Decretos imperiais

Quando, após um curto interregno de alguns séculos, foi restabelecido o Império e o gosto foi restaurado na plenitude dos seus direitos e prerrogativas, a torpe lírica sentimental foi de pronto substituída por uma jovem e audaciosa prosa, que trouxe um vigor novo às coisas do amor.

Sucessivos decretos imperiais fixaram o índex das palavras agora proibidas e as penas que cominavam o seu uso. O emprego de “fofo(a)” entre lençóis, por exemplo, implicava o banimento de quem tal ousasse para a mais bárbara província do Império, no extremo ocidental da Hispânia, e “fofinho(a)” justificava mesmo a convocação de um tribunal de excepção, conhecido pela severidade dos seus julgamentos.

O rigor da nova ordem amorosa deixou alguns preocupados. O Imperador, porém, não se deteve: – Contra mim falo – lembrou ele aos seus cortesãos – pois, por um uso impróprio da palavra “carinho”, já o Império perdeu uma Imperatriz. E ainda: – Recordai-vos que há em Delfos um novo oráculo que reza assim: “Thou shalt call a spade a spade”.

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SEXTA | António Figueira
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