Renato Teixeira e Daniel Oliveira

A agressão a Berlusconi não me suscitaria qualquer comentário. Mas o debate gerado a partir daí interpela. Escrevo, mesmo à pressa, aproveitando-me do diálogo entre o Renato e o Daniel, porventura abusando da paciência de um e de outro, canibalizando os seus argumentos em proveito de uma prosa própria. Então é assim: soube da agressão a Silvio Berlusconi pelo post do Renato Teixeira. O efeito foi o seguinte: nem sequer tive tempo de perceber se o acontecimento me agradava ou se antes me incomodava. Provavelmente, nem uma coisa, nem outra. O que seguramente me inquietou foi a pronta e entusiasmada reacção do Renato. Disse o Renato que o “povo” (here we go again…) fez o que a democracia não fez. Não consigo acompanhar a prontidão com que este comentário do Renato procurou capitalizar politicamente o acto. Talvez eu esteja a ficar demasiado lento. Hesitante, contemplador, impassível, reformista, vendido, o que quer que seja. Ou talvez entenda que não há radicalidade política sem um mínimo de sensibilidade crítica. Sensibilidade que aconselharia a uma utilização mais prudente de conceitos como povo e democracia (e se o conceito de povo já é problemático, ainda mais será se usado em oposição ao de democracia!). Resumindo, não consigo deixar de ler o post do Renato como uma demonstração de um seu menor interesse pelo acto efectivamente perpetrado e o que nele se inscrevesse. O comentário do Renato apenas pretende convocar o que se passou para animar uma sua narrativa preconcebida? Se assim é, arrisco-me a dizer que o seu foi um comentário conservador. Note-se que a palavra conservadorismo não cai aqui de pára-quedas. Traz no seu encalço o seguinte: o Renato imediatamente procurou revestir o acto de agressão com um sentido político, confinando o que nele se jogasse ao que de proveitoso poderia resultar para a sua digladiação contra o que entende ser a linha política conservadora de um Rui Tavares ou de um Daniel Oliveira ou de um Miguel Portas ou de. Talvez eu esteja a ser injusto – o Renato dirá – e a questão seja tão simples como esta: o comentário do Renato trai-se. E trai-se porque se tomarmos o acto como qualquer coisa da ordem do intempestivo, então não faz sentido reconhecer nele uma lei, dele se extraindo nada de inusitado – e por isso revolucionário – mas sim uma lição. Dizer que o agressor de Berlusconi fez aquilo que a democracia (parlamentar, burguesa, capitalista – espero que seja a essas apenas que o Renato se esteja a referir) não fez é, antes de mais, colocar essa democracia que em nada nos satisfaz no centro da nossa própria prática política. O gesto louco (independentemente da loucura ou não de quem efectuou o dito gesto) é assim rapidamente reconduzido à normalidade de sempre. O gesto nada importa, o fim acaba por ser tudo. Ora, o problema da democracia que o Renato critica não é resolver ou deixar de resolver; é a forma como resolve ou não resolve.      

Não surpreende, por isso, que a lógica do comentário do Renato acabe por não se desviar da lógica do Daniel. Ambas partilham a mesma…digamos…temporalidade. Veja-se que o Daniel diz que é indiscutível que a agressão acabe por beneficiar o próprio Berlusconi. Trata-se aqui da linguagem mastigada, vezes sem conta mastigada, do cálculo político-institucional, cálculo a que o Daniel recorre com alguma regularidade; parece – este cálculo – uma coisa aprumada e sofisticada, porque passaria por descobrir o cinismo ou a ironia do processo histórico, passaria por desmascarar a mentira da verdade – revelar o conservadorismo do revolucionário – e expor a verdade verdadeira e por aí adiante. Contudo, a lógica de raciocínio do Daniel é sempre a mesma, sempre dependente de uma estrutura dialéctica absolutamente rígida: foram os anarquistas gregos que fizeram o jogo do governo grego, é o agressor italiano que faz o jogo do governo italiano (e é certo, como lembrou alguém, que em Itália a tradição se presta a este tipo de análise), foi o feminismo radical que faz o jogo do conservadorismo, etc., em processos de desdobramento mecânico que podemos encontrar, hoje por hoje, nas fórmulas “coligação negativa” e similares. Por aqui, temo que não consigamos ir a nada que ainda não conheçamos, que não sejamos capazes de ir além do conhecimento esquemático baseado na famigerada dicotomia das condições objectivas e subjectivas.  O Daniel está tão preso ao circuito tacticista que nem sequer constata que é a sua própria impotência e inimputabilidade que, desse modo, ele cria e recria uma e outra vez; a primeira questão que o Daniel deveria colocar não era o que vai objectivamente acontecer ou deixar de acontecer, mas sim o que ele subjectivamente pensa sobre o assunto e como se pronuncia sobre ele e como interage com outras subjectividades em todo este processo de construção de sentidos políticos. 

É certo que o que move o Daniel é mais do que isto. A sua crítica à agressão a Berlusconi tem também que ver com uma questão de princípios, como ele refere. O Daniel é um pacifista, diz-se. Mas este apelo aos princípios não é mais preocupante do que aquela imersão nos meandros do tacticismo. São mundos opostos, mas não serão simetricamente opostos? É como se existissem dois mundos paralelos que nunca se cruzam: o do tacticismo e o dos princípios. A ligação entre ambos – o que se chamaria de política? – é muito ténue. Tende-se a limitar a política a uma de duas coisas: ou o labirinto tacticista ou o puro terreno dos princípios – ou o maquiavelismo ou o anti-maquiavelismo. É a partir deste terreno puro que o Daniel nos fala com não menos certezas do que aquelas que investe quando se fala a partir do cálculo tacticista cujos meandros tanto o encantam. E esta firmeza com que o faz – não vacila nem nos princípios nem no tacticismo – torna difícil que a ligação entre uma e outra coisa deixe de ser remota. Temos assim uma opinião política que se move entre o mais puro idealismo e o materialismo mais simplista; ou melhor, que pula entre uma e outra coisa, sem nunca se mover entre elas. Diz-nos o Daniel que é pacifista e nem hesita em contrapor a grevista de fome ao agressor de Berlusconi, o que não deixa de ser assustador: independentemente de toda a complexidade de forças e poderes subjacente à greve de fome (reduto que para muitos é da esfera da loucura…), independentemente da violência imbricada na greve de fome, não me parece que a luta política deva ser reduzida a ideias-tipo deste género: fazer greve de fome ou dar uma porrada num chefe-de-governo?!? (E devo dizer que contrapor uma e outra coisa não me parece menos boçal – mesmo se mais simpático – do que quer que seja…). O Daniel, além do mais, não é pacifista nenhum. O Daniel diz que é pacifista, mas ele sabe (?) que não é bem assim. A mim parece-me que o Daniel simplesmente defende a monopolização estatal da violência. Monopolização que, diga-se, para o Daniel  tem que ocorrer num quadro democrático, porque, como é evidente, o Daniel não é contra o recurso à violência para combater estados ditatoriais. O Daniel não é contra o 25 de Abril nem contras as manifestações no Irão, só para dar dois exemplos. Recusar a violência é uma impossibilidade porque a violência é como o poder: existe, inevitavelmente existe. O melhor da tradição da esquerda, a este respeito, levava-nos até a este ponto: a dizermos uma outra vez que não damos para nenhuma guerra entre as choupanas. Mas a frase não fica aqui: dizia-se também nenhuma paz com os castelos. No war but class war. Recusar a violência não tem cabimento terrestre: seja em quadro democrático seja em contexto ditatorial, a questão não é o pacifismo. A ideia de uma eliminação da violência é tão irreal como o projecto de eliminação do poder. A ideia de que poderemos viver num mundo sem violência é refém de uma concepção angélica de violência, que não só limita esta a uma dimensão física, como desde logo se esquece que todas as práticas físicas (e há outras?) envolvem uma dimensão de poder em que aquilo que se apresenta como a mais perfeita negação da violência – caso máximo: fazer amor, reproduzir, dar vida, ser mãe – não parece ser indiferente às imagens paradigmáticas da força. Enquanto há vida, existem relações de poder; enquanto existem relações de poder, há violência; e por aí em diante. A questão importante é, essa sim, a da organização democrática (comunista, se quiserem, quem quiser) da violência, do poder, da vida. Não podemos – e quereríamos? – higienizar o sexo até ao ponto em que nele não encontrássemos sinal de violência alguma; o que não significa, é claro, que não saibamos que há uma luta contra a desigualdade que deve ser travada no interior da relação sexual. Mas sobre sado-masoquismo há quem perceba melhor do que eu, seguramente.

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26 respostas a Renato Teixeira e Daniel Oliveira

  1. Carlos Vidal diz:

    Zé Neves,
    Um errozito:
    “A mim parece-me que o Daniel simplesmente defende a monopolização estatal da violência. Monopolização que, diga-se, tem que ocorrer num quadro democrático, porque, como é evidente, o Daniel não é contra o recurso à violência para combater estados democráticos.” (Do teu texto)

    Querias escrever, suponho:
    “… o Daniel não é contra o recurso à violência para combater estados NÃO democráticos.”

    Mas mesmo com o erro (uma gralha) está bem, porque o Daniel não é, com efeito, um “pensador”. Por isso, desculpa lá, o texto ’tá bem de qualquer maneira.
    Cumps.
    CV

  2. Saltando mais um arroto do gajo que faz deste blogue uma tasca, até nos comentários aos teus posts (aqui está um momento em que o meu apego à não-violência me obriga a uma enorme disciplina para não querer testar se o teórico gosta da prática) que torna, infelizmente, qualquer debate com o Cinco Dias inútil e degradante, e passando para o teu texto, ao qual responderei mais tarde com mais tempo, deixo apenas três coisas muito curtas:

    1 – A questão táctica foi, nos dois posts que escrevi, um aparte, um acrescento. Apesar de achar que o desprezo pela táctica é bem mais ingénuo do que a recusa da violência. A questão da violência (no caso, não da violência do acto, mas da violência do entusiasmo com o acto que fez o Renato mostrar logo o seu entusiasmo) é que me interessa, como sabes. E a estetização da violência, tão presente em blogues como o Spectrum e por vezes aqui, ainda mais. Porque ela diz pouco da necessidade e tudo da vontade. Ter por aqui o tolo da aldeia, como é o caso do homónimo do Avô Cantigas, ajuda, tenho de confessar, a clarificar o debate. Fica tudo dito.

    2 – O uso dos dois exemplos (Aminatu e Milão) é apenas isso: o uso de exemplos, como tu, eu e qualquer pessoa usa, para ilustrar um argumento. Não é sobre eles que escrevi, é sobre, mais uma vez, a violência. Até porque acho que o acto do senhor de Milão não terá sido especialmente político. Mas adiante.

    3 – “Enquanto há vida, existem relações de poder; enquanto existem relações de poder, há violência; e por aí em diante.” E assim: “Enquanto há vida, existem relações de poder; enquanto existem relações de poder, há opressão; e por aí em diante.” E nem por isso deixamos de exigir a nós próprios o acto radical e revolucionário de combater a opressão não fazendo uso dela. Porque enquanto há vida há a possibilidade, mesmo que estreita, de fazer as coisas ao contrário.

    Quanto há questão da violência e do Estado irei mais tarde, porque exige mais trabalho. Ainda assim, não tenho sobre a violência policial opinião diferente da que tenho sobre a violência em geral. Tenho, é verdade, opinião mais critica em relação ao uso da violência em democracias do que em ditaduras. Não por uma questão de princípio, mas apenas porque a democracia nos deixa, apesar de tudo, mais saídas, mesmo que dificeis. Não é dificil imaginar que no mundo imaginado por o senhor deste blogue já referido seria muito mais dificil não recorrer à bomba para o arrancar da direcção da Sociedade de Belas Artes ou da Comissão de Exame Prévio. E, no entanto, nota que Aminatu, que escolheu a não violência (não apenas agora, mas sempre) como estratégia de combate político, mesmo depois da prisão e da tortura, vive subjugada por um regime ditatorial. Ainda assim, não gostava que fosse esta a fronteira do debate, porque há em democracias como a italiana (ou a espanhola ou provavelmente todas) traços de autoritarismo mais ou menos acentuados. A questão que me interessa, e que é difícil, é a do monopólio da violência por parte do Estado. E é a essa que, mal tenha vagar, aqui virei.

  3. Renato Teixeira diz:

    Devo reivindicar toda a análise que o Zé Neves faz da posição do Daniel Oliveira, pelo que ainda assim me sinto obrigado a acrescentar algo mais ao que fui dizendo nos posts e nos comentários que deram vida a esta polémica.
    Não se inquiete com a minha “pronta e entusiasmada reacção”, não confirma nenhum diagnóstico sobre a sua posição política seja lá ela qual for (nas suas palavras: “hesitante, contemplador, impassível, reformista, vendido”).
    Tem razão contudo quando me acusa de capitalizar o acto. Todos o fazemos. Dos envolvidos nesta polémica particular aos demais actores e comentadores da realidade política. Disse a certa altura do debate ao Daniel Oliveira: “Acusa a direita italiana de cavalgar sobre a demência… e sua excelência? Não cavalga o acto para se demarcar da esquerda caceteira e dar provas do seu bom nome, decência e elegibilidade… ai perdão, responsabilidade? Um cavalo é um cavalo e cada um monta nele como gosta”. Vale para ele, para si, para mim e naturalmente para qualquer outro polemista. Todos usamos a realidade para com as suas lições pregar as nossas aulas.
    Não sei se ele significa que me falta sensibilidade e bom senso… provavelmente sim na cabeça de algumas pessoas, e vejo que também na sua.
    O que eu procurei que ele significasse foi somente o meu gáudio por um indivíduo, que por acaso até é chefe de Estado de Itália de forma aparentemente cíclica, que por acaso dirigia as forças policiais no G8 de Génova e por acaso representa o atraso cívico que Itália é testemunha há já largos anos, levasse na boca. Para lá disso ainda colocou a extrema-direita de Fini e Bossi no poder, expurgou e expurga todos quantos não sendo italianos trabalham em Itália e liquida todo e qualquer contraditório com um dos maiores impérios mediaticos do mundo. Para lá disso é uma aberração no que diz respeito à política cultural, ambiental, social, enfim… não tem nada que se lhe diga de bom a respeito.
    O uso do conceito de “povo” bem como o de “democracia” remete para duas ideias no meu entender bastante claras. A animalidade gera respostas tresloucadas, dos loucos e dos sanos, das estatuetas de Milão aos onzes de Setembro. Permita-me o gáudio, quando a única vítima é um dos intérpretes da violência, e o alerta, para que se perceba a fonte de todas as injustiças.
    Portanto volta a ter razão quando afirma que o post da polémica serve “para animar uma narrativa preconcebida” e lamento saber que o acha conservador.
    Quer queira quer não queira este “acto de agressão” tem “um sentido político” quer para Ruis Tavares, Danieis Oliveiras, Migueis Portas (entre outros pela direita que desceram a terreiro) que seguramente o condenam, e eu, Carlos Vidais, Spectrums e Indymédias (entre muitos outros incógnitos no Facebook, nos blogs e na vida a sério) que sentiram um senso de justiça neste acto (mesmo que perpetrado por um demente). Acho por isso a sua avaliação injusta e considero que mais do que “trair-se a si próprios” os meus comentários sobre o tema levantam duas questões fundamentais da filosofia política que está visto também o interessam: o da violência e o da consequência.
    Volta a ter razão quando me acusa que “o fim acaba por ser tudo” e nesta polémica os “pacifistas”, os verdadeiros, os de cordel, os de algibeira e os de pacotilha, se recusam a clarificar se condenam ou não o acto do louco. Quer clarificar a sua? Essa clareza, como disse a certa altura um tal de Anon (“já agora Daniel, condena o ataque ao Berlusconi ou não condena?”) Exige-se a todos os envolvidos no debate. Da minha parte penso ter sido claro ao contrário dos outros e de si próprio.
    Na verdade, o convite ao Daniel Oliveira de um tal de Filipe, tem toda a razão de ser: “Gostava que fosse passear o seu pacifismo para um cenário de guerra civil, repressão, ou para a tão por si visitada Gaza. Aliás, se tivesse tido o azar de nascer num dos bairros periféricos de Lisboa com muito pouco dinheiro e a pele mais escura, já teria tido a oportunidade de pôr na prática esse seu pacifismo com o Corpo de Intervenção e os Serviços de Intervenção Rápida Deve ser muito útil. Não a um turista como você, mas a quem vive em situações dessas”. É sempre fácil ser pacifista no conforto da paz… e na guerra? Como é?
    Uma vez mais tem razão… na altura do mata-mata todos temos partido. E os pacifistas também, caso contrário serão os primeiros a morrer no fogo cruzado. É esta realidade que esclarece e que verdadeiramente irrita os arrivistas mesmo que disfarçados de Yoko Ono.
    Daniel Oliveira, num rasgo de honestidade e confrontado por um tal de PJ sobre a sua posição “face à barbárie nazi” não hesita (e bem) em esclarecer: “qualquer princípio absoluto é absurdo. Qualquer relativismo absoluto em relação às circunstâncias também.”. Pena que pela mesma ordem de razões escreva que Gaza é um Gueto mas não defende a sua resistência armada… igual no Iraque… igual em tantos outros sítios. Depreende-se daqui que ora DO tem dualidade de critérios, consoante o povo massacrado, e isso faria dele um racista e eu não acredito que seja, ou só toma opção pela violência quando afastado da sua circunstância pelo menos em 50 anos de história. Neste caso, ou é cobarde ou precisa de demasiado tempo de reflexão. Creio que nenhuma das possibilidades abona em seu nome e dos pacifistas que tais.
    Party Program continuou bem: “É a velha lógica D.O. tudo o que seja acção política não homologada por ele só fortalece a direita. A acção política “boa” começa no voto e acaba em frente à televisão na sic noticias. Estaremos todos para lá de Bagdad, o que não importa porque a própria politica também já está para lá de Bagdad. Já o Daniel estará bem perto do céu, não fosse a pristina imaculadez das suas sempre paladinas e puras intenções morais.”
    Na verdade o que se passou com esta polémica foi um verdadeiro debate sobre a reforma e a revolução por intermédio de metáforas.
    Se for por ai que quiserem continuar o debate tudo bem. Se for para nos mantermos presos às figuras de estilo berlusconianas cito e reivindico uma outra comentarista, Mariana Avelãs, quando diz que é “compreensível regozijo por ver o Berlusconi a apanhar porrada – a única leitura política desse regozijo é a consciência generalizada de que foi merecido (e para a maioria dos regozijantes achar que alguém merece levar com uma catedral no focinho será certamente uma situação excepcional, que só realça a gravidade – e a violência, que não a há só física – dos actos do alvo em questão).Não costumo moldar os meus sentimentos em prol dos eventuais ganhos políticos para terceiros e é disso que estamos a falar: do sentimento de que há justiça neste acto imbecil.”.
    Dizer que o “pacifismo e a não-violência é a mais revolucionária das formas de intervenção” não é sério nem responde às consensuais lições da história. Essa não consta que em factos seja relativa.
    Como diz o Spectrum: “Quem viu de perto a Scuola Diaz ou os últimos dez anos em Itália não pode deixar de sorrir, e quem se choca tem a sua quota-parte de culpa da criação desse absoluto desastre que é a esquerda institucional italiana e portanto na criação dessa anomalia que é Silvio Berlusconi.”
    Tudo dito.

  4. Party Program diz:

    É interessante a hierarquização que o Daniel faz dos espaços. Primeiro o Spectrum era um jardim infantil, agora o 5 dias é uma tasca. Realmente entre bebâdos e crianças não deixa de ser estranho que no entanto ainda não tenha lido entre o que escreveu nos últimos dias algo que se assemelhasse sequer a uma resposta ao que escreveram quer o Renato, o Carlos Vidal ou agora o Zé Neves. O Daniel já escreveu e muito, mas nada que responda às questões postas em cima da mesa para lá de um vago enunciar de principios e de lugares comuns sobre a democracia. Bem sei que é o seu estilo mas para alguém elevado de lugares tão malsãos seria pelo menos de se pedir uma prosa mais profunda.

  5. Zé Neves diz:

    renato, não disse que era ilegítimo tomar o acontecimento como parte do nosso posicionamento. Falei sim – e propositadamente – de capitalizar, o que remete para uma certa ideia de parasitar o acontecimento. O meu problema é com a prontidão: aquele acontecimento não pode servir apenas para alguém (neste caso, tu) poder arrolar mais uma testemunha a seu favor num processo contra os que designas direitistas. Como não pode servir para o Daniel fazer o mesmo em relação aos que designa por esquerdistas. O acontecimento pode ser integrado na tua narrativa mas não pode deixar essa narrativa no mesmo ponto. Isso é reconhecer que o acontecimento não traz nada de novo. Retira-lhe dignidade.

    Não tenho que me posicionar em relação ao caso concreto. Há milhares de casos concretos no mundo. Posso-te dizer o seguinte: não tenho nenhuma posição de princípio contra o uso da violência, como o post explicita. Não significa isto que sou a favor do uso da violência indiscriminadamente – como disse, há muitas violências e o debate tem que passar por aí.

    Daniel, o problema é o mesmo que em relação ao Renato. Entre o tacticismo e o mundo dos princípios (ou dos fins, no caso do Renato), não vejo muita ligação. E eu acho que a política é justamente essa ligação.

    Carlos, corrigi o erro.

  6. Zé Neves diz:

    Renato, reli com mais atenção o teu comentário. Deixa-me dizer que um cavalo não é um cavalo e que fazer política não é pregar. Porque só prega quem fala do pedestal e a política que eu quero trabalha contra a organização do espaço em que há lugar para o pedestal. Não é fácil, não se consegue sempre, mas nunca se deixa de tentar. De qualquer das formas, reconheço que tu e o Daniel são os meus pregadores preferidos e agradeço os comentários.

  7. Zé Neves diz:

    Daniel, relendo-te: eu acho que a estratégia de não-violência é uma opção e muito interessante. Não acho que seja moralmente e eticametne mais válida que a estratégia da violência. Não reconheço nenhuma superioridade moral ou ética a Gandhi em relação a Cabral, por exemplo. Quanto à confrontação de exemplos entre a greve de fome e a agressão: acho que sim, que cada um escolhe os exemplos que quer, mas acho que a contraposição que fazes resolve o debate de modo quase “chantagista”, à procura de um efeito estético (no caso, a estética do pacifismo…).

  8. ramón mercader diz:

    zé neves, a tua verborreia excessiva faz-me sono. e embora não concorde com as opiniões do renato e do daniel, deixa-me destacar algo com que concordo em pleno: “Talvez eu esteja a ficar demasiado lento. Hesitante, contemplador, impassível, reformista, vendido, o que quer que seja.”

    abracinho

  9. Tiago Mota Saraiva diz:

    Daniel e tod@s, o que sucedeu é um erro político que trará, certamente, consequências nefastas no debate das soluções políticas, campo onde Berlusconi não gosta de se mover.
    Contudo não posso deixar de dizer que compreendo, tal como compreenderia se Fini ou Berlusconi fossem agredidos quando visitam os seus “campos de refugiados” ou as suas prisões.

  10. viana diz:

    Parece-me que o José Neves perdeu-se num labirinto… Sim, é óbvio que o RT e o DO aproveitaram o episódio para pegar nas palavras um do outro e afirmarem: estão a ver como eles são?! Não vejo grande problema nisso: a discussão deve recorrer a casos particulares, ilustrativos, ou de outro modo pode perder-se em divagações com apenas ténues ligações à realidade. Critica e bem a atitude e a posição do Renato Teixeira. O fulcro da crítica está, a meu ver, aqui: “Sensibilidade que aconselharia a uma utilização mais prudente de conceitos como povo e democracia (e se o conceito de povo já é problemático, ainda mais será se usado em oposição ao de democracia!).” Que revela a incapacidade de (infelizmente) muitas pessoas à Esquerda em aceitar que possam estar, mais as suas convicções, em minoria, aceitando a legitimidade da vontade da maioria mesmo que em oposição ao que eles acham que é “melhor para o povo”. Diga-se que neste aspecto, RT e DO estão mais próximos do que imaginam: ambos acreditam que existe um amplo conjunto de regras político-sociais de imposição obrigatória, mesmo contra a vontade da maioria dos cidadãos (vide posição do DO quanto ao referendo sobre a construção de minaretes na Suiça).

    Já quanto à crítica ao DO, acho que o José Neves perde-se na sua argumentação e faz afirmações que não estão correctas. Em primeiro lugar, o DO é pacifista por razões utilitárias, materialistas, ou tacticistas. Os pacifistas políticos, como DO são-no (quase sempre) porque acreditam que, pelo menos a longo prazo, o uso da violência, mesmo que com “causa justa”, legitimiza o seu uso como meio de resolução de conflictos. E daqui deduzem, que mesmo com “custos mais elevados” a curto-médio prazo, ser preferível a acção não-violenta. Realço o preferível. O José Neves ergue uma caricatura do pacifismo, pegando na sua corrente mais radical e minoritária, para melhor poder criticar o DO, sabendo, como o próprio José Neves afirma a dada altura, que o DO não partilha dessa definição de pacifismo. É uma táctica intelectualmente desonesta, que não esperava do José Neves. Sabe muito bem que existem várias currentes no pacifismo, ou movimento pacifista, e que a maioritária defende que o pacifismo “apenas” apela a que a violência só seja usada como último recurso, e em caso de ataque iniciado contra a integridade física pessoal (ou de outra pessoa, nomeadamente se fôr indefesa, por exemplo crianças). Ou seja, admite a violência em certas circunstâncias, tal como o DO o faz, e o José Neves até reconhece. Para quê então o rame-rame sobre a impossibilidade, e mesmo indesirabilidade, de fazer desaparecer a violência? O pacifismo não é uma doutrina ancorada em princípios rígidos. Não é uma religião. Haverá pacifistas que assim pensem (e Gandhi era um deles, até porque em parte o seu pacifismo assentava num base religiosa). Maa são minoritários. Tal como são outros, no outro extremo, que possuem uma visão essencialmente utilitarista da pacifismo, estando até dispostos a apoiar actos de violência como forma de impedir actos de violência **eminente ou muito provável** (no que diferem da posição mais comum acima descrita).

    A sua tentativa para parecer equidistante de RT e DO, e este post claramente foi pensado e construído com esse fim em mente, leva a afirmações absurdas como a no seu último comentário: “(…)a estratégia de não-violência é uma opção e muito interessante. Não acho que seja moralmente e eticametne mais válida que a estratégia da violência.(…)” O que quer dizer o quê, exactamente? Que o exercício da violência (não-consentida), como acto de exercício de Poder de alguém sobre outro lhe é indiferente? Desconhece que a separacão entre Esquerda e Direita reside exactamente na recusa da opressão do “homem pelo homem”? É muito diferente afirmar que a violência sempre existirá, em particular no contexto de relações interpessoais, e outro afirmar que o exercício da violência, e portanto da opressão, o deixa indiferente.

    O Daniel Oliveira tem toda a razão com a sobreposição que faz entre a “estetização” da violência revolucionária praticada por algumas pessoas de Esquerda, e os princípios do Fascismo. O elemento central e identificador do Fascismo é a glorificação da violência, a sua escolha como princípio definidor do “mérito”: merece mais Poder quem é mais forte, quem consegue derrotar pela violência e opressão física e militar o mais fraco. Note-se que a Direita distingue-se da Esquerda pela defesa da desigualdade no acesso e exercício do Poder, pela defesa da distinção baseada no “mérito”. As suas diversas currentes apenas diferem nos termos em que avalia o “mérito”. Existe portanto um muito pequeno passo que é preciso dar para que que no fim duma “revolução de Esquerda”, atingida através do exercício da violência, os seus líderes pensem: “Ganhei porque fui mais forte, mereço assim exercer o Poder.” Quem assim pensa é Fascista, e acabará agindo como tal. Infelzimente exemplos históricos não faltam, como o José Neves bem sabe,

  11. nf diz:

    Em primeiro lugar, parece-me que nesta discussão há muita confusão relativamente ao conceito de violência. Desde quando é que uma greve de fome não é violenta? Mais: do ponto de vista político, uma greve de fome é primeiramente violenta ao nível estético; para além daquele que passa fome, ela é o palco duma violência sensorial, afectiva. E desde quando é que o pacifismo é necessariamente não violento?

  12. zé neves diz:

    Viana, eu vejo um grande problema nisso. ambos estão a utilizar o caso para fazer valer teses apriorísticas. nada esperam da realidade exterior ao seu discurso que possa ajudar a formolarem o seu discurso político. o renato diz que cada um monta o cavalo como quer, eu acho que há demasiados candidatos a cavaleiros, sejam esquerdistas ou direitistas ou como se queiram ver entre si.

    Não creio que caricature a posição do Daniel. Ele apresenta argumentos tácticos – o esquerdismo só beneficia o poder dominante – e argumentos de princípio – recusa de meios violentos por questão de princípio. E eu digo que nem uma nem outra posição me convencem ou são politicamente sustentáveis. Bem sei que existem muitos pacifismos – o Daniel, porém, não distingue as muitas violências que também existem. A fronteira entre violência e não-violência é mais ténue do que podemos tantas vezes crer.

    Quanto à moralidade e eticidade, não era preciso ir mais longe do que o exemplo que eu dei: preferimos Gandhi a Cabral? Poderá achar que a pergunta é idiota – e eu também acho que pode ser – mas então não digamos que preferimos Gandhi.

    Quanto ao mais, lamento, mas a questão do fascismo, da violência e da esquerda é bastante mais complicada. A violência não é apenas uma arma dos fortes. Foi também uma arma dos fracos: a ideia de dum populismo de guerrilha, associado à figura de Guevara, passa também por aí, pela oposição a um esfera pública limitada a uma ideia de racionalidade que foi muitas vezes construída de modo anti-popular. Isto não quer dizer que eu defenda a violência (de guerrilha ou outra). Quer dizer que a coisa é muito mais complicada.
    abç

  13. “acho que sim, que cada um escolhe os exemplos que quer, mas acho que a contraposição que fazes resolve o debate de modo quase “chantagista”, à procura de um efeito estético (no caso, a estética do pacifismo…).”

    Reconheço. A estética do pacifismo tem a sua força e não vejo porque não a usar (sem “chantagem”) contra a tão eficaz estética da violência.

    De resto, o viana conseguiu, melhor do que eu, dizer o que eu acho (o que é um pouco perturbante) e remeto quase na totalidade para o seu comentário. Sim, o meu propblema com a violência é bastante prático e tem a ver com o que se constrói no processo. E, claro, acho mesmo que há uma superioridade moral da não-violência face à violência. O que não é exactamente o mesmo que dizer que há uma superioridade moral dos seus actores, até porque podem estar em teatros bastante diferentes. E o que não chega para fazer uma caricatura do meu pacifismo, que tenta ter os pés na terra sem, no entanto, embarcar na ideia de que sempre foi assim e assim será.

  14. zé neves diz:

    daniel, há uma superioridade moral da não-violência em relação à violência mas não dos seus actores em relação aos actores da violência? mas não reparas que o efeito da primeira distinção implica a segunda distinção? é que a divisão entre os princípios e as circunstâncias históricas não pode ser assim tão clara… este é todo o meu ponto em relação ao que tu escreves sobre isto.
    abç

  15. nf diz:

    Então, já agora, qual é de facto da ‘superioridade moral’ da não-violência em relação à violência?

  16. NF: uma vez tentei pessoalmente fazer o que você tenta – que o Daniel explicasse melhor o que entende por violência. Não consegui. Tiro-lhe o chapéu pela tentativa e desejo-lhe boa sorte.

  17. nf diz:

    João Branco,
    Pelo que li aqui acho que o DO tem por conceito de violência o acto, ou actos, de agressão física a bens e pessoas (julgo que não é extensível a animais). O problema é que esta posição vai para além do mero equívoco conceptual. Esta é uma redução do conceito de violência que implica, negativamente, a sua ausência relativamente a qualquer antagonismo sociopolítico, ou outro, onde não haja ataque físico consumado. Muito simplesmente, não há violência nas escolas, na família, no trabalho, nos hospitais e por aí adiante. Desde que não haja pancadaria ou carros incendiados, a chapada do pai, etc, etc, não há violência. Tal como o exemplo ‘pacifista’ demonstra, a greve de fome, até a violência física é excluída desta posição. A greve de fome é um acto de violência física radical, potencialmente mortal, sem o qual não seria nunca um acto político. Ideologicamente esta é uma posição que assenta perfeitamente na defesa das democracias liberais, visto que o uso da ‘violência’ (força física) é democraticamente legitimado em condições muito particulares e sempre de acordo com os príncipios do estado de direito (por ex. manter a ordem pública). Aqui, ou não há ‘violência’, ou há, e é crime, ou, circunstancialmente legítima. Daí a sua completa arregimentação à ideologia liberal-democrática e ao seu quadro legal.

    ps- ‘A fraqueza extrema torna-se forte, porque transporta para os outros o sofrimento do oprimido. A força do outro torna-se uma fraqueza porque o exibe como ele é: impiedoso e brutal.’ (DO, Arrastão). Isto é a mais pura esteticização da violência.

  18. Saló diz:

    Perdemos a tertúlia de fim de tarde, perdemos o café, perdemos a rua e os trabalhadores que nela vão deixando desgostos e suas queixas. Tudo em prol da assépsia do écran, de umas projecções virtuais de caracteres que fantasiam e adornam sucessivas e colectivas punhetas intelectuais. Pra isto vale mais ir ao youporn…

  19. viana diz:

    Caro José Neves,

    “Ele apresenta argumentos tácticos – o esquerdismo só beneficia o poder dominante – e argumentos de princípio – recusa de meios violentos por questão de princípio.”

    Não, a posição pacifista do DO não é (apenas) de princípio, mas também táctica, ou utilitária, como expliquei, e o DO corrobou. Digo apenas porque claramente ao DO, como a mim, e (re-afirmo) a qualquer pessoa intrinsecamente de Esquerda, repugna o exercício da violência (“não-consentida”), por mais “utilidade” que tenha (algo pode ser simultaneamente eticamente legítimo e repugnante). E portanto também é uma questão de princípio (no sentido em que entre dois métodos igualmente “eficientes”, por princípio prefiro o não-violento).

    “E eu digo que nem uma nem outra posição me convencem ou são politicamente sustentáveis.” O problema é que o DO não tem “uma posição”. Uma espécie de lugar inmovível, de onde não se mexe. O DO antes de mais critica a inflexibilidade de alguma Esquerda, que no limite se traduz no exercício de violência sem sentido (táctico). Em que é que o José Neves acha esta “posição” criticável? Critica a possibilidade de crítica? Acha que a crítica não pode ser feita? Acha que esta crítica em particular é descabida, o que implica que o José Neves concorda com toda e qualquer “posição esquerdista”? Acha que o “esquerdismo”, através de acções, nunca efectivamente beneficiou “o poder dominante”? Eu não sou tão crítico como o DO do “esquerdismo” e de algumas acções que a ele se podem associar. No entanto, reconheço legitimidade a tal crítica, e acho que é muito importante, antes de mais porque desafia a preguiça de muita gente à Esquerda que abdica demasiado facilmente da reflexão crítica sobre os seus objectivos e estratégica político-social. Porque é muito, mas muito fácil, não dá realmente grande trabalho intelectual, cair no sectarismo estéril, no fundamentalismo de barricada, cego a quem realmente sofre (porque muitos que estão nas barricadas sofrem por gozo, para ser brutalmente honesto). Porque na realidade, bem no fundo, estão-se nas tintas. Acima de tudo está a “sua integridade”. Acima do bem-estar daqueles que sofrem devido à inutilidade efectiva das acções dos “integros”.

    “A fronteira entre violência e não-violência é mais ténue do que podemos tantas vezes crer.”

    Concordo. No espaço dos conceitos não há fronteiras. Apenas transições. Mas daqui não releva que não se possam fazer distinções. É possível fazer partições, com “fronteiras” difusas permanentemente testadas contra a realidade. Por exemplo, a greve de fome pode ser considerado simultaneamente um acto de não-violência (porque não há violência material sobre outro) e de violência (quer materialmente sobre o próprio, quer emocionalmente sobre aquele que pretende coagir a tomar certa posição). No entanto, uma demonstracão pacífica não é um acto de violência, dado que por si só não gera emoções comparáveis aos dos que sofrem actos de violência (ex. dor e angústia).

    “Quanto à moralidade e eticidade, não era preciso ir mais longe do que o exemplo que eu dei: preferimos Gandhi a Cabral? Poderá achar que a pergunta é idiota – e eu também acho que pode ser – mas então não digamos que preferimos Gandhi.”

    Eu digo que prefiro os métodos utilizados por Gandhi àqueles que foram utilizados por Cabral, a não ser que me provem que os métodos utilizados por Gandhi eram inaplicáveis por Cabral. Eram?…

    “A violência não é apenas uma arma dos fortes. Foi também uma arma dos fracos(…)”

    Eu não contesto a utilidade da violência. Apenas afirmo que o exercício da violência deve ser evitado tanto quanto possível, tendo em conta os objectivos a atingir, por uma questão de princípio: a violência é opressão, e ainda não vi o José Neves desmentir tal. Existe também a dimensão táctica associada à ineficácia da violência a longo-prazo, mas é secundária no meu caso. A utilidade é sempre medida contra princípios, contra um sistema de valores diferenciados, e no meu sistema de valores a opressão é o mais negativo (e também devia ser a de quem quer que se afirme de Esquerda).

    “(…)a ideia de dum populismo de guerrilha, associado à figura de Guevara, passa também por aí, pela oposição a um esfera pública limitada a uma ideia de racionalidade que foi muitas vezes construída de modo anti-popular.(…)”

    Não percebo bem o que quer dizer, confesso. A esfera pública, que suponho significa institucional, nunca condenou o exercício da violência como meio de resolução de conflitos. Nem podia, pois deslegitimaria todo o edifício repressivo do Estado. Portanto, não há ideia mais pública e institucional do que o exercício da violência como meio de resolução de conflitos. A radicalidade, ausente e reprimida no discurso público, é o pacifismo. E o populismo: a ideia de que as decisões devem ser tomadas “para agradar à maioria”. A guerrilha populista é assim um conceito simultaneamente profundamente radical e conservador. Isso vê-se aliás no facto do que o que distingue a extrema-direita da extrema-esquerda, nas acções que empreendem, é que a primeira dá sempre prioridade às acções (ou à sua preparacão) violentas, enquanto que na segunda existe uma fracção substancial de militantes que apostam na via não-violenta.

    “Isto não quer dizer que eu defenda a violência (de guerrilha ou outra). Quer dizer que a coisa é muito mais complicada.”

    As coisa são sempre muito mais complicadas. Mas isso não deslegitimiza a crítica generalista de actos e conceitos, sempre com a ressalva da existência de excepções. De outro modo sobram apenas aqueles que recusam pensar e os que estão paralisados por pensar demais.

  20. Renato Teixeira diz:

    Zé Neves, pela seu argumentário depreendo que para si toda a análise da realidade é uma forma de “parasitar” acontecimentos. Use o adjectivo que se usar… ponhamo-nos de acordo, todos parasitamos.
    Afirma que o seu problema com a minha posição é mais a sua “prontidão” do que o seu conteúdo. Aprendi, bem ou mal, e imagino que entenda que faço mal, a que na política o tempo é tudo. Uma resposta política acertada é acertada no seu tempo. Estejamos a falar de uma proposta de greve ou, num degrau bem mais baixo da resistência humana, um murro nas trombas do Berlusconi.
    Acho mal que não se posicione em relação ao caso concreto pois mesmo que seja la paliciano dizer que “há milhares de casos concretos no mundo”, este era o concreto da discusão.
    Continuo a achar que um cavalo é um cavalo e aprendi com o sermão aos peixes e com um padre que pregar é também uma forma de fazer política. A forma moderna permite a todos nós o poder que dantes poucos mais do que os padres tinham. Desse ponto de vista os próprios blogs são verdadeiras catedrais de fé. Claro que isso não retira centralidade à luta, organizada, contra todos os espaços em que há lugar para o pedestal.
    De resto, agradeço o elogio de que gosta de me ouvir ainda que na missa das suas palavras, mas não mais tenho para dizer do destino para onde o debate resvalou. Na verdade o verdadeiro tema desta discussão não era da justeza ou não das armas do povo e consequentemente da alegoria da guerra contra a paz da violência contra o pacifismo. Bem mais interessante que isso, e que está no subtexto de toda prosápia de todos os envolvidos, é um debate muitíssimo mais interessante entre a via reformista e a via revolucionaria para atingir a transformação social, ou se preferir, a criação de uma sociedade sem pedestais. É para ai que, seguindo o exemplo do Nuno, procurarei ir de seguida… ou na próxima vaga de tempo.

  21. portela menos 1 diz:

    Fosse ACunhal vivo e, ao ler os rapazes do 5Dias, voltaria a utilizar a célebre frase: esquerdismo, a doença infantil do comunismo.

  22. zé neves diz:

    “a violência é opressão e ainda não vi o José Neves desmentir tal”. Viana, a violência anticolonial de Amílcar Cabral é uma luta contra a opressão. Ou não é?

    Portela menos 1, infelizmente Cunhal não está vivo e é a si que temos que aturar.

    Renato, acho que acha que nada tem a aprender com a realidade das lutas e dos seus protagonistas e que estes apenas servem de prova à sua tese. cavalos que você cavalga. eu não acho.

    abç

  23. viana diz:

    A violência anticolonial de Amílcar Cabral foi um exercício de opressão com o objectivo de diminuir outras formas de opressão. Não há nada de contraditório nisto. A opressão consiste numa subjugação de outro, contra a vontade do próprio. Como antes afirmei, não sou um pacifista radical. A violência (proporcional) pode ser justa, quando não houver outra opção (não-violenta) para impedir actos de violência, ou seja opressão. Não deixa de ser irónico que foi isto mesmo que Obama disse quando recebeu o Prémio Nobel da Paz. O que foi então fortemente criticado por alguns dos mesmos que agora defendem a violência como meio justo e legítimo para resolver conflitos, mesmo quando outras opções podiam ser tomadas…. inconsistências de gente que às vezes parece ter preguiça para reflectir.

    E a pergunta mantém-se a mesma: Cabral podia ter optado ou não?…

  24. portela menos 1 diz:

    Comentário de zé neves
    Data: 16 de Dezembro de 2009, 1:20

    Aturar? a mim, que venho aqui raramente?
    você dever é estar com fraca capacidade de encaixe…que se nota pela argumentação e pretenciosismo dos seus textos 🙂

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