Lembrar e acabar com o Gueto de Gaza

Concentração contra a ocupação israelita e pelo fim ao cerco de Gaza.

Dia 30 de Dezembro, quarta-feira, às 16h no Largo Camões – Lisboa

Faz esta semana um ano desde que iniciou a mais recente iniciativa militar em Gaza.
Recordo aqui em anexo e a propósito a minha reportagem na Faixa de Gaza (nomeada para o Prémio Direitos Humanos e Integração), oportunamente divulgada neste blog pelo NRA. 

Documentário e Fotoreportagem (Focus 2008)

Como tive que escrever umas linhas para a eventualidade de passar de nomeado a laureado (o que acabou por não acontecer), aqui as deixo uma vez que gosto pouco de ideias metidas na gaveta. Deixo igualmente a minha indignação por não ter sido dada a palavra aos vencedores quando dois membros e meio do governo (Jorge Lacão, João Cravinho e Oliveira Martins) falaram sem freio nem de tempo nem de pudor. 

Para quê laurear ou nomear se nem cinco minutos da atenção é concedido aos jornalistas cujo testemunho pode ser esclarecedor em tantas matérias relativas aos Direitos Humanos? 

As palavras associadas a uma nomeação como esta atribuída pela Unesco, o ACIDI e o Gabinete para os Meios de Comunicação Social, implicado com a defesa dos direitos humanos, não podiam deixar de ser pesarosas, pouco dóceis, quando ilustradas pela realidade vivida na Faixa de Gaza. 

Um milhão e meio de palestinianos vivem fechados, num verdadeiro gueto, sem acesso às mais básicas condições de humanidade. Israel e o Egipto tratam este pequeníssimo e sobrelotado território como uma gigantesca prisão de palestinianos, sujeitos diariamente ao seu genocídio organizado.  

Todos louvam as descrições apaixonadas dos repórteres que, arriscando as suas vidas, levaram a todo o mundo a verdade sobre as muitas portas de Auschwitz, o 11 de Setembro ou o derrube da estátua de Saddam em Bagdad, mas todos tomam com desconfiança quem relata o conflito entre Israel e a Palestina tomando partido de quem está sob ocupação. O bom jornalismo de guerra deve pelo menos partir da presunção da inocência do mais fraco. Um jornalista no Iraque ou no Afeganistão não deve ir comprometido com as tropas da coligação liderada pelos EUA. 

A vigilância sobre os direitos humanos é por esta razão mais importante no agressor do que no agredido, pela escala e potência da sua acção associada. E isso acontece cada vez menos fruto da relação de poder no interior dos meios de comunicação e da relação destes com o poder e fruto das dificuldades acrescidas que implica reportar qualquer que seja o território sob ocupação. 

Assim sendo, quando se escreve sobre Gaza, mesmo um simples acto jornalístico tem em si uma enorme carga política. Os termos que escolhemos, quem ocupa e quem é ocupado, quem ataca e quem retalia, cada palavra é um acto de guerra que se trava de razões também na batalha pelo espaço mediático e consequentemente pela opinião pública.  

O Media Group da Universidade de Glasgow, que notabilizou-se pela análise da comunicação social, publicou um estudo sobre os relatos do conflito israelo-palestiniano. Pilger, um dos melhores no jornalismo, afirmou que as conclusões deveriam ser leitura obrigatória nas salas de redacção e nas escolas de comunicação. O estudo diz que raramente é dito ou escrito que os palestinianos são vítimas de uma ocupação militar ilegal. A expressão “territórios ocupados” nunca é explicada. Na realidade, apenas 9 por cento dos jovens entrevistados sabiam que os “colonos” eram israelitas. A utilização selectiva da linguagem é importante. O estudo descobriu que palavras como “assassínio”, “atrocidade”, “linchamento” e “massacre a sangue-frio” eram utilizadas apenas para descrever mortes israelitas. Não encontrámos quaisquer relatos [noticiosos] a declarar que ‘Os ataques palestinianos foram em retaliação pelo assassinato dos que resistem à ocupação israelita ilegal’ “.  

No Oriente Médio são sempre os árabes que atacam primeiro e é sempre Israel que se defende. A matança de Israel chama-se “legitima defesa”, mas já as palestinianas são baptizadas de “terrorismo”. Quando nos referimos a Israel, são proibidas as expressões como “Territórios ocupados”, “Resoluções da ONU”, “Violações dos Direitos Humanos” ou “Convenção de Genebra”. 

Ao acabar a reportagem partilhei com o leitor algumas inquietações que vale a pena recordar: 

“Ao sair da Faixa de Gaza, fica a sensação de que algo maior está na iminência de acontecer. O exército israelita vai optar por uma intervenção terrestre? O cerco é para isolar o Hamas ou para desmoralizar os palestinianos e levá-los ao exílio? Israel quer a Palestina sem palestinianos?” 

A resposta foi dada até ao final do ano: Um verdadeiro massacre. Durante semanas as bombas do exército e da aviação israelita choveram sobre a população de Gaza, dia e noite, sem possibilidade de abrigo nem de fuga. Bombas proibidas pela Convenção de Genebra, com urânio empobrecido ou com fósforo branco. Esse ataque foi um episódio na longa séria de punições colectivas infligidas ao povo palestino, para o castigar por ter escolhido livremente o seu governo (Hamas) e para aceitar as exigências da potência ocupante. Há três anos que a Faixa de Gaza está submetida a um bloqueio total por parte de Israel. 

A oportunidade da vossa atenção ainda que por breves momentos (ninguém acabou por ter tal privilégio) não podia deixar de ficar ao serviço de novas reportagens, seja em Gaza seja noutros locais do mundo onde a palavra liberdade não esteja a ser bem pronunciada. Nenhuma complacência deve ser tida com os carcereiros da verdade e o governo português não pode patrocinar prémios pelos direitos humanos uma vez por ano e financiar todos os outros dias várias frentes de guerra. Não basta parecer sério.

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6 respostas a Lembrar e acabar com o Gueto de Gaza

  1. marilu diz:

    Pq uma intervençaõ à Manel João Vieira e mandá-los para a cona da mãe deles?pra chocar e passar o ónus da culpa para os palestinos-é q os burgueses costumam dizer’com esta argumentação não têm razão’.
    De facto,estes srs do ps são extenções dum traficante de armas para a Unita,apoiada pelos racistas sul-africanos…Em Benguela o racista do savimbi perguntava em umbundu se seria possivel viver cabras com galinhas na mesma capoeira-deixemos de merdas,foi o mari soares e seu filho que partiu atromba no avião carregado de dentes de elefante e diamantes.Há que chamar aos bois pelos nomes e afastá-los de uma vez por todas das ‘operações’ caritativas…desses srs.
    O tempo é de confrontação,o gozo tem sido demasiado e o LUCRO desse lumpen também

  2. Renato Teixeira diz:

    Sobre PS’s e Unitas dedico o próximo post. Apareça por lá Marilu. http://5dias.net/2009/12/28/sem-titulo-ou-titule-voce-mesmo/

  3. karen melo diz:

    DENÚNCIA: SÍTIO CALDEIRÃO, O ARAGUAIA DO CEARÁ – UMA HISTÓRIA QUE NINGUÉM CONHECE PORQUE JAMAIS FOI CONTADA…

    “As Vítimas do Massacre do Sítio Caldeirão
    têm direito inalienável à Verdade, Memória,
    História e Justiça!” Otoniel Ajala Dourado

    O MASSACRE APAGADO DOS LIVROS DE HISTÓRIA

    No município de CRATO, interior do CEARÁ, BRASIL, para quem não sabe, houve também um crime idêntico ao do “Araguaia”, contudo em piores proporções, foi o MASSACRE praticado por forças do Exército e da Polícia Militar do Ceará no ano de 1937, contra a comunidade de camponeses católicos do Sítio da Santa Cruz do Deserto ou Sítio Caldeirão, que tinha como líder religioso o beato “JOSÉ LOURENÇO”, paraibano de Pilões de Dentro, seguidor do padre Cícero Romão Batista.

    O CRIME DE LESA HUMANIDADE

    A ação criminosa deu-se inicialmente através de bombardeio aéreo, e depois, no solo, os militares usando armas diversas, como fuzis, revólveres, pistolas, facas e facões, assassinaram mulheres, crianças, adolescentes, idosos, doentes e todo o ser vivo que estivesse ao alcance de suas armas, agindo como se ao mesmo tempo, fossem juízes e algozes.

    A AÇÃO CIVIL PÚBLICA AJUIZADA PELA SOS DIREITOS HUMANOS

    Como o crime praticado pelo Exército e pela Polícia Militar do Ceará foi de LESA HUMANIDADE / GENOCÍDIO / CRIME CONTRA A HUMANIDADE é considerado IMPRESCRITÍVEL pela legislação brasileira bem como pelos Acordos e Convenções internacionais, e por isso a SOS – DIREITOS HUMANOS, ONG com sede em Fortaleza – Ceará, ajuizou no ano de 2008 uma Ação Civil Pública na Justiça Federal contra a União Federal e o Estado do Ceará, requerendo que: a) seja informada a localização da COVA COLETIVA, b) sejam os restos mortais exumados e identificados através de DNA e enterrados com dignidade, c) os documentos do massacre sejam liberados para o público e o crime seja incluído nos livros de história, d) os descendentes das vítimas e sobreviventes sejam indenizados no valor de R$500 mil reais, e) outros pedidos

    A EXTINÇÃO SEM JULGAMENTO DE MÉRITO DA AÇÃO

    A Ação Civil Pública inicialmente foi distribuída para o MM. Juiz substituto da 1ª Vara Federal em Fortaleza/CE e depois, redistribuída para a 16ª Vara Federal na cidade de Juazeiro do Norte/CE, e lá chegando, foi extinta sem julgamento do mérito em 16.09.2009.

    AS RAZÕES DO RECURSO DA SOS DIREITOS HUMANOS PERANTE O TRF5

    A SOS DIREITOS HUMANOS inconformada com a decisão do magistrado da 16ª Vara de Juazeiro do Norte/CE, apelou para o Tribunal Regional da 5ª Região em Recife, com os seguintes argumentos: a) não há prescrição porque o massacre do Sítio Caldeirão, é um crime de LESA HUMANIDADE, b) os restos das vítimas do Sítio Caldeirão não desapareceram da Chapada do Araripe a exemplo da família do Czar Romanov, que foi morta no ano de 1918 e encontrada nos anos de 1991 e 2007;

    A SOS DIREITOS HUMANOS DENUNCIA O BRASIL PERANTE A OEA

    A SOS DIREITOS HUMANOS, a exemplo dos familiares das vítimas da GUERRILHA DO ARAGUAIA, denunciou no ano de 2009, o governo brasileiro na Organização dos Estados Americanos – OEA, pelo desaparecimento forçado de 1000 pessoas do Sítio Caldeirão.

    A “URCA” E A “UFC” PODEM ENCONTRAR A COVA COLETIVA

    A Universidade Regional do Cariri – URCA, pelo Laboratório de Pesquisa Paleontológica – LPPU e a Universidade Federal do Ceará com seu RADAR DE PENETRAÇÃO NO SOLO (GPR) do Laboratório de Geofísica, podem encontrar a cova coletiva, pois têm tecnologia para tal.

    A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR

    E porque ninguém deseja procurar a COVA? Seria porque as vítimas são “meros nordestinos católicos”?

    COMISSÃO DA VERDADE ATRAVÉS DO PROJETO CORRENTE DO BEM

    A SOS DIREITOS HUMANOS pede que todo aquele que se solidarizar com esta luta que repasse esta notícia para o próximo internauta bem como, para seu representante na Câmara municipal, Assembléia Legislativa, Câmara e Senado Federal, solicitando dos mesmos um pronunciamento exigindo que o Governo Federal informe a localização da COVA COLETIVA das vítimas do Sítio Caldeirão, ou nos apóie com suporte técnico para encontrá-la.

    Paz e Solidariedade,

    Dr. OTONIEL AJALA DOURADO
    OAB/CE 9288 – 55 85 8613.1197 – 8719.8794
    Presidente da SOS – DIREITOS HUMANOS
    Membro da CDAA da OAB/CE
    http://www.sosdireitoshumanos.org.br
    sosdireitoshumanos@nullig.com.br

  4. burrinho diz:

    O que eu não percebo é a razão de haver uma manifestação pela Palestina no dia 27 de Dezembro convocada por algumas organizações e outra manifestação pela Palestina convocada por outras organizações. Chamem-me burrinho, mas não percebo.

  5. Renato Teixeira diz:

    burrinho, eu também não percebo. Mas mais vale duas que nenhuma.

  6. Pingback: cinco dias » Fundamentalismo Israelita

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