Hoje é dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
‘Stou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
—–
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
As cinzas de milhões?
Natal de paz agora
Nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
Num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
Roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
Em ser-se concebido,
Em de um ventre nascer-se,
Em por de amor sofrer-se,
Em de morte morrer-se,
E de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
Quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
Num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
Com gente que é traição,
Vil ódio, mesquinhez,
E até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Ou dos que olhando ao longe
Sonham de humana vida
Um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
E torturados são
Na crença de que os homens
Devem estender-se a mão?
Outro natal,
Outra comprida noite
De consoada
Fria,
Vazia,
Bonita só de ser imaginada.
Que fique dela, ao menos,
Mais um poema breve
Recitado
Pela neve
A cair, ao de leve,
No telhado.
Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres
Em letras grandes e pretas,
Traz versos e historietas
E desenhos bonitinhos,
E traz retratos também
Dois bodos, bodos e bodos,
Em casa de gente bem.
Hoje é dia de Natal.
Mas quando será de todos?
Entremos, apressados, friorentos,
Numa gruta, no bojo de um navio,
Num presépio, num prédio, num presídio,
No prédio que amanhã for demolido…
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
Porque esta noite chama-se Dezembro,
Porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
Duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
A cave, a gruta, o sulco de uma nave…
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
Talvez seja Natal e não Dezembro,
Talvez universal a consoada.
This Christmas:
Please, remember to prove you love your country (Pay attention: MORE TAX MONEY is = more love).
Please be good: OBEY THE LAW!
Don’t forget to go for walks: WALK ON THE PAVEMENT, ONLY.
Never use your brain!
Our country budget needs you to:
Shut your big eyes, Shut your big mouth…
Obey silently, consume silently, die silently… (far away from sight, if you please…).
Your reward awaits you (dashing through the snow…) you’ll find justice and happiness in Heaven…
Conheço pessoalmente um jogador compulsivo mas, em contrapartida, conheço vários consumidores compulsivos, produtos desta sociedade capitalista de consumo que, imitando o traficante, vai viciando desde tenra idade os consumidores de amanhã.
As defesas são limitadas, perante a avalanche dos incentivos preparados por técnicos altamente especializados e profundamente conhecedores de comportamentos.
this christmas I am aiming for a revolution, this christmas I believe in the white truth of snow, this christmas we remember, we feel happy, we feel strong, we feel that the world still belong to us, no matter what they told you, no matter what they showed you. This christmas we grow up to learn how to stay children forever, we receive a magic gift that, once open, will change us forever, bringing us love and the will to change, the capacity to believe that this can change. This christmas we create, we cry, we stay silent. Love is all, but blind. the only blindness lays in the eyes of power and corruption. We, who can fake blindness, are building a better world, and going back doesn’t mean taking a step backward, going back means building a sustainable world, a greater society, a world of truth and of justice. Going back means going back together, taking a step at a time.
Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.
Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.
Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.
A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.
A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.
Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.
O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.
Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.
A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.
O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.
Dezembro é o cruel mês do natal,
hoje, a sua véspera,
além disso, faz um calor insuportável.
Há grande descontentamento no país,
enormes congestionamentos nas cidades
e as pessoas parecem felizes.
A miséria continua no seu galope
e as pessoas parecem felizes,
inclusive os miseráveis.
Esses se abundam nas calçadas
e mendigam com seus filhos
e com os filhos de outros desgraçados.
Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.
Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.
Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.
Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.
“We guard our world with locks and guns
and we guard our fine possessions
and once a year when Christmas comes
we give to our relations
and perhaps we give a little to the poor
if the generosity should seize us
but if anyone of us should interfere
in the business of why there are poor
they get the same as the rebel Jesus
But pardon me if I have seemed
to take a tone of judgment
for I’ve no wish to come between
this day and your enjoyment
in a life of hardship and of earthly toil
there’s a need for anything that frees us
so I bid you pleasure and I bid you cheer
from a heathen and a pagan
on the side of the rebel Jesus”
Apreciei a forma com que expôs o paradoxo natalício presente nas nossas vidas, que no fim de contas se esquece do significado da Natividade e o substitui por uma lógica de consumo desenfreado e que paradoxalmente representa uma lufada de ar fresco nas vidas desgraçadas dos comerciantes que não vendem e tanta falta que lhes faz… Tanto paradoxo dá que pensar !
O meu caro recitou Jorge de Sena, ou será uma coincidência dos diabos ou providência divina, procuro desenfreadamente, já o incluí na lista dos presentes do Menino Jesus, um livro deste enorme vulto literário de um Portugal que o expulsou, de seu título “Reino da Estupidez”, se o meu caro souber onde encontrar esta obra, o meu caro passará a constar na minha lista de veneráveis homens de esquerda, ficar-lhe-ia eternamente agradecido.
Agradeço a atenção, já me disseram que poderia encontrar alguns tesouros na livraria da sua ex camarada Zita, ao que parece, podem-se encontrar por lá alguns pequenos tesouros, tenho que fazer um périplo para ver se encontro o livro, até lá agradeço a atenção com votos de um feliz Natal para si e para a sua família, afastado da violência do consumismo que também condeno e recheado de calor humano Q.B.
Grato pelos votos de um natal afastado da violência do consumismo. Apenas um reparo… Apesar de já ter feito algumas asneiras a Zita Seabra nunca foi minha camarada… outros afins… mas não ela.
Mimos de “Natal”… Com oiro, incenso e mirra começou o frenesim natalicio…. mas eram três ,os magos reais e apenas uma ciancinha…e continuamos sem perceber, quer as origens, que a carga metafórica dos presentes, e dos agentes. Interrogo-me sobre a “utilidade” de 99% das merdas que se “trocam” (quem troca) nesta época. Se tivessemos descodificado a simbologia das 3 prendas, independentemente dos credos, viveriamos num mundo melhor.
António Gedeão – Dia de Natal
Hoje é dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
Vinicius de Moraes – Poema de Natal
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Fernando Pessoa – Natal e Chove, é dia de Natal
Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
‘Stou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
—–
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.
Jorge de Sena – Natal de 1971
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
As cinzas de milhões?
Natal de paz agora
Nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
Num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
Roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
Em ser-se concebido,
Em de um ventre nascer-se,
Em por de amor sofrer-se,
Em de morte morrer-se,
E de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
Quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
Num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
Com gente que é traição,
Vil ódio, mesquinhez,
E até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Ou dos que olhando ao longe
Sonham de humana vida
Um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
E torturados são
Na crença de que os homens
Devem estender-se a mão?
Miguel Torga – Natal
Outro natal,
Outra comprida noite
De consoada
Fria,
Vazia,
Bonita só de ser imaginada.
Que fique dela, ao menos,
Mais um poema breve
Recitado
Pela neve
A cair, ao de leve,
No telhado.
Sidónio Muralha – Natal
Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres
Em letras grandes e pretas,
Traz versos e historietas
E desenhos bonitinhos,
E traz retratos também
Dois bodos, bodos e bodos,
Em casa de gente bem.
Hoje é dia de Natal.
Mas quando será de todos?
David Mourão-Ferreira – Natal, e não Dezembro
Entremos, apressados, friorentos,
Numa gruta, no bojo de um navio,
Num presépio, num prédio, num presídio,
No prédio que amanhã for demolido…
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
Porque esta noite chama-se Dezembro,
Porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
Duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
A cave, a gruta, o sulco de uma nave…
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
Talvez seja Natal e não Dezembro,
Talvez universal a consoada.
Our (double proud) Santa-HO! HO!crates government wants a new world order (= a new Poortuguese odor in technical English)
http://farm1.static.flickr.com/192/450397863_3cadf06b8f_o.jpg
I buy, therefore, I am (a good parent… a good citizen… you name it!)
http://4.bp.blogspot.com/_U2fDGS4mT04/ScKNJqmBqQI/AAAAAAAAAC0/0gpDnhslOLk/s320/04057-(BK).jpg
Teach our children to: Consume, be silent and die.
http://img403.imageshack.us/img403/5361/600_consume.jpg
This Christmas:
Please, remember to prove you love your country (Pay attention: MORE TAX MONEY is = more love).
Please be good: OBEY THE LAW!
Don’t forget to go for walks: WALK ON THE PAVEMENT, ONLY.
Never use your brain!
Our country budget needs you to:
Shut your big eyes, Shut your big mouth…
Obey silently, consume silently, die silently… (far away from sight, if you please…).
Your reward awaits you (dashing through the snow…) you’ll find justice and happiness in Heaven…
Peço desculpa, mas a imagem do post não me levou para a poesia.
Belos poemas!
NATAL CHIQUE
Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.
Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.
Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse me pareceu Cristo.
Vitorino Nemésio
Conheço pessoalmente um jogador compulsivo mas, em contrapartida, conheço vários consumidores compulsivos, produtos desta sociedade capitalista de consumo que, imitando o traficante, vai viciando desde tenra idade os consumidores de amanhã.
As defesas são limitadas, perante a avalanche dos incentivos preparados por técnicos altamente especializados e profundamente conhecedores de comportamentos.
É Natal,mas é para alguns que trabalham, que se esforçam.O meu bem haja para eles.Sócrates amigo do pobre
http://odiario.info/articulo.php?p=1414&more=1&c=1
Até mete nojo!
Dylan Thomas – Christmas
this christmas I am aiming for a revolution, this christmas I believe in the white truth of snow, this christmas we remember, we feel happy, we feel strong, we feel that the world still belong to us, no matter what they told you, no matter what they showed you. This christmas we grow up to learn how to stay children forever, we receive a magic gift that, once open, will change us forever, bringing us love and the will to change, the capacity to believe that this can change. This christmas we create, we cry, we stay silent. Love is all, but blind. the only blindness lays in the eyes of power and corruption. We, who can fake blindness, are building a better world, and going back doesn’t mean taking a step backward, going back means building a sustainable world, a greater society, a world of truth and of justice. Going back means going back together, taking a step at a time.
Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
As mecas comerciais
de reclames cintilantes
são monumentos sociais
para compras coagulantes.
Os delírios fantasiosos
em prendas faustosas
revelam gastos ociosos
de paixões ventosas.
Nesta quadra festiva
sob o signo familiar,
de jubilação colectiva
para o amor agraciar.
O Vendedor
na montra dos brinquedos
há um comboio à andar
mecanismos e segredos
fazem bonecos falar
na montra dos brinquedos
há meninos a olhar
roendo as unhas dos dedos
por não lhes poder tocar
e lá dentro há outros dedos
tão cansados de embrulhar
de por fitas nos brinquedos
para quem os pode comprar
os vendedores de presentes
não têm mãos a medir
ficam com as mãos dormentes
enquanto há mãos a pedir
indios e soldados
carrinhos de corda
um tambor e um balão
jogos engraçados
e a cara gorda
de um boneco em papelão
quem sabe fazê-los,
quem sabe vendê-los,
tem sempre o Natal à mão
mas a mão a que embrunha
a mão que trabalha
tem sempre o seu ganha pão
quem faz e vende brinquedos
inventa um mundo real
tem o trabalho, os segredos
que foram do Pai Natal
O Pai Natal de hoje em dia
não tem dia não tem barbas nem sacola
dá mãos cheias de alegria
dá ternura, não dá esmola.
José Carlos Ary dos Santos
Os Operarios do Natal – 1978
Organiza o Natal – Carlos Drummond de Andrade
Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.
Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.
Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.
A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.
A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.
Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.
O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.
Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.
A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.
O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.
E será Natal para sempre.
Gustavo Felicíssimo – Poema de Natal
Dezembro é o cruel mês do natal,
hoje, a sua véspera,
além disso, faz um calor insuportável.
Há grande descontentamento no país,
enormes congestionamentos nas cidades
e as pessoas parecem felizes.
A miséria continua no seu galope
e as pessoas parecem felizes,
inclusive os miseráveis.
Esses se abundam nas calçadas
e mendigam com seus filhos
e com os filhos de outros desgraçados.
Negócio promissor…
Vou sair pra ver o mar!
Bocage – Poema de Natal
Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.
Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.
Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.
Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.
“We guard our world with locks and guns
and we guard our fine possessions
and once a year when Christmas comes
we give to our relations
and perhaps we give a little to the poor
if the generosity should seize us
but if anyone of us should interfere
in the business of why there are poor
they get the same as the rebel Jesus
But pardon me if I have seemed
to take a tone of judgment
for I’ve no wish to come between
this day and your enjoyment
in a life of hardship and of earthly toil
there’s a need for anything that frees us
so I bid you pleasure and I bid you cheer
from a heathen and a pagan
on the side of the rebel Jesus”
Jackson Browne
Caro Renato.
Apreciei a forma com que expôs o paradoxo natalício presente nas nossas vidas, que no fim de contas se esquece do significado da Natividade e o substitui por uma lógica de consumo desenfreado e que paradoxalmente representa uma lufada de ar fresco nas vidas desgraçadas dos comerciantes que não vendem e tanta falta que lhes faz… Tanto paradoxo dá que pensar !
O meu caro recitou Jorge de Sena, ou será uma coincidência dos diabos ou providência divina, procuro desenfreadamente, já o incluí na lista dos presentes do Menino Jesus, um livro deste enorme vulto literário de um Portugal que o expulsou, de seu título “Reino da Estupidez”, se o meu caro souber onde encontrar esta obra, o meu caro passará a constar na minha lista de veneráveis homens de esquerda, ficar-lhe-ia eternamente agradecido.
Não o tenho nem sei se estará à venda em algum lado mas para almejar a honra de pertencer a tal lista assim que o encontrar aviso-o.
Caro Renato.
Agradeço a atenção, já me disseram que poderia encontrar alguns tesouros na livraria da sua ex camarada Zita, ao que parece, podem-se encontrar por lá alguns pequenos tesouros, tenho que fazer um périplo para ver se encontro o livro, até lá agradeço a atenção com votos de um feliz Natal para si e para a sua família, afastado da violência do consumismo que também condeno e recheado de calor humano Q.B.
Grato pelos votos de um natal afastado da violência do consumismo. Apenas um reparo… Apesar de já ter feito algumas asneiras a Zita Seabra nunca foi minha camarada… outros afins… mas não ela.
Mimos de “Natal”… Com oiro, incenso e mirra começou o frenesim natalicio…. mas eram três ,os magos reais e apenas uma ciancinha…e continuamos sem perceber, quer as origens, que a carga metafórica dos presentes, e dos agentes. Interrogo-me sobre a “utilidade” de 99% das merdas que se “trocam” (quem troca) nesta época. Se tivessemos descodificado a simbologia das 3 prendas, independentemente dos credos, viveriamos num mundo melhor.