Renato Teixeira e Daniel Oliveira

A agressão a Berlusconi não me suscitaria qualquer comentário. Mas o debate gerado a partir daí interpela. Escrevo, mesmo à pressa, aproveitando-me do diálogo entre o Renato e o Daniel, porventura abusando da paciência de um e de outro, canibalizando os seus argumentos em proveito de uma prosa própria. Então é assim: soube da agressão a Silvio Berlusconi pelo post do Renato Teixeira. O efeito foi o seguinte: nem sequer tive tempo de perceber se o acontecimento me agradava ou se antes me incomodava. Provavelmente, nem uma coisa, nem outra. O que seguramente me inquietou foi a pronta e entusiasmada reacção do Renato. Disse o Renato que o “povo” (here we go again…) fez o que a democracia não fez. Não consigo acompanhar a prontidão com que este comentário do Renato procurou capitalizar politicamente o acto. Talvez eu esteja a ficar demasiado lento. Hesitante, contemplador, impassível, reformista, vendido, o que quer que seja. Ou talvez entenda que não há radicalidade política sem um mínimo de sensibilidade crítica. Sensibilidade que aconselharia a uma utilização mais prudente de conceitos como povo e democracia (e se o conceito de povo já é problemático, ainda mais será se usado em oposição ao de democracia!). Resumindo, não consigo deixar de ler o post do Renato como uma demonstração de um seu menor interesse pelo acto efectivamente perpetrado e o que nele se inscrevesse. O comentário do Renato apenas pretende convocar o que se passou para animar uma sua narrativa preconcebida? Se assim é, arrisco-me a dizer que o seu foi um comentário conservador. Note-se que a palavra conservadorismo não cai aqui de pára-quedas. Traz no seu encalço o seguinte: o Renato imediatamente procurou revestir o acto de agressão com um sentido político, confinando o que nele se jogasse ao que de proveitoso poderia resultar para a sua digladiação contra o que entende ser a linha política conservadora de um Rui Tavares ou de um Daniel Oliveira ou de um Miguel Portas ou de. Talvez eu esteja a ser injusto – o Renato dirá – e a questão seja tão simples como esta: o comentário do Renato trai-se. E trai-se porque se tomarmos o acto como qualquer coisa da ordem do intempestivo, então não faz sentido reconhecer nele uma lei, dele se extraindo nada de inusitado – e por isso revolucionário – mas sim uma lição. Dizer que o agressor de Berlusconi fez aquilo que a democracia (parlamentar, burguesa, capitalista – espero que seja a essas apenas que o Renato se esteja a referir) não fez é, antes de mais, colocar essa democracia que em nada nos satisfaz no centro da nossa própria prática política. O gesto louco (independentemente da loucura ou não de quem efectuou o dito gesto) é assim rapidamente reconduzido à normalidade de sempre. O gesto nada importa, o fim acaba por ser tudo. Ora, o problema da democracia que o Renato critica não é resolver ou deixar de resolver; é a forma como resolve ou não resolve.      

Não surpreende, por isso, que a lógica do comentário do Renato acabe por não se desviar da lógica do Daniel. Ambas partilham a mesma…digamos…temporalidade. Veja-se que o Daniel diz que é indiscutível que a agressão acabe por beneficiar o próprio Berlusconi. Trata-se aqui da linguagem mastigada, vezes sem conta mastigada, do cálculo político-institucional, cálculo a que o Daniel recorre com alguma regularidade; parece – este cálculo – uma coisa aprumada e sofisticada, porque passaria por descobrir o cinismo ou a ironia do processo histórico, passaria por desmascarar a mentira da verdade – revelar o conservadorismo do revolucionário – e expor a verdade verdadeira e por aí adiante. Contudo, a lógica de raciocínio do Daniel é sempre a mesma, sempre dependente de uma estrutura dialéctica absolutamente rígida: foram os anarquistas gregos que fizeram o jogo do governo grego, é o agressor italiano que faz o jogo do governo italiano (e é certo, como lembrou alguém, que em Itália a tradição se presta a este tipo de análise), foi o feminismo radical que faz o jogo do conservadorismo, etc., em processos de desdobramento mecânico que podemos encontrar, hoje por hoje, nas fórmulas “coligação negativa” e similares. Por aqui, temo que não consigamos ir a nada que ainda não conheçamos, que não sejamos capazes de ir além do conhecimento esquemático baseado na famigerada dicotomia das condições objectivas e subjectivas.  O Daniel está tão preso ao circuito tacticista que nem sequer constata que é a sua própria impotência e inimputabilidade que, desse modo, ele cria e recria uma e outra vez; a primeira questão que o Daniel deveria colocar não era o que vai objectivamente acontecer ou deixar de acontecer, mas sim o que ele subjectivamente pensa sobre o assunto e como se pronuncia sobre ele e como interage com outras subjectividades em todo este processo de construção de sentidos políticos. 

É certo que o que move o Daniel é mais do que isto. A sua crítica à agressão a Berlusconi tem também que ver com uma questão de princípios, como ele refere. O Daniel é um pacifista, diz-se. Mas este apelo aos princípios não é mais preocupante do que aquela imersão nos meandros do tacticismo. São mundos opostos, mas não serão simetricamente opostos? É como se existissem dois mundos paralelos que nunca se cruzam: o do tacticismo e o dos princípios. A ligação entre ambos – o que se chamaria de política? – é muito ténue. Tende-se a limitar a política a uma de duas coisas: ou o labirinto tacticista ou o puro terreno dos princípios – ou o maquiavelismo ou o anti-maquiavelismo. É a partir deste terreno puro que o Daniel nos fala com não menos certezas do que aquelas que investe quando se fala a partir do cálculo tacticista cujos meandros tanto o encantam. E esta firmeza com que o faz – não vacila nem nos princípios nem no tacticismo – torna difícil que a ligação entre uma e outra coisa deixe de ser remota. Temos assim uma opinião política que se move entre o mais puro idealismo e o materialismo mais simplista; ou melhor, que pula entre uma e outra coisa, sem nunca se mover entre elas. Diz-nos o Daniel que é pacifista e nem hesita em contrapor a grevista de fome ao agressor de Berlusconi, o que não deixa de ser assustador: independentemente de toda a complexidade de forças e poderes subjacente à greve de fome (reduto que para muitos é da esfera da loucura…), independentemente da violência imbricada na greve de fome, não me parece que a luta política deva ser reduzida a ideias-tipo deste género: fazer greve de fome ou dar uma porrada num chefe-de-governo?!? (E devo dizer que contrapor uma e outra coisa não me parece menos boçal – mesmo se mais simpático – do que quer que seja…). O Daniel, além do mais, não é pacifista nenhum. O Daniel diz que é pacifista, mas ele sabe (?) que não é bem assim. A mim parece-me que o Daniel simplesmente defende a monopolização estatal da violência. Monopolização que, diga-se, para o Daniel  tem que ocorrer num quadro democrático, porque, como é evidente, o Daniel não é contra o recurso à violência para combater estados ditatoriais. O Daniel não é contra o 25 de Abril nem contras as manifestações no Irão, só para dar dois exemplos. Recusar a violência é uma impossibilidade porque a violência é como o poder: existe, inevitavelmente existe. O melhor da tradição da esquerda, a este respeito, levava-nos até a este ponto: a dizermos uma outra vez que não damos para nenhuma guerra entre as choupanas. Mas a frase não fica aqui: dizia-se também nenhuma paz com os castelos. No war but class war. Recusar a violência não tem cabimento terrestre: seja em quadro democrático seja em contexto ditatorial, a questão não é o pacifismo. A ideia de uma eliminação da violência é tão irreal como o projecto de eliminação do poder. A ideia de que poderemos viver num mundo sem violência é refém de uma concepção angélica de violência, que não só limita esta a uma dimensão física, como desde logo se esquece que todas as práticas físicas (e há outras?) envolvem uma dimensão de poder em que aquilo que se apresenta como a mais perfeita negação da violência – caso máximo: fazer amor, reproduzir, dar vida, ser mãe – não parece ser indiferente às imagens paradigmáticas da força. Enquanto há vida, existem relações de poder; enquanto existem relações de poder, há violência; e por aí em diante. A questão importante é, essa sim, a da organização democrática (comunista, se quiserem, quem quiser) da violência, do poder, da vida. Não podemos – e quereríamos? – higienizar o sexo até ao ponto em que nele não encontrássemos sinal de violência alguma; o que não significa, é claro, que não saibamos que há uma luta contra a desigualdade que deve ser travada no interior da relação sexual. Mas sobre sado-masoquismo há quem perceba melhor do que eu, seguramente.

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