Identidade nacional

Nunca gostei de nacionalismos, não só passei toda a minha infância e juventude no meio de influências vindas de todos os continentes como tenho uma actividade profissional na qual contacto gente de origens e culturas muito diferentes. A ideia de uma superioridade de uma origem/nação/cultura é, para mim, totalmente absurda, a ideia da homogeneidade de uma nação não faz o mínimo sentido, uma evidencia que parece hoje em dia esquecida em França.

Para mim que tenho dois passaportes o debate sobre a identidade nacional promovido pelo governo Francês é uma aberração total. Uma das “inovações” de Sarkozy foi a criação de um Ministério da Imigração, da Integração, da Identidade Nacional e do Desenvolvimento Solidário actualmente ocupado por Éric Besson ex-socialista, ex-responsável do programa económico de Ségolène Royal que se passou para o campo do actual presidente algumas semanas antes das eleições. Como em 2010 há eleições regionais (nas quais o PS e a extrema direita têm tradicionalmente bons resultados) o governo decidiu lançar um debate sobre o tema da identidade nacional esperando assim dividir a esquerda e aliciar o eleitorado da extrema direita.

Como era facilmente previsível o debate rapidamente descambou em debate sobre o Islão com inúmeras “gaffes”: desde a ministra que fala dos muçulmanos “que falam calão e usam o boné ao contrário” até ao presidente da câmara André Valentin (UMP) que diz que “estamos a pagar a 10 milhões que não fazem nada”.

Entretanto a Suíça votou num dos muitos referendos que lá se fazem a proibição dos minaretes (diga-se de passagem que a participação foi das mais elevadas dos últimos anos) e Sarkozy pede para “…Em vez de condenar o povo suíço, tentar compreender o que este tentou exprimir o que sentem todos os povos da Europa incluindo o povo francês…”. Paralelamente o parlamento francês discute a necessidade de fazer uma lei de proibição da burqa, e neste debate uma parte da esquerda usando o pretexto da separação da Igreja e do Estado e da defesa dos direitos das mulheres acha bem. Pessoalmente não acho a burqa especialmente sexy, mas também não gosto dos hábitos das freiras nem dos vestidos dos bispos, e podem crer que há muito mais freiras em França que mulheres de burqa que os serviços de informações da polícia (RG) estimam serem 300.

O debate actual baseia-se numa espécie de evidencia que quase ninguém questiona que é a de um modelo que atribui um valor positivo à integração, conceito mal definido e sujeito às mais diversas interpretações. Quando se critica o modelo anglo-saxónico está implícito um modelo de substituição da cultura e dos valores originais pelos valores e cultura franceses, ora este tipo de interpretação pressupõe a homogeneidade e superioridade da cultura e dos valores franceses. Ora como em todos os países que conheço não existe uma cultura e um sistema de valores franceses mas várias culturas (e contra-culturas) e sistemas de valores por vezes contraditórios: a França de Bernadette Soubirous não tem nada a ver com a França da lei Falloux.

Enquanto indivíduos podemos constituir uma identidade “mestiça”, gostar de um bom vinho alentejano e de um bom borgonha sem ter que achar que um é melhor que o outro ou não ter que dizer que o Eça é melhor que o Zola (ou vice-versa), ou noutro registo não ter que achar que o Frankie Vincent é pior que o Quim Barreiros. Infelizmente é mais simples esquematizar e simplificar que tentar abordar as questões de uma forma aprofundada.

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5 respostas a Identidade nacional

  1. não percebi, no entanto, se concorda com o uso da burqa ou não.

  2. Fuser diz:

    Creio que não devemos concordar, nem discordar com o uso da burqa. Eu também não devo concordar nem discordar com o sr Nuno Castro usar calções com sandálias e meias. Como também ninguém deve concordar nem discordar do facto de eu usar um crucifixo ao peito ou uma freira usar o seu hábito. Cada um anda como quer. E se me vêm com a história que a mulher é obrigada a usar burqa, então é contraproducente o Estado obrigar a mulher a não usar a burqa. Portanto, são coisas em que o Estado não se deve meter.

  3. JMJ diz:

    Falando de coisas sérias (ou não…):

    – O habito das freiras é muito mais sexy que a burqa;
    – A “Touriga nacional” e o “Piriquita” é muito melhor que os “merlots” e “cabernets”

    mas do que eu gosto mesmo, mesmo é de camembert derretido no forno com doce de frutos silvestres de trás-os-montes.

  4. Pingback: cinco dias » Proibir a burca?

  5. FC diz:

    Pedro Ferreira, o nacionalismo não pressupõe propriamente uma ideia de superioridade. Pelo contrário, da mesma maneira que enaltece a respectiva identidade cultural, defende a valorização e respeito pelas demais culturas. Daí a concepção de oposição ao multiculturalismo, de forma a contrariar a aglutinação das diversas culturas e de promover a preservação das diferentes identidades.

    No entanto, trata-se de uma ideologia propícia a ser mal interpretada por alguns supostos nacionalistas. E neste âmbito, a história fala por si.

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