acções que ponham a burguesia a chorar mas que não tornem mais próxima a mudança revolucionária, e muito menos as acções que ao porem a burguesia a chorar tornem a mudança revolucionária ainda mais longínqua. Pior é possível.

  17. Renato Teixeira diz:

    MSP, erros em política todos acabamos por cometer. Até mesmo com uma política acertada. Acrescento outro exemplo ao que dá. No decorrer das duas mais recentes guerras de ocupação (concorda com o termo?) no Iraque e no Afeganistão, uma das estratégias da oligarquia ocupante foi formar (com tudo o que uma formação ocupante implica) as forças militares com cidadãos nacionais. Não raras vezes foram o alvo de um sector da resistencia islamica. Outros sectores acabavam por escolher mercados cheios de pessoas. Há uma diferença de grau. Para mim o segundo é condenável, o primeiro não. Outro exemplo, na aurora dos movimentos de libertação da generalidade das novas nações africanas (as “portuguesas” e as outras) atentados contra as forças militares coloniais. Condena? Sabemos que quem está atrás desse uniforme não é, de facto, elementos da burguesia coloniadora, recrutados na maior parte das vezes no seio da classe operária, mas ainda assim estamos a falar dos braços dessa tal burguesia coloniadora. Um ultimo exemplo. Na Palestina. Como pode ser vencido o exército israelita sem baixas peões do proletariado?

  18. Renato Teixeira diz:

    msp, pode dar um exemplo concreto do que afirma aqui: “um atentado à normalidade, ainda que “neste quadro”, não é de qualidade garantida; pode ser pior do que a própria normalidade contra a qual atenta”?

  19. Renato Teixeira diz:

    Viana, não procuro fugir ao caso grego. Acho que a anormalidade daqueles protestos é globalmente positiva. Podem ter sectores com os quais não me revejo, mas aprecio globalmente o repúdio à oligarquia grega que tem contribuído, e muito, para o aumento da miséria dos que quer (queremos) salvar.
    O exemplo da PIDE é péssimo. Em Seattle, Genova, etc, etc de manifestações antiglobalização, há infiltrados da polícia a gerar o caos e a atacar os inocentes. A maior parte dos carros queimados nas ruas destas cidades é obra deles. Devo por isso condenar o conjunto das mais progressivas manifestações da década?
    Não vejo outra forma de redistribuir o festim burguês sem retirar o ar te “pargo a olhar de revés” que estes têm no banquete à custa da exploração da maioria. Não defendo estas acções por considerar que elas são a via divina para a revolução. Seria um imbecil se o entendesse. Mas acho fundamental abalar os dominantes. É pouco? Pode ser. Mas pior não é possível.

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  21. carmo da rosa diz:

    Renato Teixeira,

    Vamos lá então substituir essa ‘democracia burguesa’ do grande dinheiro, que só dá Porsches, casa com piscina, apartamentos no Algarve com terreno de golf, uma amante boa com casa posta, férias de verão em Cannes e de inverno em Saint Moritz, lagostas à descrição, vinho do Douro (só Barca Velha!) aí a, vejamos 5% da população. Sempre são à volta de 500.000 pessoas que vivem à grande e à francesa – estamos de acordo?

    E depois de muito tiroteio, assassinatos, atentados à bomba e inspirados num sistema que o autor deste artigo julga muito superior à ‘democracia burguesa’, nomeadamente a ‘ditadura do proletariado’, estes 500.000 pérfidos burgueses, vão ser substituídos pelo autor e mais assim uns tipos do estilo do Arnaldo de Matos e do Diogo. Vão precisar de um politburo + alguns ministros + uns responsáveis da polícia política + uns directores dos vários Gulags espalhados pelo país. Calculo aí à volta de 132 pessoas a viverem à grande e à francesa, ou à Norte-Coreana se preferir, mas vai dar ao mesmo.

    A matemática é implacável e demonstra facilmente que a Democracia Burguesa oferece uma excelente qualidade de vida a muita mais gente que a Ditadura do Proletariado. Por isso, caro Renato Teixeira, ou você me assegura um lugar na lista dos 132, ou eu não o vou votar em si nem o vou apoiar de nenhuma maneira…

  22. Renato Teixeira diz:

    carmo da rosa, lá vem a Coreia do Norte outra vez e os dogmas todos do socialismo real… Alguma vez me leu defender tal projecto político?
    Quanto ao resto esteja descansado que não passa pela minha cabeça acabar com uma elite de meio milhão (pelas suas contas) para a substituir por 131 (pelo paleio não o incluiria a si em tal politburo). A ideia é que a esmagadora minoria das pessoas deixe de espremer a esmagadora maioria.
    Quanto ao vinho pode ser a bela da Cartuxa (só reserva).

  23. Renato Teixeira diz:

    Barca Velha é para cristãos-novos alimentarem o seu novo riquismo e não vale o preço que custa. Prefira os anos impares e disponha sempre que precisar de um conselho vinicola.

  24. miguelserraspereira diz:

    Caro Renato,
    eu não sou pacifista nem condeno todo e qualquer recurso à força. Já o escrevi repetidas vezes neste blogue nas últimas semanas. O problema é que não acho que o recurso à força seja por si só ou em si mesmo um progresso, uma prova de maturidade, uma garantia seja do que for no que se refere ao combate contra a dominação.
    Um atentado à normalidade que piora as coisas? Os exemplos não faltam. Pense no sequestro e execução de Aldo Moro, por exemplo. Na execução de reféns. Nos massacres e práticas de tortura do Sendero Luminoso. Dispenso-me de continuar. Todos estes casos são regressões no sentido de uma barbárie e de formas de acção política que séculos de combates populares e radicais acabaram por obrigar em muitos casos os Estados a pôr de parte ou fora do funcionamento habitual dos “Estado de Direito” oligárquicos.
    Repare, Renato, que estou a discutir casos concretos. Se passarmos para o plano dos princípios, a sua posição argumentativa só piora. Um atentado à normalidade, nas circunstâncias presentes, é sempre de apoiar? OK, porque não abater a tiro o JPP e o FF, juntamente com alguns dos seus familiares e animais de estimação, em vez de lhes responder no 5dias? OK, porque não sequestrar um ou dois ministros e expô-los depois, devidamente mutilados, aos olhos do eleitorado? OK, porque não boicotar a tiro ou a gases tóxicos as próximas presidenciais?
    Nota à margem: considero inaceitáveis as práticas que costumam acompanhar as “guerras de ocupação”; mas não me parece que por isso deva apoiar a das ditaduras nacionais por serem nacionais. A revolução na Palestina não seria a entrega de todo o poder ao Hamas, mas a instauração transnacional na região de uma república – ou federação de repúblicas – de conselhos israelo-árabe que libertasse os palestinianos quer dos ocupantes estrangeiros, quer da tirania dos movimentos integrados por militantes nacionais que fazem guerra ao seu próprio povo.
    Em suma, o critério pelo qual devemos julgar e escolher as formas de luta não é, em primeira instância, o do recurso ou não recurso à violência. Como escreveu o Viana nesta mesma caixa de comentários: “O objectivo da acção revolucionária não é acabar com a festa da burguesia, fazer-lhe a vida miserável. É tirar da miséria aqueles que nela vivem. Não me interessam acções que ponham a burguesia a chorar mas que não tornem mais próxima a mudança revolucionária, e muito menos as acções que ao porem a burguesia a chorar tornem a mudança revolucionária ainda mais longínqua”. O que significa, também, que, violenta ou não, só serão “revolucionárias” as formas de luta que sejam expressões actuais da vontade de democracia – ou de liberdade e de igualdade políticas governantes.

    msp

  25. miguelserraspereira diz:

    Caro Viana,
    MARÉ ALTA

    msp

  26. Renato Teixeira diz:

    caro msp, não me parece que tenha defendido as sugestões que dá aqui: “bater a tiro o JPP e o FF, juntamente com alguns dos seus familiares e animais de estimação, em vez de lhes responder no 5dias? OK, porque não sequestrar um ou dois ministros e expô-los depois, devidamente mutilados, aos olhos do eleitorado? OK, porque não boicotar a tiro ou a gases tóxicos as próximas presidenciais”.
    Carrero Blanco, assassinado pela ETA, condena ou aprova? Enfraqueceu ou fortaleceu o franquismo? Quando cita o Sendero esqueceu o que havima balizado (“neste quadro”) pois o Sendero sujeitou muitos populares indefesos à sua “lei” e à sua “força”. Mas tem razão que no debate prático cada um busca os exemplos que suportam as suas teses. Prefiro a violência revolucionária, de massas e de preferencia de classe. A questão é que à falta de consciência de classe, à falta de luta de massas, não me parece que passar a vida em demarcações faça sentido.
    De facto, um dos motivos que me leva a ser revolucionário é o desejo de acabar com o festim de uma extrema minoria feita à custa da exploração da absoluta maioria. Não acredito em revoluções feitas sem acabar com o banquete.
    “Conselhos israelo-árabes” é o que não tem faltado em 50 anos de luta contra a ocupação da Palestina. Por analogia, defende um conselho americo-iraquiano ou américo-afegão como solução para o Iraque e para o Afeganistão?

  27. miguelserraspereira diz:

    Caro Renato,
    eu não disse que você tinha defendido os exemplos que lhe dei de “atentados” que são contra a “normalidade” e pioram as coisas. Limitei-me a querer mostrar-lhe, por meio de exemplos que já sabia que você não aprovaria, que a sua fórmula não nos fornecia qualquer critério de juízo político aproveitável.
    Aprovo o atentado contra Franco e também o que o meu amigo Emídio Santana protagonizou contra Salazar – como aprovaria um atentado contra o rei m-l da Coreia do Norte, contra Estaline, Ceausescu e outros ditadores daquilo a que os trotquistas davam o bizarro nome de “Estados operários degenerados”.
    Acho pouco prática a ideia de verdadeiros sovietes americano-iraquianos – mas não lhe poria objecções de princípio. E defendo do mesmo modo uma federação de repúblicas conselhistas ibéricas ou indiano-paquistanesas, etc. E você acharia bem ou não que os povos da Europa fizessem pressões sobre os seus governos, exigindo auxílio para os manifestantes iranianos?
    Saudações republicanas

    msp

  28. Renato Teixeira diz:

    Uma vez mais, msp, os exemplos que dá não estão dentro do critério que defini.
    O caso iraniano é muito complexo. Tal como na Polónia a amplitude política e social dos que se organizaram no sindicato Solidariedade (e no caso iraniano entre os verdes) de Walesa, iam desde o católico ortodoxo até aos trotskistas (neste caso nada os impediu de fazer unidade contra o Estado operário burocratizado. O que o perturba nesta caracterização. Acha que eram Estados burgueses?). Tenho dúvidas sobre o carácter anti-imperialista do governo iraniano, especialmente com a falta de apoio que têm demonstrado na causa palestiniana. Agora se Israel tem a bomba atómica, e a Índia, e os EUA, porque não lhes há-de ser reconhecido esse direito?
    Também atentaria contra Estaline e o rei da Coreia do Norte… assim como assim evitava que eles atentassem primeiro contra mim.

  29. miguelserraspereira diz:

    Caro Renato,
    vamos lá ver se me explico melhor.
    1. Imaginemos que os guerrilheiros afegãos, insurgindo-se contra os seus chefes, confraternizavam com os soldados americanos, que teriam posto os seus generais fora de acção. Qual era o problema de instituírem uma república de conselhos? E que outra solução seria idealmente melhor do que uma república de conselhos para a causa palestiniana e para o problema de Israel? É uma perspectiva sem probabilidades de êxito no plano imediato? Sem dúvida. Mas há passos menores que têm sido propostos dos dois lados e que melhorariam as coisas. Penso em Edward Said – ou na velha sobrevivente do Holocausto que entrou em greve da fome, para reclamar o acesso internacional à Faixa de Gaza.
    2. Aquilo a que você chama “Estados operários burocratizados” eram regimes que mantinham o essencial da exploração capitalista (separação entre os produtores e os meios de produção, disposição da mais-valia extorquida aos trabalhadores, divisão do trabalho, hierarquia de rendimentos e meios de acesso ao consumo), agravando as condições reservadas aos trabalhadores pelos Estados capitalistas liberais e anulando conquistas decisivas dos movimentos operários e radicais. Sendo assim, você acha que em Portugal, antes do 25 de Abril, seria descabido o apoio dos revolucionários de todos os países aos movimentos de rua contra Salazar (por exemplo, por ocasião do caso Delgado), uma vez que a oposição a Salazar era socialmente heterogénea ou não se processava sob uma “direcção de classe” inequívoca?
    3. Ninguém tem direito a ter a bomba atómica. O seu uso é injustificável. É uma arma contra-revolucionária e anti-democrática por excelência. Você acha que seria realmente desejável a sua proliferação? Que perspectivas revolucionária poderia ela trazer?

  30. Renato Teixeira diz:

    msp,

    1
    Acho uma óptima noticia a greve de fome de uma mulher que sobrevivendo ao holocausto como judia se junte à luta contra o holocausto palestiniano. No mesmo sentido defendo a vitória militar do governo palestiniano que, goste-se ou não, é do Hamas. O mesmo não significa dizer que concorde com a instauração de uma republica islâmica. Não acho viável a solução de conselhos israelo-palestinianos. Nem hoje nem no futuro. Hoje acho possível a resistência armada e a solidariedade internacionalista, amanhã um Estado laico onde cada pessoa valha um voto.

    2
    Acho que é correcta a formulação trotskista. Fidel é um burocrata bonapartista desde a aurora da revolução cubana. Ainda assim durante muitos anos Cuba tinha muitas características de um Estado Operário. Degenerado e burocratizado, por certo, mas nunca burguês. Igual com os primeiros anos da Revolução Chinesa, Russa, etc, etc. Tanto mais razão tinham os trotskos que a degeneração e a burocratização levaram, com o passar dos anos, ao retrocesso e de novo ao Estado burguês. Hoje não há quase ninguém trotskista (uma ou outra seita na América do sul e na Europa, dissidências de dissidências de dissidências) que ainda mantêm essa caracterização. A degeneração e a burocratização conduziu ao capitalismo de Estado. Não é preciso uma direcção de classe inequívoca… aliás quase nunca isso acontece, mas é preciso que se enfrente às suas tiranias sem capitular ao imperialismo. E essa é a minha dúvida sobre o que querem os verdes do Irão.

    3
    Que todos acabem com a bomba atómica. Se não acabam todos, todos têm direito. O que mais me perturba é o exclusivo nuclear dos dominantes. Fico mais descansado com a equidade nesta matéria? Fico. Resolve o problema? não.

  31. carmo da rosa diz:

    @ Renato Teixeira: «lá vem a Coreia do Norte outra vez e os dogmas todos do socialismo real… Alguma vez me leu defender tal projecto político?»

    Caro Renato, que culpa tenho eu que o socialismo real só tenha dogmas, Gulags e Killing Fields para vender? O seu problema é que você não tem nenhum projecto político. Ou melhor, tem sim senhora, mas pelo seu paleio nota-se perfeitamente a semelhança com os estafados dogmas da Coreia do Norte – ou da Roménia de Ceausescu, se preferir…

    «A ideia é que a esmagadora minoria das pessoas deixe de espremer a esmagadora maioria.»

    E que garantias é que você dá, caso detenha o poder, depois de muito tiroteio e atentados – porque já percebi que não tem paciência para esperar resultados de eleições (uma burguesisse) – que não vai espremer a esmagadora maioria?

    Não, pelo paleio nota-se logo que o Renato é Santo! Vai vender a garrafeira para comprar leite em pó para dar aos pobres da sua rua… E se não chegar, obriga a namorada e a irmã a dar o peito aos restantes..

    Não me quer incluir na sua lista do politburo e faz muito bem, porque se há coisa que eu não gosto é de seitas e Testemunhos de Jeová.

  32. Renato Teixeira diz:

    carmo rosa, salvaguarde a sua posição política do insulto e da brejeirice. Nem santo, nem politburo, nem Ceausescu nem Coreia do Norte. O poder ao povo que é coisa que eleição nenhuma vai dar e coisa que pelo paleio por certo não deseja. Prefere que sejam as seitas oligarquicas que continuem a mandar em tudo.
    Não tenho garrafeira, só bom gosto.

  33. miguelserraspereira diz:

    Caro Renato,
    está à vista que é a falar que a gente se entende, e acho que vale a pena. Mas vamos lá por pontos.
    1. De acordo com quase tudo. Mas preferiria uma “república laica” e, se possível, conselhista ao simples “Estado laico”.
    2. Falar da degenerescência de uma revolução pode ser uma maneira correcta de descrever um processo. Falar de “Estado operário degenerado” ou “burocratizado” para caracterizar o regime que resultou da derrota da revolução não faz grande sentido e engendra águas turvas, demasiado turvas, para meu gosto. Idem para a formulação mais elaborada da tese: a ex-URSS teria sido um Estado cujas bases eram socialistas, mas cuja burocratização, não pondo em causa a natureza socialista e progressista da sua economia, exigiria uma “revolução política”, e já não uma “revolução social” completa – ao contrário dos países capitalistas “burgueses”, nos quais as duas revoluções seriam necessárias. Como se a nacionalização ou propriedade estatal dos meios de produção fosse a sua socialização, como se pudesse ser socialista uma economia gerida por um poder anti-operário e anti-popular, como se um Estado burocratizado e ditatorial pudesse garantir a propriedade propriamente pública daquilo que possuía.
    3. Quanto à bomba atómica, também não estamos de acordo. O que me parece desejável é batermo-nos pela sua eliminação, declarando que a ninguém assiste o direito de a ter. Multilateralizar ao máximo uma nova versão de equilíbrio do terror parece-me quase suicida. Bem sei que esta divergência acaba por ter origem em preocupações ou comuns ou não antagónicas. E espero que continuemos em breve esta conversa.
    Cordiais saudações republicanas
    msp

  34. Renato, em Coimbra nunca (ok, pelo menos nos tmepos que lá andei) foste visto como terrorista e se alguém to disse, foi apenas para te espicaçar. Radical sim, mas há tantas formas de o ser (e sê-lo depende tanto de quem o diz como daquilo que se defende) que o epíteto nada significa.

    Quanto a essa treta de escolher alvos, estamos no limiar do ridículo. Quem escolhe os alvos? Os elementos dos grupos? Então a selecção é teoricamente tão arbitrária e válida no caso de se escolher o presidente do conselho de administração da Mercedes-Benz como caso se escolha um carteiro de Pádua. O grupo discutirá os alvos e, suponho, votará sobre quais atacar. Se alguém argumentar que o carteiro é um lacaio das forças capitalistas e que merece a morte tanto quanto o presidente do conselho de administração, quem é que tem legitimidade para dizer que não? E se o grupo votar as opções e apoiar essa hipótese? É óbvio que, nesse caso, fará sentido defender a opção mais fácil.

    Eu tenho uma posição mais simples: são todos terroristas (sem aspas) e criminosos que devem ser postos na prisão com os outros criminosos, como ladrões, violadores e vândalos neo-nazis. Falar em bárbaros nos tempos dos romanos neste contexto é demonstrar absoluta ignorância de história ou desconversar de forma desonesta. Ignorante nunca me pareceu que fosses.

  35. Renato Teixeira diz:

    msp… vale sempre a pena falar. Sou um tagarela nato e adepto do desporto em causa.

    Sobre o ponto um estamos de acordo então. Não vale a pena citar meia duzia de conselhistas que conheço mal o conceito e não me atiraria de cabeça nesta discussão consigo pois começaria derrotado. Do pouco que li parece-me uma forma mitigada para dizer sovietes. E se tenho quase tudo contra o estalinismo não tenho quase nada contra os sovietes.
    Sobre o ponto dois também me parece que afinal tem acordo com a formulação trotskista. Um Estado operário degenerado e burocratizado é obviamente contra-revolucionário. Não há ai uma contradição.
    No terceiro ponto o acordo parece mais distante. O que votaria no referendo contra o direito à posse de armas no Brasil? Imagino que contra. Pois eu digo-lhe que votaria a favor. Não vejo, por mais que me esforçe, onde é que as populações têm a ganhar ao delegar no Estado (este que temos) o direito exclusivo ao uso da força. Igual com a reaccionária bomba atómica.

    João André… não falo do que se diz nas ruas de Coimbra, nem do paleio imbecil deste ou daquele trupista (sentido lato). Falo dos critérios da policia em particular desde o 11 de Setembro. Sabia que os manifestantes antiglobalização enfrentam quase sempre esse espectro na barra dos tribunais. Igual com os putos de Silves. Igual no activismo dos bairros perifericos de lisboa.
    O paralelo entre os barbaros do tempo dos romanos e os desobedientes de hoje não é desonesto. É o que temos. A psiquiatrização dos desalinhados, essa sim, é desonesta. Aconteceu com os barbaros, como acontece com os desviantes dos tempos modernos. De igual maneira? Obviamente que não, e como também não o tenho por ignorante, sei que sabe que não era esse o objectivo do paralelo. Obrigado pelo elogio mitigado.

  36. miguel serras pereira diz:

    Caro Renato,
    vejamos então melhor. Eu também não acho que os cidadãos devam delegar o uso e a administração dos meios de violência no aparelho de Estado hierárquico e nas suas entidades competentes. Até porque acho que a cidadania democrática governante passa pelo desmantelamento das actuais hierarquias estatais, e pela construção de um poder político igualitariamente exercido por todos aqueles que vincula. A destruição da sociedade de classes passa pela igualdade no exercício do poder político – é o que tenho sempre defendido neste blogue. Dito isto, este poder político continuará a ser poder e a regular o recurso ao uso da força. Este só será legítimo se autorizado ou estipulado pelas decisões dos cidadãos organizados ou empreendido pelas suas milícias.
    Assim, não me parece que conceder a cada cidadão o direito a ter uma arma ponha em causa o monopólio estatal que hoje conhecemos. Poderá até contribuir para o seu reforço. Pessoalmente, não sou adepto do proibicionismo na matéria: mas o direito ao porte de arma não nos aproxima, por si só, um milímetro que seja do fim da opressão dos aparelhos de Estado hierárquicos. E depois, no caso do referendo brasileiro, há problemas do tipo: todos têm o direito de andar armados – mas até que ponto? Os mais ricos poderão comprar metralhadoras, carros de assalto, pequenos mísseis, etc. – ou terão de se limitar a comprar a canhota pouco eficaz acessível aos que têm menos dinheiro? E os que não têm dinheiro, deverão ser armados pelo Estado? A este propósito, tudo o que não seja o exercício do poder pelo conjunto dos cidadãos organizados, subordinando às suas decisões a força pública, e assumindo o seu exercício, é muito escorregadio No referendo – figura que não aprecio particularmente porque nos obriga a escolher entre termos já dados e que não podemos redefinir através de um confronto efectivo de propostas -, talvez me abstivesse.
    Sobre a bomba atómica, a solução é acabar com ela. Tentar pelo menos, até descobrirmos como. É como a pena de morte. O facto de existir e ser praticada por uns não justifica que outros tenham o “direito” de a adoptar.
    Continuaremos a discussão daqui a nada – já para o ano, provavelmente.
    Excelente 2010 – e um abç

    msp

  37. carmo da rosa diz:

    Caro Renato, esta sua lusitaníssima mas complexa sensibilidade denota uma esmerada educação burguesa. infelizmente – e acredito perfeitamente que não foi assim que os seus pais o educaram – foi misturada mais tarde com muito romantismo niilista russo do século 19.

    Ó minha Nossa Senhora, então você, que faz o apanágio da violência, do tiroteio e dos atentados, clama brejeirice e insulto, quando da minha parte apenas se tratava de leve e inocente ironia?

    Voltando ao povo.

    Com que então você nem politburo, nem Ceausescu, nem Coreia do Norte! Mas afinal o que quer Santo Deus? UMA CRIADA PARA CADA CRIADA?

    Você não entende que o povo não quer, nem com molho de tomate, as suas fantasias niilistas que você partilha com meia-dúzia de amigos. Por isso é que a coisa tem que ser impingida com muito tiroteio e atentados. Sem terror ninguém quer as suas propostas políticas, muito obrigado…

    Você anda muito enganado, o povo quer Democracia Burguesa, a única que garante liberdade e qualidade de vida. A única que recebe refugiados dos outros sistemas e regimes políticos que você e os seus amigos defendem. E se não defendem abertamente fazem-no de forma hipócrita: criticando constantemente e violentamente a Democracia Burguesa ao ponto de não restar outra alternativa aos Killing Fields ou à Sharia…

    Espero que em 2010 reconsidere e tenha piedade do povo….

  38. Renato Teixeira diz:

    msp, acha “que os cidadãos devam delegar o uso e a administração dos meios de violência no aparelho de Estado hierárquico e nas suas entidades competentes” mas abstinha-se no referendo sobre essa exclusividade no Brasil. Qual é o critério? Igual para a questão nuclear. Pode concretizar qual o toque de Midas? De acordo quanto ao resto.

    Carmo da Rosa, sem dívida tenho uma “esmerada educação” mas não é “burguesa”, é pequeno-burguesa e não vejo o que esse facto clarifica o debate. Já o romantismo niilista acertou muito ao lado. Rússia sim, mas seculo vinte. E algures entre 1905 e 1930. Sempre com os sovietes nunca com os burocratas. Mas uma vez mais… o debate era outro. Ainda bem que acha uma “leve ironia” falar do destino do leite de peito da minha irmã e namorada. Deixa-me completamente à vontade para dissertar sobre o peito e o leite das suas. Quanto ao que quero por certo se me ler com atenção vai percebendo (por certo não concordará..) mas verá que nada tem que ver com os projectos degenerados do socialismo real. Quanto ao facto de a democracia burguesa se a única que garante qualidade de vida diz tudo sobre a sua origem de classe. Tal como no meu caso, não me posso queixar dos privilégios, mas a questão são os outros, OS OUTROS. E neste particular, nunca se esteve tão mal. Nunca mesmo. Mas este debate você anda a ter com O Carlos Vidal noutro post, e estou certo que ele é mais do que suficiente para o convencer sem a minha ajuda. Para 2010 procure você a piedade que estou certo está bem mais carenciado do que eu.

  39. miguel serras pereira diz:

    Caro Renato,
    o primeriro ponto é o seguinte: a liberalização da venda de armas e do porte de armas faz apenas com que cada indivíduo tenha acesso ao uso e porte de arma a título individual e privado – ainda por cima, inigualitariamente: quem tem mais dinheiro pode comprar mais e melhores armas, etc.
    Em segundo lugar, o “povo em armas” não significa que cada cidadão receba uma arma para seu uso particular e privado; significa que todos os cidadãos têm o direito e o dever de participar nas milícias democráticas e nas suas tarefas. Nenhum deles pode servir-se para fins privados – de intimidação, vingança, etc. – das armas da cidade de que seja depositário. Significa o fim das forças armadas profissionais e de um corpo especializado que monopoliza a segurança e a defesa ao serviço e em cooperação com um poder político hierárquico.
    Espero ter sido claro, agora.
    Um abç
    msp

  40. Renato Teixeira diz:

    msp, não lhe faltava clareza apenas identifiquei alguma contradição entre as duas posições citadas. De todos os exemplos que dá acha mesmo que a ilegalização “do povo em armas” previne qualquer que seja a vingança ou intimidação particular ou cooperativa? O acesso desigual também não acontece no mercado negro?

  41. miguel serras pereira diz:

    Meu caro Renato,
    deve ser gralha sua, ou então não compreendo: eu não falei de ilegalização do povo em armas. Disse que a ideia do povo em armas é a de milícias populares, que assumem a defesa e a segurança dos cidadãos através da participação dos cidadãos auto-governados, e não a ideia de uma legitimação universal do recurso aos meios de violência como forma de afirmação dos interesses individuais e particulares.
    Não há sociedade que não tenha de regular o recurso às armas. Nós batemo-nos ambos, quero crer, pela implantação de um poder político que subordine essa regulação e controle à decisão dos cidadãos democraticamente auto-organizados, tendo em vista entre outras coisas as regras da sua convivência e cooperação. Estamos assim de acordo no essencial, e talvez possamos retomar esta discussão noutra altura, talvez a partir de outras questões, para não nos repetirmos mais. Ou, um dia destes, conversamos de viva voz, a ver se conseguimos avançar mais facilmente.
    Abç
    msp

  42. Renato Teixeira diz:

    Combinado. Abraço e bom ano.

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