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Estão de parabéns

12 de Dezembro de 2009 por Tiago Mota Saraiva

O episódio entre Maria José Nogueira Pinto e o deputado do PS Ricardo Gonçalves não me motivaria grandes comentários se fosse uma coisa entre deputados. Nogueira Pinto chamou palhaço ao deputado do PS, um insulto estético, cujo conteúdo estravaza o sentido literal do profissional das artes circenses e Ricardo Gonçalves respondeu identificando a deputada eleita pelo PSD como uma troca-tintas “que se vende por qualquer coisa só para ser eleita por qualquer partido”. Até aqui tudo bem.
O que é mais interessante e revelador é a transposição desta discussão para o campo do preconceito de classe, que ninguém parece ter notado. A determinada altura do desvario, Ricardo Gonçalves, diz representar a província, fazendo imediata referência à alegada proveniência de Nogueira Pinto da linha de Cascais.
Ora, este exemplo, mais do que mostrar duas pessoas de cabeça perdida ou com pouca educação, revela a falta de qualidade política dos principais representantes do partido rosa.
O deputado Ricardo Gonçalves, nunca terá ouvido falar de luta de classes nos termos em que o explorado se confronta com a classe dominante (a sua, importa recordar), no seu partido nunca ninguém lhe terá explicado que a maioria dos aglomerados populacionais da “linha de Cascais” foram construídos a partir da concentração de famílias operárias, cujos vestígios já são difíceis de encontrar (decorrente de um violento processo de segregação, dispersão e descaracterização durante o período em que José Luís Judas esteve à frente da Câmara Municipal de Cascais) ou que a maioria dos actuais habitantes do Concelho de Cascais não aufere 1/4 do salário do Sr. deputado. Este ricardismo provinciano que atinge o PS (não nos esqueçamos que Ricardo Gonçalves é uma autêntica estrela da bancada socialista), tornou-se ainda mais claro quando, na sua entrevista, Armando Vara, procurava fazer os espectadores verter uma lágrima quando afirmava ter subido na vida à custa de muito trabalho, contrariando o seu destino de classe, nas suas palavras, ser gerente de balcão, acrescento eu, de uma agência de província.

(também publicado no Aparelho de Estado)

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Comentários

Comentário de carlos a-m
Data: 12 de Dezembro de 2009, 6:04

Excelente post!

Comentário de Rita
Data: 12 de Dezembro de 2009, 13:13

A minha alma ficou (e ainda está) parva com esta reportagem. É esta classe política (que pelos vistos não tem assim muita classe) que nos representa? Foi para isto que fomos a votos?
Temo que daqui a uns tempos a reportagem seja parecida com algumas que já assisti em outros países em que as discussões na AR são mais animadas (Cadeiras pelo ar, Papéis pelo chão, Malta a “peixeirar”)

Comentário de Tiago Mota Saraiva
Data: 12 de Dezembro de 2009, 13:35

Rita, eu parece-me que o “peixeirar” e as “cadeiras pelo ar” são um pouco mais saudáveis do que preconceito medíocre que nos assola.

Comentário de D.,H
Data: 12 de Dezembro de 2009, 14:13

Bem observado, caro Tiago.
Para além do eco dos “maus costumes da Assembleia” e das habituais exigências de pedidos de desculpa, há aqui material muito mais interessante…
Parece que o provincianismo já não é só aquele que Pessoa descrevia: admirativo e incapaz de ironia. Agora já não há só deslumbramento; também há uma espécie de lamento.
Tenhamos pois pena (dos crocodilos). E de toda a gente que “fez a sua vida a pulso”.

Comentário de Diogo
Data: 12 de Dezembro de 2009, 14:26

Eu acho que têm ambos razão: Ricardo Gonçalves é um palhaço e a Maria José Nogueira Pinto é uma troca-tintas que se vende por qualquer coisa.

Comentário de António
Data: 12 de Dezembro de 2009, 16:19

Para mais a senhora não é de Cascais, é do Campo Grande, nada e criada. Irónicamente, o Campo Grande até se adaptava mais à indirecta que o Ricardo “Palhaço” Gonçalves lhe tentou mandar. Troca-tintas, if you know what I mean.

Pingback de cinco dias » PS – um partido de classe
Data: 12 de Dezembro de 2009, 16:37

[...] democrático” seja do deputado da província (a expressão é do próprio) Ricardo Gonçalves aqui relatado, de todo o discurso de classe de Armando Vara aquando da entrevista a Judite de Sousa e, porque [...]

Comentário de Rita
Data: 12 de Dezembro de 2009, 18:24

Tens razão Tiago! Este desrespeito para com as origens é muito mais preocupante, e usar isso como “arma” de humilhação é gritantemente preocupante. No final das contas, os senhores deputados esqueceram que estavam a ofender o povo que os elegeu; povo esse constituído por provincianos e “jet7″ de cascais.
Também é preocupante ver que os nossos deputados para além de não nós respeitarem, perdem tempo com “conversas da treta” em vez de se preocuparem com os destinos do país

Comentário de antónio
Data: 12 de Dezembro de 2009, 21:29

Confirmo o que o António disse.

Não são de Cascais, mas sim do Campo Grande.

e eu sei porque eu sou de lá… de Cascais.

Mas é perfeitamente possível que o marido, ou mesmo ela, tenham comprado uma casa p’rá ali…

Em todo o caso, e sobre o gajú não sei nada, todavia é inadmissível que, a qualquer pretexto, a Zézinha Avillez tenha perdido as maneiras…

A menos que se tenham combinado para vender papel de jornal e tempo de antena…

:-(

Comentário de tarekaziz
Data: 13 de Dezembro de 2009, 14:47

Axo óptimo que estes de puta dos insultem quem lhes votou e,penso,que deveriam-lhes partir os cornos;é à conta destes merdosos imbecis que gente daquela ’singra’,só têm q levar com eles.

Comentário de carlos graça
Data: 13 de Dezembro de 2009, 22:12

Excelente e oportuno post

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