Tornar a violência visível

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De repente, uma série de pessoas descobriu que há gente de esquerda que afirma que as nossas sociedades brandas são lugares onde existe violência. Gente que lembra que os chamados consensos sociais são impostos pela violência. Há muito que os habitantes do mundo sofrem de um série de formas de violência menos mediáticas do que as recordações turísticas voadoras a aterrar na face do primeiro ministro de Itália. O lançamento da estátua teve um autor facilmente identificável. O resultado foi Berlusconi perder dois dentes. O desemprego, a miséria, a fome, a injustiça têm culpados mais escondidos e resultados negativos bastante mais graves do que parte de uma dentição Pepsodent.
Há uma célebre frase de Baudelaire sobre o Diabo, em que este afirma que o maior feito do Demo foi ter-nos convencido da sua inexistência. O maior feito dos estados capitalistas foi ter-nos convencido da sua suposta neutralidade e da bondade dos seus métodos. Por vezes, é preciso um murro no estômago para perceber a realidade das coisas. As acções não violentas servem exactamente para isso. Quando uma activista saaraui entra em grave da fome porque foi expulsa do seu país, rasga o véu da ilusão e demonstra a realidade de todos os dias. Mostra a violência escondida daquilo que até ao momento parecia normal. Milhares de pessoas são expulsas por ano dos seus países ou dos sítios onde se refugiaram, com a cumplicidade de governos democráticos. Para estados como o italiano, as pessoas do terceiro mundo não são gente. Uma criança nascida em itália, filha de imigrantes ilegais, é italiana. Os seus país serão expulsos e as crianças separadas dos parentes e enviadas para orfanatos na Itália. As leis aprovadas pela União Europeia prevêem a expulsão dos imigrantes para países terceiros. Um convénio entre a Itália e a Libia tem enviado milhares deles para o deserto, para muitos morrerem a caminho dos seus países. Se isso não é violência, o que é a violência?
Há uma certa tendência de medir as virtudes do Estado de direito democrático na Avenida de Roma, talvez fosse mais verdadeiro medirem-no na Bela Vista e na Cova da Moura. Perceberiam que há sítios em que o Estado significa pouco mais do que a polícia e que esta não é tão educada como na Quinta da Marinha. Caminhamos para sociedades cada vez mais desiguais, o acesso à justiça é inexistente para os mais pobres, os mais ricos são praticamente inimputáveis: é mais fácil prender um ladrão de 100 euros do que um vigarista de muitos milhões.
A incapacidade do capitalismo responder à grave crise ecológica que se avizinha vai tornar os conflitos mais agudos e as crises mais destruidoras e persistentes. A violência dos estados e poderosos será cada vez menos disfarçada e perante isso é preciso contrapor a acção daqueles que não aceitam este estado de coisas. Defender a acção não se confunde com pregar o terrorismo, nem marcar assaltos ao Palácio de Inverno. Significa apenas não renunciar a todas as formas de luta passíveis de construir uma ruptura com a lógica da sociedade capitalista. Qualquer acto político que quebre esta normalidade anormal e que defenda o pressuposto da igualdade é um acto subversivo. Não porque pretenda ser violento, mas porque não aceita como normal a desigualdade que nos querem impor, como único caminho possível.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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17 Responses to Tornar a violência visível

  1. jcd says:

    Gosto desta frase:
    “O maior feito dos estados capitalistas foi ter-nos convencido da sua suposta neutralidade e da bondade dos seus métodos. Por vezes, é preciso um murro no estômago para perceber a realidade das coisas.”

    Também poderíamos escrever:
    “O maior feito dos estados não-capitalistas foi ter-nos convencido da sua suposta neutralidade e da bondade dos seus métodos. Por vezes, é preciso um murro num estômago vazio para perceber a realidade das coisas.”

  2. miguel serras pereira says:

    Caro Nuno, apoio e aplaudo. Ao contrário do que para aí dizem fazedores de opinião encartados, este debate neste blogue tem feito subir a maré da inteligência política. “A liberdade está a passar por aqui” como raramente passa pelos debates nossos ambientes. Participar – aceitar deveras ser parte, embora parte inteira – de um debate democrático é para cada um de nós saber que poderá chegar com os outros a ideias que irrompem no “espaço-entre” comum da discussão, ideias às quais nenhuma das “partes inteiras” poderia chegar por si só. Ideias que são como a liberdade, a igualdade, a “verdade democrática” às quais o indivíduo só tem acesso comum, ao mesmo tempo que só esse acesso comum lhe permite viver explicitamente consigo próprio, viver essa “vida examinada” que torna a sua vida liberdade de criação, entabular interiormente esse “diálogo da alma consigo própria” que torna o livre pensamento possível. Mas a que propósito vem esta visita ao registo da “intimidade”? É só para ver se há quem compreenda que não é por sermos vândalos que queremos destruir o rolo compressor do capitalismo e do seu Estado, mas que o queremos também para criar as condições sociais da autonomia de cada um@.
    Combativo abraço
    msp

  3. Nuno Ramos de Almeida says:

    JCD,
    Cada um escreve o que quer. Mas, sendo você uma pessoa inteligente, percebeu certamente a minha opinião.

  4. Nuno Ramos de Almeida says:

    Miguel Serras Pereira,
    Mil debates haverá :)

    Abraço

  5. marilu says:

    http://resistir.info/crise/geab_40.html

    Leiam isto e somem-lhe o Pinto Ramalho com a entrada das FA na ‘segurança interna’,mais o buraco tapado pelo dinheiro do erário público nos bancos,o q faz aumentar o déficit,que vai faltar para os mais pobres,para as reformas e o nível de vidada malta.que não o dos gestores de luxo do Cavaco q andaram na vigarice e q nós vamos pagar.Donde,se pergunta aà saciedade,do que eles estão à espera e,q a violência tem 2 pontos de vistas díspares,e totalmente opostos:a dos Banksters(através da bófia,paga por nós sobre nós)e,a outra para acabar de vez com esta bandidadgem.Vide a Colômbia, com um ‘presidente’ apoiado pela UE e com curriculum nos EUA como narcotraficante e,a outra,a das FARC

  6. Pingback: cinco dias » Antes tarado que carneiro

  7. Manuel Baptista says:

    Para construir, é preciso destruir.
    O capitalismo não pode ser «salvaguardado» da destruição, porque ou ele (e a ínfima minoria que dele se aproveita) ou nós (quase toda a gente) hão de perecer.
    Não se «mata» um sistema de produção que também é de exploração e opressão, senão destruindo os seus fundamentos e construíndo outro.
    A primeira fase desta destruição passa-se necessariamente dentro de nós próprios, na mente.
    1º fase: resistir ao efeito de sedução permanente, olhar de frente o horror económico e terrorismo contra os pobres. É denunciá-lo, todos os dias, por todos os meios: fazer aparecer em toda a sua bestialidade, para despertar as consciências.

  8. Niet says:

    Com o concurso entusiástico da multitude e de várias sensibilidades, o objecto principal da narrativa insurreccional em curso no Blogue, e que P.Pereira já indicou na Imprensa, consiste na desmistificação do corpus repressivo da ditadura de classe, mais ou menos mascarada e em fase de aparente fragilidade que se configura em torno da Violência do Estado. Michel Bakounie-sim, é preciso ler o máximo em vários tablados…-ao dizer que as classes dirigentes se pudessem trocavam o Governo pelo Estado, explica com mediana clareza o papel e sentido último da violência: “Nenhum Estado se pode manter sem uma conspiração permanente contra as massas populares, em cuja escravatura e exploração reside a razão de ser do Estado. E em cada forma de Estado o Governo não constituiu outra coisa senão uma conspiração permanente da minoria contra a maioria das classes exploradas. Todo o tipo de Governo tem uma dupla tendência, um duplo objectivo. O seu primeiro e principal objectivo, o seu objectivo confessado, consiste em preservar e reforçar o Estado, a Civilização e a Ordem Civil, isto é, a dominação sistemática e legalizada da classe dominante sobre o povo explorado”;” O Estado não é de forma nenhuma a sociedade, não representa senão uma forma histórica tanto brutal como abstracta. Nasceu históricamente em todos os países da conjugação/união da violência, da rapina,do roubo, numa palavra da guerra e das conquistas, em conluio, repito, com os Deuses criados sucessivamente pela fantasia teológica das nações “. Referências do V.1 das OC. de M. Bakounine(Éditions Champ-Libre) e do livro de G.P. Massimoff, ” A Filosofia política de M.B- O Anarquismo Científico”,págs. 360/04. Salut! Niet

  9. Hermínio Silva says:

    “Qualquer acto político que quebre esta normalidade anormal e que defenda o pressuposto da igualdade é um acto subversivo.”

    Sim, mas porque é tão difícil demonstrar a justiça desses actos e que realmente são realizados em função desse pressuposto que é a igualdade?

    Não acredito que seja por ser duvidosa essa justiça para as pessoas em geral que apesar de tudo creio que não estão contaminadas pelos vícios da política, mas sim resultado da máquina de propaganda montada para que essa justiça não seja percebida. Isto não é desconhecido do indivíduo comum. Sabe-se que se manipula embora não se saiba como, quando ou em que situações é feito. Mas é essa mentira que permite que a violência institucionalizada continue e, com ela, a violência que se lhe opõe.

  10. Hermínio Silva says:

    E porque não estender estas reflexões sobre a violência de resistência para o campo e a altura em que ela acontece e não ficarmos apenas por um debate de retaguarda sobre a sua legitimidade? O que interessa a activistas e também concerteza a quem observa, esteja predisposto favoravelmente ou não a elas, é a experiência, a forma como ela é vivida, como as propensões violentas podem lidar com as pacíficas e estas com as violentas, onde estão os limites de cada sensibilidade, como conseguir um entendimento que permita a não exclusão das partes.

  11. Carlos Fernandes says:

    NRA, tem razao no que escreve, há é um pequeno pormenor, foi o capitalismo que, manhosa e refinadamente como é seu timbre, financiou o comunismo. Os capitais que financiaram as compras de armas e as despesas de Lenine e companheiros, vieram de certos círculos da alta finança norte-americana.
    Como diz a Biblia, o pior cego é o que não quer ver. Não acordem, não…

  12. viana says:

    Concordo genericamente com o post. Mas não basta fazer um diagonóstico da situação, e apelar à acção revolucionária. Não basta lutar. É preciso lutar com inteligência, consciente das consequências de cada acto no caminho que se pretende trilhar rumo ao objectivo duma sociedade mais justa, democrática e igualitária. A frase

    “Qualquer acto político que quebre esta normalidade anormal e que defenda o pressuposto da igualdade é um acto subversivo.”

    não vai por isso suficientemente longe. Pára no acto, não segue para as consequências. O acto subverviso deve ser útil para os fins últimos em vista. E nem todos o são. Ou serão?…

    Niet, já se perguntou porque é que o Estado é o tipo de organização dominante na esmagadora maioria do planeta? Isso não será indicativo da efectiva capacidade de resistência de outras formas de organização e associação humanas, e portanto da sua viabilidade concreta? Afinal interessa-nos criar utopias no papel, ou construir alternativas que sejam capazes de resistir eficazmente à qualquer tentiva de opressão?

  13. Niet says:

    Caro sr. Viana: O Estado-forma e substância – que domina hoje a maioria da organização política que estrutura os 200 e tais países independentes à volta do Globo, concentra a expressão jurídica, económica e social do Modo de Produção Capitalista. De certa forma, a gestão da Democracia Representativa também deriva, em última análise, do funcionamento e dominação da Economia de Mercado, conforme explicita Claude Lefort no seu belo livro sobre”, A Invenção Democrática, Os limites da Dominação Totalitária “. ” A Revolução, já o foi dito ao infinito, é o climax da luta de classes, mas para tal será preciso que ela se realize onde a divisão de classes se combine com a divisão da sociedade e do Estado; e que todos os conflitos acumulados no interior da sociedade civil possam ser relacionados com a noção de uma oposição política e de um princípio de dominação “, refere, negando que exista um acontecimento ou um modelo uniforme e singular como o já tinha sido demonstrado pela deflagração da Revolução Russa,” nela existiram mil palcos revolucionários”, ou 40 anos mais tarde nas revoltas operárias da Hungria ou na Polónia.Niet

  14. Niet says:

    II- Adenda-Caro Sr. Viana: A minha réplica das duas da matina não apresentou alguns ” casos ” da actual cena política mundial onde a forma Estado, se bem que maioritáriamente abrangendo a estrutura piramidal, repressiva e maioritária do território, revela brechas mais ou menos gritantes nas funções de controlo e repressão: casos do Afeganistão, do Sudão e do Iraque,na maioria do seu espaço social e económico; e na Colômbia, Skri Lanka e República do Zaire, em grandes extensões sob a dualidade de um poder partilhado com a guerrilha armada. Por último, queria-lhe reafirmar, como aponta Castoriadis, que sem avanços na teoria revolucionária não existem avanços no movimento revolucionário…Salut! Niet

  15. viana says:

    Caro Niet, quanto ao seu 1o comentário, teria de perceber melhor o que entende por Modo de Produção Capitalista para lhe poder responder em maior detalhe. No sentido estrito, tal não necessita da existência de Estado (basta consultar a literatura anarco-capitalista), nem a existência de Estado inevitavelmente desemboca no Modo de Produção Capitalista. No que se refere ao 2o comentário, o problema é que em todos os locais que refere, onde o Estado menos se faz sentir, não existem comunidades igualitárias onde a deliberação é democrática e a autonomia valorizada. Pelo contrário, nesses locais as comunidades são dominadas por minorias que detêm o Poder, e o exercem de forma frequentemente brutal sobre outros membros das comunidades que dominam. Efectivamente, a escolha real que existe, que sempre existiu, excepto durante breves intervalos de tempo, é entre exercer o Poder ou aceitar que outros o exerçam sobre nós. Isto não é equivalente a afirmar que apenas é possível ser-se opressor ou oprimido. Não é, se definirmos opressor como aquele que tem como intenção última oprimir, quem toma a iniciativa da opressão e para quem a opressão é um fim. O Poder pode ser exercido, como um meio, e apenas em reacção. O Poder existe e, tal como a violência (ou o seu potencial), existirá sempre. A questão fundamental a que a Esquerda tem de responder é como assegurar que o acesso ao Poder é o mais igualitário possível, maximizando o número de pessoas livres da opressão por outrém que detém mais Poder. E a resposta tem de conter um possível roteiro de como chegar ao destino…

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