O episódio entre Maria José Nogueira Pinto e o deputado do PS Ricardo Gonçalves não me motivaria grandes comentários se fosse uma coisa entre deputados. Nogueira Pinto chamou palhaço ao deputado do PS, um insulto estético, cujo conteúdo estravaza o sentido literal do profissional das artes circenses e Ricardo Gonçalves respondeu identificando a deputada eleita pelo PSD como uma troca-tintas “que se vende por qualquer coisa só para ser eleita por qualquer partido”. Até aqui tudo bem.
O que é mais interessante e revelador é a transposição desta discussão para o campo do preconceito de classe, que ninguém parece ter notado. A determinada altura do desvario, Ricardo Gonçalves, diz representar a província, fazendo imediata referência à alegada proveniência de Nogueira Pinto da linha de Cascais.
Ora, este exemplo, mais do que mostrar duas pessoas de cabeça perdida ou com pouca educação, revela a falta de qualidade política dos principais representantes do partido rosa.
O deputado Ricardo Gonçalves, nunca terá ouvido falar de luta de classes nos termos em que o explorado se confronta com a classe dominante (a sua, importa recordar), no seu partido nunca ninguém lhe terá explicado que a maioria dos aglomerados populacionais da “linha de Cascais” foram construídos a partir da concentração de famílias operárias, cujos vestígios já são difíceis de encontrar (decorrente de um violento processo de segregação, dispersão e descaracterização durante o período em que José Luís Judas esteve à frente da Câmara Municipal de Cascais) ou que a maioria dos actuais habitantes do Concelho de Cascais não aufere 1/4 do salário do Sr. deputado. Este ricardismo provinciano que atinge o PS (não nos esqueçamos que Ricardo Gonçalves é uma autêntica estrela da bancada socialista), tornou-se ainda mais claro quando, na sua entrevista, Armando Vara, procurava fazer os espectadores verter uma lágrima quando afirmava ter subido na vida à custa de muito trabalho, contrariando o seu destino de classe, nas suas palavras, ser gerente de balcão, acrescento eu, de uma agência de província.
(também publicado no Aparelho de Estado)




Excelente post!
A minha alma ficou (e ainda está) parva com esta reportagem. É esta classe política (que pelos vistos não tem assim muita classe) que nos representa? Foi para isto que fomos a votos?
Temo que daqui a uns tempos a reportagem seja parecida com algumas que já assisti em outros países em que as discussões na AR são mais animadas (Cadeiras pelo ar, Papéis pelo chão, Malta a “peixeirar”)
Rita, eu parece-me que o “peixeirar” e as “cadeiras pelo ar” são um pouco mais saudáveis do que preconceito medíocre que nos assola.
Bem observado, caro Tiago.
Para além do eco dos “maus costumes da Assembleia” e das habituais exigências de pedidos de desculpa, há aqui material muito mais interessante…
Parece que o provincianismo já não é só aquele que Pessoa descrevia: admirativo e incapaz de ironia. Agora já não há só deslumbramento; também há uma espécie de lamento.
Tenhamos pois pena (dos crocodilos). E de toda a gente que “fez a sua vida a pulso”.
Eu acho que têm ambos razão: Ricardo Gonçalves é um palhaço e a Maria José Nogueira Pinto é uma troca-tintas que se vende por qualquer coisa.
Para mais a senhora não é de Cascais, é do Campo Grande, nada e criada. Irónicamente, o Campo Grande até se adaptava mais à indirecta que o Ricardo “Palhaço” Gonçalves lhe tentou mandar. Troca-tintas, if you know what I mean.
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Tens razão Tiago! Este desrespeito para com as origens é muito mais preocupante, e usar isso como “arma” de humilhação é gritantemente preocupante. No final das contas, os senhores deputados esqueceram que estavam a ofender o povo que os elegeu; povo esse constituído por provincianos e “jet7″ de cascais.
Também é preocupante ver que os nossos deputados para além de não nós respeitarem, perdem tempo com “conversas da treta” em vez de se preocuparem com os destinos do país
Confirmo o que o António disse.
Não são de Cascais, mas sim do Campo Grande.
e eu sei porque eu sou de lá… de Cascais.
Mas é perfeitamente possível que o marido, ou mesmo ela, tenham comprado uma casa p’rá ali…
Em todo o caso, e sobre o gajú não sei nada, todavia é inadmissível que, a qualquer pretexto, a Zézinha Avillez tenha perdido as maneiras…
A menos que se tenham combinado para vender papel de jornal e tempo de antena…
Axo óptimo que estes de puta dos insultem quem lhes votou e,penso,que deveriam-lhes partir os cornos;é à conta destes merdosos imbecis que gente daquela ‘singra’,só têm q levar com eles.
Excelente e oportuno post