Pesquisa

“Nem a vossa paz, nem a vossa guerra!”

18 de Dezembro de 2009 por Zé Neves

Não queria deixar de dar troco ao Daniel, embora este post seja menos maduro do que gostaria. Mas vamos lá… É o monopólio da violência por parte do Estado democrático, defende o Daniel, mas eu não gosto de monopólios de poder e acho que a nossa tarefa é combater todo e qualquer monopólio de poder. Bem sei que existem centralismos democráticos e centralismos que não são democráticos, tal como existem nacionalismos democráticos e outros que não o são. Todavia, não creio que o combate contra o centralismo democrático seja dissociável do combate contra o centralismo puro e duro. Vejo com muita dificuldade a possibilidade de construirmos uma distinção clara entre democracia e ditadura que não passe pelo combate a todo e qualquer centralismo  – da providência, do rei, do governo, do Partido. Por isso entendo o combate democrático enquanto um combate que, não só não se limita ao elogio do Estado democrático em detrimento do Estado ditatorial, como efectivamente se implica na luta contra aquilo a que poderíamos chamar genericamente a forma-Estado.

O Daniel elogia -  tal como faz a Irene Pimentel - as virtude do Estado democrático. Compreende-se e em parte concordo. O Estado democrático é frequentemente celebrado pelo seu cariz inclusivo: o voto concedido não apenas aos que mais têm mas também aos que menos têm. Mas ficar por aqui seria redundar numa visão demasiado economicista, por um lado, e escassamente económica, por outro. Trata-se de uma visão demasiado economicista porque ela só permite a nossa atenção à progressiva integração estatal do que se convencionou designar como classes trabalhadoras da nação. Esquecendo-se assim o cariz excludente do Estado democrático. É que ao escrever a palavra povo e ao configurar o espaço da cidadania, o Estado democrático politicamente inclui tanto quanto exclui. Um primeiro nível dessa exclusão é o que permite dividir a população entre povo nacional e povos internacionais. A capacidade centralizadora e o poder de violência do Estado democrático colocam-no numa situação de monopólio que lhe permite explorar ou eliminar populações que ficam além da fronteira, algures num continente mais a sul ou alhures no meio de um oriente qualquer, sejam populações colonizadas ou populações cidadãs de países independentes. Esta exclusão por via nacional opera territorialmente à escala do mundo, face a outros povos, mas não só. Como sabemos, opera e operou também socialmente, no interior da própria nação, instituindo os sem-povo: as mulheres, os imigrantes, os colonizados. Trata-se, note-se, de exclusões operadas legalmente pelo Estado democrático e de exclusões que não serão questionáveis se aceitarmos (de bom ou de mau grado) o princípio da monopolização da violência por parte do Estado democrático. Ou se aceitarmos o bom senso que o Daniel nos recomenda a fim de discernirmos os diferentes níveis de violência. O bom senso não é um argumento que mereça respeito. Porque a questão que fica por responder quando o Daniel nos fala de uma violência de primeira (de índole imediatamente física) e uma violência de segunda (de índole mais simbólica) é desde logo esta: quando se tenta entrar à força num país e se é vedado pela burocracia que nega o visto de entrada, a violência do migrante é de primeira e a do burocrata é de segunda? A fisicalidade e o simbolismo da violência dependem frequentemente do ponto de vista. Daqui decorre, aliás, toda a impertinência do argumento segundo o qual o Estado democrático impede as guerras de tribos e de outros senhores feudais, garantindo um mínimo de harmonia nacional e de paz social e sendo que de outra forma viveríamos no reino do terror e do caos (há mais vida para além do rousseaunismo primário e do anti-rousseausnimo primário!). Este argumento não pode ser aceite porque aquele trabalho negativo (de negação de violência) que o Estado democrático executa no seio da nação é igualmente um trabalho positivo (de afirmação de violência) que executa no plano do mundo e no plano da sociedade. Como vimos, é a própria edificação de uma comunidade nacional a partir da sociedade e à margem do resto do mundo que não decorre sem aquela exclusão violenta que nega direitos a uns e concede a outros, pondo em andamento um mecanismo quotidiano de rarefacção e concentração do poder.

Mas o elogio dominante ao Estado democrático e ao monopólio estatal da violência (e aqui o Daniel concodará seguramente comigo) comete ainda um outro pecado: o de assentar numa visão da democracia tendencialmente indiferente à economia.  Além da exclusão do cidadão de outra nacionalidade, além da exclusão do velho e novo lumpen e seus adjacentes da condição de cidadania, o Estado democrático opera ainda uma outra exclusão: a exclusão da economia do domínio da democracia, num processo em que a separação entre uma violência de primeira e uma violência de segunda, assim como a separação entre uma monopolização da violência em contexto ditatorial e em contexto democrático, volta a não oferecer nenhuma solução satisfatória. O Ricardo já aqui escreveu e eu não poderia estar mais de acordo: para quem aceita que a liberdade possa também ser a liberdade de um explorar um outro, o monopólio da violência pelo Estado democrático pode bem ser o horizonte máximo. Para quem não aceita (e eu não aceito), a conversa é outra: de facto, que violência é primeira e que violência é segunda nesta alternativa que vos apresento: a violência de quem rouba, ocupa e invade propriedade privada; ou a violência de quem protege essa propriedade, da cerca que interdita o acesso, da grade que fecha o condomínio? A propriedade (privada mas também estatal) não é a única forma de violência, mas a propriedade é um exercício quotidiano de violência garantido – não só mas também - pelo monopólio da violência por parte do Estado democrático ou ditatorial.

Em última instância, é a dupla dimensão inclusiva/excludente do Estado democrático que leva à impossibilidade de assumirmos como válida a alternativa violência/pacifismo; ou, se quiserem, caos/ordem. Cultivar a violência coloca-nos do lado do Estado democrático (ou ditatorial) que oprime o outro. Cultivar o pacifismo, e seguir a lógica, que o Daniel valoriza, de separação entre uma violência de primeira e uma violência de segunda é um erro igualmente crasso. Precisamos de nos livrar da falsa alternativa violência/pacifismo. Para podermos (fica para outro post…) começar a pensar a relação fins/meios, que é tudo menos fácil, pois claro, e em relação à qual o Daniel foi adiantando tópicos de debate bastante relevantes.

Bom fim-de-semana e boa sorte.

PS: Tenho pena sincera que a Irene Pimentel se furte ao debate, que não seja frontal e que prefira o insulto.

Comentários

Comentário de miguel serras pereira
Data: 18 de Dezembro de 2009, 21:46

Bem esgalhado, Zé Neves. Na terminologia que uso, “Estado” e “democracia” são conceitos que se excluem. Tenho tornado a explicar porquê e como nos comentários espalhados nos últimos dias pelas caixas de correio dos posts do Nuno e do Ricardo sobre a questão da violência política. Mas chamo a tua atenção para os argumentos que o Viana me opôs e que me parecem merecer discussão atenta, além de que traduzem, de um modo geral, uma concepção mais radical e lúcida do que a do Daniel Oliveira. O único ponto que não deixas claro – e outro que conheça menos bem do que eu as tuas ideias – é que negar o Estado não é negar a necessidade de instituições políticas que articulem a autonomia (individual e colectiva), não é negar toda e qualquer forma de poder político. A “multidão” afirma a autonomia do regime (democracia) que convém à sua “liberdade de criação”, não através dos mecanismos da representação e da divisão do trabalho político que conhecemos, mas auto-representando-se em assembleias que assegurem o igualitário exercício do poder político pelos cidadãos governantes. A “multidão” é instituinte, é acção da sociedade sobre si própria. Institui a cidadania governante como forma e operação política que garante a sua liberdade e que torna explícita a sua própria força criadora, a sua natureza de auto-criação instituinte. A cidadania governante não esgota nem resolve a “multidão”, o “social-histórico instituinte e anónimo” que é sua origem: pressupõe a sua acção tanto antes como depois, a montante e jusante das suas assembleias. Mas é uma forma de poder político – as suas decisões são vinculativas, ainda que não sagradas e embora “mortais”. Por isso, não pode, a não ser que se condene à impotência e se revogue a si própria, renunciar ao uso da força como garante, em última instância, do seu poder…
Mas por aqui me fico, esperando ter deixado mais algumas pistas ou aberturas para o debate.
Abraço combatente

msp

Comentário de Zé Neves
Data: 18 de Dezembro de 2009, 22:04

Olá Miguel. Estou de acordo com tudo o que escreves. Estive agora a ler o vosso debate lá atrás e vou retomá-lo quando arranjar tempo para encarar a questão do meio e dos fins. Questão que não se resolverá dissolvendo os fins nos meios (dissolvência de que é nome a reforma) nem aceitando uma contradição entre meios e fins (contradição de que seria nome a revolução). abç

ps – também importante o debate em torno da autonomia que vocês tiveram lá em baixo; a ideia de “indivíduo social” (marx, simondon, virno…) também poderia entrar nessa tentativa de forjar um conceito em que o individual e o comum são condição recíproca.

Comentário de Niet
Data: 18 de Dezembro de 2009, 23:19

No meu modesto entendimento, creio que, tanto o Zé Neves como o MS Pereira, nas suas análises sobre o Poder e o Poder de Estado, escamoteiam o estatuto(s) que na sua realização( ou congelamento) é desempenhado pela Luta de Classes. Que assume significativas e ” abissais diferenças “, usando a terminologia de Castoriadis, quer se relacione com a Democracia ateniense( séc V e VI, Sólon e Clistènes), quer se reporte à Revolução Francesa, quer à Russa, entre outras. ” A grandeza e a originalidade da Revolução Francesa radicam, do meu ponto de vista, naquilo que muitas vezes lhe é censurado: ela colocou em xeque, efectiva e realmente, a totalidade da instituição existente da sociedade. A Revolução Francesa não conseguiu criar coisas politicamente novas senão destrui- a realidade social total(…). Em França,o Antigo Regime não é uma estrutura simplesmente política; é uma estrutura social total. Realeza, Nobreza, papel e função da Igreja na sociedade, propriedades e privilégios enquadram ao máximo a textura da antiga sociedade. É, portanto, todo o edifício social que deve ser construído de raíz, sem o que uma transformação política é materialmente impossível”, C.Castoriadis, Le Monde Morcelé,pags.156/7. O artigo denominado, A ideia de Revolução, é de uma grande pertinência e actualidade, pois analisa ” o grande erro ” cometido por Hannah Arendt sobre a análise da Revolução Francesa edesmistifica as ” mitologias ” de Burke, sobre a Revolução Americana, e as ” ilusões ” de Tocqueville. E aí vai ainda a mensagem da ” filosofia ” politica revolucionária de Castoriadis sobre a génese de um novo periodo histórico: ” Para aceder à Razão, é preciso primeiramente querer pensar livremente. Secundo,não existe nunca(jamais) descontinuidade pura. Quando digo que a história é criação ex nihilo, isso não quer significar que seja criação in nihilo, nem cum nihilo. A forma nova emerge, incendeia-se com o material que existe, a ruptura reside no sentido novo que atribui ao que herda ou utiliza “.
Castoriadis num diálogo magistral com Marcel Gauchet vai mesmo ao ponto de indicar: ” A Revolução( Francesa) numa se liberta jamais do jugo dessa peça central do imaginário político moderno: o Estado “. E agora, para deitar por terra todas as acusações que me possam formular de historicismo ou ” secretismo”, tipo Blanqui, narro esta edificante história da nossa recente luta de classes. Estavámos no final do estertor do ” Marcelismo” e havia, dentro e fora do país, uma intensa luta de classes ideólogica, a par das heróicas acções de sabotagem das B. R. contra as bases e paióis da Nato em Portugal. Ninguém percebia muito bem o que se passava em Portugal, e muito menos na China Pós-Mao ou no Chile de Allende…Mas os nossos intelectuais arriscavam-se a debater o futuro do Marxismo,iludindo a desmistificação/desmontagem da lógica do poder de Estado. Niet

Comentário de miguel serras pereira
Data: 18 de Dezembro de 2009, 23:42

Caríssimo, a concordância é recíproca. E, sim, a autonomia social (a sociedade que se dá a si própria como instituinte nas instituições que se dá) e a do indivíduo (capaz de uma relação explícita consigo próprio e de livre-exame dos seus próprios investimentos e representações, etc.) “implicam-se circularmente”, como diria o Castoriadis, e até ao fundo – ou ao sem-fundo – da sociedade e do indivíduo.
Vigoroso abç
msp

Comentário de miguel serras pereira
Data: 18 de Dezembro de 2009, 23:53

Caríssimo Niet,
se escamoteio o Castoriadis e, sobretudo, essas passagens bem escolhidas que citas e nas quais se condensam motivos maiores do seu pensamento, faço-o involuntariamente e também porque num comentário não se pode dizer tudo o que se pensa. De qualquer modo, retomo a distinção fulcral que ele fazia entre Estado e poder político, bem como a concepção da democracia ou autonomia como antíteses da dominação hierárquica e da “representação” (o que já implica ou sugere que a democracia é por natureza anti-classista), e a concepção da economia como substancialmente política…
De qualquer modo, é sempre bom lembrares quem assim nos obriga a pensar e a agir por conta própria.
Abç próximo à distância

msp

Comentário de xatoo
Data: 19 de Dezembro de 2009, 0:34

1 a ideia de “multidão” (em Negri) condicionada pela repressão do aparelho de Estado leva-me a uma meditação sobre o funcionamento de uma orquestra a cujos membros tivessem sido escondidos (pela bófia) as pautas das musicas a interpretar. Como fariam sem o talento de um Maestro que lhes traga a intuição para que o concerto possa ser efectivado? (ou os componentes das bombas contra a Nato possam ser acoplados sem um técnico responsável?) – no meu modesto entender é preciso um Partido cujo centralismo seja democrático, onde todos se pronunciem na decisão da música que vai ser interpretada pelo conjunto (ou a quem é que vamos arrebentar com os fagotes em primeira instância)

2. Academismos, música e fogos de artificio àparte. Não sei se alguém ouviu aquela coisa que fala sobre a blogosfera na Antena 1 que dá pelo nome de Pedro Rolo Duarte. Citou hoje detalhadamente a polémica que tem oposto (conciliado, digo eu) Daniel Oliveira e o Cinco Dias sobre o Estado, Justiça e Violência a partir da ida às fuças berlusconiana do famigerado ícone sagrado. PRD glosa a polémica proclamando ambos, DO e 5D como produzindo uma mundivisão radical da “esquerda que nem sequer se entendem entre eles”. A direita rejubila. Para evitar estes abusos que têm larga difusaõ mediática (não me lembro ouvir Zé Neves, Carlos Vidal, Ricardo Noronha, o Tiago ou Renato Teixeira numa rádio ou numa televisão) não seria bastante higiénico declarar de vez que a opção politica de Daniel Oliveira é definitivamente de direita e não tem nada a ver com a esperança induzida pelo BE “nas multidões”?

Comentário de Carlos Vidal
Data: 19 de Dezembro de 2009, 1:27

Caro xatoo, de acordo. Escrevi aqui várias vezes – fácil de constatar – que o Daniel Oliveira não é parceiro para esta conversa. Eu, pelo menos, com ele sobre isto que tem estado aqui em causa (e sobre a esquerda em geral) não dialogo.

zé neves, o teu “nem” … “nem” … em torno dos fins e dos meios gera apenas o impasse.
É preciso optar e, eventualmente, errar. Agora, “nem”…”nem” de nada serve. Desculpa lá, pá.

Comentário de Zé Neves
Data: 19 de Dezembro de 2009, 1:33

carlos, em torno dos meios e dos fins escrevei mais adiante. O nem nem do título naõ se referia tanto a isso. olha, na verdade, creio que o slogan, na sua origem, procura até um efeito contrário ao que lhe estás a dar: o slogan trata de fazer uma crítica da guerra imperialista (nem a vossa guerra) mas também não aceita a paz social e nacionalista que fez o consenso do pós-guerra (nem a vossa paz).
abç

ps – sobre os fins e os meios, retomarei ainda a crítica qeu fizeste, há algumas semanas, a Negri e Hardt.

Comentário de Carlos Vidal
Data: 19 de Dezembro de 2009, 1:46

Zé Neves
Não me referia ao título do post, mas à tua frase:
“Questão que NÃO se resolverá dissolvendo os fins nos meios (dissolvência de que é nome a reforma) NEM aceitando uma contradição entre meios e fins (contradição de que seria nome a revolução).”

Comentário de viana
Data: 19 de Dezembro de 2009, 2:35

(…)acho que a nossa tarefa é combater todo e qualquer monopólio de poder(…)

Esta é uma afirmação absurda, que vai ainda mais longe que o anarquismo, que não é intervencionista, no sentido em que só defende a intervenção em caso de ameaça directa aos interesses do indivíduo ou comunidade em questão. Em particular, implica que o José Neves defende que mesmo aqueles que pretendem oprimir devem poder estar armados, para que não exista monopólio do uso da força pelos que apenas pretendem se defender da opressão. O José Neves defende que se armem grupos neo-nazis na Bolívia para que eles possam quebrar o monopólio da violência que o Estado Boliviano tenta manter?…

“Vejo com muita dificuldade a possibilidade de construirmos uma distinção clara entre democracia e ditadura que não passe pelo combate a todo e qualquer centralismo (…) Por isso entendo o combate democrático enquanto um combate que (…) se implica na luta contra aquilo a que poderíamos chamar genericamente a forma-Estado.”

Um Estado pode ter estruturas de decisão mais ou menos centralizadas, podendo mesmo tomar a forma duma confederação de comunidades (micro-Estados…) democráticas essencialmente autónomas. A existência efectiva dum Estado num território apenas exige que haja pelo menos uma lei de aplicação universal nesse território (o que exige necessariamente que tal lei seja efectiva, do que decorre a necessidade da ausência de meios que permitam contestar, resistir, à sua aplicação, ou seja é preciso que haja monopólio do uso da força por parte dos proponentes de tal lei).

Ainda, e em resposta ao 2o parágrafo, o Estado Democrático, por definição, não exclui. Os Estados existentes fazem-no, e por isso não são Democráticos. Não é correcto deduzir que a inexistência dum Estado Democrático prova a sua impossibilidade, como o José Neves implicitamente faz ao abusivamente restringir o conceito de Estado (democrático) àqueles que existem no concreto. De outro modo também poderia afirmar que a inexistência concreta do sistema político-social da preferência do José Neves prova a sua impossibilidade. E que portanto estamos condenados ao que temos. Não há conceptualmente qualquer incompatibilidade entre Democracia e Estado. Há entre Democracia e os Estados actuais, mas estes não esgotam as possibilidades de arquitectura institucional dum Estado, as quais abarcam mecanismos de participação e decisão Democrática plena. O José Neves deliberadamente tenta colocar tudo o que critica no mesmo plano, a violência burocrática e a física, o Estado “democrático” e a sua ausência, para não ter de tomar partido entre escolhas que o repelem. Lamento tal atitude, que parece revelar uma incapacidade de analisar criticamente a realidade existente, o que não é de todo a atitude correcta se queremos maximizar a possibilidade de transformar a realidade de acordo com os nossos objectivos. As diferenças existem efectivamente, e são suficientes para o José Neves e a esmagadora maioria das pessoas, escolher, se tiver mesmo que ser, evitar o pontapé na cara do polícia e ficar antes com o carimbo do burocrata, ou a ficar em Portugal em vez de ir viver para a Somália ou a Coreia do Norte. Ou não, José Neves, é-lhe mesmo indiferente tais escolhas?…

Comentário de miguel serras pereira
Data: 19 de Dezembro de 2009, 9:48

Xatoo e Carlos, ou vocês se passaram, ou sou eu que vos tresleio. Que conversa vem a ser essa de excluir quem quer que seja de uma conversa aberta nesta ágora? Escuso de dizer – o que nestas caixas de comentários tenho escrito mostra-o q.b. – que não estou de acordo com muitas das posições do DO. Acrescento de caminho que ainda menos o estou com o violentismo místico que por vezes leva o Carlos Vidal a fazer ao mesmo tempo a apologia da erupção ou irrupção como um bem supremo em si própria E da repressão totalitária, contanto que lambuzada de umas pinceladas vermelhas e acompanhada de alguns versículos “marxistas” rituais. Mais ainda, a sua ideia – do Carlos – segundo a qual uma revolução que não derrame sangue, não crie uma polícia omnipotente e perita em deportações e execuções sumárias, não ponha o habeas corpus fora da lei, não substitua a força bruta e/ou a arregimentação das massas aois direitos democráticos, é insuficientemente revolucionária, essa ideia, despida dos seus efeitos especiais à la Zizek ou à la Badiou, tende apenas a reproduzir os mais estafados clichés da tradição contra-revolucionária e irracionalista daquilo a que, à la Rancière, poderíamos chamar o “ódio à democracia”.
Mas, enfim, não quero divagar mais. Resta-me esperar, Carlos, que a ameaça de censura que paira nas tuas afirmações seja só um desses arroubos retóricos do qual te arrependerias caso tivesse efeitos práticos. Mas corres o risco de que alguns leitores de boa vontade acabem por te considerar, como dizia o Cesariny, das “comunidades práticas de pregar com pregos as partes mais delicadas da matéria”. E, em suma, é a falar que a gente se entende (uns aos outros e cada um a si próprio), reservando o recurso à porrada como meio contra aqueles que queiram impor-nos o silêncio ou obrigar-nos à oração, dando-nos (outra vez o Cesariny) “para baixo em cima da cabeça com um pau”.
Saudações matinais
msp

Comentário de miguel serras pereira
Data: 19 de Dezembro de 2009, 10:08

Errata do meu comentário imediatamente anterior: onde se lê
corres o risco de que alguns leitores de boa vontade acabem por te considerar, como dizia o Cesariny, das “comunidades práticas de pregar com pregos as partes mais delicadas da matéria”
deve ler-se:
corres o risco de que alguns leitores de boa vontade acabem por te considerar, como dizia o Cesariny, das “adepto das comunidades práticas de pregar com pregos as partes mais delicadas da matéria”.

Comentário de zé neves
Data: 19 de Dezembro de 2009, 15:38

Viana: “O José Neves defende que se armem grupos neo-nazis na Bolívia para que eles possam quebrar o monopólio da violência que o Estado Boliviano tenta manter?…”
José Neves: Viana. Entre a centralização das armas no ministério da administração interna e a sua propriedade por grupos armados privados existe muita coisa. Existe nomeadamente a possibilidade de assembleias de base democraticamente constituídas.

Viana: “Ainda, e em resposta ao 2o parágrafo, o Estado Democrático, por definição, não exclui. Os Estados existentes fazem-no, e por isso não são Democráticos. Não é correcto deduzir que a inexistência dum Estado Democrático prova a sua impossibilidade, como o José Neves implicitamente faz ao abusivamente restringir o conceito de Estado (democrático) àqueles que existem no concreto. De outro modo também poderia afirmar que a inexistência concreta do sistema político-social da preferência do José Neves prova a sua impossibilidade. E que portanto estamos condenados ao que temos”.
José Neves: Em primeiro lugar, começo pelo fim. Eu não penso politicamente em termos de “sistema político-social” que prefira. Há um certo involuntarismo (deleuziano?) que é condição de crença no mundo existente e que eu partilho. Não lhe chamo propriamente involuntarismo (porque há mais mundo entre a vontade e a necessidade), talvez uma certa ideia de imanência revolucionária, um pensar-fazer a-partir-de-mas-contra o que hoje existe, uma indissociação entre o negativo realmente existente e o positivo que virá, uma indistinção entre destruição e criação – fugir para um outro lugar mas fugir daqui. Em segundo lugar, o início do seu parágrafo. O Viana diz-me que aquilo em que vivemos não é Estado democrático. Muito bem, aceito. Mas então não percebo porque faz tanta diferença – e eu também compreendo que faça, e eu também faço – entre viver em Portugal ou na Coreia do Norte, no pós ou no pré 25 de Abril. Repare que a discussão é complicada e não tenho solução para a mesma (o que não quer dizer que deixe de pensar no problema): aceito igualmente que não chamemos ao que temos democracia e, por outro lado, não hesitaria em defender o que temos contra o que existe na Coreia do Norte: agora, defender é uma ideia politicamente inoperante. O que temos não é o resultado de um idealismo (idealizar uma coisa que passa a existir e que depois pode ser defendida) mas de um materialismo complexo no qual a nossa acção vai tomando partido. E aí podemos estar certos de que a nossa luta contra o que temos, se organizada de acordo com os preceitos de radicalização democrática a que aspiramos, em nada contribuirá para que cheguemos à Coreia do Norte. Não acredito em coligações negativas.

Viana: “As diferenças existem efectivamente, e são suficientes para o José Neves e a esmagadora maioria das pessoas, escolher, se tiver mesmo que ser, evitar o pontapé na cara do polícia e ficar antes com o carimbo do burocrata, ou a ficar em Portugal em vez de ir viver para a Somália ou a Coreia do Norte. Ou não, José Neves, é-lhe mesmo indiferente tais escolhas?…”
José Neves: Em parte, respondi já na resposta anterior. Quanto à alternativa carimbo/pontapé, duas coisas: em termos de eficácia repressiva, não sei se o pontapé é sempre preferível ao carimbo, de modo que não sei, do ponto de vista do reprimido, se é sempre linear o que é preferível. De igual modo sabemos que a greve de fome pode ser mais eficaz do que o murro no polícia. Nada aqui é linear. Mas Viana, a conversa era outra: a violência do burocrata, não sendo física, não é violência? Violência seria apenas a movimentação física (que pode implicar um pontapé no burocrata) de quem força a sua entrada?

Saudações.
Ps – estou de boa-fé neste debate e aprecio muito as suas críticas. Aprendo bastante e acho que não estamos politicamente muito distantes. E se não estou de boa-fé é porque não reparo. O que não me ilibaria, mas talvez aconselhasse alguma prudência na hora de me acusar de desonestidade e de acções deliberadamente falsificadoras da discussão. Abraço.
Ps2 – O combate ao centralismo não exclui momentos de centralização, embora a figura da rede (que bem sei que também é cultivada por neoliberais e outros que tais) permita efectivamente pensarmos na ausência de centralização.

Comentário de viana
Data: 19 de Dezembro de 2009, 19:35

Caro Zé Neves, leio-o sempre com atenção e apreço, e aprendi que é uma das pessoas neste blogue com quem mais frequentemente concordo. Este seu post supreendeu-me por nele trasparecer (que pelo que afirma no seu último comentário não foi intencional) uma atitude típica em alguma Esquerda radical, e de que não estava nada à espera: a afirmação de que não só todos os sistemas político-sociais existentes são igualmente desprezíveis, como pior não é possível, e portanto realmente não importa as consequências dos nossos actos porque pior não podemos ficar (em termos colectivos). É uma afirmação efectivamente desonesta porque não é sincera. E não é possível conversar de boa-fé com quem a faz. Efectivamente tal atitude é um obstáculo ao diálogo. Aliás, quem a assume fá-lo em parte com o objectivo de fechar a porta a qualquer diálogo, ou seja à deliberação democrática.

Este atitude por parte de algumas pessoas que se dizem da Esquerda Radical é um dos aspectos que mais tem merecido a crítica do Daniel Oliveira, para além da contestação do uso da violência com o intuito de mudar o sistema político-social. E é por isso que é tão “mal visto nesses círculos”. E, apesar de não concordar com o Daniel quanto ao sistema político-social para onde devemos caminhar, apoio-o totalmente na exigência de boa-fé na discussão. Aceitar que o sistema político-social em que vivemos podia ser (bem) pior, não implica uma aceitação (total) do sistema, nem exige moderação a quem tem consciência de tal. Exige sim inteligência e reflexão estratégica sobre a acção revolucionária, porque senão “as coisas podem dar para o torto”. O que acabei de dizer não tem nada de original. Aliás, espanta-me ver pessoas neste blogue que se dizem próximas do PCP tomar uma atitude contrária, quando o PCP é o paradigma do que acabei de dizer.

ZN: “E aí podemos estar certos de que a nossa luta contra o que temos, se organizada de acordo com os preceitos de radicalização democrática a que aspiramos, em nada contribuirá para que cheguemos à Coreia do Norte. Não acredito em coligações negativas.”

Não partilho desse optimismo. Quem detém o Poder não abrirá mão dele facilmente, e sem tentar no limite o uso de técnicas, bem conhecidas, de mobilização fascista de massas. Qualquer acção de radicalização democrática tem de ter em conta este perigo bem real, e prever mecanismos que diminuam a probabilidade de se materializar. Quais, constitui a questão chave no processo revolucionário.

Quanto à natureza da violência, o Daniel Oliveira foi bem claro em afirmar que a greve de fome, por exemplo, é também uma forma de violência. E não tenho dúvida que perante o exemplo do burocrata, também concordaria que tal atitude constitui violência. O que o Daniel Oliveira tentou dizer foi que há diferentes tipos de violência, que eles não são equivalentes para quem as sofre, e que a violência física lhe parece (em geral) a pior do seu ponto de vista. Concordo com os primeiros dois pontos, e quanto ao terceiro diria que no meu caso particular a violência física é realmente a que mais temo, mas aceito perfeitamente que outras pessoas temam mais outros tipos de violência directa sobre elas.

Comentário de xatoo
Data: 19 de Dezembro de 2009, 19:51

carissimo miguel serras pereira
ninguém quis excluir daniel Oliveira; apenas sugeri que as suas teses sejam consideradas da ala direita social democrata. Nada mais que isso. É que para a direita em geral, como disse, é divertidissimo considerar o colunista do Expresso como sendo de extrema-esquerda. Só opinei no sentido de desfazer o embuste. Não está em causa a liberdade de se poder expressar
cumpr.

Comentário de zé neves
Data: 19 de Dezembro de 2009, 20:22

viana, em lado nenhum escrevi, ou quis escrever, que a coisa não poderia ficar pior. o que disse é que a pergunta do daniel “avancem lá então com uma alternativa a ver se consegue” só pode levar à ideia de que não há possibilidade de melhor.

quanto à questão da radicalização da democracia e a questão do futuro político e seus riscos, não é uma questão de optimismo, mas estou de acordo que é mais complicado do que escrevi no comentário anterior.

abç

Comentário de miguel serras pereira
Data: 20 de Dezembro de 2009, 0:40

Caro Xatoo, se interpretei mal, peço desculpa. Mas é você que fala de “declarar” o direitismo do Daniel Oliveira num tom um tanto dogmático. Se dissesse que – na sua opinião – o DO se situa na ala direita da social-democracia, não teria dado margem a que eu interpretasse em termos de excomunhão a sua discordância. Mas fico muito satisfeito por me ter enganado ao lê-lo. Sinceramente.
Com as saudações cordiais
msp

Pingback de cinco dias » Violência: o meu resumo de uma discussão recente
Data: 21 de Dezembro de 2009, 1:06

[...] Diz I. Pimentel que partilha com DO o facto da violência dever ser exercida apenas pelo “estado democrático” (o monopólio de que …Ora, a minha posição é diametralmente oposta: é precisamente ao “estado democrático” que [...]

Pingback de Arrastão: Pólvora Seca
Data: 21 de Dezembro de 2009, 15:21

[...] (vale a pena acompanhar a polémica com o Cinco Dias e ler estes novos escritos já depois deste: este, este e [...]

Pingback de Solstício
Data: 22 de Dezembro de 2009, 17:22

[...] andado para compreender este debate em torno da violência. Note-se que o Estado, como bem sugere Zé Neves num assomo badiouano, é a forma-Estado, não se reduzindo esta ao parlamento, governo e demais aparelho judiciário. Se [...]

Escreva um comentário