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Ressonâncias

19 de Dezembro de 2009 por Ricardo Noronha

Os ecos do nosso debate continuam a ouvir-se, aqui e ali.  O que mais me chamou a atenção foi a convicção, transparente em muitos comentários, de uma superioridade moral dos defensores do presente estado de coisas face aos seus críticos.

Deixo fora deste lote Irene Pimentel e o seu estilo discursivo. Parece que  há «alguns» cultores da violência, que são também «alguns» que fogem para as suas tocas quando ela tem de ser confrontada, podendo ainda ser confundidos com «alguns» que se consideram epígonos da justiça e do povo ou com «alguns» que acham que os fins justificam os meios. Parece que todos estes «alguns» são totalitários e há uma citação de Camus para o ilustrar.  Vendo o que mais ninguém viu – o «algumismo» e a ameaça que o mesmo representa para a democracia – Irene Pimentel não temeu o ridículo de contribuir para este debate no tom edificante que vem caracterizando a sua intervenção nos blogs onde escreve. Apontamentos desta densidade merecem seguramente ser premiados.

Pacheco Pereira optou por abordar o assunto nas suas crónicas da «Sábado». E não se pode dizer que não tenha identificado alguns dos elementos deste debate e dos acontecimentos que o motivam. Simplesmente, ao colocar na mesa o fantama da «acção directa» e ao acentuar as suas motivações ferozmente anti-capitalistas (que não devem ser confundidas com as boas intenções ambientalistas), Pacheco Pereira procura escamotear (eis uma palavra que não emprego com a frequência desejável) tudo aquilo que dá alento aos manifestantes de Copenhaga. Ao traçar um perfil dos «violentos», que circulam pelo mundo com o intuito de partir tudo, desprovidos de qualquer motivação que não seja o extravasar da sua raiva por meio da destruição, segue a pista do jornalismo de inspiração policial e leva a cabo uma consistente esteticização da violência do Estado. Trata-se de um discurso especializado em acompanhar  e justificar  a  repressão generalizada e a suspensão, de facto, dos direitos e garantias que precisamente deveriam distinguir um Estado de Direito democrático de uma ditadura autocrática.

Em Copenhaga, como em Atenas, a construção da imagem de um inimigo desprovido de razoabilidade e capaz dos actos mais inimagináveis – o perfil da ameaça imprevisível e omnipresente – é o dispositivo fundamental que permite distinguir os manifestantes respeitáveis que exprimem a sua indignação e apoiam propostas construtivas, daqueles outros que se vêm excluídos do campo de aplicação do Direito e face aos quais se empregam os grandes meios de controlo e repressão policial.  Trata-se fundamentalmente de deslocar ou alargar o perfil da ameaça, que deve passar do islão radical à esquerda radical consoante as conveniências e segundo a mesma estratégia discursiva. Sucessivamente, vai-se reduzindo o campo de aplicação das liberdades e garantias, até que só mesmo os que obedecem para lá de qualquer dúvida podem gozar desse privilégio. É por isso que Pacheco Pereira – que é aqui apenas o melhor informado dos cronistas que se dedicam ao assunto – tem de evitar entrar mais profundamente no delicado tema da relação existente entre estes “jovens radicais na Europa e nos EUA, a que se somam aqueles a que Marx chamava o “lumpenproletariado” e que habitam as cidades entre os vários rendimentos mínimos e o desemprego, e que tem uma cultura de violência” e o estado de coisas que os motiva. As análises sócio-económicas que compõem as suas crónicas quando se trata de descrever a crise e os seus efeitos, ou de defender a necessidade de uma mudança política, têm de ser evacuadas quando se trata de analisar as motivações destas pessoas que confrontam a polícia nas ruas. O contrário implicaria reconhecer que há uma lógica por trás do ressurgimento da «acção directa» e aceitar que a mesma pode ser debatida e não apenas condenada.

Retomando a ideia que avancei no primeiro parágrafo, a pretensão de uma superioridade moral parece-me resultar de uma generalização desta lógica de omissão. Enche-se a boca para falar de «democracia», «liberdade» e «justiça» , precisamente no momento em que o conteúdo concreto para o qual essas palavras apontam se vê posto em causa, um pouco por todo o lado e sem merecer os adjectivos fortes reservados ao «totalitarismo da esquerda radical». Bem se vê que qualquer exame atento e rigoroso, daqueles que não se costumam ler nos jornais, dificilmente deixará escapar o óbvio ulululante: comparada com a violência quotidiana empregue contra os imigrantes que pretendem atingir a Europa ou com aquela outra que recai sobre os habitantes dos bairros pobres das grandes metrópoles, a destruição de um banco em Copenhaga ou de uma esquadra policial em Atenas, bem como a agressão a Berlusconi, são muito pouca coisa. Mais do que avaliar se elas são boas ou  más, legítimas ou ilegítimas, importa compreender quais dessas formas de violência representam, no presente e no futuro, uma efectiva ameaça totalitáriauma pretensa «cultura de violência» episodicamente materializada aquando de uma cimeira internacional ou na sequência de um abuso policial;  ou as formas sistemáticas, consolidadas, legitimadas e sofisticadamente apetrechadas, de exercício da autoridade do Estado através da militarização do espaço metropolitano e da generalização dos poderes policiais? 


Comentários

Comentário de lingrinhas
Data: 19 de Dezembro de 2009, 19:32

Se as fotografias tivessem uns tanquesitos até me faziam lembrar a checoslovaquia.

Comentário de asinus
Data: 19 de Dezembro de 2009, 20:15

http://ruadopatrocinio.wordpress.com/2009/12/19/circa/

Comentário de Policarpo
Data: 19 de Dezembro de 2009, 20:45

Da minha parte, acredito que a maioria da população está alienada e que deveríamos, realmente, lutar por uma verdadeira democracia que não se esgote no voto. Mas sou livre de votar em partidos que me garantam uma democracia e uma liberdade mais ampla. E fá-lo-ei, ainda que contra a maioria, que continuará a ditar as regras do jogo, por pouco que me agrade.

Pacheco Pereira é um intelectual com passado revolucionário, militou num partido que, logo após o 25 de Abril, se relegado para segundo plano, pelos condutores do Processo Revolucionário – o chamado Povo (PCP) -MFA. Ele terá as suas razões. A liberdade ampla que defende o PCP esgota-se num estalinismo boçal. Liberdade? Sim, para os da sua cor.

Que o Daniel Oliveira está na esfera menos radical do Bloco que é posta nos píncaros nos meios de comunicação social, ninguém duvida. Da sua inferioridade intelectual face aos membros mais destacados deste blog, também ninguém duvida. Que ele defende um sistema capitalista, ninguém duvida. Mas que ele tem o bom-senso de culpar o povo por votar mal, também ninguém pode duvidar.

Comentário de antónimo
Data: 19 de Dezembro de 2009, 23:32

Só para que conste, Alberto Gonçalves, que em tempos defendeu na revista Sábado a tortura de Vítor Jara, condói-se esta semana com a agressão a Berlusconi.

A mim – sou um coração de manteiga mas admito a violência política, e subscrevo o que NRA por cá disse – a agressão a Berlusconi também perturbou. Naquele instante era um velho fragilizado e não o bandido que nos outros dias é.

Convém no entanto registar que Gonçalves fica imensamente tocado pelo acto isolado de um fulano perturbado mas bastante satisfeito e elogioso com a actuação premeditada da polícia da ditadura chilena.

Acho que convém iluminar certos cronistas, restos andrajosos do pior estilo que o Independente gerou e que continuam aí noutros jornais e noutras opiniões.

Comentário de Carlos Vidal
Data: 20 de Dezembro de 2009, 1:01

(E um parêntese sem importância: parece-me que pela sra. Pimentel deixaste um comentário, que ela posteriormente apagou, quando eu lá fui subscrever o que aqui dizes – tb não “aparecido” o meu: nada de grave. É estilo Pimentel.)

Comentário de Hermínio Silva
Data: 20 de Dezembro de 2009, 4:45

O Pacheco Pereira vai além da posição do Daniel Oliveira ao tratar do problema da violência na política e na luta social numa luta entre o bem e o mal. Não é uma oposição olhada à luz de um princípio que a violência é inerentemente má e suportada por uma convicção num mal menor que é o Estado Democrático. As suas categorias estão definidas à priori entre o “nós” que somos os justos e o “eles” que são os extremistas. Este tipo de posições são acabadas, não estão sujeitas a discussão, não pretendem contribuir para se perceber uma saída para o problema de tanta gente precisar de recorrer à violência, achar necessário fazê-lo nas mais diversas situações, e muito menos para que cesse a violência institucionalizada.

Bastante à parte da discussão sobre a legitimidade do recurso à violência, que é fundamental mas não deixa de ser um debate de retaguarda, tido em “tempo de paz” se quiserem, a violência é geralmente justificada, qualquer que seja o ponto de partida, por uma lógica de precedência, em que cada lado procura justificar o recurso à violência com uma violência antecedente do lado oposto. É uma lógica bastante sinuosa que só não resvala facilmente para uma guerra de gangsters em que cada gang vai vingando a morte dos seus com o assassinato de alguém do gang contrário porque um dos gangs é francamente mais poderoso do que os outros. Não é que tenha de ser necessariamente assim. Há demasiados indícios que invalidam a tese que somos uns seres propensos à luta desenfreada que felizmente acabaram por encontrar um mecanismo – o Estado democrático – que lhes permite organizarem-se em sociedade com um mínimo de conflitos. Mas, de facto, estamos numa sociedade que cultiva a violência, a ensina e a acarinha no seu horário nobre, a legitimiza ideologicamente.

Portanto, o argumento que o Estado democrático é o mal menor para minimizar os conflitos só poderá fazer sentido se nos abstrairmos de duas realidades: que o Estado detém o monopólio da violência de grande escala e que a legitimação da violência parte, antes de mais, do mais poderoso meio de propaganda, de fabricação de consensos e de moldagem de comportamentos que é o Estado e do seu correspondente económico, o capitalismo.

O Estado não minimiza o conflito entre facções pela sua dimensão e pelo seu poder superior. Ele é o cultivador máximo da violência e o seu maior cliente. Além disso, o Estado tem uma permanência temporal muito maior do qualquer oposição actual. Tem por isso o ónus da precedência no uso da violência.

Estes são factores que não podem ser ignorados nesta discussão, tendo sempre a preocupação de não cair na armadilha da guerra de gangs e de começar a travar a luta social do ponto de partida da resistência de base.

Comentário de albertino
Data: 20 de Dezembro de 2009, 5:13

e o vidal-que-frequenta-certos-autores não apagou os meus comentários?
ele e a sra. pimentel estão mais próximos do que ele gostaria…

Comentário de nuno castro
Data: 20 de Dezembro de 2009, 15:34

começa logo por não haver qualquer relação entre estes jovens “contestatários” e o lumpen. Este é o grave erro de análise de Pereira.

mas de pereira não se podem esperar análises sérias…

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