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A via tarada

16 de Dezembro de 2009 por Ricardo Noronha

Já muito se escreveu e comentou acerca da difícil relação entre Berlusconi e os ícones religiosos de Milão. Confesso que não acompanhei o debate em tempo real por estar a escrever e a pensar acerca de outras coisas e fiquei surpreendido com a dimensão que a coisa assumiu. Pareceu-me também que, a dada altura, a troca de argumentos  caminhou para uma troca de acusações e adjectivos, mais relacionada com o carácter dos envolvidos do que com o evento em si mesmo. Registo o magnífico apontamente de Fernanda Câncio, que aparentemente costuma cruzar-se com «tarados que vão nus pela chuva aos urros» (sic), um privilégio do qual nem todos se podem gabar. Espero que da próxima vez seja possível filmar e pôr no youtube.

Por outro lado, a dada altura, o Daniel e o Rui iniciaram uma apologia da greve de fome enquanto estratégia política que para mim, bom garfo e melhor estômago,  contém em si as sementes do totalitarismo. Noto em todo o caso que ambos acentuaram a sua «eficácia», atribuíndo assim à Frente Polissário a originalidade política  de ser, ao mesmo tempo, leninista e ghandiana. Diz que o jejum vai longe, ainda que eu, pessoalmente, não perceba bem para onde. Parece-me questionável a vantagem do martírio e não percebo em que medida a reencarnação de Bobby Sands numa senhora de idade possa contribuir para a estimável causa do povo sarauhi. São opiniões e nesta tasca discute-se política em voz alta e com argumentos fortes, evitando-se discutir política aos berros e com argumentos manhosos.

Não vejo em que medida o mais recente episódio berlusconiano possa dar balanço a quem quer que seja para debater o lugar da violência no combate político e, nessa medida, a comparação com o debate de há um ano acerca da revolta grega parece-me mais do que forçada. É uma comparação preguiçosa e que, na sua superficialidade, teve o resultado  que se viu – a discussão tornou-se o espaço para todos os rancores. Daí ao esmiuçar do passado e à menorização do outro foi um pequeno passo, que aparentemente várias pessoas quiseram dar. É estranho que seja eu, provavelmente o gajo com pior feitio e maus modos que aqui escreve, a vir agora dizer isto. Mas a verdade é que as diferenças políticas entre a esquerda moderada e os comunistas, a propósito da questão da violência, merecem um debate melhor do que aquele que nós temos sido capazes de desenvolver na última semana. E, simultaneamente, as pessoas envolvidas, de um lado e de outro da barricada, são capazes de fazer bem melhor a identificar os problemas inerentes a cada uma das posições, bem como todas as zonas cinzentas que existem entre um pólo absolutamente pacifista e um pólo absolutamente belicista que só existem, como é evidente, enquanto referências conceptuais.

Por outro lado, todo o sangue que salpicou deste duelo ofereceu ao ecrã do meu computador uma coloração vermelha muito trendy, que penso corresponder à minha predisposição para esteticizar a violência.

Por falar nisso, já viram bem a orgia de violência que decorre entre o Pedro Marques Lopes e o Pedro Lomba?  É tempo de mandar vir as pipocas e ficar a ver os tarados a correr pela chuva aos urros (quanto mais leio isto mais me convenço de que está na calha um romance).

Comentários

Comentário de Nuno
Data: 16 de Dezembro de 2009, 21:38

“Mas a verdade é que as diferenças políticas entre a esquerda moderada e os comunistas, a propósito da questão da violência, merecem um debate melhor do que aquele que nós temos sido capazes de desenvolver na última semana”

O tema da discussão é interessante, mas de um ponto de vista histórico.

De cada vez mais, ser de direita ou ser de esquerda radical se torna mais inútil, visto que alguns temas fundamentais da génese ideológica de ambos estarem completamente ultrapassados.

Acho que neste momento, não faz sentido para ninguém viver numa sociedade Marxista, muitos tentaram e todos falharam e no rescaldo morreram milhões de inocentes.

Do mesmo modo, viver sob o jugo de Deus, Pátria e Família também é um conceito absolutamente falhado, e a consequência das suas várias vertentes também resultou em milhões de vítimas.

Posto isto acho que como discussão histórica é interessante o tema, cada um pode escolher um cor, tipo Porto, Sporting e Benfica e partir tudo para a molhada… Por outro lado como discussão utilitária podemos reflectir um pouco o como governar um país ao serviço de um povo, tendo em conta todas as realidades que enfrentamos como a globalização; a União Europeia; a religião como culto, mensagem ou agressão; o ambiente; o indivíduo.

Não é por acaso que a maioria das pessoas são moderadas, no fundo a maioria compreende que a radicalização só leva ao conflito e que é sempre pior a emenda que o soneto.

A agressão a Berlusconi e a greve de fome de Aminatu são dois excelente exemplos de como é efémero o radicalismo, por uma lado converteram em herói alguém que tinham por inimigo; por outro, o velho tema do separatismo ou do direito à autodeterminação (dependendo se o leitor é de direita ou esquerda, aliás ser de direita ou de esquerda serve para justificar tudo…) no qual, bem a mulher pode morrer que no espaço de um mês já ninguém se lembra e continuará Marrocos a mandar na terra, basta ver o exemplo dos Curdos que se imolam em fogo e a mensagem não passa.

No contexto em que vivemos, de cada vez mais ser de esquerda ou de direita é uma questão de pormenor, de cada vez mais o eleitor olha ao líder mais do que olha ao partido, a meu ver são efeitos da alfabetização do povo que se tornou mais esclarecido !

Veja-se o exemplo do PSD e no que se tornou sem Cavaco…

Comentário de Ironia
Data: 16 de Dezembro de 2009, 23:26

Em vez da “Via Tarada” prefiro a Via: Sócrates para a RUA JÁ!!!
Eu dou um grande desconto à Câncio… por vários motivos, vê o seu amado nu e à chuva, não conseguiram que Motard-Mor do país o cobrisse. Lembrei-me da sua crónica (ou faz-de-conta que é uma crónica…) “Pressões Impressivas” e faz-me dó!!!
As outros também desconto, porque não os consigo ouvir nem ler… (parte da culpa deve ser minha!)
RUA COM SÓCRATES!

Comentário de Pedro Penilo
Data: 16 de Dezembro de 2009, 23:53

“Não vejo em que medida o mais recente episódio berlusconiano possa dar balanço a quem quer que seja para debater o lugar da violência no combate político e, nessa medida, a comparação com o debate de há um ano acerca da revolta grega parece-me mais do que forçada.”

Finalmente, alguém que põe ordem na casa! Estou de acordo com o que aqui se escreve.

Comentário de Renato Teixeira
Data: 17 de Dezembro de 2009, 16:07

Da demência utópica à taradice cientifica.

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