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Os corpos dóceis do PS

21 de Dezembro de 2009 por Bruno Sena Martins

O debate sobre a violência sexual sobre menores está em pleno na Irlanda, após a divulgação de dois relatórios, o últimos dos quais em Novembro, que revela que mais de 2000 crianças foram violadas em instituições dirigidas pela Igreja desde 1930 e ao longo de 60 anos. É concluído que a hierarquia católica de Dublin fechou “obsessivamente” os olhos à situação e praticou uma política de silêncio. O relatório revela que 102 padres foram visados por 320 queixas e que os abusos “foram dissimulados pelo arcebispado e outras autoridades eclesiásticas”. Público, 21.12.2009

A disciplina de voto imposta pelo PS contra a adopção por casais homossexuais corresponde a uma curiosa exaltação daquilo a que Michel Foucault chamava os “corpos dóceis“, os corpos dobrados aos rigores das disciplinas institucionais — tanto quanto, acrescentamos, às perversidades e caprichos perpetrados pelos putativos guardiões da ordem.

Temos, pois, por um lado, os corpos dóceis das crianças institucionalizadas que tantas vezes acabam sexualmente abusadas a coberto do secretismo do aparato institucional e religioso e, por outro lado, os corpos dóceis de deputados sempre disponíveis para abdicar de pensar em favor das disciplinas institucionais do partido. O facto é prosaico: os corpos dóceis destes últimos pactuam com a perversão sobre os primeiros. (replay)

Comentários

Comentário de manuelmgaio
Data: 21 de Dezembro de 2009, 17:33

Só uma mente tortuosa é capaz de passar da pedofilia, e do silêncio da hierarquia sobre o crime, à disciplina de voto do PS na lei da adopção e ao ataque ao PCP. Como se vê, o preconceito não tem limites.
Quem é que abdica de pensar?

Comentário de Carlos Vidal
Data: 21 de Dezembro de 2009, 17:41

Bruno, li o teu post, mas julgo que o título deve ser outro, não?
Quererias dizer “Os corpos dóceis do PS” ??
(julgo que sim)

Comentário de António Figueira
Data: 21 de Dezembro de 2009, 17:47

PC ou PS, a relação entre os corpos dóceis das vítimas da pedofilia e a disciplina de voto no quadro de um grupo parlamentar, parece-me – com franqueza, que não levarás a mal – mais que forçada, absurda (e até ofensiva para com as vítimas da pedofilia).

Comentário de Bruno Sena Martins
Data: 21 de Dezembro de 2009, 17:48

PS, obrigado Carlos.

Comentário de Bruno Sena Martins
Data: 21 de Dezembro de 2009, 18:01

Manuelmgaio e António Figueira, aceito as vossas objecções ao que entendem ser uma associação absurda da minha parte, mas discordo delas, se me permitem reiterar ideias aparentemente (ou de facto) absurdas. A questão da adopção deve ser sempre colocada por contraponto à situação das crianças não adoptadas, crianças estas que estão, esmagadormente institucionalizadas. É minha convicção – sustentada em elementos de que não posso dar inteira conta neste espaço – que fenómenos como a Casa Pia estão longe de ser excepção na história da institucionalização infantil. Nesse sentido, que a adopção por homossexuais seja des-considerada por preconceito de género em detrimento de uma avaliação objectiva, caso a caso, das condições passíveis de ser oferecidas pelos adoptantes não é menos chocante por ter estar tão amplamente trivializada. Repito: os corpos dóceis dos deputados compactuam com esse imenso arquipélago de poder arbitrário que é, ainda hoje, a realidade da institucionalização.

Comentário de António Figueira
Data: 21 de Dezembro de 2009, 18:14

Caro Bruno,
Percebo melhor o argumento, mas, se não o acho agora absurdo, parece-me ainda assim sinuoso. O problema não sei se é teu, se é do Foucault ou se é meu – mas a French philosophy tem destas coisas: frases belas, poetizantes, sugestivas, mas que resistem mal a um confronto mais rigoroso com o real.
Abraço, AF

Comentário de Bruno Sena Martins
Data: 21 de Dezembro de 2009, 18:18

De acordo António, ainda assim diria que crítica seria aplicável tanto a burocracia da adopção em termos gerais, embora concorde que esta deve ser monitorizada com rigor, como para a votação de um texto legislativo que explicitamente impede algumas famílias de adoptar.

Comentário de manuelmgaio
Data: 21 de Dezembro de 2009, 20:32

Mesmo trocando o PC por PS, continuo a considerar o argumento preconceituoso: a disciplina de voto pode ser uma manifestação democrática do respeito pela maioria e não abdicação de pensar. Por outro lado, se o Estado (este Estado) não trata bem as crianças que tem a seu cuidado, nada indica que a adopção, só por si, por casais homossexuais ou não, venha a dar qualquer garantia de as tratar e educar melhor.
Na minha opinião, as grandes causas verdadeiramente fracturantes, prioritárias neste momento, são a luta contra este Código do Trabalho, contra o desemprego, por o desenvolvimento económico e social, enfim: a ruptura com as políticas da direita que conduziram à situação em que nos entramos e a este estado de um Estado que nem as crianças consegue proteger.

Comentário de manuelmgaio
Data: 21 de Dezembro de 2009, 20:35

Peço desculpa pelos erros: por o / pelo e entramos / encontramos

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