Uma aula sobre Bertolt Brecht

Brecht by Man Ray

Brecht by Man Ray

Leio pouco confesso e desde pequeno sempre tive a sensação de que devia ler mais. Com o passar tempo percebo que só poderei ler mais do que quando tinha 18 anos no dia em que inventar maneira de viver sem patrão ou no dia em que o trabalho passe a ser dividido por todos os seres humanos saudáveis e produtivos. Do pouco tempo que li (e do pouco que ouvi) muito foi na companhia de Brecht. Citei-o para quase tudo, do amor, à política, ao resto.
Depois de tamanha ignorância ou oportunismo interpretativo, não resisti a perder o pudor ou a falsa modéstia, de publicar uma aula preparada por mim e por uma partigiana, de modo a que o autor do insulto e outros leitores interessados vejam que não devem citar este homem em nome de nenhum pacifismo (mesmo que declinado sob a relatividade dos teoremas e paradigmas dos profetas da pós-modernidade).

Poderei citar Pessoa para defender o socialismo? Ou Almada para atacar o impropério? Ou Antero o respeitinho e Eça os bons costumes? Haja respeito pelo espírito da obra dos que passam pelos anais da história a abrir caminho.

Deixo quatro poemas esclarecedores de qualquer mal entendido ou usurpação sem margens para duplas leituras.

 

 

 

 A Troca da Roda

Estou sentado á beira da estrada,
o condutor muda a roda.
Não me agrada o lugar de onde venho.
Não me agrada o lugar para onde vou.
Por que olho a troca da roda
com impaciência?

 

 

 Os Esperançosos

Pelo que esperam?
Que os surdos se deixem convencer
E que os insaciáveis
Lhes devolvam algo?
Os lobos os alimentarão, em vez de devorá-los!
Por amizade
Os tigres convidarão
A lhes arrancarem os dentes!
É por isso que esperam!

 

 

Sobre A Violência

A corrente impetuosa é chamada de violenta
Mas o leito do rio que a contem
Ninguem chama de violento.

A tempestade que faz dobrar as betulas
E tida como violenta
E a tempetasde que faz dobrar
Os dorsos dos operarios na
 rua?


 

Eu queria ser um sábio

Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo que se tem para
viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

II

Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo
da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.

III

Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos, pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que vocês tiveram a sorte de escapar.

Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países que de
sapatos, desesperados!
quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para a
amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão.

Bertolt Brecht

Quando a arte transforma!

(publicado originalmente na revista 440hz da Associação de Estudantes do Conservatório de Música de Coimbra por Ana Filipa Lopes e Renato Teixeira) 

“Nos tempos sombrios também se cantará?

Também se cantará sobre os tempos sombrios.”

 

Se Shakespeare brindou, com o seu drama, a chegada da cruzada das luzes burguesas e a partida dos crápulas do obscurantismo, do credo, do feudo, e das ideias, Brecht apagou a fogosidade da revolução dos “melhores”, para brindar o povo com a luta contra o fado operário, contra o drama dos “piores”, cantando a libertação dos oprimidos.

Mais filho do seu tempo, do que filho da sua classe, Bertol(d)t Brecht abandona simbolicamente uma das letras do seu nome, como quem abandona a teia social que o viu nascer, recusando o aliciamento para uma vida mais facilitada…

Em prosa ou em verso, lido ou cantado, Bertolt Brecht acreditava que, com o teatro e a música como ferramentas, combateria a alienação, pilar fundamental do regime capitalista. Se foi no papel que ficou o legado do seu génio, foi e ainda vai sendo, em palco, que mais a sua obra transformou e transforma.

Revolucionário na vida e na obra, pois é acima de tudo através da obra que pretende ajudar na revolução, BB cedo constatou que não só estava falida a estética e a moral burguesa, (moderada ou radical, consoante se demonstrava democrática ou fascista), como cedo também se apercebeu das limitações do realismo soviético. Brecht, revela, na forma como gradualmente vai rejeitando a estética do realismo soviético, a sua extrema clareza não só quanto à forma mas também ao conteúdo que a Revolução começara a ter com a chegada dos oportunistas.

No seu pouco mais de meio século, Brecht lutou acima de tudo contra o nazismo que lavrava um dos maiores pesadelos da história do continente europeu, contra a estética burguesa que aprisionava toda a arte em sumptuosos e inacessíveis museus e pela libertação da classe operária que definhava como havia definhado a escravatura no tempo de Shakespeare.

Atacando no coração dos tiranos da sabedoria, Brecht cunha cada fragmento do seu trabalho, do seu subtexto, para alertar os operários, primeiro da urgência da Revolução, depois da chegada dos oportunistas e dos burocratas. Preferindo combater o nazismo exilado nos Estados Unidos da América, do que combater Estaline na União Soviética, BB torna-se referência da vanguarda intelectual dos “aliados”, sem por isso passar a produzir (como tantos o fizeram) para o ego do seu mundo, mas para continuar a transformar, o próprio ego do mundo.

Mergulhar no universo de Brecht é perceber que tudo o que ele pensava da sociedade era aplicável ao processo criativo. O processo criativo era o momento ideal, segundo Brecht, para violar o dogmatismo dos criadores e a sua pretensa genialidade, era visto como o palco privilegiado para ensaiar as suas concepções sobre o colectivismo, o ataque à hierarquia e a desmaterialização do privilégio de classe, na vida e na produção artística. 

Quando Brecht se cruza com Weil…

Bertolt Brecht dizia “… O objectivo do teatro deveria ser    alterar a sociedade. Os locais de diversão devem tornar-se órgãos de comunicação de massas…

Kurt Weil dizia “… Quero chegar às pessoas reais, a um público mais representativo. Se a música estiver confinada à sala de espectáculos, a sua existência não se justifica…

…e quando em 1927 estas duas mentes se encontraram, a poesia de um e a música do outro, os momentos de criação a dois que se seguiram foram de perfeito enlace, e levaram a algo profundamente novo.

Deste duo resulta uma nova concepção de ópera. Weil e Brecht utilizaram uma linguagem musical e poética acessível à maioria das pessoas, utilizando a sua arte para denunciar as desigualdades da sociedade em que viviam, encorajando as suas audiências a pensar, a inquietarem-se, a questionarem. Era convicção de ambos que o seu papel como artistas era o de exercer uma função transformadora e actuar revolucionariamente sobre a sociedade. Ou seja, não queriam apenas explicar o mundo, mas também transformá-lo.

Das obras de Brecht e Weil destacaram-se “A Ópera do Três Vinténs”, “Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny e  “Os Sete Pecados Mortais”. Destas obras aquela que mais impacto e sucesso causou foi a “Ópera dos Três Vinténs”. A “Ópera dos Três Vinténs” estreou em Berlim em 1928. Esta ópera, baseada na “Ópera do Mendigo” de John Gay, foi originalmente produzida em 1728. O texto aborda questões sociais, e o estilo musical é aquele dos cabarets de Berlim. Nesta ópera, o mundo é amoral e profundamente capitalista, sendo que os negócios transcendem o próprio amor – facto que constitui um verdadeiro ataque à sociedade capitalista, no qual as emoções se submetem ao poder económico. Por outro lado, os personagens considerados criminosos acabam por ser recompensados, constituindo este facto uma ilustração daquilo que se passa numa sociedade capitalista.

A repressão da sociedade capitalista é retratada de tal modo, que até os mendigos só podem existir dentro desse sistema, ou seja, que ser mendigo se tornou uma profissão.

“…A comida vem em primeiro lugar. Só depois vem a moral…” – é uma das frases que serve de base à maioria da acção nesta ópera, e que funciona como uma provocação para o espectador, pois colocando a comida antes da moral, apela-se para que se considere as actuais circunstâncias de vida de cada uma das personagens (ladrões, prostitutas, pedintes), em vez de julgá-los no abstracto.

As canções/árias que surgem ao longo desta ópera representam um novo estilo, são operáticas na sua apresentação, mas o seu estilo de cabaret inverte a percepção comum de ópera. Estas canções/árias muitas vezes servem para interromper a acção, e fazer com que o público se desligue dos personagens – funcionando como testemunhos sociais. O objectivo era o de levar os espectadores a pensar sobre a peça, e a sentir que a mudança da sociedade em que viviam era urgente.

Quando Brecht escreveu o texto para esta ópera, o seu interesse pela teoria marxista era recente, e talvez por isso os elementos políticos e sociais da peça não são tão claros como noutros trabalhos que desenvolveu posteriormente. No entanto trata-se de uma obra brilhante, que foi central no sucesso dos trabalhos de Brecht e de Weil.

A colaboração entre estes dois homens termina com a subida de Hitler ao poder, e com o inevitável exílio de ambos… os trabalhos que realizaram em tempo de convulsões sociais, tão provocadores e agitadores política e filosoficamente, deixaram bem claro ao regime de Hitler que a presença de ambos era perigosa.

Entrevista imaginária A Bertolt Brecht nos tempos modernos…

(A partir de textos poéticos do autor)

 Como retratas o tempo em que vivemos?

“… Vivemos em tempos sombrios… Uma fronte sem rugas denota insensibilidade. Aquele que ri ainda não recebeu a terrível notícia que está para chegar.”
”Os tempos modernos não começam de uma vez por todas…, o meu avô já vivia numa época velha, o meu neto talvez ainda viva na antiga. A carne nova come-se com velhos garfos. Épocas novas não a fizeram os automóveis, nem os tanques, nem os aviões sobre os telhados, nem os bombardeiros. As novas antenas continuam a difundir as velhas asneiras. A sabedoria continuou a passar de boca em boca.”

 E quem é o responsável pelas sombras dos tempos pós-modernos?

“O que tem fome e te rouba o ultimo pedaço de pão chama-o teu inimigo, mas não saltas ao pescoço do teu ladrão que nunca teve fome.”

 Num contexto em que a grande maioria dos direitos está em causa, o que pensas da privatização do ensino?

“Privatizaram a tua vida, o teu trabalho, a tua hora de amar e o teu direito de pensar. É da empresa privada o teu passo em frente, teu pão e teu salário. E agora não contentes querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.”

 O que dirias aos jovens de hoje que não se interessam por política?

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, da renda, dos sapatos e dos remédios, dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, o pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo…”

 Ainda achas que é possível mudar o mundo?

“Não aceites o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.”

Os resistentes de todo o mundo começam a dar uma resposta, muitas vezes radicalizada, contra as infra-estruturas do poder. O que achas das formas de luta que têm vindo a ser adoptadas por grupos como os sem terra no Brasil, dos estudantes mexicanos que ocuparam a sua universidade quase meio ano ou mesmo do movimento anti-globalização que não para de perseguir cada reunião das grandes instituições do poder politico como o G8, a NATO, a ONU ou a UE?

“Sobre a Violência…, a corrente impetuosa é chamada de violenta, mas o leito do rio que a contém, ninguém chama de violento. A tempestade que faz dobrar as bétulas, é tida como violenta, e a tempestade que as faz dobrar os dorsos dos operários na rua?”

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26 Responses to Uma aula sobre Bertolt Brecht

  1. “de modo a que o autor do insulto e outros leitores interessados vejam que não devem citar este homem em nome de nenhum pacifismo”

    Não interessa se lê muito ou pouco, desde que leia com atenção. Eu citei para negar a frase que citei, não para a usar em defesa da minha posição: “A radicalidade está em transbordar as margens para não arrastar tudo o que se encontra pela frente. Está em negar às margens o poder de determinar a nossa própria violência.” Por isso, antes de nos dar a sua aula, talvez seja bom reler o que escrevi.

  2. E sobretudo antes de chamar ignorante aos outros. Bem sei que a basófia é contagiosa, e neste blogue (que se transformou numa espécie de versão de esquerda do Abrupto, com a necessidade de exibição um pouco cabotina – até do Renato – de autoridade) ela tornou-se regra sem excepção, mas há limites. Mas quando dá aulas leia com atenção e não na diagonal o que critica.

  3. Renato Teixeira diz:

    Mau leitor por mau leitor que o resto dos leitores saibam que o comentário do Daniel Oliveira chegou 3 minutos depois da publicação da aula. Uma interpelação tão impertinente só é justa se feita pelos bons alunos. Amanhã, (ou mais tarde se a insónia pegar) respondo-lhe ao conteúdo do seu comentário que ainda estou entretido a ler os comentários dos muitos debates que a nossa conversa quase particular gerou. Para dois que se acusam mutuamente de ignorantes não está mal e compreenderá que quero responder aos outros depois de os ler bem e depois de domar a vontade de exorbitar o que eles dizem.

  4. Renato Teixeira diz:

    “A conhecida frase, que é extraordinária e acertada, já foi usada para justiçar todas as arbitrariedades. A radicalidade está em transbordar as margens para não arrastar tudo o que se encontra pela frente. Está em negar às margens o poder de determinar a nossa própria violência.”
    Disse sua excelência aqui:
    http://arrastao.org/sem-categoria/transbordar-as-margens/
    Se isto não é exorbitar o conteúdo de um poema então não sei o que é ler e você não sabe o que é escrever.

  5. Pedro Beirão diz:

    “… O objectivo do teatro deveria ser alterar a sociedade. Os locais de diversão devem tornar-se órgãos de comunicação de massas…”

    Hollywood tornou isto realidade. A massificação do entretenimento é uma das grandes conquistas do capitalismo. Foi isto que Brecht queria. Do que se queixam?

  6. Fogo diz:

    Este licor beirão é de uma profundidade atroz.É daqueles que tem capital cultural (uma licenciatura)……ao serviço dos miseráveis que tornam o mundo impossível.Puah!

  7. anon diz:

    “ha limites”… este daniel é com cada perola

  8. Ok, Renato, não sabe ler. Leia várias vezes e perceberá que nunca uso o poema como defesa do pacifismo (e foi essa a acusação que me fez) muito pelo contrário. Quando eu digo “a radicalidade está” estou a falar de política, estou a usar a imagem do poema para dizer diferente do que ele diz, não do poema. Estou a ter um diálogo com o poema, não estou a dar-lhe uma aula de literatura. Três minutos depois porque só li a introdução sobre o meu post. Não me leve a mal, mas para aulas de literatura escolheria professor mais especializado. Um que não me acusasses de exorbitar o conteúdo de um poema, o que é uma coisa extraordinária em alguém que nos quer dizer qualquer coisa sobre literatura.

  9. por fim, Renato: não tem idade nem tudo o resto para me chamar impertinente ou passar-lhe pela cabeça que eu podia ser seu professor. Já li o seu post a que chamou de aula. Nada a dizer. A não ser que, afinal, a modéstia não era assim tão má conselheira. E não me vai levar a mal. Só digo isto assim – costumo ser mais doce – porque parece ser mal que não ataca. E devia.

  10. xatoo diz:

    estão a dar demasiada visibilidade a Daniel Oliveira, um mero opinante em programas lúdicos de televisão e comentador pago à linha no pravda do regime, para além de uns biscates no jornal de bola. Um actor simplório de cenas comerciais, o que preverte à partida qualquer ideia de debate intelectual sobre assuntos que envolvam interesses comerciais relacionados com o controlo do senso comum estupidificante
    Ontem glosei D.O. a pitoresca figura que se converteu na imagem visivel da falência do Bloco de Esquerda (ganharam os votos, missão cumprida, fundilhos assentes nas cadeirinhas de São Bento) numa alegoria no Arrastão apelidando-o de qualquer coisa como “temeroso Dragão que expele votos pelos olhos, pelas narinas e pelos buracos das orelhas” num comentário sobre o governo de extrema direita de Berlusconi sobre o facto de DO considerar normal a tentativa de instauração de um regime totalitário em Itália (e por arrastamento à Europa) que não deixa margem a qualquer manifestação de oposição senão a do recurso a actos violentos. Daí a anormalidade do Dragão, nestas circunstâncias, continuar a insistir na democracia-que-vota-de-quatro-em-quatro-anos-e-acabou-ganhaste-ou-perdeste.
    Obviamente DO não gostou de ser chamado de “anormal” e não publicou o comentário; o que vindo de onde vem (já não é a primeira vez que o faz por motivos politicos) é normal, claro.
    Fica aqui “a queixinha” com a recomendação ao 5Dias para voltar de novo aos trilhos das bem-aventuranças de modo a que o Daniel os perdoe e aprove no futuro. Àmãe

  11. xatoo diz:

    anon, não são apenas pérolas. Este Daniel é dos tais que também errou na “licenciatura” – devia ter ido para piloto de ralys de gramática, ou engatilhador de frases feitas, especialista em prosa de efeito antagónico, sei lá; o homem exaspera qualquer transeunte que seja apanhado desprevenido em qualquer texto.Olhe para estas amostras avulso recolhidas apenas aqui:
    “a basófia é contagiosa (…) leia com atenção e não na diagonal (…) versão de esquerda do Abrupto (…) talvez seja bom reler (…) eu citei para negar a frase que citei (…) tornou-se regra sem excepção (…) não tem idade nem tudo o resto”
    É obra! Uma pura especialização em falar sobre tudo para não dizer nada

  12. Pingback: Arrastão: Transbordar as margens

  13. LAM diz:

    mero leitor, suspeito que anda tudo a pedir lume,e ninguém fuma…

  14. A.R.A diz:

    Meus caros Renato & Daniel Oliveira

    Façam a interpretação que quizerem de Brecht, mas para o caso, o que ficou bem explicito pela acção foi que:

    «o rio de tão reprimido pelas margens entrou cara a dentro do seu repressor.»

    Essa é que é essa!

    A.R.A

  15. Renato Teixeira diz:

    Está visto que o senhor Daniel Oliveira é avesso a aulas. Não gosta de as receber, muito menos de alguém de calções. A confusão das suas explicações reflecte apenas que, mesmo contra a sua vontade e superior competência, exorbitou o conteúdo do poema de Brecht. Obviamente os poemas são sujeitos a múltiplas interpretações… há de resto manobrismo para quase tudo em dialéctica. O que não se pode é negar que o escritor injecta na sua obra, literária ou poética, um cunho que não deve ser enxovalhado, ultrajado, violado.
    No seu post acrescentou “Já o Renato resolveu seguir o seu novo mestre (quem já agora?) e dar-nos, veja-se bem (escândalo, ignomínia, ultraje!!), uma aula de literatura revolucionária ou uma aula revolucionária de literatura. Como me acusa de exorbitar o conteúdo de um poema. Talvez assim, com tudo mesmo muito bem explicadinho, consiga salvar a humanidade de mais aulas de literatura vindas do Renato. E juro nunca mais exorbitar. Não exorbitarei.” Fica-lhe bem a promessa do esforço ainda que imbuída de sarcasmo. O tom católico acredito nele.
    Continua: “quando chego à literatura a revolução e o reformismo interessam-me pouco. Defeito meu, com toda a certeza”, ou não, mas garantidamente que perde algumas obras de interesse que me escuso a recomendar pois já percebi que gosta pouco se sugestões culturais à esquerda. Fique com as do Marcelo.
    Acusa: “Ok, Renato, não sabe ler. Leia várias vezes e perceberá que nunca uso o poema como defesa do pacifismo (e foi essa a acusação que me fez) muito pelo contrário. Quando eu digo “a radicalidade está” estou a falar de política, estou a usar a imagem do poema para dizer diferente do que ele diz, não do poema. Estou a ter um diálogo com o poema, não estou a dar-lhe uma aula de literatura.” E o burro sou eu? O que quer dizer quando diz (mesmo que leia muitas vezes não consigo chegar lá): “A conhecida frase, que é extraordinária e acertada, já foi usada para justiçar todas as arbitrariedades?” Vamos lá: o que é que é conhecida? A frase do poema sobre a violência. O que é que ela é? Extraordinária e acertada. O que é que é então extraordinariamente acertado? A superior violência das margens sobre o curso dos rios. Quem é o rio? O povo. Quem são as margens? O sistema. Quer que continue ou está finalmente convencido do que Brecht deixa ainda mais claro no poema Queria se um sábio?
    Para se desviar da análise morfológica e sintáctica (ui… agora quer dar-me aulas de Português), o Daniel refugia-se. Ah e tal estava a dialogar com o poema… Ah e tal estou a usar a imagem do poema para dizer diferente do que ele diz… Ah e tal… Ah e tal… Ah e tal.
    Não o levo a mal por procurar aulas de literatura com um “professor mais especializado”, conheço muitos melhor do que eu e estou certo que conhecerá também. Aconselho-o contudo a não procurar um relativista pós-moderno de fachada progressiva, que se permite interpretar tudo de qualquer interpretação, um que por força do seu ego faça letra morta do espírito e das ideias do escritor de turno. Para isso basta que tenha aulas consigo próprio. Ups… acho que consegui fazer uma sugestão que o agrada.
    Por fim, Daniel Oliveira, é lamentável que pense que a “idade” bem como “tudo o resto” sejam critérios para escolher quem nos pode ensinar algo. Deixe-me que lhe diga que o meu filho, de ano e meio, já lhe ensinava qualquer coisa. A mim, imagino que não o surpreenda, já me ensinou uma bela meia dúzia delas.
    Se tivesse poupado o meu gáudio e a guerra dos poemas de Brecht, ter-lhe-ia poupado a minha falta de modéstia. Deveria mostrar alguma gratidão pela aula de literatura revolucionária (nos tempos que correm quase me apetece cobrar-lhe uma propina). Da minha parte agradeço a aula de reformismo militante e a sua adesão à causa de salvar a humanidade nem que seja apenas das minhas aulas de literatura.

  16. Renato Teixeira diz:

    Xatoo… tem toda a razão. Mas é pavloviano. Não resisto a morder o reformismo. É um estímulo e tanto ainda que pouco eficiente pelo menos neste meio.
    Pedro Beirão… Hollywood era mesmo o que o Brecht queria. Isso e paz entre as classes. Nem mais, nem menos.
    LAM, de facto a maioria das pessoas em debate continuam a falar de tabaco sem esclarecer se fumam ou não. Não podia estar mais de acordo.
    A.R.A, mais nada. Essa é que é essa.

  17. Vou por partes a ver desta vez corre melhor.

    A frase é extraordinária. Certo??? Certo. É acertada? Certo??? Certo. Justificou arbitrariedades??? Sim, de onde já se depreende, se estiver com alguma atenção, que eu já estou a dizer que ela é acertada mas perigosa. E depois digo eu, não diz Brecht nem digo eu que ele diz, que radical seria mesmo o rio transbordar.

    Então se o Renato já sabia, numa leitura simples mas boa para a nossa conversa, que o rio é o povo e as margens são o sistema (suponho que está entusiasmado por ter descoberto isso, o que é sempre de motivar) eu estou a dizer que…? radical e revolucionário será…? fazer diferente das condições que o sistema nos impõe. Ou seja: fora das suas margens, transbordando. Está a acompanhar? Ou seja, ao não deixar que o sistema nos imponha a sua lógica, recusando a violência do sistema (das margens, certo?) não arrastamos tudo o que encontramos pela frente. Boa?

    Reparou que “transbordar as margens” era o título do post. Ou seja, o título do post já dizia o contrário da frase de Brecht: em vez das margens que o comprimem (ao rio), como está no frase, o rio recusava as margens violentas, que o levavam à violência. Como? Transbordando, como está na minha frase e no título do post. Ou seja: negando o sistema em vez de ser guiado por ele.

    Apanhou? Percebe agora, com esforço ou sem ele, mas com alguma honestidade, que:
    1- Para eu não ter percebido a frase de Brecht era absolutamente necessário que eu fosse um débil mental. Pode informar-se junto de algumas pessoas que me conheçam que estou convencido que elas lhe dirão que até poderei ser um bocadinho borrinho, mas débil mental talvez não.
    2 – Caso eu lhe desse a interpretação que o senhor julga que eu dei (que seria um texto pacifista e não um texto que justifica a violência) toda a ideia de a usar como usei seria absurda. No entanto, podemos mesmo considerar uma frase extraordinária e acertada e ir para lá dela, depois dela, para chegar a um lugar diferente. A isso damos o pomposo nome de pensar. E é para isso, e não apenas para citar a namoradas ou em debates políticos, que as coisas que lemos servem. Fiquei cansado. Boa noite.

    PS: não, não aceito sugestões culturais nem à esquerda nem à direita. Aceito sugestões de quem goste de ler ou mesmo de quem leia pouco mas se apaixone por o que lê. Quem vibra com o que lê. Seja de esquerda ou de direita, é-me absolutamente indiferente. E eu gosto muito e vibro muito. Há muito tempo. E sempre, sempre, tive uma enorme falta de paciência para quem transforma a poesia em comunicados. Para que não tenha de explicar tudo, não estou a dizer que a literatura não tem ou não pode ter conteúdo ou até objectivos políticos. Estou apenas a dizer que quem a usa de forma tão pobre é um psicopata cultural.

  18. Renato Teixeira diz:

    Tem uma imaginação prodigiosa e um ego que esconde uma tremenda falta de confiança.
    Sei que levou mais porrada ideológica em dois dias de blogosfera do quem numa década de Bloco de Esquerda. Mas é assim. Quando dói, embrulha-se.
    Não lhe chamei nomes. Fiz caracterizações políticas, polemizei sobre um facto da realidade e retoquei-lhe a análise de um poema que por mais cambalhotas que dê é notório que exorbitou. Acusei-o de várias coisas mas não o chamei de débil mental. Para saber que tem dois dedos de testa não preciso de informes de ninguém e por mais que me tente psiquiatriazar (psicopata cultural é de muito mau gosto), sei que me reconhece inteligência.
    Permita-me nova correcção. “Borrinho” escreve-se com u. Já sei que vai dizer que é da proximidade das teclas… que as pôs a dialogar uma com a outra para chegar ainda mais longe. Posso corrigir ou prefere que deixe como está?
    Há pouco mais a dizer sobre a sua análise, que afinal era brilhante e só eu achei esdrúxula. Acha que o rio transborda com calminha, quase que acariciando as margens. O que é que se há-de fazer.
    Ao usar “???” várias vezes seguidas “???” apenas confirma “???” o que já desconfiava… Consegui irritar sua excelência. Um feito, para um primário como eu.
    Sei que lhe custa a acreditar mas os panfletários também vibram com poemas. Não é exclusivo nem seu, nem de ninguém. Cansei pouco, descanse sua excelência mais.

  19. Renato: agora releia o comentário que fiz. Não disse que me chamou débil mental. Se tivesse chamado nem me daca ao trabalho de lhe responder. Quanto a assinalar gralhas, isso sim, é sinal de insegurança. Não me irritou. Posso reconhecer-lhe inteligência (na realidade não o conheço suficientemente bem para reconhecer ou não seja o que for) mas acho que este seu post e a leitura que fez do meu é pobre. A expressão “psicopata cultural” não chega a ser insultuosa, se a ler no contexto em que é dita. De resto, acredite mesmo que não me irritou nada. Fico, aceito, impaciente quando acho que o que escrevi é claro e o outro lado faz por não entender. Sobre o conteúdo do comentário, nada diz. E podia: ok, estou esclarecido. Por exemplo. Mas isso custa mais, não é. Mais vale andar à cata da gralha.

  20. escrevi “daca”. Aproveite.

  21. Manel diz:

    E lá resvalou para a treta do insulto, o que é que é insultuoso ou não, dependendo da maneira como foi escrita… Renato, acabaste de ser eleito o Carlos Vidal 2 do 5 dias, pelo DO. O respeitinho é muito bonito… Medo…

    Confesso que gostava de ver um rio a transbordar devagarinho, com calma e doçura… Ou melhor ainda, a ignorar as margens e simplesmente voar… Que aquilo lá na Terceira, em que as pessoas ficam sem casas e tudo é uma chatice. Aquelas ribeiras açoreanas são piores que os Massimos Tartaglias desta vida. É mais ou menos como ser sequestrado, pá, não gosto pronto. É deveras incomodativo.

  22. Manel diz:

    E lá resvalou para a treta do insulto, o que é que é insultuoso ou não, dependendo da maneira como foi escrita… Renato, acabaste de ser eleito o Carlos Vidal 2 do 5 dias, pelo DO. O respeitinho é muito bonito… Medo…

    Confesso que gostava de ver um rio a transbordar devagarinho, com calma e doçura… Ou melhor ainda, a ignorar as margens e simplesmente voar… Que aquilo lá na Terceira, em que as pessoas ficam sem casas e tudo é uma chatice. Aquelas ribeiras açoreanas são piores que os Massimos Tartaglias desta vida. É mais ou menos como ser sequestrado, pá, não gosto pronto. É deveras incomodativo, pá!

  23. Renato Teixeira diz:

    Daniel… Ok. Estou esclarecido. Aliás… mais do que esclarecido. Particularmente sobre o uso que faz de Brecht, do reformismo, da violência e acima de tudo do insulto fácil.
    Como não considera insulto… retribuo o elogio: Psicopata político.

  24. Renato, eu não uso o Brecht. Leio e discuto. Sou ateu.

  25. Renato Teixeira diz:

    Daniel, eu não uso calças. Visto-as e lavo-as. Sou nudista.

  26. Balaio Variado diz:

    Postei em meu blog, o vídeo do trabalho, feito com base no texto “Maria Farrar” de Brecht. Conta a história real, da menina condenada á morte.
    É só uma sugestão, para quem não conhece o texto…

    http://balaiovariado.blogspot.com/

    Abraços

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