Do arco da degustação ao arco da governação

Não me deu nenhum prazer as imagens de Berlusconi a escorrer sangue. Não gosto de ver bandidos decrépitos depois de levarem com uma “pedrada”. Sobretudo, tenho muitas dúvidas se determinados acontecimentos não têm como efeito a legitimação desses poderes mafiosos. Foi um louco que começou o incendio do Reichstag, foi Hitler que ficou no poder. Dito isto, não confundo as coisas: Berlusconi está no poder porque a “esquerda responsável” o colocou nessa cadeira. Os governos Prodi (com participação “responsável” da Refundação Comunista) são , com a sua política de direita e anti-trabalhadores, os maiores obreiros do regresso de Berlusconi ao governo. Para quê ser de esquerda, se ela faz a política da direita? Essa postura responsável da esquerda é um oportunismo suicidário: não convence os eleitores de esquerda (a refundação comunista foi à vida), nem os de direita (os votos dessa gente foram todos para Berlusconi). O oportunismo, esclareçamos, tem sempre o mesmo desfecho: compensa para alguns, mas lixa a vida de todos.
Os blogues não são partidos políticos: as pessoas não têm que apurar uma opinião comum. No entanto, tenho a convicção que o 5 dias tem um papel histórico: convencer quão fofinho e responsável é o Daniel Oliveira. Conseguir levá-lo do arco da degustação, em que é convidado para jantares e beberetes, para o arco da governação, em que nos vai surpreender a todos, no barco da esquerda responsável, com muitas e profundas reformas. Nessa altura, estou certo que honrará a ideia que mudar a vida é diferente de mudar de vida. Será infelizmente demasiado tarde.
Gosto muito do Daniel Oliveira. É uma pessoa inteligente, honesta e com muitas qualidades. Aprendi há muito tempo que a identificação política não é a base da amizade, nem, sequer, do sexo. Para que não haja confusões, a ideia é genérica, e garanto que nunca tive nada de sexual com o Daniel e pouco tenho de político com ele. Depois da Fernanda Câncio ter sido convidada para as reuniões do grupo de reflexão do Bloco de Esquerda do Parlamento Europeu em Bruxelas não quero vir a ser acusado de estragar novos encontros políticos entre a esquerda responsável.
Acho, no entanto, que a política do Daniel Oliveira terá o efeito de todas as políticas “responsáveis” da esquerda: a manutenção da governação à direita. As coisas valem o que valem e, provavelmente estarei errado, mas tenho a convicção que a primeira derrota da esquerda foi ter aceite a limitação daquilo que é pensável. A incorporação do capitalismo como horizonte inultrapassável da humanidade é disso um dos maiores exemplos. Mantenho-me fiel à esquerda irresponsável. Poderá não dar em nada, mas, pelos menos, não terá o seu clímace nos Jorges Coelho e nos Pinas Mouras desta vida. A minha responsabilidade é uma espécie de ética interna e fica-se por esta frase de um gajo com barbas: “sejamos realistas, exijamos o impossível”.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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42 respostas a Do arco da degustação ao arco da governação

  1. Tiago Mota Saraiva diz:

    Maré Alta.

  2. António Figueira diz:

    E comigo já somos três.

  3. Antónimo diz:

    Já agora quatro – embora eu seja de fora

  4. Renato Teixeira diz:

    Ainda que “caloiro”… Cinco. Mará altíssima. Vai onde dói mais. Refundações Comunistas e Josés que fazem falta são obra directa do reformismo. Pena é que as consequências pairem sobre toda a esquerda e não apenas sobre aquela que pariu esses fenómenos.

  5. Vasco diz:

    Ouch.
    Viva a Esquerda Irresponsável.

  6. António Cunha diz:

    Portanto, não interessa nada se uma pessoa de quem não gostamos é violentamente espancada. O que interessa é que a “nossa” esquerda irresponsável continue na senda dos “amanhas que cantam”

    Só tenho pena que em Portugal não se tenha a coragem de se fazer o que os Polacos fizeram, e corra com esta porcaria toda daqui.

  7. António Paço diz:

    E a malta gritou: Aí, Benjamim!

  8. lingrinhas diz:

    Ó sr almeida para mim que sou um analfabeto politico explique-me lá isso a que voce chama de esquerda responssavel.

  9. xatoo diz:

    “tenho muitas dúvidas se determinados acontecimentos não têm como efeito a legitimação desses poderes mafiosos”
    Dúvidas nenhumas. Não é muito surpreendente ver como a história, vestindo-se com outras roupagens, afinal se vai sempre repetindo. E depois disso ver como o outro tipo continua a trabalhar na ontologia papa-votos. Fascismos comparados:

    No dia 31 de Outubro de 1926 Benito Mussolini chegou a Bolonha para inaugurar o estádio da cidade. Anteo Zamboni, um jovem de quinze anos, disparou contra Mussolini, porém não lhe conseguiu acertar. Na sequência do acto a esquadra de segurança do Duce comandada pelo capo Lerandro Arpinati linchou de imediato o agressor logo ali no local. Como consequência do falhado atentado, apenas um mês depois, aprovaram-se as “Leis de Excepção para Defesa do Estado”, anularam-se passaportes, suprimiram-se jornais anti-fascistas, dissolveram-se partidos politicos e instituiu-se uma policia secreta de vigilância. A 9 de Novembro declarou-se o fim do mandato parlamentar de 120 deputados eleitos.

    Umberto Bossi, o lider do partido de extrema-direita Liga do Norte veio de imediato dizer que “O que fizeram a Berlusconi foi um acto de terrorismo”
    .

  10. Essa dos beberetes e banquetes fica-te mal. Até porque temo que tenhas andado por alguns, Nuno. E se ficassemos pela política. Nesta matéria, posso recordar-te a primeira vez que discutimos este tema da violência: 1997. 12 anos depois tu pensas o mesmo e eu também. Sem ser necessário o velho truque de dizer “o gajo está a passar-se para o lado de lá”. Estou no mesmo lugar de há muitos anos. Fui convidado para beberetes (agora no sentido figurado, porque no concrecto nem quero continuar esta conversa) e não apareci. Tomara a muitos radicais dizerem o mesmo.

  11. anon diz:

    e vão 6

    btw vejam o que se está a passar nas prisões de Copenhaga, as condições subhumanas e a revolta dos presos: http://www.indymedia.org.uk/en/2009/12/443473.html?c=on#c239038

  12. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Daniel,
    Percebeste mal. Não disse que te passaste para outro lado. Sublinhei que te conhecia como uma pessoa honesta e inteligente, naturalmente batendo-se pelo que acha melhor. Apenas afirmei que tu tens uma concepção política que eu acho que passa pela aceitação do capitalismo e da afirmação das reformas como única forma de mudança. Na minha opinião, isso não serve aquilo que eu acho que é a esquerda e vai perpetuar a política de direita. Discordamos em quem colocou o Berlusconi na cadeira. Eu não acho que foi o maluco de há poucos dias, mas mais a política de Prodi e dos seus apoiantes. Volto a sublinhar-te que isto não é uma reedição da zita e da Versalhes. O que me preocupa não são os teus jantares, mas a política. Se quiseres, não é a degostação que me preocupa, mas a governação. Por mim, podes ficar na primeira, e de vez em quando a gente encontra-se, a segunda parece-me muito mais perigosa. Nesta última polémica com o 5 dias, é essa divisão da esquerda responsável e irresponsável que me parece ser uma dicotomia errada. É essa discussão daquilo que define e divide a esquerda que eu acho interessante. Nomeadamente, se a aceitação do capitalismo é uma fronteira. As cenas retóricas: se este blogue é um bando de malucos, uma tasca, ou se tu jantas ou almoças, parecem-me pouco interessante. Fogo de artifício. Coisa de posts.

  13. viana diz:

    O que é que quer dizer a acusação de “aceitação do Capitalismo”? Que se alguém não aceitar o Capitalismo, definido de algum modo (porque não há apenas uma definição do que é Capitalismo, e portanto apenas uma negação do Capitalismo), então essa pessoa apenas pode concordar com a sua destruição já e nada menos do que isso?! Lamento, mas isso é uma posição no mínimo preguiçosa (é tão fácil dizer sempre não, nem é preciso pensar…). Na prática obriga ao sofrimento hoje das pessoas cuja vida podia ser melhorada através de reformas, sim não tenho medo da palavra, em prol dum qualquer “amanhã que canta”, quando, se alguma vez chegar, finalmente todos serão felizes, se entretanto não tiverem morrido. Depois espantam-se que tal intransigência cega não seja apoiada nas urnas, na rua, pela maioria das pessoas. A revolução faz-se todos os dias através do melhoramento efectivo da vida das pessoas, reformando o sistema até o quebrar, efectivamente substituindo-o por outro, mais justo e igualitário. Infelizmente, nunca tal sistema existiu, e portanto não é possível afirmar que a única via para a substituição do Capitalismo por tal sistema é a revolucionária já-e-agora. O que temos são sistemas Capitalistas parcialmente domados por reformas e sistemas autoritários fruto de revoluções anti-Capitalistas. Portanto nenhuma das vias resultou até agora. Por isso parece-me arrogante e descabido afirmar que a via revolucionária já-e-agora é a única que pode levar não apenas ao derrube do Capitalismo, mas também à instauração dum sistema político e sócio-económico justo e igualitário no acesso e exercício do Poder. Não há qualquer prova histórica que sustente tal posição.

  14. interrogador diz:

    Mas quem é o gajo com barbas autor da frase?

  15. miguel serras pereira diz:

    Caríssimo, estou como tu e contigo. Só não abdicaria tão facilmente dos termos “responsabilidade”, “possível”, sugerindo (talvez sem querer) que tê-los em conta é aceitar o capitalismo e a dominação hierárquica. Eis como, em resumo, eu formularia as coisas.
    Admitamos que ser de “esquerda” é lutar e querer a democracia. E digamos que a democracia e/ou a autonomia é o regime que a “multidão”, para lhe chamarmos como o Zé Neves, se dá como governo. Esse regime não é o governo da multidão como tal, mas o da assembleia ou conjunto de assembleias que a multidão institui instituindo livres e iguais, cada um dos seus membros, instituindo cidadão cada um deles. E instituindo essa dimensão organizada de si própria como instância governante, exercendo o poder político. A multidão – como “substância” ou elemento “social-histórico anónimo”, à maneira de Castoriadis – não desaparece nem se anula ou se resolve, enquanto multiplicidade e multiplicação de singularidades mortais irredutíveis, no regime político democrático que cria, recriando radicalmente, com ele, os seus usos e costumes, a sua cultura (tradições e metas), a sua relação com a sua própria natureza, etc. Mas adiante. O ponto que aqui me importa é deixar claro que este regime da autonomia democrática é impossível sem ruptura com o capitalismo e as suas instituições e condições políticas fundadoras, ao mesmo tempo que requer, por um lado, a politização explícita da esfera da economia e, por outro, a destruição do seu primado. O capitalismo é compatível e até certo ponto reclama um “Estado de Direito”, e pode tolerar, esvaziando-as, ritualizando-as, contrariando-as por meio de outros dispositivos de regulação institucional, a consagração de algumas liberdades democráticas, conquistadas contra a lógica burocrática e hierárquica da organização capitalista e do seu liberalismo político limitado. Mas o que é irresponsável, para dizer pouco, é sustentar que o capitalismo poderá sobreviver à democratização (autogestionária e cooperativista) da actividade económica, à democratização do mercado através de uma política de rendimentos que adopte com as pequenas adaptações necessárias nessa matéria qualquer coisa como o princípio “um voto por cabeça”, à desmercantilização da força de trabalho, para nos ficarmos apenas por estes exemplos. A igualdade económica, na produção e distribuição dos bens e recursos afectados à circulação através de um mercado efectivamente democratizado (outros bens e recursos serão excluídos pelo poder político dessa esfera), é apenas um aspecto da igualdade política de participação de cada um no exercício das deliberações e das decisões que implicam todos. É apenas um aspecto da igualdade pressuposta pela cidadania governante.

    Finalmente, como se põe nos termos da luta pela autonomia democrática o problema da violência? Esta, sem dúvida, que é substituída pela palavra e pelo debate nas assembleias de deliberação e decisão de cidadãos que sejam os seus próprios governantes. Mas a garantia do poder político dessas assembleias, o poder político da cidadania governante, compete ao “povo em armas”. De outro modo, as instituições democráticas estariam à mercê do primeiro bando de arruaceiros ou outro grupo de interesses que visasse a conquista do poder por quaisquer meios. E do mesmo modo, as decisões dos cidadãos governantes só poderão ser em última instância garantidas pelas suas “forças armadas” ou “serviços de ordem” não-profissionais, rotativamente preenchidos (quando não haja mobilização geral), pois uma lei que não tenha o poder de se impor não é lei, e só pela força um regime democrático pode vencer a violência que vise silenciar a sua praça da palavra. Estas considerações podem e devem ser transpostas para o combate actual. Quem está disposto a bater-se pela autonomia democrática de uma livre sociedade de iguais não pode declarar, nem à partida nem à chegada, a ilegitimidade democrática ou revolucionária incondicional do uso da violência. Mas pode e deve opor-se ao seu culto. Pode e deve desmistificar o espírito sacerdotal nostálgico e hierático, antidemocrático e irracionalista, classista e contra-revolucionário, dos que se propõem medir pelo volume de sangue derramado o carácter revolucionário ou radical de uma luta política. Podemos e devemos saber e dizer também que o combate pela autonomia, a luta que visa a destruição do poder capitalista, não é um carnaval, que, depois de inverter durante uns dias a ordem estabelecida, dá lugar a uma sua versão revigorada ou a uma reciclagem da dominação hierárquica. Os que estão interessados numa “revolução” que pratique e se possível refine os métodos e recursos da dominação na construção da “ordem nova”, ou que advogam um “socialismo” que faça tábua rasa das liberdades e direitos democráticos, desprezando-os como superstições “humanistas”, podem odiar o capitalismo e as oligarquias liberais, mas são tanto (pelo menos) como o primeiro e as segundas inimigos mortais da liberdade enquanto condição necessária de uma sociedade de iguais.
    A agressão a Berlusconi? Penso que aclamar o povo contra a democracia é, como disse o Zé Neves, no mínimo, equívoco. Que fazer de um indivíduo – ou cidadão – o representante do povo – o seu representante objectivo, pois nem sequer se ouviu o interessado – é cair num extremo exacerbado da lógica que legitima os regimes políticos das oligarquias liberais, ou que preside à sacralização do partido (e/ou seu secretário-geral) de tipo leninista. Não que devamos considerar legítimo o poder de Berlusconi por ter tido origem no voto (ainda que admitindo que este representa uma conquista democrática, limitada mas efectiva), pondo entre parênteses o modo do seu exercício. Ou que devamos sequer subscrever o que a cada momento é a opinião maioritária do “povo”, das “massas”, ou dos membros da “multidão”. Mas o que não podemos é opor-nos ao que temos boas razões para julgar erros das massas, impondo-lhes as nossas soluções em nome dos seus próprios interesses. É muito duvidoso que o uso da força para derrubar no imediato Berlusconi recebesse a aprovação daqueles que ele quer reduzir a súbditos, mas que reduzem também a incapazes e dependentes os que pretendem agir em seu favor contra a sua vontade. Por fim, se a agressão fosse legítima por ser uma expressão democrática revolucionária dirigida contra um regime tirânico, esmurrar Berlusconi seria pouco, e o que faria sentido era (tentar) matá-lo, ou, em todo o caso. E pode ser que tal venha a ser o caso, mas isso implica previamente mais algumas derrotas do campo dos que, contra ele, apostam no reforço, exercício e extensão dos direitos e liberdades democráticas, preparando o terreno que tornará possível à “multidão” emancipar-se ou autonomizar-se e afirmar a cidadania governante como seu regime político.
    Um abraço
    msp

  16. António Luis diz:

    Podemos ser sete?

  17. tarekaziz diz:

    Rui ova!

  18. Pedro diz:

    Vocês são uns patuscos. Bons burgueses, cumpridores, ligeiramente excêntricos e que o máximo que se aproximam da irresponsabilidade romântica com que sonham é postar uns postais ilustrados ou animados que vão buscar ao mercado da arte e trocar slogans e bocados de versos.
    Fazem-me lembrar o João Gonçalves, que passa por ser uma espécie de átila da blogosfera, mas que cara a cara com um dos que diariamente execra, diz que tem por ele “respeito institucional”… Com a “esquerda irresponsável” que vocês dizem representar, defender, sei lá o quê, estamos nós quentinhos e confortáveis. O Jorge Coelho dá um óptimo personagem do Contra Informação. Vocês davam um excelente sketch dos Monthy Python.

  19. Pingback: Arrastão: Da violência e da cobardia

  20. Já agora, Nuno, só me lembro de outra vez que a Fernanda tenha sido convidada por alguém do BE para qualquer coisa. Foi por ti, para o Cinco Dias. O que é que na altura era aceitável e agora passou a ser estranho?

  21. Pedro,
    Acho que tens toda a razão.

  22. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Daniel,
    Já passou tanta águas por baixo das pontes, desde que a Joana Amaral Dias convidou a Fernanda para o 5 dias. A F é uma pessoa inteligente e temível blogger. Agora só os cegos não percebem que o 5 dias não é um partido como o Bloco de Esquerda, tendo pessoas que votam em variadíssimos partidos, e que , entretanto, a Câncio tornou-se uma defensora acérrima do governo. O convite do BE para ela reflectir no PE dá-lhe uma aura de independência que ela não tem. Não se trata de um convite, trata-se de um erro político, ou, na pior das hipóteses, de uma operação de lavagem comparável à 5 à Sec.

  23. Niet diz:

    Débord disse que as citações eram úteis em tempos de crise…e de ignorância. Existem dados graves de patente auto-equívoco na forma de argumentação lançada- quem sabe se por supina ironia por NR de Almeida…Enfrentemos a suprema visão de Adorno a comentar W. Benjamin e…Auguste Blanqui.Pois,claro. E isto não tem nada de surrealista,fica o aviso. ” O governo por excelência, fim derradeiro da existência da sociedade, é a ausência de governo; constatar-se-à quando cada cidadão possuir unicamente a sua quota-parte e que o equilíbrio absoluto de dominação se verifique entre todos, isto é, que nenhum domine por si só. A hierarquia, neste caso, não é senão uma simples aplicação da divisão do trabalho, e não representa nenhuma das ideias que a fundaram. Ela, a futura hierarquia, não implica nem respeito, nem submissão, nem gorjetas-bónus, nem gozo e triunfo narcísico, nem autoridade, nem influência, nem arrogância; enfim, ela não possuirá nenhuns dos elementos constituintes do Poder actual “. Isto foi escrito por A. Blanqui em 1848. Niet

  24. miguel serras pereira diz:

    Leio num artigo de Jorge Almeida Fernandes, no Público de hoje – 16.12.2009 – que “Tartaglia já escreveu uma carta pedindo perdão a Berlusconi, pelo seu ‘acto gratuito e cobarde'”. Pergunta: retomando a terminologia do post do Renato Teixiera sobre a resolução pelo povo do que a democracia não resolve, será que o povo passou, gratuita e cobardemente, a ser berlusconiano, e que o governo de Berlusconi em vez de ser desprezivelmente “democrático” passou a ser “justo” e “popular” à margem das ficções “humanistas” e “jurídicas” da cidadania?
    msp

  25. PPorto diz:

    NRA, deixe-se de conversa fiada.
    Porque é que vc partilha espaço blogoesférico num sítio que promove ideologias fascizantes:
    http://5dias.net/2009/12/13/o-que-a-democracia-nao-resolve-resolve-o-povo/

  26. justiça! diz:

    …a Fernanda Câncio foi convidada pelo BE para reflectir no PE? Ah, ah, ah, ah! Essa é extraordinária! Este caldeirão das musas não pára de me surpreender! Melhor, surpreende-me mas não me admira…
    Ainda bem que eu nunca votei neles… Já agora, foi a Bruxelas à conta do Bloco? Ah, Ah, Ah ( risos escarninhos )

  27. Renato Teixeira diz:

    Um verdadeiro acto de fascismo militante esse de mantar estatuetas às trombas de um fascista. Sem dúvida.

  28. Ricardo G. Francisco diz:

    Nuno Ramos de Almeida,

    Creio que a sua conclusão que a esquerda perdeu representação em Itália, em particular, e na Europa em geral, devido ao “desvio” para a “responsabilidade” concretizada por concessões ao capitalismo está errada por ignorar outros factores.

    A esquerda pura anti-capitalista perdeu fundamentalmente com a queda do bloco de leste e com os resultados económicos e políticos de governos desastrados de esquerda, que demonstraram que por um individuo “ser de esquerda” não o faz moralmente ou eticamente superior. Para o segundo factor o exemplo do governo de Prodi é óbvio.

    Dito isto, eu, como outros que não se revêm na dicotomia esquerda-direita e que abominam o controlo pelo estado da população, quer este seja um Estado comunista ou Fascista, ficaria muito feliz que lobos disfarçados de cordeiros como o Bloco de esquerda tivessem mais Nunos Ramos de Almeida a representá-los na comunicação social do que Danieis Oliveira. É que uma parte significativa dos indivíduos que hoje votam no BE votam porque querem mais liberdade nos costumes (mesmo que seja por imposição do Estado) mas não querem prescindir da liberdade económica e contratual que o BE ideologicamente defende mas que não proclama. Sócrates ganhou as eleições ao atacar os laivos de anti-capitalismos que Louçã não conseguiu esconder no programa – para ilustrar o que digo.

    Por isso insisto. É uma pena que quem escreve neste Blog não tem mais voz na comunicação social, de preferência associados à “inteligência” do BE. Desejo-lhe boa sorte na conversão do partido à esquerda pura e “irresponsável”.

  29. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Ricardo,
    Duas precisões:
    Primeiro, não sou, há anos, militante de nenhum partido
    Segundo, a escolha dos comentadores é da conveniência dos órgãos de comunicação social. Fazem-no, normalmente, por parecença de pontos de vista em relação aos donos, por isso é que a maioria deles é do bloco central. O Daniel é uma excepção. Dado a sua qualidade, conseguiu um lugar único. Não creio que, por muito irresponsável que eu seja, me convidassem para isso.
    Mas pode sempre, com a sua teoria que as minhas opiniões são uma vacina contra os partidos de esquerda, fazer força para que me contratem.

  30. viana diz:

    Caro msp, como (quase, quase) sempre partilho do seu ponto de vista.
    Tenho em particular 2 comentários a fazer ao seu texto. Noto que, pela primeira vez desde que o vejo comentar no 5dias, menciona a necessidade de (funções de) Estado para que uma democracia autónoma possa funcionar e sobreviver. A passagem chave do seu comentário é esta:

    “E do mesmo modo, as decisões dos cidadãos governantes só poderão ser em última instância garantidas pelas suas “forças armadas” ou “serviços de ordem” não-profissionais, rotativamente preenchidos (quando não haja mobilização geral), pois uma lei que não tenha o poder de se impor não é lei, e só pela força um regime democrático pode vencer a violência que vise silenciar a sua praça da palavra. ”

    O que equivale a dizer que um regime democrático (como qualquer outro regime político) só existe efectivamente se conseguir fazer cumprir as leis que enuncia e sobreviver a ameaças internas e externas ao seu poder de imposição dessas leis. Ora essas são as funções mais básicas dum Estado, são aquelas que definem o Estado como entidade: um grupo de pessoas efectvamente constitui um Estado se detiver o monopólio do exercício da força, ou violência, num território, **de modo a que consiga impor a sua lei**. Pode não querer lhe chamar um Estado, mas que lá parece, parece…

    Como afirmei, concordo com o seu comentário. No entanto, acho que lhe falta algo, que já tinha notado estar ausente nos seus comentários anteriores: uma reflexão sobra a dinâmica e estratégia da acção revolucionária. Como chegar para onde queremos ir? Como agir estrategicamente de modo a criar uma dinâmica de mudança revolucionária (e que nos leve a uma democracia autónoma, participativa e igualitária) no contexto político e sócio-económico actual? É este tipo de reflexão que vejo ausente dos comentários ao tema que motivou este post.

  31. Sò para assistir ao melhor e ao pior que estas discussoes tem oferecido e para o interessante clarificar de posicoes eu agora curtia era que alguem espatifasse uma torre eiffel na tromba do sarkozy. so mais um esforco.

  32. Olympus Mons diz:

    Curioso. No blog do Daniel Oliveira encontra-se pessoas. Percebo de onde vem a afirmação — “passa pela aceitação do capitalismo e da afirmação das reformas como única forma de mudança” — porque realmente apesar de discordar profundamente do Daniel do ponto de vista politico, ele aparenta ser alguém que atingiu a idade adulta e a esmagadora maioria dos comentários ali colocados indiciam alguma, pelo menos alguma, linha consequencial entre o discurso e a acção, ou pelo menos a percepção da mesma.
    O texto do Nuno e alguns dos comentários aqui colocados, embora elaborados, pensados e reedidtados são de uma dissociação cognitiva atroz. Algo muito parecido com as sessões intelectuais nubladas a ópio do século 18, ou mais prosaico, Lembra-me os quartos dos amigos, inaptos intelectuais de todo, até pela tenra idade, procurando “botar Discursos” filosoficamente relevantes, olhando para os posters de CHE na parede. Não é muito diferente.
    Só pergunto uma coisa… quando começam vocês a viver essa vossa esquerda? Quando se juntam, num mundo de livre associativismo como o nosso em que nada vos impede e vivem a plenitude da esquerda que preconizam? – Dividam rendimentos entre vocês, criem mecanismos de geração de riqueza entre vocês e dividam tudo irmãmente, etc. Mas que vos impede? Já são 3 (já somos 3 dizem), 6, 8, 10 aqui no blog… força e depois voltem e digam como correu, ok?

  33. Caro nome de discoteca,
    O seu comentário é herdeiro daquela piadola de ‘quem não é comunista aos 18 anos, não tem coração, e quem não é liberal aos 40, não tem cabeça’. A não aceitação daquilo que existe, é sempre visto, por aqueles que querem o que existe, como uma forma de adolescência tardia e uma recusa de chegar à idade adulta. É um truque habitual, para manter o pensável nos horizontes do “possível”. Sendo que o “possível”, é apenas o que alguns acham que é desejável. O mundo deu muitas voltas e muitas voltas mais vai dar. Recuso-me a enfileirar na carneirada daqueles que acham que este mundo é o único possível.

  34. João diz:

    Quem convidou a Câncio não foi o Bloco de Esquerda, foi o Miguel Portas, o que é algo de substancialmente diferente.

  35. Nuno Ramos de Almeida diz:

    João,
    A reunião era do grupo de reflexão do BE. Se foi o Miguel ou o Rui Tavares, não interessa.

  36. miguel serras pereira diz:

    Caro Viana,
    na questão do Estado, a terminologia não é, para mim, o mais importante. Digo que a democracia é, como forma ou regime de poder político, a substituição do Estado, entendendo que este acarreta o monopólio da violência legítima e a distinção permamente, “estrutural” ou “fundamental”, entre governantes e governados. Penso que a democracia enquanto cidadania governante não é compatível com o monopólio estatal dos meios de violência. Mas isso não significa que cada um dos membros individuais da cidade possa recorrer à violência quando lhe apetece, justificando os seus actos como uma irrupção que se legitima a si própria. Todos os indivíduos adultos são cidadãos governantes, mas todos estão obrigados a respeitar as leis que se dão, concordem ou não com elas, podendo, em contrapartida, propor a sua alteração. Todos têm também o direito e o dever de ser “milicianos da república”, assegurando rotativamente as funções de segurança de rotina e pegando em armas quando chamados às fileiras perante eventuais ameaças de destruição da democracia. Quando Gedorge Orwell durante a Segunda Grande Guerra defendia que, depois do fim desta, as armas deviam continuar nas mãos e em casa dos trabalhadores, que, enquanto cidadãos tinham sido chamados a defender o país da ameaça nazi, não defendia por certo que, uma vez de armas na mão ou em casa, cada trabalhador pudesse usar as armas ou recorrer à violência para fins privados e segundo o seu arbítrio. A existência de restrições – desejavelmente severas – ao uso da violência legítima não significa que esta seja monopólio de um corpo separado e profissional. Dizer que será monopólio do “povo em armas” é o mesmo que dizer que não será monopólio. Se você quiser dizer que, a partir do momento em que há leis vinculativas e não apenas normas morais, e/ou a partir do momento em que os cidadãos se organizam como “povo em armas”, regulando as condições em que o uso da violência é legítimo, estamos perante um Estado, receio que isso obscureça o que tem em mente garantir, ou seja diferença enorme que distingue o exercício do poder político democrático por aqueles mesmos que governa dos regimes de exercício e reprodução do poder político nos Estados de Direito das oligarquias capitalistas liberais.
    Quanto à sua crítica à minha parcimónia na formulação de um programa, acerta em cheio no alvo. Aposto na conquista de poderes e liberdades democráticas activas cujo aprofundamento e exercício tendam a instituir o poder político da cidadania governante. Sublinho que essa luta tem um dos seus campos de batalha principais no campo da actividade económica, porque a sua esfera é moldada por relações de força políticas e é teatro de um exercício de poderes políticos (politicamente instituídos e garantidos pelo monopólio estatal dos meios de violência) que não se assumem como tais e se tornam por isso mesmo mais eficazes, apresentando-se como “naturalizados” ou sacralizados por uma racionalidade estranha à deliberação, convicções, fins e decisões daqueles cujas condições de existência governam. Insisto em que uma política de rendimentos democrática e a democratização do mercado que pressupõe só se pode basear numa distribuição que equivalha a adaptação nesse campo do princípio “um voto igual para cada cidadão”. Insisto também na extensão de um domínio de bens não mercantilizáveis, e nas garantias que universalizem o acesso a ele. Afirmo que todas estas lutas devem ser travadas e organizadas de uma maneira que prefigure, através das formas de organização e acção adoptadas, o modo de exercício do poder político que reclamamos para todos os cidadãos de uma república. Penso que as reivindicações detonadoras de uma generalização das lutas terão de tomar por objecto as opressões, desigualdades e privações de toda a ordem que atravessam a vida quotidiana, apontando para alternativas universalizáveis mais do que para a multiplicação de direitos cada vez mais minuciosos e condicionais desta ou daquela categoria particular. Posso apresentar propostas, nas actividades em que me envolvo, que avancem nesse sentido e animar outros cidadãos a fazerem o mesmo. Mas não posso nem devo – não podemos nem devemos – apresentar uma versão já pronta dos modos e vias de aprofundamento da cidadania governante. Creio que estará de acordo comigo também quanto a isso. Resta acrescentar que quem quer o mais quer o menos e que a intensificação da participação política acompanhada de uma constante reivindicação de democratização das suas formas e organização nos fornecem um critério de juízo político decisivo.
    É a resposta possível. Um abraço
    msp

  37. viana diz:

    Caro msp,

    A existência efectiva de um Estado não requer que o monopólio no exercício da violência esteja sob a alçada de um corpo separado e profissional. Pelo menos tal requisito não faz parte da habitual definição (lata) de Estado. Na prática até pode ser importante quem efectivamente assegura, se necessário pelo exercício da violência, o cumprimento das leis democraticamente decididas. Mas, formalmente, o que identifica uma organização como um Estado é a exigência, apoiada e efectivada pelo exercício da violência se necessário, de que todos num dado território obedeçam às leis decididas (em particular, de modo democrático). E é isso que afirma claramente quando escreve: “Todos os indivíduos adultos (…) estão obrigados a respeitar as leis que se dão, concordem ou não com elas(…)”. Parece-me que o msp percebe o que afirmo, tendo em conta o final do seu primeiro parágrafo. Aí, implicitamente, afirma que prefere não usar a palavra Estado porque poderia sugerir que aquilo que defende é de algum modo análogo com um “Estado de Direito das oligarquias capitalistas liberais”. Mas é. É um Estado de Direito Democrático. O conceito de Estado de Direito (Estado regido por leis escritas de aplicação universal) é comum, apesar da prática da decisão e da acção possa ser muito distinta.

    Acho que uma das regras fundamentais na discussão política é ter muita atenção ao significado metafórico das palavras que se usa. E Estado, para além da definição formal que tenho vindo a utlizar nesta conversa, tem também um significado metafórico: estabilidade. Por mais que as pessoas digam mal do Estado, (quase) nenhuma o pretende abolir (de todo), porque este dá ou promete estabilidade, objectivo básico de qualquer ser vivo. Sendo assim, qualquer filosofia ou movimento político que afirme que defende a abolição do Estado (mesmo que na prática não seja bem isso que defende…) será à partida recebido de modo negativo. Parece-me assim um modo mais simples e eficiente de convencer as pessoas da bondade de propostas como as que o msp defende, “re-definir” Estado em vez de repudiar o termo, em contraponto ao qual se propõe outro. Concretamente, parece-me que as pessoas facilmente perceberão o que o msp propõe se fôr apresentado como uma forma (radical) de Estado Democrático. Mas já ficarão muito confusas se tentar apresentar as suas propostas baseadas numa dicotomia entre Democracia e Estado.

    Simpatizo com a sua ideia de milícias populares. No entanto, parece-me impraticável em toda a sua extensão. Algumas funções policiais e militares são altamente especializadas, como corpos de intervenção e mecanizados, sendo impossível e indesejável treinar todos os cidadãos para que pudessem cumprir tais funções de modo rotativo. É no entanto possível exigir a todos os cidadãos que regularmente, durante certos períodos, exerçam funções básicas policiais e recebam treino militar. Acho que isso já seria suficiente para evitar a existência duma fronteira clara entre “os que exercem o monopólio da violência e os que a sofrem”. Aliás, a Suiça tem um sistema próximo do que defende, mas não tão radical. Temo a possibilidade de qualquer pessoa ter armas em casa. Numa sociedade onde a violência não é considerada um meio legítimo de resolver conflitos, como na Finlândia, talvez isso não gere problemas, mas numa sociedade diferente, como os EUA ou o Brasil ou até mesmo Portugal, isso serviria (e serve) efectivamente para alimentar muita violência.

    Quanto ao segundo parágrafo, lendo-o atentamente acho que é suficientemente elucidativo, e responde a meu “desafio”, em particular esta passagem “Afirmo que todas estas lutas devem ser travadas e organizadas de uma maneira que prefigure, através das formas de organização e acção adoptadas, o modo de exercício do poder político que reclamamos para todos os cidadãos de uma república.” E daqui, deduzo, espero que não abusivamente, que se queremos que o poder político seja exercido, na medida do possível, de modo não violento, ou seja sem recurso à opressão, então temos de tentar agir, mas uma vez na medida do possível, de modo não violento desde já. Concordo totalmente. A acção já pre-configura o resultado. Não é possível dissociá-los. É no essencial o que o Daniel Oliveira tem tentado dizer, para quem o quis ouvir. O maior desafio da Esquerda nunca foi definir onde quer chegar, mas sim como o fazer. É aqui que precisamos de mais auto-critíca, reflexão e originalidade. Que infelizmente vejo muito pouco.

  38. miguel serras pereira diz:

    Caro Viana,
    aceito e afirmo a necessidade de um poder político e de instituições em qualquer sociedade, e a possibilidade de construirmos um poder político democrático – a cidadania governante da sociedade autónoma – e relações alternativas com as instituições, reconhecendo nelas obra e responsabilidade nossa. Mas prefiro, como Castoriadis, distinguir liminarmente “poder político” e “Estado” – sabendo embora que, por vezes, sobretudo na tradição anglo-saxónica, o “Estado” (State) é quase sinónimo de poder político exercido a partir de um espaço público formal de deliberação, decisão, participação igualitárias. Repare que, por exemplo, as “sociedades sem Estado”, estudadas por P. Clastres em “A Sociedade contra o Estado”, têm instituições e lei no sentido mais forte, mas não têm Estado. A meu ver, este, que se reivindica representante e protagonista da esfera pública, é de facto um obstáculo à publicização democrática do exercício do poder de cidadãos que sejam governantes ao mesmo tempo que governados.
    Quanto ao aspecto táctico e metafórico da terminologia que usamos: tão importante como sermos capazes de pôr em circulação e acção as nossas propostas e ideias na linguagem comum, é sermos capazes de promover nela a reflexividade e o espírito crítico, a interrogação das ideias feitas (incluindo as nossas), iniciando um processo de auto-transformação “interior” das representações estabelecidas. Orwell é, uma vez mais, a este propósito, uma fonte de inspiração decisiva: partir da “decência comum” ou dos valores que informam aquilo a que, com E.P.Thompson, o Zé Neves chamaria “a economia moral da multidão”, incitar os seres humanos comuns a explicitarem e a assumirem a responsabilidade das suas consequências, transformando as suas representações habituais e a relação que com elas mantêm, e começando a percebê-las como guias que nós próprios nos damos e criamos.
    Podemos deixar para outra altura o problema do “povo em armas”. Para já, a ideia de Orwell que citei corresponde em certo sentido à democratização e universalização de uma instituição liberal e burguesa como as primeiras “guardas nacionais”. E os “especialistas” de que você fala poderiam estar integrados em “equipas” nas quais a presença de cidadãos comuns rotativamente mandatados evitasse o pior.
    Um abraço
    msp

  39. nf diz:

    Viana (e msp).

    O DO tem razão se se identificar violência com opressão. Assim é fácil. De facto, nenhum movimento de esquerda digno desse nome visa a irrupção ou instauração dum sistema sociopolítico de opressão como fim em si mesmo. Mas este é um erro crasso do ponto de vista conceptual: violência não é opressão (embora a opressão, estatal ou outra, seja violenta). A não ser que se pense que o destino natural ou essencial do homem social é a democracia – o paraíso onde bezerros e leões convivem amistosamente – todo do processo de transformação e instituição da democracia plena é violento. A revolução é violenta, senão não é revolução (ela é violenta para todos os envolvidos, revolucionários incluso). A lei é violenta, senão não é lei. A diferença é que a lei, na democracia plena, tem de ser impessoal, igual e universalmente violenta.

  40. Ricardo G. Francisco diz:

    “E os “especialistas” de que você fala poderiam estar integrados em “equipas” nas quais a presença de cidadãos comuns rotativamente mandatados evitasse o pior.”

    O busilis da dispersão da força pode ser inferido deste pormenor…é que não é uma situação de equilíbrio. Depois da dispersão da força, existe primeiro polarização, seguida de concorrência e de concentração. Podemos resumir assim a construção dos primeiros estados.

    O que almejam é a desconstrução dos Estados actuais. Uma desconstrução tentada no prec. Reparem, sempre que foi tentada houve dois tipos de vencedores. Os que conseguiram concentrar os polos de força da ordem anterior, como em Portugal, ou os que conseguiram concentrar os novos polos de força. Invariavelmente o Povo (na Vossa terminologia) ou os indivíduos (na minha) sofre e acaba nas mãos de novos senhores.

    Por isso a doutrina liberal clássica não se preocupa tanto com o método de escolha dos governantes e sim com a limitação do poder dos mesmos. No fim o poder físico está sempre concentrado e será sempre bem ou mal utilizado por quem tem a última palavra. Pessoalmente não julgo menos importante nem a preocupação da legitimização do poder nem a sua dispersão e dispersão.

    A inevitabilidade do Estado como monopolista da força física leva a que muitos tanto de esquerda como de direita ou de lado nenhum se preocupem tanto com o pacifismo. Tanto na prespectiva moral como utilitarista.

    O não entendimento de que o poder gera poder, que o poder pede mais poder e que é concorrencial com outros poderes(there can be only one), tanto por falta de análise histórica como por falta de análise matemática (teoria dos jogos ajuda) leva a adjectivos menos simpáticos sugerindo imaturidade ou irrealismo.

    E respondendo ao Nuno Ramos de Almeida, sim, de facto esta abordagem é uma vacina contra partidos de esquerda. E lembrar que a negação da propriedade como direito fundamental implica a destruição do status quo, a construção de uma nova sociedade pela força é bom, porque que há muitos que votam em partidos de esquerda que falam uma coisa sem lembrar da outra.

  41. Ricardo G. Francisco diz:

    Nota: o quote inicial do meu anterior comentário foi tirado de um comentário do MSP

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