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O MILK derramado ou o casamento de segunda do PS

16 de Dezembro de 2009 por Sérgio Vitorino

Quando o primeiro-ministro anunciou que o Partido Socialista (PS) proporia nesta legislatura o alargamento do acesso ao casamento civil a casais do mesmo sexo, citou o filme MILK, sobre a vida de um activista histórico. Mas não terá entendido uma frase que diz muito sobre o legado de Harvey Milk: ‘Tragam-me activistas, não políticos’.
À beira de nova votação parlamentar sobre o tema, com o PS agora a favor, a frustração deste desabafo podia ser a de muitos/as activistas do movimento LGBT (Lésbico, Gay, Bissexual e Transgénero) português, em contraste com a posição da associação ILGA Portugal e do primeiro deputado gay assumido, Miguel Vale de Almeida (MVA).
Nos últimos cinco anos, este sector – minoritário no movimento mas com grande visibilidade mediática – tem defendido uma estratégia de afunilamento do conjunto da agenda LGBT à reivindicação do casamento, apresentado como absolutamente prioritário, isoladamente da restante agenda e mesmo do conjunto dos ‘direitos familiares’. Esta ideia foi repetidamente refutada pela esmagadora maioria do movimento associativo, sem prejuízo de todo ele defender activamente a alteração legal. É duvidoso isolar ‘bandeiras’ de forma asséptica num país que, ao contrário de outros que alargaram o casamento, ainda não encara os problemas mais urgentes da discriminação, nem reconhece realmente a homofobia ou a transfobia como problemas sociais, como está claro na inexistência de medidas preventivas face a casos como o assassinato da transexual Gisberta, em 2006. De choque e espanto está o inferno cheio: na ausência do combate à discriminação, os problemas de base permanecem.
O quanto vai custar ao movimento nos próximos anos a imposição de um foco exclusivo no casamento, está claro na já certa exclusão da adopção por casais do mesmo sexo. O PS argumenta esta opção cobarde com a resistência criada pela mobilização em defesa de um referendo – fraca justificação, à luz dos sectores ultra-minoritários que a têm promovido.
Ao atribuir direitos com uma mão e, com a outra, legislar contra eles, o governo fará de Portugal o único país no mundo “com casamento” mas “sem adopção”; criará uma bizarria legal pela qual gays e lésbicas, casados/as ou não, podem adoptar crianças, mas não como casal; permitir-lhes-á casar, mas deixando no limbo legal a relação entre os filhos existentes ou eventuais e um dos seus pais. A obsessão geral com o tema ‘adopção’ oculta que o conjunto de direitos que está realmente em causa é tudo o que respeita a reprodução e parentalidade, como acesso legal à inseminação artificial por mulheres solteiras não inférteis, ou o reconhecimento de co-parentalidade para os muitos casais de gays e lésbicas com filhos, que naturalmente não esperam aprovação social e legal para os terem. Gays e lésbicas sempre foram pais e mães nas relações heterossexuais com que se defendiam, ocultando a sua verdadeira orientação sexual. Hoje, estamos apenas a fazê-los em liberdade.
É claro que ‘casamento’ não implica ‘reprodução’. Mas, negar a possibilidade de existência de crianças, e o interesse superior dessas crianças, não é um reconhecimento real das várias formas de família. Nem uma nem outra perspectiva parecem estar a impedir o executivo de ponderar unir num só projecto-lei os temas ‘casamento’ e ‘adopção’, forçando a restante esquerda parlamentar – mesmo a favorável à adopção por casais do mesmo sexo – a votar favoravelmente a discriminação na adopção se não quiser impedir o alargamento do casamento. O PS evitaria assim assumir sozinho à esquerda a introdução explícita de uma nova discriminação em função da orientação sexual em Lei do século XXI, a primeira desde que a Constituição a previne. Mas, ao colocar o conjunto do Parlamento a dizer ao país, em uníssono, que “podemos casar, mas não se nos pode confiar uma criança”, qualquer citação de Zapatero sobre “uma sociedade que não humilha os seus membros” fica mal na boca do primeiro-ministro: não concebo maior humilhação. É esta a “legitimação social” que o casamento trará às famílias de gays e de lésbicas, a discriminação onde o preconceito é mais danoso e mais se tenta deslegitimá-las: reprodução e parentalidade?
A proposta do PSD de uma união civil é a de um “casamento de terceira”. “De segunda”, é o que o Parlamento se prepara para aprovar. E a responsabilidade do PS não dilui a do sector do movimento que há muito lhe diz que a “igualdade pela metade” seria aceitável.
Em entrevistas recentes, MVA defende o separar de legislações e diz esperar que o tema ‘adopção’ possa resolver-se na actual legislatura. Porém, o deputado sabe que a “esperança” carece de fundamento, desde logo porque as contradições internas do PS que impõem esta via parcial não têm solução à vista. E sabe que contribuiu para o oposto: ao tentar convencer as restantes opiniões a calarem o tema da adopção, MVA chegou a brandir, em reunião associativa pouco antes de ser candidato, “garantias pessoais” de José Sócrates de que esta seria simultaneamente viabilizada “pela surra”. Além de já então não ser credível – ou desejável – que assim fosse, o silenciar dos temas parentais abandonou-os, sem resposta adequada, à argumentação terrorista do temor de “entregar crianças a homossexuais”, e vai adiá-los sine die e por muitos mais anos do que permitiria uma abordagem de conjunto aos direitos familiares.
É muito pouco, mesmo para uma “política do possível”. Não questiono o valor da eleição de um gay assumido com intervenção pública de longa data em favor da causa. Mas questiono o acordo geral do movimento LGBT com a sua estratégia minoritária.
Valorizo que o primeiro-ministro exprima vergonha pública pela forma com têm sido tratadas “as pessoas homossexuais”, e sei que MVA fez parte dessa ‘abertura de espaço’. Mas a votação parlamentar que se aproxima vai confirmar que pouco mudou na forma como nos trata o poder político: a igualdade não estará na ordem do dia.

Comentários

Comentário de Tiago Mota Saraiva
Data: 16 de Dezembro de 2009, 15:37

Maré alta, aqui na “tasca”. Excelente texto Sérgio, 100% de acordo.
A igualdade não se faz de avanços aqui e silêncios ali.
Ou existe ou não existe.

Comentário de Sérgio Vitorino
Data: 16 de Dezembro de 2009, 16:03

Obrigado Tiago. Por este texto ter saído hoje também no Público, passei a manhã a receber mensagens a dizer que tenho a cabeça a prémio, umas de amigos e outras de anónimos. Anda bonito o pensamento único, e pelos vistos perigoso quebrar o verniz dos consensos. O primeiro-ministro diz que o governo não foi mandatado para aprovar a adopção por casais do mesmo sexo. Gostaria de ter oportunidade de lhe perguntar pessoalmente quem é que o mandatou para a proibir.

Comentário de /me
Data: 16 de Dezembro de 2009, 16:17

Não sei o que pensar. Estou grato ao MVA, a ti, Sérgio e a outros activistas pelo que conseguiram nestes últimos anos e pelo que estão prestes a conseguir. Mais grato fico por saber que continuarão a trabalhar.

Por um lado, entendo a estratégia de lutar pelo casamento, querer uma vitória parcial, mesmo perdendo alguma coisa. Mais tarde, sempre se pode lutar pelo que falta. Quem tudo quer, tudo perde?

Por outro lado, é verdade que aceitar uma meia vitória afasta a urgência de ganhar a outra metade.

Compreendo as duas posições. E acima de tudo, estou grato a quem luta, tanto os subscritores de uma como da outra posição.

De qualquer maneira, agora já está feito. Teremos casamento, sem adopção. Hay que seguir luchando.

Comentário de xatoo
Data: 16 de Dezembro de 2009, 16:17

obviamente, a igualdade não existe. E querem fazer de uma questão juridica um pseudo assunto politico, fracturante, que tem como função oculta a intenção de criar um fosso de opinião entre os dois lados do mesmo bloco central. Invoca-se com essa finalidade a natureza antropológica, a religião, a “normalidade” social. Sócrates será fixe porque trouxe liberdade à causa; e mesmo que não traga, pelo menos tentou; o que em caso negativo concorre para que os 52% do país beato expresse o seu ódio pela esquerda (a normal, de Sócrates) e abra os portões da governança aos da oposição católiquinha psd/cds
Nestas circunstâncias é vergonhoso que Miguel Vale de Almeida, consciente do seu consentimento, tenha sido arregimentado pelo PS apenas pelo facto de ser gay.
A partir de agora já sabemos qual o caminho “normal” nas lutas sociais: se os trabalhadores quiserem lutar por melhores salários, mandam um dissidente do BE como enviado a deputado no PS, se um juiz achar que deve apanhar corruptos inscreve-se no PS, se um gestor pretender uma melhor redistribuição de lucros das empresas tem de militar no PS, se o POrtas quiser lutar pelo socialismo fará uma coligação com o PS… se… a lista é infinita. Sirvam-se
.

Comentário de Sérgio Vitorino
Data: 16 de Dezembro de 2009, 17:15

Desculpa parafrasear-te, “/me”, mas aqui o caso não era de quem tudo quer, tudo perde: é de quem pediu o mínimo, obteve menos ainda. Nunca se pede o mínimo, para mais com a vergonha que os partidos ainda têm no enfrentar disto. Mais, nunca se pede, exige-se. A sociedade heterosexista não irá abrir mão dos seus privilégios, eles têm de ser tomados de assalto, com as nossas vidas e com a criação de uma consciência social contra a discriminação que não passa por medidas meramente simbólicas, mas por alterações, legais ou não, que, de facto, alterem a vida das pessoas. É verdade, está feito. Está feito, e temos pela frente uma década em que ficamos com uma Lei discriminatória e não se mexe mais no assunto. Amanhã teremos o casamento. Uau. E depois de amanhã, o que é que isso conta? Em que é que mudou a maioria das vidas de gays e de lésbicas? O problema é este, prioridades erradas de quem prefere falar de “integração” e “normalização” da comunidade homossexual e luta em primeiro lugar pelo acesso aos modelos heterossexuais, em vez de priorizar a luta contra a discriminação e a visibilidade daquilo em que as nossas vidas e as nossas relações são, de facto, diferentes – como haver tantos casais de gays e de lésbicas com filhos biológicos, em que um dos pais não é reconhecido legalmente como tal (já agora, uma discriminação contra estas crianças em função da orientação sexual dos seus pais, mais do contra os pais em função da sua orientação sexual).

Comentário de Blondewithaphd
Data: 16 de Dezembro de 2009, 17:31

Enoja-me todo o debate em volta do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Enoja-me, ainda mais, os obstáculos à adopção, lá está, por parte de pessoas do mesmo sexo. Enoja-me que este país tenha o enfastiamento das vistas curtas. Enoja-me que assuntos de natureza humanitária, mais até do que cívica, precisem ser debatidos na praça pública. Mas, afinal, o que é que um casal do mesmo sexo tem de diferente de um casal, digamos, “tradicional”?

Comentário de Nuno
Data: 16 de Dezembro de 2009, 18:36

Sem querer ser fracturante, pois estou plenamente de acordo que os homossexuais tenham o direito de casar e adoptar, assim como têm o dever de cumprir a lei e pagar impostos, como os seus demais; pelo pouco do que conheço da proposta do PSD parece-me mais um subterfúgio para evitar inconstitucionalidades na lei !

No fundo o que está verdadeiramente em debate aqui como referiu o autor do texto é a adopção, o casamento é peanuts; o que tem sido defendido por alguns comentadores é a dificuldade de integrar no código civil o tema, prevendo já o que virá a seguir…

Eu não sou jurista e por isso não vou tocar rabecão mas sou da opinião que uma lei não pode ter sentimentos nem privilegiar minorias, uma lei tem de ser justa e isenta, tem de tratar todos por igual e para isso tem de ser desprovida de afectos e “questões fracturantes”.

A questão da “união de facto homossexual” no fundo parece-me ser uma forma de dar a volta ao texto, embora, ao distinguir casamentos entre cidadãos, me pareça uma inconstitucionalidade, mas nisso meus caros sou um apdeuta, diga-se em abono da verdade !

Comentário de José Manuel Faria
Data: 16 de Dezembro de 2009, 19:13

Uma pedrada e forte no politicamente correcto à esquerda. Quem tem preconceitos anti/casamento homossexual, também os tem sobre a adopção e o contrário. Quer dizer que após esta luta, os activistas LGBT, terão de encetar uma nova e mais dolorosa com um fim muito, mas muito longe. Parabéns ao Sérgio Vitorino pela coragem. Não é qualquer um que neste momento assume esta ruptura.

Comentário de Sérgio Vitorino
Data: 16 de Dezembro de 2009, 20:00

Caro Nuno. Isso já existe desde 2001. Já existe uma Lei de Uniões de Facto que não discrimina em função da orientação sexual. As propostas do PSD de união civil, e de “algo parecido com o PACS-Pacte Civil de Solidarité” francês, que o CDS vai apresentar, não são mais do que subterfúgios para não que o reconhecimento formal das relações entre pessoas do mesmo sexo não exista com a mesma dignidade que se dá às relações heterossexuais. São propostas que vêm dez anos atrasadas (e estes partidos votaram contra na altura). Não entendo em que baseia o argumento da inconstitucionalidade da Lei…

Comentário de Nuno
Data: 16 de Dezembro de 2009, 21:08

Caro Sérgio

É difícil para mim abordar este tema de uma forma mais científica visto não ter formação jurídica, mas vou tentar, se escrever alguma gralha sinta-se livre de a corrigir que não o levarei a mal.

Antes de começar entenda que não considero este tema como de domínio político mas sim do domínio de uma liberdade fundamental que não só aceito como exijo.

O que esteve no cerne desta discussão foram sempre direitos inalienáveis que sempre foram recusados aos homossexuais, em primeiro lugar o direito de transmissão de património numa união de facto homossexual que não está prevista na lei (penso eu) e depois direitos fundamentais como o de visitar o companheiro/a no hospital ou prisão, etc.

A tal “união de facto entre homossexuais” penso que visa corrigir estes aspectos, o que me deixa renitente é o que você diz, e bem que é sempre uma espécie de “união de segunda” e isso não aceito.

Quanto à questão legal em si, dizem os juristas que o código civil explicita casamento como uma união entre pessoas de sexo oposto. Até aí tudo bem, altera-se a palavra e pronto, o problema é no que respeita ao assunto encapotado que este debate encerra que é a adopção. Dizem os juristas que para não ser inconstitucional, o casamento entre dois homossexuais deve prever o direito à adopção, direito esse que está intrinsecamente ligado ao direito da criança e aí começa a confusão.

Defendem muitos juristas que as implicações na lei teriam de ser modificadas até à constituição, por isso me parece que esta união de facto não é mais que um atalho para resolver um problema imediato e para adiar o verdadeiro problema !

É por isso que sou completamente contra um referendo nesta matéria, primeiro porque iria ser combustível para um debate de baixo nível carregado de argumentos imbecis e fundamentalistas tanto à direita como à esquerda, e em segundo porque o tema pelos vistos é mais técnico do que parece e para esse efeito serve uma assembleia da república. Lembra-se da despenalização do aborto? Existe uma corrente que defende a inconstitucionalidade da lei pois alega que entra em choque com o direito fundamental à vida previsto na constituição…

Repare que estou a tentar pôr os meus afectos de lado, acima de tudo a lei deverá tratar todos os cidadãos como iguais, o que também não acontece agora e o que já agora, também é inconstitucional !

PS: Já agora, em relação à primeira parte do que diz, isso refere-se à orientação sexual do indivíduo ou ao género do casal; é que ser homossexual e viver com alguém não é o mesmo que viver com alguém do mesmo sexo, penso que me fiz entender !

Comentário de fernando rosa
Data: 16 de Dezembro de 2009, 23:11

Mais vale um pássaro na mão, do que dois a voar. Mas concordo Sérgio que este pássaro vai sair caro, e o avanço no combate á descriminação é mínimo.
Se o PS acha que a questão da adopção é uma questão a ser tratada à parte (o que concordo), então correcto seria não mexer no artigo do código cívil que consagra a adopção, e tratá-la tendo em vista o superior interesse da criança, tendo em conta todos os factores que a isso estão inerentes, e que de modo algum devem ser a orientação sexual, conforme consagra a nossa constituição.
Deste modo, parece-me que o PS está ja a tratar da adopção sim, ao contrário do que afirma, excluindo a criança de ser adoptada por aqueles que tem uma orientação não heterossexual, ou melhor que a legitimam perante a lei atravéz do casamento, que será (possivelmente) aprovado.
Excelente artigo, parabéns!

Comentário de Sérgio Vitorino
Data: 17 de Dezembro de 2009, 0:03

Caro Fernando, subscrevo, subscrevo e subscrevo, mas acho que o pássaro vem envenenado, e vou mais longe. O que se faz apagando a adopção é negar em primeiro lugar a existência de filhos biológicos destas pessoas, incluindo aqueles/as que foram concebidos no contexto de um projecto de família gay ou lésbica. São os direitos dessas crianças – para não falar das que já são adultas – que são colocados em causa em função da orientação sexual dos pais, desde logo o direito a ver reconhecido como pai ou mãe a pessoa do casal que não é o/a progenitor/a biológico/a. A adopção é, neste caso, a ponta do icebergue da homoparentalidade em geral.

Caro Nuno: se me permite um aparte, as liberdades fundamentais são “política” tal como eu a entendo, porque não existem se não lutamos por elas e pela sua manutenção.

A Lei de Uniões de Facto de 2001 teve uma importância simbólica grande e também resolveu algumas questões práticas da vida de algumas pessoas. Atribuiu inclusivamente benefícios, como faz o casamento, que na minha opinião são injustos, uma espécie de discriminação das pessoas que não estão numa relação – exemplo disso é a possibilidade de declaração conjunta de impostos. Mas: a mesma Lei esteve 8 anos à espera de uma regulamentação mínima. É aplicada de forma aleatória conforme os serviços e pessoas, em algumas áreas. Não resolve questões como a transmissão de propriedade, essa é uma Lei própria e só se pode mexer nisso por via do casamento – uma pessoa casada é a herdeira imediata dos bens do cônjugue, tal como os filhos. É uma Lei limitada, que funciona mal e não resolve a maioria das situações.
Sobretudo não resolve a principal: a da igual dignidade no reconhecimento das várias formas de família.
Mas não creio que a Lei seja inconstitucional por não incluir a adopção – o tribunal constitucional já antes decidiu que não é inconstitucional o Estado negar o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. E se o casamento sem adopção for inconstitucional, então a União de Facto sem possibilidade de adopção também o é, e em primeiro lugar tendo em conta os direitos das crianças ao reconhecimento legal dos seus pais (eu sei, falam-me em adopção e eu respondo sempre com filhos biológicos – é porque um debate desarma o outro, este debate não é teórico, é sobre crianças que foram pensadas, desejadas, geradas, ou criadas por casais de gays e de lésbicas – estão entre nós). Para resolver este assunto, a união de facto já o teria resolvido. Pelas questões práticas e pelas simbólicas, a única coisa aceitável em termos legais, como disse, é o tratamento de todos os cidadãos por igual sem o critério da orientação sexual – ou qualquer outra característica inerente à pessoa – como crivo de direitos e… de legitimidade social. A igualdade de direitos a 100%, se quiser, porque tudo o resto é apenas simulacro de igualdade. Pessoalmente, garanto-lhe: não quero casar. E para muitas pessoas LGBT – a maioria? – não é essa a questão. A questão é: sermos nós a escolher.

Comentário de Paulo Araujo
Data: 17 de Dezembro de 2009, 19:53

Gostei muito do comentario que disse que as questoes do foro humanitario n devem ser faladas em praça publica. Para mim como homossexual, parece-m humilhante que a nossa vida privada esteja a ser discutida desta forma… desta forma muito heterossexual de pensar… o que é que esta gente toda tem a ver com o que eu faço no interior do meu corpo, no interior da minha mente, no interior do meu coraçao e no interior da minha casa?? Nada… e nem querem ter.. (que nojo dizem eles!)… Um dos problemas base a meu ver, é o facto de a comunidade homossexual, nao ser de facto comunidade nenhuma… todos os dias assisto a preconceito entre gays… aquele é bixa, aquele é um oferecido, aquele parece uma aquela… tudo isto me deixa confuso e enojado. Sendo esta “comunidade” evidentemente fracturada, parece.m muito dificil existir algum tipo de luta, que era o que eu gostava de ver, luta na rua, uma atitude in your face como os nossos companheiros espanhois tao bem fizeram! este é so mais um sinal da sociedade acritica e mediocre em que vivemos, e ca para mim tenho a sensaçao que ninguem se vai casar anyway por vergonha, por medo, por ainda recusar o que se é! Outra questao é a falta de visibilidade de gays e lesbicas na nossa sociedade, os putos vao admirar e rever-s em quem?? No Goucha? Na zanati? no enconado do herman? nao é o que eu quero para as crianças do amanha! O que eu quero é um pais livre, e para mim um pais livre é o que permite que toda a gente, mas todaaaa a gente tenha a possibilidade de ser completo e feliz!
Obrigado por me inspirar!

Comentário de Pedro Soares
Data: 18 de Dezembro de 2009, 22:23

Este post trouxe-me à consciência uma imagem que não tinha equacionado ainda, tal era, confesso, a vontade de ver o casamento entre pessoas do mesmo sexo aprovado. E é assustador.

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