Ainda a notícia da minha morte

Num pillow talk recente, em vez do sexo que seria mais óbvio mas que as circunstâncias tornavam fútil, dei por mim às tantas da manhã a falar de história da Igreja, e isto por causa de uma série porreira que tinha visto na Arte há uns tempos, sobre o Cristianismo primitivo. Ouvi então que os martírios voluntários, antes do Édito de Constantino e da religião imperial, chegaram a ser combatidos pela própria Igreja de tantos que eram, por serem uma das raras formas de afirmação e promoção pessoal possíveis numa sociedade tão rigidamente estratificada e socialmente imóvel como era a sociedade antiga. Tendo lido há pouco tempo a notícia da minha morte, num blogue brasileiro impagável chamado Mundo mau, veio-me ao espírito que um processo mental semelhante pode perfeitamente ter ocorrido com alguns dos grandes criminosos ali retratados – e que por crimes viciosos se foram da lei da morte libertando: os criminosos que martirizam são afinal os verdadeiros mártires. Esta minha recente descida aos infernos só ficou completa com uma visita a um memorial site de Fred e Rosemary West, talvez os mais ultrajantes de todos os serial killers das últimas décadas, que violaram, torturaram e assassinaram até os próprios filhos – e, depois de presos, escreveram poemas de amor àqueles que sobreviveram. Desculpem lá qualquer coisinha: soubera eu também viver sem passado.

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SEXTA | António Figueira
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