Sei que não foi por mal que o Daniel Oliveira recorreu ao imaginário da tasca para descrever o que ele entende ser o espírito dominante deste blogue. Sei também que o imaginário da tasca não “ofende” este blogue e julgo poder falar por todos e todas que por aqui andam. Por mim, seguindo a reputação de verborreico intelectualista que um dos nossos comentadores frequentemente me imputa, é desde logo importante ressalvar que tascas há muitas e que a cultura popular (seja isto o que for, here we go again…) é qualquer coisa de mais heterogéneo do que a maior parte das nossas representações faz parecer. Bom, mas retomando. Sei que o Daniel recorreu ao imaginário da tasca, sei que não foi por mal, sei que foi qualquer coisa que lhe saiu. Quero crer, igualmente, que Fernanda Câncio (com quem nunca me cruzei na vida, e contra a qual nada me move, a não ser divergências políticas em relação a várias questões e concordância em relação a algumas outras) não agiu por mal (palavra complicada, mas vocês percebem-me) quando recorreu ao imaginário da loucura para se referir a este blogue e adjacentes. Mas não ter sido por mal não diminui o erro nem o tom descontraído com que se escreve diminui a pobreza do argumento. Argumentos cujo modo, aliás, destoa parcialmente do empenho e do engajamento dos seus autores em outras circunstâncias. Ou será que não? Espero que sim e acho que há motivos para isso. O Daniel, por exemplo, é um dos opinadores mediáticos mais preocupado em lutar contra o elitismo dos opinadores que se julgam acima do “povo”, tantas vezes subjacente ao discurso decadentista de figuras como Vasco Graça Moura. Fernanda Câncio, por sua vez, passa anos e anos a lutar contra o recurso a argumentos de índole psiquiátrica para censurar comportamentos tidos como “desviantes”, como sucede amiúde no caso do debate em torno das orientações sexuais. Lamento por isso que nem um nem outro pareçam querer hesitar na hora de recorrer a esses mesmos argumentos de autoridade para atalhar caminho em discussões que já não têm vontade de ter mas que ainda parecem ter vontade de vencer. Trata-se, provavelmente, de um duplo vício de que ninguém está livre: queremos vencer discussões que não queremos verdadeiramente ter; recorremos a argumentos de autoridade cuja lógica pretendemos combater. Vício de que não me reivindico livre, claro está. Mas é um vício pernicioso e que deve ser tratado sem misericórdia. Porque a questão não pode ser apenas defender o “povo” contra as elites opinadoras dominantes ou os “homossexuais” contra a homofobia reinante; isso seria trabalhar em moldes mais próximos da caridade-vanguardista do que da autonomia dos sujeitos; seria achar que não estamos acima do povo mas que estamos à frente do povo; que não estamos a lutar contra um critério discriminatório mas pura e simplesmente a falar em nome de uma identidade discriminada. A questão que nos deve preocupar a todos e todas é desmascarar os mecanismos que negam, uma e outra vez e em circunstâncias várias, que vão do interior da fábrica até à sala de jantar (lugar nebuloso, é verdade), passando ainda pelos debates blogoesféricos, a igualdade entre todos e todas. Igualdade que, claro está, não exclui a diferença, o debate, a discussão, o conflito. No meu caso, aliás, a igualdade é apenas um pressuposto para tudo isto. E agora vou andar nu aos urros e à chuva. Amanhã à noite é que é dia de tasca, para ver os vermelhos na tv. Já no domingo vamos ao estádio.




Ainda bem que concertámos este post e o meu comentário no arrastão.
É mais ou menos sobre a mesma coisa, a violência de excluir (com o argumento da tasca, idiota ou louco) e o aplauso do poder.
Zé, acho extraordinário que num blogue onde sou insultado dia sim dia não de uma forma rasca e ordinária como em mais lugar algum por um dos vossos bloggers, sem que nenhum dos meus amigos que aqui escreve sinta a necessidade de dizer seja o que for (e sempre o compreendi, para preservar o blogue) faças um post sobre essa frase minha. Extraordinário mesmo.
Foi por mal que recorri ao imaginário da tasca. Desculpa, mas não acho normal que tenha de ficar calado e ser muito educado com alguém que já deixou aqui vários posts sobre mim, muitas das vezes a despropósito, nunca com argumentos a juntar a qualquer debate, e sempre insultuoso. Não sinto qualquer obrigação de me moderar com o sujeito em causa. E muito menos de o tratar que se de uma pessoa normal (outra palavra que de deveria evitar?) se tratasse.
Reconheço apenas que fui desagradável e injusto com as tascas. Até porque nas tascas ou em qualquer outro sítio não me lembro de alguma vez me ter cruzado com uma figura semelhante à que me levou a escrever isso. E nisso sim, tens razão. Mas não deixa de ser extraordinário que faças este post.
A via da tarada para o socratismo aplica-se a quem?
Não acredito no que acabei de ler. Duas perguntas :
1/ E com que argumento é que o meu amigo recusa os argumentos de autoridade ? Não sera também, precisamente, com base num argumento de autoridade ?
2/ E se eu achar que as pessoas que se enganam constituem uma minoria que merece respeito e dignidade, deixo de poder rebater um argumento dizendo que esta enganado ?
Esta-se a tornar urgente criar um fundo de protecção da inteligência à esquerda do PS, é o que digo… (para além da questão de fundo que coloquei em comentario na ultima vidaleira aqui publicada, comentario que não foi aprovado, quiça por se entender que vem da tasca).
Desde há muito, ainda eu andava por aí, que o «5 Dias» é uma gaiola de malucos.
Camarada Zé,
Está bem observado. Concordo com tudo (não que precises), incluindo com o amanhã (hoje) à noite na TV e o domingo no estádio. Lá estarei.
Afinal, a jogatana na TV sempre fica para amanhã.
Ando um pouco baralhado. De há uns anos para cá.
Daniel, ainda bem que estamos de acordo em relação às tascas. Era sobre isso que eu escrevia.
Quanto ao resto… Compreendo a tua irritação e concedo-te parte da razão. Mas nota: há já algum tempo que eu tento passar por cima da questão dos “estilos”. Até porque há muitos e muitas razões para nos irritarmos com este ou com aquele estilo (se souberes o número de pessoas que me tentam convencer a perder o “respeito” por ti devido aquele programa de wrestling intelectual chamado Eixo do Mal…). Admito que seja um erro meu esta desvalorização da questão dos estilos, mas talvez não.
Acontece, e pegando no teu caso e no do Vidal, que tenho muito interesse em ler algumas pessoas na blogoesfera. E acontece que tu e o Vidal são duas dessas pessoas. São pessoas com quem me interessa discutir, até porque estão ambas perfiladas em dois pólos que respeito, mas de que me quero afastar: se quiseres, simplificadamente, o marxismo-leninismo e a social-democracia. E acho que tu não és “simplesmente” social-democrata e que o Vidal não é “simplesmente” marxista-leninista (embora ainda não tenha compreendido bem o posicionamento do Vidal), o que torna tudo mais interessante. Olha, pode ser que um dia nos afastemos todos juntos! Se maoistas e trotsquistas já acabaram juntos (e felizmente), por que não?
Posto isto. Não me revejo minimamente no cariz insultuoso que o Carlos Vidal adopta de quando em quando. Sei que ele também achará, seguramente, a minha “moderação” insultuosa – a minha alegada busca pela equidistância, que, colando bem com o meu feito conciliador, é mais do que isso; é, verdadeiramente, a procura de um projecto político liberto quer das peias da tradição m-l quer das peias da tradição social-democrata.
Mas não é por causa do estilo insultuoso que o Vidal por vezes adopta que eu vou deixar de ler e discutir com ele. Não é por não gostar do estilo que leio ou deixo de ler a Fernanda Câncio ou o João Galamba, pessoas de quem me encontro politicamente muito mais (incomensuravelmente mais) distante do que de ti ou do Vidal.
Compreendo a tua irritação e o apontamento sobre a questão da amizade que nos une. Isso não está em causa, claro está, bem o sabemos. Peço-te que não resumas o Carlos Vidal aos insultos que ele faz, assim como peço o mesmo ao Vidal. (E não sei se tem muito interesse saber quem é que começou primeiro… – peço desculpa pelo tom paternalista que isto está a assumir, até porque sou mais novo do que ambos…).
É um esforço que peço, mas é importante e não vejo condenado ao insucesso. Se acham que têm alguma coisa a discutir – e parece-me que sim, de outro modo nem perdiam tempo a insultar-se -, então trata-se de um esforço possivelmente frutuoso.
sinceramente teu (como dizem os outros),
zé
Zé, os ecuménicos ligaram de Taizé a dizer que já têm lugar para ti. E não é para guarda-redes, é para ponta de lança.
Quem não gosta de um sítio por causa de uma pessoa, ainda por cima uma pessoa que não lhe fica um passo atrás nem envergonha concerteza nenhum dos outros camaradas do blog, tem bom remédio.
E começo a gostar desta coisa, de falar dos sítios e das pessoas sem lhes referir o nome. É assim meio para o desleal. Deve ser da minha, ou melhor, da nossa, infantilidade já que escrevo para o Spectrum. O Daniel nunca faria uma coisa destas. Mas não o encontrarás em Taizé.
Até sexta
Marxista-leninista, o Vidal?
Correligionário da Moura Guedes e do Portugal dos Pequeninos, e que já aqui afirmou que podia votar no PNR?
Deixa-me rir.
De “insultos rascas e ordinários” estamos conversados desde o “psicopata cultural”. Imagina se o queixinhas não fosse educado e de grandíssima elevação intelectual…
Caro Daniel, não ouvi o teu protesto quando um certo e determinado jovem-futuro-deputado-do-PS resolveu chamar «filho da puta» ao Zé Neves no seu blog.
E já escrevi em caixas de comentários que me parece que o tom do Carlos aqui e do Party Program no spectrum é, mais frequentemente do que seria desejável, excessivo quando entram em polémica contigo. Não é que não me pareça que tu não aguentes isso e muito mais (tens a pele bem dura e estás habituado), simplesmente penso que os seus argumentos ficam por vezes para segundo plano, o que torna o debate mais pobre. De resto, não tenho que ser teu amigo para o fazer.
Em todo o caso, faço-te ver que nem sempre escreves da maneira mais simpática e relembro-te o triste episódio da mosca no mel que, espero eu, não se reproduzirá no 5 Dias.
De resto, tu e o Carlos, para dois gajos que começam sempre por dizer que não vão responder um ao outro, parecem estar sempre a responder um ao outro. Um dia destes, e já não é a primeira vez que isto me ocorre, levamos-vos os dois ao engano para um sala, fechamos a porta à chave e deixamo-vos a discutir a violência e o pacifismo.
Zé Neves
é dos livros e da 2ª lei da entropia: socialista que pactue com teses sociais democratas, acaba social democrata
É de uma extrema debilidade conceptual o sr. Daniel Oliveira vir aqui dizer (queixar-se) que, quando eu insulto as suas posições políticas, não utilizo ou não junto aos meus posts (que o sr. pode não gostar nem se identificar) diverso material argumentativo. Obviamente, nem vou enumerar temas e linhas de pensamento, mais autores e leituras minhas, interpretações pessoais, desses autores e matéria por mim a solo acrescida. Não sei assim tão rigidamente o que é um insulto pessoal, sei o que é um insulto conceptual (digamos); agora vir aqui falar em falta de argumentos é absolutamente inaceitável. Revela cegueira e analfabetismo (ou talvez pior).
Passar bem
CV
E, já agora, em relação a um tal Pascoal acima.
Disse que eu citava Moura Guedes e João Gonçalves, e esqueceu-se ou não sabe (nem tem que saber), mas autores como Ernst Junger e Carl Schmitt também são por mim frequentados. Não percebe?
Caríssimo, o seu parco entendimento não me merece nenhum comentário. Nada lhe explicarei, nem lhe farei nenhum desenho.
“Ernst Junger e Carl Schmitt também são por mim frequentados”.
Enfim, este afã em se vender chega a ser confrangedor… Daria vontade de rir, se não fosse tão patético e revelador.
albertino, é tonto?
Porra,
E’ que este Carlos Vidal é a imagem perfeita do cacique de secretaria que, do alto dos titulos dos livros que decorou pela rama, enxota as moscas do café com a solenidade de quem julga que esta a governar o mundo.
Eu não teria problemas nenhuns com o comunismo se não fosse o risco de ele ser implementado por doentes deste calibre.
O fascismo manteve-se graças a este tipo de pessoas, nem mais nem menos. E não se iludam, tivesse ele como unica preocupação os re-beu-béus desta categoria de iluminados, ainda reinaria por ai, implacavelmente perpetuado pelos mesmos, com mais 10 anitos em cima e ja casados com a filha do gerente do banco…