Do arco da degustação ao arco da governação

Não me deu nenhum prazer as imagens de Berlusconi a escorrer sangue. Não gosto de ver bandidos decrépitos depois de levarem com uma “pedrada”. Sobretudo, tenho muitas dúvidas se determinados acontecimentos não têm como efeito a legitimação desses poderes mafiosos. Foi um louco que começou o incendio do Reichstag, foi Hitler que ficou no poder. Dito isto, não confundo as coisas: Berlusconi está no poder porque a “esquerda responsável” o colocou nessa cadeira. Os governos Prodi (com participação “responsável” da Refundação Comunista) são , com a sua política de direita e anti-trabalhadores, os maiores obreiros do regresso de Berlusconi ao governo. Para quê ser de esquerda, se ela faz a política da direita? Essa postura responsável da esquerda é um oportunismo suicidário: não convence os eleitores de esquerda (a refundação comunista foi à vida), nem os de direita (os votos dessa gente foram todos para Berlusconi). O oportunismo, esclareçamos, tem sempre o mesmo desfecho: compensa para alguns, mas lixa a vida de todos.
Os blogues não são partidos políticos: as pessoas não têm que apurar uma opinião comum. No entanto, tenho a convicção que o 5 dias tem um papel histórico: convencer quão fofinho e responsável é o Daniel Oliveira. Conseguir levá-lo do arco da degustação, em que é convidado para jantares e beberetes, para o arco da governação, em que nos vai surpreender a todos, no barco da esquerda responsável, com muitas e profundas reformas. Nessa altura, estou certo que honrará a ideia que mudar a vida é diferente de mudar de vida. Será infelizmente demasiado tarde.
Gosto muito do Daniel Oliveira. É uma pessoa inteligente, honesta e com muitas qualidades. Aprendi há muito tempo que a identificação política não é a base da amizade, nem, sequer, do sexo. Para que não haja confusões, a ideia é genérica, e garanto que nunca tive nada de sexual com o Daniel e pouco tenho de político com ele. Depois da Fernanda Câncio ter sido convidada para as reuniões do grupo de reflexão do Bloco de Esquerda do Parlamento Europeu em Bruxelas não quero vir a ser acusado de estragar novos encontros políticos entre a esquerda responsável.
Acho, no entanto, que a política do Daniel Oliveira terá o efeito de todas as políticas “responsáveis” da esquerda: a manutenção da governação à direita. As coisas valem o que valem e, provavelmente estarei errado, mas tenho a convicção que a primeira derrota da esquerda foi ter aceite a limitação daquilo que é pensável. A incorporação do capitalismo como horizonte inultrapassável da humanidade é disso um dos maiores exemplos. Mantenho-me fiel à esquerda irresponsável. Poderá não dar em nada, mas, pelos menos, não terá o seu clímace nos Jorges Coelho e nos Pinas Mouras desta vida. A minha responsabilidade é uma espécie de ética interna e fica-se por esta frase de um gajo com barbas: “sejamos realistas, exijamos o impossível”.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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