Pesquisa

Uma história de violência

17 de Dezembro de 2009 por Ricardo Noronha

Finalmente arrancou um debate político acerca da violência que dispensa comentários acerca das ementas e dos percursos políticos e profissionais dos seus intervenientes. O Daniel entrou na tasca para beber um copo e gravou no tampo de uma mesa as suas impressões sobre o assunto:“Para o que aqui nos interessa: a violência política fabrica códigos de poder que estarão presentes no futuro dos movimentos que por ela optam. A violência até pode ser indispensável para pôr fim à violência do outro, mas sabemos que ela nunca é só um meio para esse fim. A violência passará rapidamente a ser a forma de resolver todos os conflitos, mesmo os internos a cada movimento e mesmo aqueles que não a exigem, porque as relações de poder que a violência forjou se reforçaram nesse processo.”

Começo por dizer que acompanho parte do raciocínio do Daniel, mas aquilo que no seu texto surge como uma espécie de fatalidade histórica, na minha cabeça ocupa o espaço de um problema, cuja resposta pode ser difícil e trabalhosa, mas não impossível. Parece que Debord terá dito em tempos que a “a vitória pertencerá aos que souberem usar a violência sem se deixarem controlar por ela” e é mais ou menos nesse patamar que a questão me parece poder ser equacionada, para lá do fatalismo presente no texto do Daniel.  Nesse sentido, o uso da violência não equivale automaticamente à militarização de um movimento, na condição de este saber os riscos que ela comporta e conseguir manter uma perspectiva crítica relativamente às formas de hierarquização que dela resultam.

Por outro lado, se a violência fabrica códigos de poder, então o Estado liberal e a democracia representativa também são códigos de poder e materializam  formas de violência (tanto as que lhes deram origem como as que asseguram o seu funcionamento). Desse ponto de vista, não há forma política que não corresponda, voluntária ou involuntariamente, a códigos de poder fabricados pela violência. Ser fascista, conservador, liberal, social-democrata, comunista, anarquista ou adepto do F.C. do Porto, são diferentes formas de equacionar essa relação e de se posicionar face a ela, mas todas, no limite, estabelecem uma linha de demarcação entre a violência que é legítima e a que não o é. Aqui chegados, talvez seja possível abandonar a ideia de que alguém, neste debate, considera a violência uma coisa agradável ou divertida. Da mesma maneira, admitamos que tod@s carregamos conosco um instinto de sobrevivência, estando por essa via predispostos ao uso da violência em determinadas circunstâncias. O problema pode então ser deslocado, do campo hormonal ou psiquiátrico, para o plano da política e das diferentes sensibilidades que o atravessam.

E o que o Daniel conclui a partir do seu raciocínio não me parece fazer sentido. Desde logo porque a relação existente entre a violência violenta e aquela outra mais subtil e que está enraizada nos quotidianos e nas representações simbólicas não é a da sobreposição ou a da coexistência pacífica em planos que nunca se encontram. Pelo contrário, a violência materializada numa carga policial, num estabelecimento de reclusão ou num bombardeamento cirúrgico, é o suporte fundamental de todas as outras e a condição da sua permanência. O raciocínio do Daniel pressupõe que os seres humanos, se entregues a si próprios, aniquilar-se-iam uns aos outros na disputa por um copo de água. Assim sendo, torna-se preferível haver um conjunto de especialistas dispondo do monopólio da violência e que possam impedir essa guerra de todos contra todos.

Mas no debate que está em cima da mesa, essas premissas são tudo menos auto-evidentes.  Diz o Daniel que «pior é possível» e que,  sem o Estado e o seu monopólio da violência, os poderosos exerceriam o seu poder de forma impune e discricionária. Mas eu diria que o Estado é, no preciso momento em que falamos, a forma privilegiada para esse exercício e que a denúncia da ilegitimidade de cada acto” é ainda uma forma defensiva de o enfrentar, que explica muito acerca de cada uma das  nossas (e aqui falo de um campo amplo o suficiente para me incluir a mim e ao Daniel) derrotas e prepara as condições para a emergência de algo ainda pior.  No horizonte dessa posição defensiva, a condição de possibilidade de cada estratégia torna-se a sua compatibilidade com o dispositivo político que inclui a democracia representativa, a legalidade e a institucionalização dos conflitos. Trata-se  de reivindicar direitos,  negociá-los, protestar pela sua não concretização, contestar a sua diminuição, fiscalizar a sua aplicação. Gradualmente, damo-nos conta de que estamos a aceitar as regras de um jogo que pretendíamos precisamente subverter, por o considerarmos viciado à partida. E que, nesse processo, reivindicar, negociar, protestar, contestar, fiscalizar, denunciar, se tornaram um bom negócio para alguns e um contributo inestimável para a pacificação social, sem que a arbitrariedade deixe de nos governar.

Finalmente, e em jeito de epílogo, parece-me resultar do desenvolvimento deste debate uma ideia forte.

Para quem acha que o modo de produção capitalista, no fundamental, resolve satisfatoriamente os principais problemas relacionados com a nossa existência (para não falar dos que o consideram conforme à ordem natural das coisas e um  bom fim de história), o Estado de Direito liberal e a democracia representativa, com todas as suas variantes imagináveis, servem perfeitamente e a sua violência deve ser avaliada em termos de legitimidade e proporcionalidade. Não quero ofender ninguém, mas é assim que raciocina o serviço de relações públicas da PSP e o gabinete de imprensa do Ministério da Administração Interna.

Para quem acha que o modo de produção capitalista transporta em si uma violência original  e constitutiva  (ontológica, dirão alguns) insuportável, então o Estado (mesmo na sua forma liberal e ainda que essa forma não seja irrelevante) e o seu monopólio da violência, são uma parte fundamental do problema e devem ser encarados de um ponto de vista estratégico, no qual se insere o uso da violência. A partir daí, desde o piquete de  greve e o serviço de ordem até ao motim ou à insurreição, tudo é política e o seu valor coloca-se sobretudo do ponto de vista da oportunidade. É que momentos há, precisamente, em que à arbitrariedade só se pode opôr a violência e o nosso tempo é cada vez mais fértil em momentos dessa natureza. Estou certo de que o debate continuará,  nem que seja pela própria pressão dos acontecimentos.

E agora vou ali comprar uma miniatura dos Jerónimos em chumbo para umas ideias que eu cá tenho.

Comentários

Comentário de tarekaziz
Data: 17 de Dezembro de 2009, 21:54

A VIOLÊNCIA DEMOCRÁTICA ‘fez-se’ esmagadora na ex-Jugoslávia,com Urânio Empobrecido e bombas de grafite.Democráticas,com os ‘nossos’ politicos q chegaram ao poder democraticamente para roubarem,contudo na Venezuela é um ditador q ganhou sem falcatruas.Fosca-se!venha um Staline!paRA ACABAR COM ESTES ‘PACIFISTAS’ e estes ‘desinteressados’ que depois acabam na Lusoponte,na Mota-Engil e restantes empresas caridosas.Não há pachorra,para tanto cabrão ainda por cima votado pelo fodido,pelo coprno orgulhoso.A pobreza é mesmo merdosa!

Comentário de Party Program
Data: 17 de Dezembro de 2009, 23:38

“a vitória pertencerá aos que souberem utilizar a violência sem a amar”. Algo diferente. Vou ler o resto

Comentário de viana
Data: 18 de Dezembro de 2009, 1:45

“O raciocínio do Daniel pressupõe que os seres humanos, se entregues a si próprios, aniquilar-se-iam uns aos outros na disputa por um copo de água.”

Basta olhar para a História. Porque é que hoje (quase) todo o planeta está sob o controlo de Estados? Foi algum extraterrestre que impôs tal situação?… E nos locais onde esse controlo falha, na maior parte dos casos por colapso de anteriores Estados, temos o quê? Comunidades pacíficas?! Talvez me diga que o não são porque causa de interferências externas. Mas esse é um dos problemas! Mesmo que uma comunidade pacífica consiga se constituir, sem vestir as “roupagens de Estado” (não creio que isso seja possível, mas isso é outra discussão, que tenho estado a ter com o msp), a História demonstra que é extremamente vulnerável ao assédio dum qualquer Estado. A situação actual de supremacia “do Estado” demonstra que todas as outras estruturas político-sociais que existiram no planeta ou se transformaram em Estados ou foram subjugadas por estes. Suponho que o Ricardo Noronha concorda se eu afirmar que qualquer Estado, pela sua própria natureza, inevitavelmente tentará expandir o território sob o seu controlo, mesmo que com “as melhores intenções”. Resta então responder à pergunta: que tipo de comunidade é que consegue resistir sistematicamente ao apetite expansionista dum Estado, sem ela própria se constituir efectivamente num Estado? Não há evidência histórica de tal. Isso não quer dizer que não seja possível, mas devia fazer pensar duas vezes quem se rebela contra a ideia de Estado sem efectivamente apresentar qualquer alternativa clara viável.

No raciocínio do Ricardo Noronha está também ausente a constatação, que me parece óbvia, que não só os Estados actuais podiam um veículo para um ainda maior exercício do Poder por uma minoria (ou vai-me dizer que hoje, em Portugal, os poderosos exercem o seu poder de forma mais impune e discricionária do que há 50 anos atrás?…), como a constatação de que sim, há situações de ausência de Estado onde a impunidade e a discricionidade dos poderosos são bem maiores do que num Estado como Portugal (preciso mesmo de mencionar a Somália?…). Portanto, sim, pior é possível. Isso não quer dizer que nada se deva fazer com medo de ficarmos ainda pior, mas sim que é preciso ter em conta essa possibilidade na acção revolucionária. Acção que não necessita da violência material para ter sucesso. Há inúmeros casos de mudança revolucionária atingidos através da acção não-violenta. É importante neste ponto esclarecer que para mim é irrelevante do ponto de vista dos objectivos a atingir, se uma efectiva revolução tem lugar num curto intervalo de tempo, ou ao longo dum período mais alargado. A aceitação dupla de que pior é possível e que o tempo revolucionário pode ser distendido, sugere que a acção revolucionária pode ter sucesso se houver uma estratégia clara e robusta de subversão contínua do sistema, em que este é contestado em múltiplas frentes em simultâneo e de forma complementar, empurrando-o para a sua transformação. Transformar é mais difícil do que destruir, mas conseguimos prever melhor o que nos sai na rifa seguinte.

Comentário de Ironia Descrente na maioria dos seres humanos
Data: 18 de Dezembro de 2009, 2:23

As relações de poder e subjugação do outro são, infelizmente, inevitáveis. Mais do que teorias políticas, já disse e repito, os ideais são muitíssimo belos, o pior são os que têm sede de poder… O pior são os seres (des)humanos…
O problema, para mim, equaciona-se na área da Ética e afigura-se-me irresolúvel…
O equilíbrio nas relações sociais (sempre, sempre de poder…) se não é utópico é raríssimo. Autênticas preciosidades oásicas!!!

No seu livro “Democracia e Livre Iniciativa, Política, Arte e Estética” da editora Fenda, o autor Carlos Vidal (cuja leitura recomendo vivamente a todos, por muitos motivos entre os quais saliento: as suas qualidades anti-depressivas :-) ) cita, e muitíssimo bem, Alain Badiou, no seu “L’éthique”: “Torna-te como eu, e eu respeitarei a tua diferença”.

Ora, euzinha, comentadeira, entre a cerveja e o tremoço, que não prescindo de tertúlias filosóficas em Tascas Divertidas, gostaria de dizer: E como se resolve esta máxima de Badiou, sabendo nós que são raríssimos os seres humanos que conseguem respeitar as diferenças nos outros?
Como encontrar equilíbrio nas relações de poder?
Quem chega ao poder, ainda não teve tempo de aquecer o poleiro e começa logo a abusar…

Estarei a ver mal?

Comentário de WALTZ
Data: 18 de Dezembro de 2009, 3:16

Tanto tempo de antena com mais um idiota que faz pela vidinha. Esse parvo foi uma das razões (pequena é certo) que me levou a não votar BE. O tipo é execrável.

Comentário de Semeador de Favas
Data: 18 de Dezembro de 2009, 4:25

Ricardo Noronha, o seu post passa de raspão por aquilo que eu julgo ser um equívoco original das posições defendidas pelo D.O – e por quem defende teses aproximadas. Algo que julgo ser decisivo neste debate, portanto em que vou pegar à mão cheia.
Pois bem:
É que o contrário de “pacifismo” não é “violência”. O contrário de pacifismo é belicismo. E, assim como a violência não pode ser reduzida ao produto do militarismo, assim a defesa da paz – e é nesta palavra que o pacifismo radica e não na palavra obediência – não é reduto ou propriedade exclusiva dos partidários da docilidade enquanto dogma. Isto é, nenhum defensor absoluto da não-violência tem o direito de se reclamar dono do Pacifismo.
Isto em primeiro lugar. Segundo, nem o mais furioso dos idealistas poderá jurar que uma táctica que exclua o recurso à violência física (sobre terceiros) para atingir determinado fim – uma greve de fome por exemplo -, implica um menor grau de violência que uma réplica do Templo Romano de Évora, ou da Acrópole de Atenas inteira espetada na boca de um chefe de estado: e, muito menos, que este gesto violento seja irrecuperável enquanto acto pacifista.
Haverá quem diga que isto é uma tese relativista. Ao que eu responderei que a “superioridade moral” é um subterfúgio.

Comentário de António Figueira
Data: 18 de Dezembro de 2009, 4:43

O que são “códigos de poder”? Para mim são como as “cumplicidades” que agora se dizem, pirosices.

O mdp capitalista encerra uma violência “ontológica” – como os demais mdp que o precederam e mais do que provavelmente aquele que o superará – porque se a violência é ontológica, é também porque é inconcebível uma antropologia que a exclua.

Quem se atreve a dizer que não há maus rapazes?

Toda esta conversa da não-violência, à parte os fins espúrios a que se destina (de legitimação da esquerda “responsável”), é, intelectualmente falando, das coisas mais fúteis e pueris que já testemunhei; tivemos um caramelo que abolia a luta de classes por decreto, agora temos outro que retira igualmente por um acto de vontade a violência do quadro das relações sociais e humanas – até que abismos assistiremos nós a inteligência a mergulhar?

Comentário de viana
Data: 18 de Dezembro de 2009, 11:32

O que António Figueira afirma é que efectivamente é impossível acabar (ou se calhar sequer diminuir) a opressão. Porque o exercício da violência sobre outro é opressão (aliás, diria que são sinónimos no âmbito restrito das relações humanas), mesmo que seja com “a melhor das intenções”. Não deixa de ser estranho que quem amiúde se afirma contra os “realistas”, aqueles que defendem a acção orientada pelo possível (“grave falha” de pessoas como o Daniel Oliveira), venha agora defender que afinal não é possível sequer possível diminuir a violência, ou seja a opressão, no seio das relações humanas!

Comentário de António Figueira
Data: 18 de Dezembro de 2009, 11:37

“a violência, ou seja a opressão”? Que disparate.

Comentário de miguel serras pereira
Data: 18 de Dezembro de 2009, 12:03

Caro Ricardo Noronha,
acho que pões lindamente os pontos nalguns ii, e centras a discussão nos aspectos que vale a pena discutir “ao ritmo da acção”. Por mim, só substituiria o modo de produção capitalista por qualquer coisa como “a dominação hierárquica (e classista)”, porque esta última definição cobre situações mais vastas e é mais directamente política. Mas penso que esta ampliação corresponde ao espírito do que escreveste e que subscrevo. Sobretudo, subscrevo inteiramente a ideia de que é necessário – quando necessário – articular democraticamente o recurso à violência e impedir que seja a lógica da força bruta a sobrepor-se aos objectivos fundamentais da luta política. Pode ser necessário recorrer à violência para garantir ou conquistar a participação igualitária de todos na deliberação e decisão das medidas que lhes dizem respeito, para garantir ou conquistar o exercício do poder pelos cidadãos de uma sociedade autónoma, mas é necessário que isso seja feito de modo a não comprometer esses objectivos – e não através de formas tradicionais, conservadoras, para-religiosas, etc. de uso da violência, que, por muito revolucionárias que se proclamem, mais não fazem do que consagrar e reproduzir a dominação hierárquica e classista. A este propósito talvez subestimes um pouco, e como que por distracção, a existência de concepções irracionalistas às quais não vejo como se possa aplicar a tua afirmação de que ninguém gosta, acha agradável ou defende por princípio o exercício da violência na acção política. Mas creio que aceitarás esta reserva. Em contrapartida, não vejo que a tua posição negue que seja possível uma situação pior do que a caracterizada pelas formas e pela lógica da regulação da violência pelos “Estados de direito” como os que existem nos regimes em que vivemos (porque, caro Viana, embora eu compreenda e faça minhas as suas preocupações nesta matéria, creio que dizer que a situação na Somália é pior do que a nossa, sendo verdade, não significa que não devamos lutar contra os males que temos mais à mão, do mesmo modo que o facto de ter sido possível evitar aquilo a que o Alexandre O’Neill chamava a “estupidez do sangue nas calçadas” em combates revolucionários bem sucedidos, não quer dizer que seja sempre esse o caso…).
Solidário abraço
msp

Comentário de viana
Data: 18 de Dezembro de 2009, 13:18

A sua resposta parece-me curta, caro António Figueira, falata de argumentos?… Talvez ajudasse a compreender a sua posição se definisse o que entende por opressão.

Quanto ao comentário do msp, com o qual concordo genericamente, a passagem do post que motivou grande parte do meu primeiro comentário foi

“Diz o Daniel que «pior é possível» e que, sem o Estado e o seu monopólio da violência, os poderosos exerceriam o seu poder de forma impune e discricionária. Mas eu diria que o Estado é, no preciso momento em que falamos, a forma privilegiada para esse exercício(…)”

Ora, o Ricardo Noronha contorna a questão do que seria expectável, ou mesmo possível, na ausência de Estado. E a evidência histórica, patente aos nossos olhos hoje, em locais como a Somália, é que o desaparecimento do Estado leva a situações extremas de impunidade e discricionariadade por parte dos detentores do Poder. Repito, isso não quer dizer que não se deva tentar mudar, transformar, revolucionar, o sistema de relações políticas e sócio-económicas existente. Apenas demonstra que é preciso ter cuidado e reflectir estrategicamente sobre as acções (sejam elas de que natureza forem) a tomar com esse fim. Porque muito pior é possível. Não basta “dar cabo de tudo e depois vê-se”. Não me parece que o msp defenda tal. Isto não é um apelo à moderação, mas sim um apelo à inteligência.

Comentário de António Figueira
Data: 18 de Dezembro de 2009, 13:20

Caro Viana,
Foi V. que equiparou a violência à opressão, não fui eu, portanto as eventuais definições cabem-lhe a si e não a mim. O que me parece óbvio é que a violência, enquanto categoria genérica, é algo de pré-político; nem que seja a violência contra as outras espécies animais, está inscrita no nosso código genético. Afinal, embora uns mais do que outros, somos todos animais.
Cumps., AF

Comentário de miguel serras pereira
Data: 18 de Dezembro de 2009, 13:26

Caro Viana,
estamos de acordo sobre pontos substanciais. Sem dúvida, “destruir é mais fácil do que transformar”, diz você. Com efeito, penso que não basta para sermos “revolucionários” odiarmos o capitalismo ou a dominação política que se exerce através dos aparelhos estatais e “económicos”: teremos também, e sobretudo, de ser capazes de uma outra relação – a autonomia – com as instituições, reconhecendo-as como realidades mortais, “seculares” (convencionais e profanas) criadas pela nossa acção e assumindo a responsabilidade pela sua criação. Não basta derrubarmos o governo, a forma de governo ou regime, existente: o governo instaurado pela acção revolucionária só pode ser o que governa através do exercício do poder pelos cidadãos.
Mas as nossas divergências começam quando vejo que você parece recusar-se a estabelecer uma distinção entre “poder político” e “Estado”. Ora, se não me parece concebível uma sociedade sem poder político, sem instituições e sem leis, também, para dizer tudo bem e depressa, não consigo ver como pode o Estado ser democrático ou compatível com um espaço público de exercício do poder numa república de cidadãos governantes. A não ser que você me diga que o Estado para si não implica um poder político separado, acima do espaço público democrático e substituindo-se a ele em aspectos decisivos; não implica a distinção permanente e estrutural entre governantes e governados; não implica a “passividade” ou “redução à passividade” (no sentido mais forte) dos cidadãos em matéria de deliberação e decisão; não implica o monopólio dos meios de coacção física, ou que esse “monopólio” significa apenas que nenhum cidadão pode recorrer à coerção sobre outros excepto no momento em que, como “miliciano” do “povo em armas”, tem para isso mandato. Claro que, se você me conceder tudo isto, e disser que o Estado democrático em que pensa não é o que temos, mas o conjunto das instituições e magistraturas da cidadania governante, eu poderei, depois de explicar cuidadosamente a quem me ouça o que entendo pela expressão em causa, rematar o discurso, gritando consigo: Viva o Estado democrático -e você poderá gritar comigo: Viva a autonomia! Viva a democracia governante!
Acrescento que o que vale para o Estado, vale também para a “actividade económica” e para o capitalismo. Na orgaqnização da actividade económica, que é sempre política – sempre obra de um poder político, quer este se assuma ou não com tal -, a acção revolucionária significa, não a substituição das relações de poder próprias do capitalismo actual pela atribuição do posto de comando a um super-Estado, mas a democratização radical da gestão e orientação económicas, a cidadania governante ao nível da economia.
Cordiais saudações republicanas
msp

Comentário de ezequiel
Data: 18 de Dezembro de 2009, 14:40

Muito interessante, a Vossa discussão.

O Viana aborda uma questão vital mas parece esquecer-se (ou simplesmente n se preocupou com este particular) de todos os conflitos que foram gerados por estados (eu, tal como o sr, acredito na legitimidade da existência do estado, mas por razões distintas, muito pouco hobbesianas). existem dezenas de estados corruptos e criminosos. o estado é muitas vezes o principal responsável pelo seu próprio colapso (o caso da Somália, por exemplo). não seria descabido afirmar que o estado criado pelo TUC em Mogadishu (que estabilizou o país pela força da mais brutal repressão: amputações e execuções públicas etc), apesar de manter a “estabilidade interna”, engendrou conflitos regionais etc (ou seja, ficamos na mesma). a política, como diria Deleuze, é um domínio de combinações infinitas, imensamente criativo e irredutível a um ou outro paradigma ou pressuposto de necessidade causal. (estado-estabilidade) os estados consolidados podem ser tão ou mais problemáticos do que os estados falhados. não são poucos os estados falhados que surgiram por via da acção de estados consolidados.

parabéns pela discussão.
cumps
ezequiel

Comentário de viana
Data: 18 de Dezembro de 2009, 16:04

Caro msp,

“Claro que, se você me conceder tudo isto, e disser que o Estado democrático em que pensa não é o que temos, mas o conjunto das instituições e magistraturas da cidadania governante, eu poderei, depois de explicar cuidadosamente a quem me ouça o que entendo pela expressão em causa, rematar o discurso, gritando consigo: Viva o Estado democrático -e você poderá gritar comigo: Viva a autonomia! Viva a democracia governante!”

Viva! Assim é.

A minha teimosia em insistir na palavra Estado tem duas razões de ser:

(1) acho que é importante que se tenha consciência plena do que se propõe, e das suas semelhanças e diferenças perante o que existe, pois tal influência sobremaneira o modo de actuação, a definir o caminho daqui até acolá, e ajuda a identificar o que é essencial mudar; em particular, a insistência no conceito de Estado deixa desde logo claro que se pretende manter o atributo essencial dum Estado: a aplicação universal das leis (sejam elas decididas porque quem fôr), o que implica (acho que obviamente) que o Estado (enquanto organização e no território em que actua) possua o monopólio do uso da força (seja ele assegurado por todos os cidadãos ou apenas por corpos profissionalizados);

(2) a utilização do conceito de Estado, imediatamente associado pelas pessoas ao conceito (muitas vezes apenas promessa) de estabilidade e protecção, permite apresentar um projecto que é efectivamente revolucionário como sendo de transformação (radical) do sistema político e sócio-económico, e não de substituição “pura” deste; pode parecer um detalhe, mas a reacção emocional a uma ideia é muito mais importante do que a reacção racional, pois é a primeira que vai ditar o nível de apoio que a ideia consegue congregar; e, por mais que desgoste quem pretende a revolução, as pessoas são instintivamente conservadoras, preferindo portanto dum ponto de vista emocional a ideia de transformação (porque gera menos angústia) à de substituição, em particular quando não lhes é claro qual o resultado final (a não ser em caso de desespero e raiva extremo, o que não é – ainda – generalizado); a reacção emocional a uma ideia está intimamente ligada à imaginética que esta invoca, o que quer dizer que não nos podemos abstrair do quadro conceptual existente (mesmo que devamos tentar alterá-lo, a escala de tempo necessária para tal é incompatível com uma mudança sistémica necessária o quanto antes) se queremos efectivamente congregar o apoio duma maioria para a mudança revolucionária; obviamente, que para quem continua acreditar no credo marxista-leninista da vanguarda revolucionária, é indiferente (a não ser por razões práticas de captura dos mecanismos que permitem o exercício do Poder) para a sua acção se possuem ou não apoio maioritário entre a população, e portanto tudo o que antes afirmei é irrelevante; mas, se como defende o msp a revolução democrática e autonomista só deve e pode acontecer com o apoio e participação da maioria dos cidadãos, então parece-me que o que escrevi é relevante para a estratégia da acção revolucionária.

Comentário de viana
Data: 18 de Dezembro de 2009, 17:15

Note-se que é possível haver mecanismos de acção colectiva cujo objectivo é regular a interacção social na ausência efectiva de Estado ou seja de leis universais. Essa é a ideia central por detrás do Anarquismo (ou anarco-sindicalismo), pelo menos nas suas versões mais radicais. Todo o conflito é então decidido caso a caso, conforme a capacidade dos indivíduos envolvidos para congregar em seu favor um sindicato de apoio, o qual eventualmente poderá ter de recorrer à força para impôr a sua vontade. Tais sindicatos, ou alianças, podem ser permanentes, mas para que o sistema não evolua efectivamente para um Estado, teriam de resistir à tentação de assegurarem preventivamente que nenhum outro sindicato consegue lhes impôr a sua vontade. O que a história demonstra não ser possível: mais tarde ou mais cedo há sindicatos que decidem tentar tornar-se hegemónicos, e eventualmente há um que consegue (no âmbito dum certo território). E cá temos o Estado de volta.

ezequiel, eu não omiti o problema dos conflitos gerados por Estados, nem genericamente a opressão que eles exercem, seja sobre o seu território seja tentativamente sobre outros. É difícil de determinar se a humanidade “está melhor” (seja o que fôr que isso signifique…) por ao longo da História terem aparecido Estados, ou não. De certo modo, isso para mim não é tão relevante como a constatação de que o surgimento de Estados é aparentemente um processo histórico inevitável. Não só a História sugere tal, como conceptualmente não vejo como poderia ser de outro modo: a ausência efectiva de Estado é uma situação instável dado necessitar de uma efectiva concordância por parte de todos os actores colectivos, ie. sindicatos, na ausência de mecanismos de coordenação (pois a coordenação, ou concordância unânime, equivale à constituição duma lei universal, ou seja à criação efectiva dum Estado, mesmo que apenas embriónico). Portanto parece-me que, efectivamente, o que podemos decidir é que tipo de Estado queremos, e não se queremos ou não ter Estado.

Aliás, estamos a ver no presente o processo histórico acima descrito a desenrolar-se à escala global: a constituição efectiva de um Estado Planetário há medida que os mecanismos de coordenação se aprofundam e abragem cada vez mais sindicatos (no sentido em que não são hegemónicos no território em questão, ie. todo o planeta). E isto resulta simplesmente da constatação dos diversos sindicatos, ou países, que sem coordenação não conseguem impedir o surgimento de sindicatos com tendências hegemónicas, que nem sempre falharam nos seus propósitos.

Comentário de ezequiel
Data: 18 de Dezembro de 2009, 17:59

Caro Miguel S P,

Há pouco n tive tempo de escrever isto. Aqui vai.

O conceito de autonomia participativa que defende tem a inegável virtude de manter a relação constitutiva indivíduo-sociedade bem no centro das suas elaborações. Não nega a pertença do indivíduo autónomo ao social (os neo libs fazem isto ao absolutizar o conceito de autonomia). Ao sr interessa a autonomia corporizada na acção social, motivada pela responsabilidade. (um argumento com o qual concordo e que resolve, de certa forma, os falsos antagonismos entre o comunitarismo (Taylor, Sandel etc) e o liberalismo autonomista que nega a importância do social-institucional (instrumentalizando-o, reduzindo-o a um mero efeito das acções humanas autónomas) São muitos os pensadores que, à pala do conceito da autonomia, relegam o social-institucional para segundo plano (não estou a insinuar que é isto q o sr propõe aqui) Muito pelo contrário.

Todavia, a experiência da autonomia contêm uma tensão (n disse contradição) permanente entre a não-interferência na esfera de deliberação do indivíduo (aspecto e condição fundamental da autonomia) e o social-institucional (condição da possibilidade da autonomia) pela simples razão que o “indivíduo” autónomo, ao agir, implica a sua acção num conjunto de “interferências” (sociais, institucionais, históricas) que comprometem ou dão corpo à sua autonomia em responsabilidades diversas, muitas das quais não resultam de “escolhas livres e racionais” (as escolas da teoria racional e de jogos, hoje firmemente implantadas em tudo o que é departamento de estudos políticos, negam a importância ontológica da comunidade, absolutizando a autonomia dos seus “agentes deliberativos” ) (para muitos o conceito da autonomia faz parte do apparatus conceptual da opressão capitalista!! ehe he eheh) A implicação da autonomia na comunidade, no social, (q precede a constituição histórica de cidadãos-governantes -autónomos, como condição ontológica ) não é a contradição da autonomia mas a sua génese.

Presumo que conheça O Imperativo da Responsabilidade de Hans Jonas. N sei se concorda/ria com ele. Gostaria de conhecer a sua opinião.

http://books.google.pt/books?id=sRP3uJkxydQC&dq=imperative+of+responsibility+hans+jonas&printsec=frontcover&source=bn&hl=pt-PT&ei=Gq0rS4W_IKCsjAeH2cmeBw&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=4&ved=0CBUQ6AEwAw#v=onepage&q=&f=false


PS: no outro comentário para o Viana, referia-me à União de Tribunais Islâmicos (UTI) escrevi TUC por erro.

Comentário de Miguel Madeira
Data: 18 de Dezembro de 2009, 18:09

Acerca da teoria de que o Estado é necessário para não nos matarmos uns aos outros – os diversos países relacionam-se uns com os outros de uma maneira similar a que os individuos se relacionariam numa sociedade sem Estado.

No entanto, as guerras entre Estados são um fenómeno raro – a maior parte das guerras que há por esse mundo fora são guerras civis (dentro de um Estado), o que me parece refutar a ideia que a autoridade do Estado é necessária para manter a paz.

Comentário de ezequiel
Data: 18 de Dezembro de 2009, 18:16

Caro Viana

” Portanto parece-me que, efectivamente, o que podemos decidir é que tipo de Estado queremos, e não se queremos ou não ter Estado.”

Concordo consigo.

cumps
z

Comentário de ezequiel
Data: 18 de Dezembro de 2009, 18:50

Meus caros,

acho que não nos devemos precipitar, sinceramente.
existem e existiram inúmeras sociedades e regiões onde o poder do estado é/foi inexistente que não geraram mais conflitos do que aqueles que se verificaram entre estados.
historicamente, o estado nunca foi o único meio ou mecanismo de coordenação. tem sido o mais importante na nossa civilização, sem dúvida. mas não é e nunca foi o único.

um outro detalhe, caro Viana: também há casos onde a conquista do apparatus transforma-se num incentivo de violência política (Paquistão, presentemente). neste caso, o estado não causa violência política per si mas a sua existência, as capacidades que possui, pode ser um estimulo insidioso que promove a violência política. enfim, n me parece possível chegar a uma lei universal explicativa no que diz respeito ao uso e legitimação da violência política e á coordenação-resolução de interesses dispares. cada caso é um caso. foi por esta razão que concordei consigo no comentário das 18:16.

cumprimentos a todos.
ezequiel

Comentário de Ricardo Noronha
Data: 18 de Dezembro de 2009, 18:51

Caro party program, fico à espera da indicação bibliográfica para tirarmos isto a limpo.
Miguel, concordo parcialmente contigo na questão da «irracionalidade», embora me pareça que aí a questão não seja tanto a de achar a violência agradável, mas mais a de desconhecer outras linguagens e instrumentos. E acho que pior é efectivamente possível, mas sobretudo se deixarmos a coisa andar na direcção em que já segue. Como dizia César Monteiro, «hoje os verdadeiros fascistas são todos democratas».

Comentário de ezequiel
Data: 18 de Dezembro de 2009, 18:51

errata: do apparatus do ESTADO

desculpas

boa noite a todos

Comentário de miguel serras pereira
Data: 18 de Dezembro de 2009, 18:53

Caro Viana,
muito bem – juntemos pois os nossos vivas. O problema é que se não devemos dar àqueles que interpelamos politicamente a ideia de que somos simplesmente “anti” (anticapitalistas, anti-autoritários, anti-qualquer coisa que se queira), e devemos por isso deixar claro que, no nosso anticapitalismo, etc., o “anti” é subsidiário de uma vontade de democracia plena, de um propósito de democratização revolucionária das instituições e do poder político – devemos também combater a ideia, profundamente enraizada, a ideia milenar e pesadíssima, de que a questão política pode e deve ser solucionada por bons pastores, pastores sábios no sentido platónico e pastores desveladamente vigilantes no sentido eclesiástico. Esta representação segundo a qual o que há a fazer é “pôr lá” um governo “como deve ser”, “políticos honestos”, “estadistas com visão” – quando não “grandes timoneiros”, “grandes educadores”, “geniais guias”, “coriféus do marxismo-leninismo”, “chefes” cuja vontade é fonte de direito e legitimidade e interpreta a alma da raça ou da nação… – compromete irremediavelmente a ruptura revolucionária da cidadania governante e a acção de “subversão contínua” que a toma por horizonte e caminho, hipoteca as revoltas mais justificadas de não servirem para outra coisa que não seja reciclar ou actualizar a dominação hierárquica e a sua “servidão voluntária”. Sendo assim, acho que a nossa disputa terminológica continua em aberto, pois que a sua insistência na palavra “Estado” talvez obstrua um tanto a comunicação da mensagem. Iremos vendo. Tanto mais que ambos apostamos – embora talvez você não o dissesse assim – na possibilidade de tomar como ponto de partida da “tomada de consciência política” uma certa “decência comum” ou “moral” já presentes – até ver… – na multidão.
Cordial abraço

Caro Ezequiel, propõe-me uma reflexão no campo da teoria política extremamente interessante. Mas, de facto, não tenho tempo para honrar o seu desafio. Quanto a Jonas, dá que pensar, obriga a pensar. Em termos demasiado esquemáticos, direi no entanto que receio que o seu pensamento se desenvolva sob o signo do mal menor e que pretenda impor à deliberação democrática de uma sociedade autónoma limites a priori demasiado estreitos. Sem dúvida, a democracia terá de saber, sob pena de suicídio ou auto-negação, auto-limitar-se – mas não aceita, por natureza, imposições exteriores…
Quanto à autonomia, simplificando muito, eu diria que, no plano dos valores ou princípios políticos, a autonomia individual é uma exigência tão fundamental como a da democracia, que só pode funcionar com indivíduos capazes de pensar por si próprios, ouvindo embora os outros, e capazes de manter as suas razões e convicções perante as opiniões contrárias da maioria. Ao mesmo tempo, para que eu possa participar como indivíduo autónomo e enquanto cidadão na definição da lei que me governa e reconhecer-me como co-autor da ordem política democrática, é necessário que reconheça a autonomia no plano social-histórico, que reconheça que só numa sociedade na qual circule e viva a ideia de que as instituições sociais são criações humanas faz sentido que eu reclame o direito e assuma o dever de participar no exercício do poder e na definição da lei que me vincula.
Bom, imagino que a minha resposta o deixe insatisfeito, mas talvez noutro contexto possamos discutir um dia melhor estes assuntos.
Saudações cordiais

msp

Comentário de miguel serras pereira
Data: 18 de Dezembro de 2009, 19:08

Sim, Ricardo,tens razão quanto ao problema da ignorância ou inacessibilidade – ou exclusão de acesso – a outras linguagens e instrumentos. É um aspecto fundamental. Mas o outro – o culto fascista, se assim quiseres dizer, o propósito totalitário da exibição espectacular da violência efectiva, com intuitos de intimidação, mas também de apoteose e de apelo à identificação com a causa de um poder acima das leis, etc., etc. – também existe e continua a ser ameaçador. Sobretudo se, como dizes, as coisas continuarem a correr como correm, e a “crise”, à falta de uma acção colectiva que lhe responda democraticamente, engendrar “pânicos” e “bodes expiatórios”, em vez de combates organizados e dirigidos para a transformação dos aparelhos de poder.
Abç
msp

Comentário de viana
Data: 19 de Dezembro de 2009, 1:05

Relativamente ao comentário do Miguel Madeira, acho que está enganado. Hoje em dia as guerras entre Estados são efectivamente raras, mas isso é porque existe efectivamente um Estado (ainda fraco e imperfeito) planetário, no sentido em que existem leis (quase) universais à escala global, habitualmente designadas por tratados, apoiadas num dispositivo retaliatório (seja comercial ou militar) comum. Antes da WWII, quando não havia leis ou tratados de aceitação e aplicação quase universal, os conflitos entre Estados eram muito mais comuns. Foi a WWII, com o seu cortejo de horrores, e a perspectiva duma WWIII entre os EUA e URSS, que motivou em grande parte a emergência duma arquitectura global de características crescentemente Estatais: pois tornou-se claro que a ausência duma efectiva coordenação e imposição de regras de convivência comuns ao maior número possível de países levaria novamente à emergência de Estados expansionistas (em termos territoriais) e a novos conflitos de grande dimensão (que mesmo assim tiveram lugar, em grande parte devido ao facto de até ao desaparecimento da URSS o proto-Estado global ter duas facções que se galdiavam pelo controlo desse proto-Estado global).

Comentário de viana
Data: 19 de Dezembro de 2009, 1:23

Caro msp, concordo com os seus últimos dois comentários, nomeadamente o que me dirige. Reconheço que a palavra Estado remete também, infelizmente, para uma atitude de expectância e subordinação perante algo que é sentido como exterior e superior. Em particular em Portugal, mas talvez não tanto em países onde há uma tradição mais enraizada de activismo e reivindicação individual perante o colectivo, ou seja uma maior valorização da autonomia individual. Mas acho é mais fácil mudar, transformar, essa percepção e atitude perante o Estado, do que tentar criar um novo conceito, em oposição ao conceito de Estado, e portanto aos elementos positivos que lhe são associados (acima de tudo a estabilidade), que não seja visto com desconfiança.

Comentário de ezequiel
Data: 19 de Dezembro de 2009, 14:16

concordo com tudo o que escreveste acerca da autonomia, particularmente com a necessidade de participar na deliberação e institucionalização dos “vínculos” e no pluralismo radical (onde possas criticar e ser criticado) etc…uma sociedade plural, portanto. :)

quanto a Jonas, não me parece que o que ele propõe seja inspirado por uma qualquer cumplicidade com um “mal menor” ou que o horizonte que ele nos apresenta seja estreito. mas acho que sei onde queres chegar. ele não é um institucionalista, de facto.

quais são as “imposições exteriores” a que se refere???

cumprimentos
ezequiel

Comentário de nuno castro
Data: 20 de Dezembro de 2009, 16:54

chegando atrasado, coloco apenas uma questão: por que razão a arbitrariedade da violência é preferível à arbitrariedade do poder?

Comentário de miguel serras pereira
Data: 20 de Dezembro de 2009, 18:47

Caro Nuno Castro: não me parece que devamos preferir uma coisa à outra. A arbitrariedade do poder é uma forma de violência arbitrária, está incluída no conceito de arbitrariedade da violência. Dito isto, nem toda a violência é arbitrária, ao mesmo tempo que, se aqui estamos a discutir isto, é porque apostamos na possibilidade e oportunidade de construção de um poder político democrático que é o contrário do seu exercício arbitrário.

Pingback de Arrastão: Pólvora Seca
Data: 21 de Dezembro de 2009, 15:18

[...] Seria injusto dizer que há uma esquerda de que a direita gosta apenas porque é usada como caricatura. Apesar de haver quem gosta de se apresentar como a esquerda “mal comportada”, mas precise de certificados de qualidade, a coisa merece outra abordagem. Até porque não chegam truques manhosos para desconsiderar quem vai ao debate e o leva a sério (vale a pena acompanhar a polémica com o Cinco Dias e ler estes novos escritos já depois deste: este, este e este). [...]

Pingback de A violência do quotidiano « Solstício
Data: 22 de Dezembro de 2009, 17:23

[...] é apenas uma das possíveis formas de intrusão. De certa forma, os comentários do Zé e do Ricardo, a sua, digamos, “ingenuidade” política, replicam a secular contenda entre Hobbes e Rousseau [...]

Comentário de jorge sequeira
Data: 4 de Março de 2010, 18:32

toda essa violencia no mundo para quê? Eu já fui submetido a essa violencia e respondi, fui suspenso das aulas por 5 dias e fui obrigado a fazer um trabalho de 10 folhas sobre como resolver os nossos problemas sem recorrer a violencia. E o que devemos fazer é ignorar, é tudo.

Escreva um comentário